Pederastia, Eros e Pedagogia, por Prof. Paulo Chiraldelli Jr… (trocar sexo por saber?)

Posted: 12/07/2010 in FILOSOFIA
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A idéia de que “o amor é a única lei” está posta nas sociedades ocidentais de modo consolidado. No Ocidente não passa pela cabeça de ninguém desafiar essa lei, ao menos como idéia. Por mais cruel que seja um assassino, apostamos que ele ainda é exclusivamente mau e não um completo doente mental quando, uma vez investigado, mostra-se amoroso com algum ente familiar. Esperamos que, exceto o Demônio e Hitler, todos sejam capazes de amar.

A popularidade e a validade de “o amor é a única lei” é uma vitória do cristianismo e afins. Todavia, também é uma derrota. Pois de tão consolidada, essa idéia se tornou banal. Nós a sobrevalorizamos e, ao mesmo tempo, não a levamos a sério quando não somos nós que a pronunciamos. Quando discutimos soluções para algum problema individual ou coletivo, consideramos a pior resposta aquela que envolve o amor, caso ela não saia da nossa boca. Caso alguém diga que vamos melhorar o mundo à medida que cada um tenha amor no coração, eis que viramos as costas a tal discurso. Entendemos o discurso do amor antes como uma forma de se desviar do problema que um elemento eficaz para a sua solução. A importância da palavra “amor” casa-se perfeitamente com a sua banalização.

Amor nada é senão atração e união. Na história da palavra, nas raízes de nossa civilização ocidental enlaçada ao mundo grego antigo, o amor se apresentava por meio de três palavras: eros, philia e agape. Os gregos trataram philia e agape como palavras indicativas da relação amorosa, enquanto que eros, inclusive mas para além disso, era visto como um demiurgo – Eros. Os gregos e, de certo modo, a elite romana perceberam que o amor erótico não podia descrever um impulso como aqueles nomeados por philia e agape. Eles notaram bem a independência do amor erótico, daí o aspecto de raio em céu azul emitido por um demiurgo. Os gregos desconfiaram que o mundo viesse a se tornar disfuncional sem a presença de Eros. A relação de formação das gerações jovens pelas gerações mais velhas, a vida da Paidéia, tão importante para os gregos, estava centrada na atividade erótica, na atividade do amante e do amado.

Assim, tanto quanto a nossa sociedade moderna e ocidental, a sociedade grega antiga estava fundada em uma “lei do amor”. No entanto, nada mais distante de nossa sociedade deserotizada que a sociedade mágica dos gregos antigos. Com Freud, passamos a conferir à libido, a energia de origem sexual, a nossa capacidade de construir e destruir coisas. Ou seja, passamos a admitir que, de alguma maneira, podemos dizer que somos seres que, em diferentes níveis, com mais ou menos transformação de nossos impulsos, atuamos a partir da busca de prazer. Vivemos sob as vicissitudes dos impulsos. Os gregos também, mas eles não tiveram um Freud. Não precisavam. Eros não se escondia, ele era um demiurgo e, como tal, estava objetivamente presente na vida grega. Falar de Eros não era falar de um impulso reprimido e depois sublimado, mas de um deus capaz de distribuir sugestões que garantiriam a própria condição cultural vital do mundo, a Paidéia – a formação dos jovens pela integração da cultura. Essa cultura que tinha, para seu núcleo, um nome especial: pederastia.

O que era a pederastia? Nada era senão um campo de emanação de forças capaz de manter o ethos grego em perfeito estado. No cotidiano, era a atração de um homem, em geral mais velho e sábio, por um jovem, incapaz ainda de se colocar socialmente como um indivíduo grego, um cidadão da polis. Essa atração era o amor, a união e, enfim, o que decorre de uma união amorosa eficaz, que é o cuidado mútuo, mais especialmente o cuidado do mais velho com o mais novo, para que todas as virtudes de um cidadão da polis sejam adquiridas pelo jovem. A Paidéia não poderia se sustentar sem a pederastia. Não poderia haver cultura grega para a formação da cidadania sem o exercício formativo, ético, garantido pelo amor erótico, fluente na pederastia.

