Arquivo de 16/07/2010

Retrato de uma privatização brasileira
Escrito por Luiz Carvalho   
16/07/2010
 

Tentativa da Vale de precarizar relações trabalhistas levou canadenses a greve de um ano 

  A volta ao trabalho dos cerca de três mil mineiros da Vale/Inco, nas cidades de Sudbury e Porto Colborne, no Canadá, após o fim da greve que começou em julho de 2009, remete a um período no Brasil do qual algumas correntes políticas buscam se distanciar. 

A venda do patrimônio público durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) deixou marcas que muitos prefeririam apagar – especialmente às vésperas das eleições – e a venda da Companhia Vale do Rio Doce é um dos pontos cruciais desse momento histórico.  

Fundada em 1942 durante o governo Getúlio Vargas, a Vale foi vendida  em uma transação polêmica no ano de 1997. Com valor financiado pelo BNDES, a estatal foi negociada por R$ 3 bilhões, apesar do patrimônio líquido ser de R$ 10 bilhões. Um ano depois, a empresa já anunciava lucro de aproxidamente R$ 1 bilhão e em 1999, de R$ 1,2 bilhão. A subvalorização na venda fez com que o negócio fosse alvo de mais de 100 ações populares que ainda tramitam em todo o país.  

Atualmente, trata-se da maior empresa privada do Brasil. Desde 2006, quando adquiriu a canadense Inco, tornou-se também a segunda maior mineradora do mundo.

O problema da privatização, porém, não se restringe à entrega de um patrimônio nacional estratégico, mas também ao novo modelo de gestão que foi adotado. No final de 2008, durante o auge da crise financeira, enquanto anunciava lucro de mais de R$ 15 bilhões e distribuia R$ 5 bilhões aos acionistas em dividendos, a Vale demitia cerca de 1,3 mil trabalhadores, sem contar os empregos indiretos, e pressionava entidades sindicais a aceitarem redução de salários e de direitos. 

A atitude oportunista fez com que a CUT realizasse atos em todo o Brasil, inclusive cobrando do governo a exigência de contrapartidas sociais com a manutenção do emprego para quem financiamento público.  

Estilo predatório – A mesma lógica o grupo tentou adotar no Canadá, uma ação desastrosa que resultou no início da greve, conforme conta Carolyn Kazdin, do United Steelworkers (USW), sindicato que representa os mineiros canadenses. “A Vale contratou ‘fura-greves’ e pessoas para espionar os sindicalistas e provocar os manifestantes, além de demitir companheiros que cruzaram os braços. Tínhamos divergências com a Inco, mas acima de tudo havia uma relação de respeito, diálogo. Nunca vimos tamanha arrogância da direção de uma empresa”, conta.  

Segundo ela, a estratégia da companhia de atacar a organização e buscar romper o diálogo com os trabalhadores em Sudbury e Porto Colborne, cidades cuja economia gira em torno da exploração do minério, gerou um clima de grande tristeza e revolta conta a multinacional.  

Entre as medidas impostas pela Vale/Inco estavam ataques a conquistas de décadas como a participação no lucro atrelada ao preço mundial do níquel – quanto maior o valor do minério na Bolsa, mais os trabalhadores ganhariam –  e um Plano de Pensão com Benefício Definido, modelo no qual o funcionário sabe o valor que receberá quando se aposentar. 

Na queda de braço, os trabalhadores conquistaram o aumento da hora trabalhada e a manutenção do Plano de Pensão de Benefício Definido. Os novos contratados, porém, terão um Plano de Previdência de Contribuição Definida – em que se sabe o valor da contribuição, mas não quanto será pago no futuro. O bônus passa a  ser composto por 25% da performance da Vale no mundo e 75% do resultado do negócio de níquel, com teto de 25% da remuneração anual do trabalhador.  

Outro avanço importante foi o combate à terceirização. Após o término do contrato dos trabalhadores terceirizados, as atividades de mineração deverão ser realizadas por empregados contratados diretamente pela Vale. O sindicato ainda exige a reintegração dos companheiros demitidos arbitrariamente.  

Solidariedade internacional
Para Carolyn, muito mais do que as conquistas econômicas, a formação de uma rede de solidariedade internacional foi o aspecto mais importante da luta durante esses 12 meses.  “Queremos agradecer à CUT e aos companheiros do Brasil pelo apoio fundamental à nossa causa. Com as expressões de solidariedade internacional, os trabalhadores entraram com força total no mundo globalizado”, brinca. 

A Central atuou como uma grande parceira nesse embate, recebendo trabalhadores canadenses e promovendo atos diante da sede da Vale no Rio de Janeiro e visitas às plantas da mineradora em Sergipe e Minas Gerais. Em setembro de 2009, o presidente da CUT, Artur Henrique, esteve em Sudbury para participar de uma grande mobilização pelas ruas da cidade. 

 Artur destaca que nessas eleições os trabalhadores não se esquecerão de quem entregou boa parte das empresas nacionais ao capital estrangeiro. “Tem gente tentando mudar o nome para disfarçar, mas concessão no bico de tucano, é o mesmo que privatização. Vamos às urnas afirmar que o modelo de desenvolvimento que desejamos é aquele em que o Estado atua como indutor do desenvolvimento, e não o da entrega de companhias como a Petrobrás, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil”, ressaltou.
 

Atualizado em ( 16/07/2010 )

http://www.cut.org.br/content/view/21341/RETRATODEUMAPRIVATIZAOBRASILEIRA

Presidente estreou hoja na campanha presidencial, durante comício organizado no centro do Rio

iG Rio de Janeiro

Durante seu discurso, Lula afirmou que querem tirar ele da campanha de Dilma
Foto: Roberto Stuckert Filho/Divulgação

Em sua estreia na campanha presidencial deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado à Justiça Eleitoral. Alvo de várias multas por promover Dilma antes do prazo permitido por lei para a propaganda eleitoral, Lula aproveitou um discurso no comício de que participa na noite desta sexta-feira, no Rio, para fazer uma queixa velada sobre as restrições.

“Querem me inibir para eu fingir que não conheço a Dilma. Mas não sou homem de duas caras”, afirmou Lula, ao discursar do palanque montado na Cinelândia, ponto final de uma caminhada iniciada na Candelária, no centro do Rio. “É a companheira Dilma que foi chefe da Casa Civil, que esta preparada para a Presidência da Republica”, emendou.

Além de Dilma, dividiam espaço no palco com o presidente nomes como o vice na chapa presidencial petista, deputado Michel Temer (PMDB-SP), o candidato à reeleição ao governo do Rio, Sérgio Cabral (PMDB-RJ), o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra (PT), entre outros.

Voltando-se para a ex-ministra, Dilma disse que procurou alguém “competente” e com “sentimento” para lançar na disputa por sua sucessão. “Posso dizer que colocaria minhas duas mãos no fogo por ela”, afirmou o presidente. Lula acrescentou que Dilma tem “cara de anjo” e que, mesmo tendo sido alvo de tortura sob a ditadura militar, “não guarda magoa”.

Dilma aproveitou a ocasião para ironizar o processo de escolha do deputado Indio da Costa (DEM-RJ) para ocupar o posto de vice na chapa de seu principal rival na corrida presidencial, o tucano José Serra. Indio foi escalado para a vaga na última hora, após o DEM resistir à montagem de uma chapa puro-sangue tendo o senador Alvaro Dias (PSDB) no posto. “Meu vice não caiu do céu, não é um vice improvisado. É uma pessoa competente e capaz”, disse Dilma, ao afagar Temer. “Vamos seguir em frente com mudanças feitas no País. Hoje, podemos dizer que melhorou a vida do povo, o Brasil está crescendo.”

*Com reportagem de Andréia Sadi, enviada ao Rio de Janeiro, e Sâmia Mazzucco, iG Rio de Janeiro

Juiz acusa Sandra Cureau de golpista
Luis Nassif Online
Por Daniel Marchesi
Justiça eleitoral flerta com o golpe de Estado, alerta juiz de Direito

A vice-procuradora-geral eleitoral Sandra Cureau flerta com um possível golpe de Estado ao cogitar a possibilidade da cassação dos direitos políticos do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e da candidatura de Dilma Rousseff (PT), na opinião do juiz Carlos Alberto Saraiva. Segundo afirmou o magistrado, “o país já se acostumou a ver membros das altas esferas do Poder Judiciário darem declarações públicas de viés partidário”.