Como nós, modernos, os gregos esperavam da escola e do ginásio de esportes uma boa parte da educação formal. Mas eles não confiavam nessas instituições para a formação cultural do cidadão da polis. Eles viam a pederastia como a garantia da integração de cada jovem não somente na polis, mas na própria condição de ser grego. Um deseducado, um homem fora da Paidéia, poderia ser grego? Como? Como ser grego se a Grécia, como país, não existia? A fórmula para realizar essa proeza estava em se definir grego primeiro negativamente, ou seja, não ser bárbaro. Positivamente, era ter sido filho de uma polis grega e educado no contexto da Paidéia. Nada melhor que o amor para não deixar ocorrer a desunião e o fim do mundo grego, só existente pelo ethos comum presente nas diversas cidades-estados. Os gregos não precisaram de um incentivo à lei do amor, eles a tinham como um processo educacional. E um processo bem mais forte que o nosso, pois baseado não em qualquer tipo de amor, mas no amor erótico.

É claro que, como tudo que é feito pelo bípede-sem-penas, há falhas. O mundo grego não era o Paraíso na Terra. Então, os desvios ocorriam e os gregos, como nós, tentaram criar uma legislação para corrigir esses problemas. Um dos desvios era o da prostituição dos jovens. A pederastia poderia se perder em mera atividade de trocas de favores: jovens oferecendo serviços sexuais a homens mais velhos que, enfim, pagavam com favores e facilidades na sociedade dos adultos. Nesse caso, o amor teria sido derrotado pelo comércio. Os gregos, principalmente em Atenas, tentaram conter a prostituição. Pode-se dizer que, como nós, eles tiveram maior ou menor sucesso nessa empreitada dependendo da época.

A pederastia foi se perdendo como sustentáculo de boa parte da Paidéia quando os romanos transformaram a Grécia em colônia do Império. Todavia, o erotismo envolvido na relação entre aquele que cuida e o que é cuidado, entre adultos bem formados e jovens que esperam o seu momento de adentrar na vida adulta, nunca desapareceu. Ganhou outra conotação na vida do romano e, quando veio o cristianismo, infiltrou-se, de uma maneira que Freud chamaria de sublimada, pelas comunidades de discípulos dos padres fundadores da Igreja. Aos poucos Eros se consolidou como Cupido e, ao menos segundo as doutrinas oficiais, ou seja, às versões do cristianismo, ambos vieram a ser gênios do folclore dos então considerados os rudes, ou seja, os pagãos. A palavra para amor passou a ser o amor posto na Bíblia, agape. O amor erótico cedeu ao amor fraterno.

Quando os tempos modernos se iniciaram, começamos, então de fato, a viver sob o regime crescente da deserotização necessária a uma sociedade que colocou o trabalho não só como o seu objetivo máximo, mas até mesmo como base para o que seria a “natureza humana”. Da pederastia grega já não existia mais nada. Foi então que alguns leitores incultos ou de cultura média, incapazes de apreciar o mundo grego, começaram a acreditar que a pederastia e o homossexualismo moderno podiam ser colocados sob uma mesma rubrica. Isso gerou uma grande impossibilidade de nós, modernos, sabermos o quanto a idéia do “amor é a única lei” poderia ter tido um passado fecundo.

Mas o demiurgo Eros nunca foi de fato morto. Afinal, eles são imortais. Ele sobrevive em vários cantos de nossa sociedade, ainda que incapaz de se vestir com os mesmos trajes de seu passado glorioso. Ousadamente, ainda tenta mostrar que no campo das relações pedagógicas pode fazer o seu melhor. Reaparece em relações onde o cuidador e o cuidado se colocam de modo autêntico e útil. Quando um estudante universitário se apaixona por um autor morto ou vivo, por um assunto desse autor ou mesmo pelo brilhantismo de um professor, a possibilidade de uma nova Paidéia aponta sua cabeça até mesmo na mais aparentemente deserotizada das universidades. Nessa hora, sabemos que tudo que havia de maravilhoso na pederastia pode ceder sementes para o mundo moderno, e com uma considerável ampliação, uma vez que agora essas sementes podem cair nos colo e nas almas também das mulheres. A festa de Eros está pronta para ter início.

Ainda que seja no recôndito da biblioteca ou nos canais da Internet, o amor erótico flui novamente e garante aos envolvidos a única formação boa que poderiam ter conseguido. Nem todos alcançam essa situação, mas os que conseguem esse contato com Eros sabem bem do que eu estou falando e, enfim, se tornam jovens educados. São os únicos que realmente podem se considerar viajantes da gôndola amorosa da melhor pedagogia. A Universidade só existe nesse momento. Fora disso, ela é uma caixa preenchida com mera burocracia, prédios disformes, provas chatas e reuniões inúteis.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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