Cureau disse, nesta sexta-feira, que requisitou as fitas da cerimônia de lançamento do edital do trem-bala para estudar a possibilidade de entrar com ação contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por abuso de poder político e uso da máquina pública em favor da candidata do governo, Dilma Rousseff. A ação também pode ser feita contra a candidata petista. Sandra Cureau disse que, pelo que ela leu nos jornais, em tese, houve abuso de poder político e uso da máquina pública.

– Isso é absolutamente proibido – disse a jornalistas.

A ação a ser proposta por Sandra Coureau, junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), uma vez acatada, podia resultar na cassação da candidatura de Dilma Rousseff e o presidente Lula poderia ser punido com multa mesmo com a cassação de seus direitos políticos, em uma ação por abuso de poder político.

Durante a cerimônia oficial de lançamento do edital do trem-bala, que ligará São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro, o presidente Lula promoveu a candidata Dilma Rousseff, atribuindo a ela a responsabilidade pelo projeto.

– A verdade é a seguinte: eu não posso deixar de dizer, aqui, que nós devemos o sucesso disso tudo que a gente está comemorando aqui a uma mulher. Na verdade, nem poderia falar o nome dela porque tem um processo eleitoral, mas a história a gente também não pode esconder por causa de eleição – disse o presidente, na terça-feira, durante a solenidade no Centro Cultural Banco do Brasil, sede provisória do governo.

Na sequência, Lula acrescentou que “a verdade é que a companheira Dilma Rousseff assumiu a responsabilidade de fazer esse Trem de Alta Velocidade (TAV), e foi ela quem cuidou, junto com a Miriam Belchior, junto com a Erenice (atual ministra da Casa Civil)”. Ele foi aplaudido pelo público presente.

Arroubos persecutórios

Na opinião do juiz Carlos Alberto Saraiva, aposentado pelo TJ/RJ, tendo como última atuação o V Juizado Especial Cível de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, no blog que edita, (http://saraiva13.blogspot.com/2010/07/delirio-golpista-se-deve-ascensao-…), ele afirmou que “o país já se acostumou a ver membros das altas esferas do Poder Judiciário darem declarações públicas de viés partidário. Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello são os dois maiores expoentes desse tipo de conduta. Todavia, se formos analisar o trabalho do Supremo Tribunal Federal, notar-se-á que os arroubos persecutórios desses juízes contra Lula e o PT nunca tiveram maiores conseqüências”.

Ainda segundo o magistrado, ‘há membros e membros do Poder Judiciário. Tanto o Supremo Tribunal Federal quanto o Tribunal Superior Eleitoral são colegiados. O fato de abrigarem membros espalhafatosos e dispostos a gerar fatos políticos do interesse dos seus benfeitores – como no caso de Gilmar Mendes, que se tornou juiz da Suprema Corte graças a FHC – não significa que tenham força para levar aquele colegiado às decisões que gostariam”.

“O silêncio da geração de juízes do STF – e que integram o TSE – nomeados por Lula mostra que não se prestam a fazer serviços políticos. Prova disso está nas recusas e nas concordâncias da Justiça Eleitoral com as representações dos tucanos contra Lula e Dilma Rousseff. Apesar da judicialização do processo eleitoral desencadeada pela campanha de José Serra, o Tribunal Eleitoral tem mostrado que a força dos conservadores na Justiça já não é mais aquela”, acrescentou.

De acordo com Carlos Saraiva, “há um misto de desespero, devaneio e pseudo estratégia política nas ameaças da direita de melar o processo eleitoral impedindo Dilma de disputar uma eleição que as pesquisas já mostram – mesmo que não sejam mostradas – que pode ser definida no primeiro turno a favor da candidata petista. Além disso, Serra fez coisa igual ou pior do que essa de que acusam Lula enquanto sonham com uma vitória eleitoral no tapetão. Fez pior porque Lula fez num evento qualquer como o do trem-bala e Serra, fez na TV, no horário eleitoral de seu partido na Bahia, o que fez o TSE multá-lo na terça-feira passada por ‘propaganda antecipada’. A mídia, aliás, não divulgou. Enquanto noticiava as multas de Lula e Dilma sem parar, escondia a multa de Serra”.

O juiz alerta que “desta maneira, a Justiça Eleitoral teria que cometer a enormidade de tratar Dilma e Serra de formas diferentes, pois se cassar um terá que cassar o outro, de forma que as declarações da vice-procuradora-geral eleitoral Sandra Cureau aludindo a pedido de cassação da candidatura da petista, não acredito nada, nada que seriam acolhidas pelo plenário do TSE”.

“Em vez de me preocupar com os devaneios golpistas e com a disposição de membros do Judiciário para aparecerem mais do que a jabulani na Copa ou para criarem fatos políticos para o consórcio demo-tucano, prefiro ver o lado bom desse caso das ameaças de impugnarem a candidatura de Dilma. O flerte com o golpe judiciário confirma notícias como a veiculada pelo colunista da Folha de São Paulo Fernando Rodrigues, de que em pesquisa nacional com três mil pessoas que o PT teria encomendado a petista teria 43% das intenções de voto e Serra, 36%. Pode ser isso, pode ser mais, mas a notícia também combina com uma certa euforia que está se vendo no PT e com o crescente mau-humor que o tucano vem expondo publicamente”, disse o juiz.

Poucos são os brasileiros que sabem que os conselheiros tutelares devem ser escolhidos por voto direto, secreto e facultativo de todos os cidadãos maiores de 16 anos do município. O órgão encarregado de regulamentar, conduzir e dar a mais ampla publicidade a esse processo de escolha é o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. E cabe ao Ministério Público fiscalizar todo esse processo desde a sua deflagração.

No entanto, a exemplo de outros, esse dispositivo da Resolução 75 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) é pouco seguido. E o governo sabe disso. O conselho municipal não faz a sua parte, apenas 17% dos conselhos tutelares (CTs) conhecem as orientações do Conanda e, curiosamente, um percentual um pouco superior (19%) as aplica no seu dia-a-dia, como revelou em 2006 pesquisa intitulada “Os bons conselhos – Conhecendo a realidade”, encomendada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos e pelo Conanda.

A comunicação só é melhor com os conselhos estaduais dos Direitos da Criança e do Adolescente. Na média, 84% deles conhecem as resoluções do colegiado nacional, porém apenas 60% incorporam as medidas em suas ações cotidianas. Fazer com que essas determinações permeiem essa estrutura e haja maior integração entre todos os conselhos são alguns dos grande desafios para que o sistema de garantia dos direitos da criança e do adolescente avance no Brasil.

Segundo estudo da consultora do Senado Cleide Lemos, há um desconhecimento generalizado da população sobre o conteúdo do ECA. Existe senso comum de que se trata de lei aplicável apenas aos jovens e às crianças com baixo poder econômico, sendo muitas vezes responsabilizada pelo aumento da violência por não punir os adolescentes infratores. Essa visão distorcida e o desconhecimento da lei, conforme a consultora, resultam na falta de engajamento da população com a causa infanto-juvenil e explicam a baixa participação da comunidade local no processo de escolha dos conselheiros.

Alguns dos exemplos citados no estudo de 2008 comprovam essa situação. Na cidade do Rio de Janeiro, apenas 38 mil moradores participaram do processo de escolha dos integrantes dos 10 CTs, em 2005, o que representava 0,92% dos eleitores cadastrados no município. No entanto, o resultado foi comemorado pelo presidente do conselho municipal por superar o dobro da eleição anterior, em 2002, quando apenas 0,4% dos eleitores compareceram, e por ser superior ao índice da capital paulista (só 0,6% em 2005).

A pesquisa do Secretaria Especial de Direitos Humanos e do Conanda traçou um amplo retrato das dificuldades para o funcionamento e atuação dos CTs, que vão desde a falta de computadores, fax e outros equipamentos básicos (ver gráfico), até a baixa escolaridade, necessidade de capacitação e discrepâncias gritantes na remuneração e direitos assegurados aos conselheiros pelos governos municipais. Conforme estudo da consultora, parcela significativa dos conselheiros desconhece suas atribuições e o seu papel dentro do sistema de garantias dos direitos da criança e do adolescente.

Cintia Sasse / Jornal do Senado

Decisão foi tomada após conversas entre AGU, departamento jurídico da campanha e Casa Civil

15 de julho de 2010 | 20h 08

 Leandro Colon, de O Estado de S.Paulo / BRASÍLIA

Cartilhas distribuídas pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres

O Palácio do Planalto mandou nesta quinta-feira, 15, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres interromper a distribuição do kit com cartilhas, livros e cartazes que pede voto para mulheres e inclui um discurso de seis páginas da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff.

Governo promove Dilma em kit por voto em mulheres

A decisão foi tomada após conversas entre o Advogado-Geral da União, Luís Inácio Adams, o departamento jurídico da campanha de Dilma e integrantes da Casa Civil. A distribuição do kit foi revelada ontem pelo Estado.

Na manhã desta quinta-feira, o advogado da campanha de Dilma, Márcio Silva, telefonou para Luís Inácio Adams, que estava em Porto Alegre, para encontrar uma forma de apagar o incêndio político. Inicialmente, avaliaram que o melhor caminho seria recolher o material. À tarde, após conversas com a secretaria e integrantes da Casa Civil, a decisão tomada pelo governo foi orientar a pasta para Mulheres a negar intuito eleitoral e garantir que não há mais publicações para serem distribuídas – embora nesta quinta o material tenha sido entregue numa conferência sobre mulheres em Brasília.

O episódio abriu uma crise interna porque, questionada, a Secretaria de Comunicação alegou à AGU que não foi consultada anteriormente sobre o assunto pela Secretaria para as Mulheres – responsável pela elaboração e distribuição dos kits. Após a polêmica criada com a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a favor de Dilma no lançamento do edital do trem-bala, a defesa da campanha petista quer afastar qualquer risco de acusação de abuso de poder econômico. Por isso, adotou o discurso de que, além de não ter conteúdo eleitoral, o kit foi distribuído em junho, antes do início oficial da campanha. “Acabou, não tem mais. Não haverá mais distribuição. E, pelo que verifiquei, o material não é propaganda eleitoral”, disse ontem o advogado da campanha de Dilma, Márcio Silva.

Com dinheiro de um convênio com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Secretaria para Mulheres – vinculada à Presidência – mandou fazer e distribuir 215 mil cartilhas, 3 mil livros e 20 cartazes que defendem mais mulheres no poder. O material começou a ser enviado em junho, em caixas de papelão, a partidos políticos, deputados, senadores e demais candidatos nos Estados.

No livro, há um discurso de seis páginas feito por Dilma num seminário no ano passado. Já a capa da cartilha, intitulada Mais Mulheres no Poder Plataforma 2010, traz a imagem de um botão verde com a expressão “confirma” – similar ao contido nas urnas eletrônicas – e a frase “eu assumo este compromisso”. Embora o conteúdo desse material tenha sido elaborado em 2008 e o do livro em 2009, a impressão na gráfica ocorreu só em maio deste ano.

Após a revelação do episódio, a secretaria para Mulheres recebeu a ordem para retirar qualquer propaganda do governo em publicações a serem feitas ou distribuídas durante a campanha, inclusive do site “Mais Mulheres no Poder”, que está em nome de Sônia Malheiros Miguel, subsecretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas. Ela é quem assina uma carta, com data de 18 de junho, enviada ao Congresso em que relata aos parlamentares detalhes sobre o livro e a cartilha. O site em nome de Sônia recebe recursos do governo, conforme mostra edital de contratação de consultoria para a página.

DEBATE ABERTO 

Em defesa da razão

Cabe a todos que se deliciavam com a literatura de Saramago e com suas aparições públicas não deixarem que a máquina midiática tente apagar o mais importante do que ele legou à humanidade: a luta obstinada pela razão esclarecida. 

Luís Carlos Lopes 

O falecimento de um grande autor como Saramago faz pensar sobre o que é mais importante em sua obra. A afirmação internacional da língua portuguesa como uma língua de cultura salta imediatamente à vista. Os lusofalantes devem a ele a cristalização atual da idéia de que existe um idioma ocidental tão rico como os que hegemonizam a fala e a escrita do tempo presente. O romancista deu visibilidade e prestígio cultural ao seu idioma e de outros mais de duzentos milhões de seres humanos que navegam no mesmo cotidianamente.

O autor teve a felicidade de mostrar que era possível fazer literatura sem abandonar a crítica, isto é, sem escapar do exame da realidade objetiva. Registrou histórias de vida protagonizadas na língua portuguesa. Estas foram sempre universais e, quase sempre, contemporâneas, brindando seus leitores com o exame dos valores e crenças de seu povo. A bem-sucedida transcrição cinematográfica do livro “Ensaio sobre a cegueira”, falado em inglês e ambientado longe de Lisboa, é uma prova da universalidade dos problemas tratados por Saramago.

Os mais diversos percursos do autor estão gravados em seus romances. Neles, também estão, como em qualquer bom autor, suas preocupações políticas e filosóficas. Seu estilo é único, ‘pessoal’, de escrever como se tivesse martelando idéias e situações na cabeça de seus leitores. Sua escrita foi fartamente complementada pelas suas entrevistas e outras aparições públicas sempre serenas, cuidadosas e, não raro, mordazes.

O fato do sistema político-cultural o ter transformado em ‘persona midiática’ não lhe fez crescer o ego e o levou a abandonar suas velhas convicções. Ao contrário, ele soube utilizar deste fato como uma janela de comunicação com o grande público. Saramago usou sua língua para escrever belos romances e para dizer verdades que muitos prefeririam que ficassem na sombra da história. Seu ethos foi superior a mediocridade das indústrias culturais de hoje, mercantis e alienadas.

Sua postura comprova a idéia de que o autor jamais fala sozinho. Ele representa a voz de muitos que gostariam de dizer algo igual ou próximo. Ele era um homem do século XX. Mas, como poucos, percebeu que no século em que iria morrer continuaria a existir coisas a serem ditas. Entendeu que a história seguia seu curso, carregando as heranças do passado e fatos e problemas novos. Todavia, jamais foi um passadista. Contudo, não lhe apeteceram os mitos absurdos recentes do ‘fim da história’, da ‘terceira via’ e do recolhimento dos intelectuais aos seus afazeres específicos.

Saramago falava e falava, morreu dizendo a que veio e, só isso, dignifica para sempre seu percurso vivencial de quase um século. Veio de uma das regiões mais pobres da Europa – Península Ibérica –, que gostaria de ver unificada em um só país, respeitando-se as diferenças regionais. Alcançou o reconhecimento e a notoriedade internacionais, tendo sido publicado em várias línguas. A partir de sua escritura falou com letrados e semiletrados de toda parte. Era amado por muitos e odiado pelos mais conservadores, pelos carolas, anticomunistas profissionais, medíocres invejosos, egocêntricos contumazes e todos os demais tipos de ignorantes irascíveis que existem por aí.

Sua defesa da razão vai continuar incomodando bastante, em um mundo que a nega na sua forma mais pura. Saramago insistiu sempre na possibilidade humana de interpretar e compreender o mundo que envolve a todos. Asseverou que as maiorias podem compreender seus entornos, a si próprias e assumir uma postura mais racional, desde que existam condições para tal. Lembrou, incansavelmente, que destruir esta capacidade natural implicava fazer desmoronar a humanidade da espécie, negar suas culturas, em suma, sua história.

A razão de Saramago está muito distante do uso da mesma como um instrumento do capital, isto é, a razão do lucro e da exploração do homem pelo homem. Ele também foi muito além do racionalismo original, inventado na França do século XVIII. Sua idéia de razão era sensível e esclarecida, desenvolvida na sua condição de romancista e de homem de seu tempo. Jamais separou a razão da emoção, acreditando que ambas podem conviver sem qualquer problema, iluminando-se mutuamente.

O autor, homem de carne e osso, se foi. Ficou sua obra e a lembrança memorável de suas intervenções no mundo da vida. Isto é imortal. Cabe a todos que se deliciavam com sua literatura e com suas aparições públicas não deixarem que a máquina midiática tente apagar o mais importante do que ele legou à humanidade: a luta obstinada pela razão esclarecida. 
Luís Carlos Lopes é professor e escrito