Arquivo de 10/08/2010

O candidato José Serra vem enfrentando grande dificuldade de fazer campanha pelo país, pois fora de São Paulo o tucano é um estrangeiro e não entende os diferentes acentos e maneirismos do povo brasileiro. Serra só entende mesmo o “paulistês”, principalmente aquele falado pelos empresários, que soa como música a seus ouvidos. 

por Brizola Neto, em seu blog Tijolaço

Serra não entende o português falado em Goiás, Pernambuco e Minas Gerais, como conta a repórter Juliana Cipriani, do Estado de Minas, uma das vítimas do elitismo do candidato tucano. Cipriani se dirigiu por três vezes a José Serra lhe perguntando sobre uma declaração de Lula, na entrevista do presidente a Isto É, na qual disse que o tucano deu azar ao ser candidato contra ele, em 2002, e contra Dilma, agora.

É lógico que Serra não gostou da pergunta, mas para não respondê-la usou um recurso que vem se repetindo em vários estados. “Essa fala mineira de vocês eu não entendo. Eu tenho que prestar atenção”, disse Serra, deixando o local sem responder à repórter, como relata o blog da Bertha, da jornalista dos Diários Associados, Bertha Maakaroun.

Juliana Cipriani conta que Serra já tinha escapado de uma pergunta em Goiânia, quando um repórter local o indagou sobre propostas para o estado. “Temos três problemas: estou longe (da imprensa), não estou te ouvindo direito e não estou entendendo o seu sotaque”, disse Serra para evitar a resposta, que neste caso nem lhe seria embaraçosa.

Antes ainda, em Pernambuco, numa pergunta que lhe era favorável, já que é crítico do projeto, Serra não respondeu ao editor de um jornal regional que queria saber se ele considerava o trem-bala um “tiro de festim”. “Dá para repetir? Não entendi, foi muito sotaque daqui”, replicou Serra, numa expressão que revela todo o seu preconceito, principalmente pelos nordestinos, que para ele é aquela gente que invade São Paulo e para a qual ele até paga para que retornem a seu lugar de origem.

Tiro de festim não é nenhuma expressão nordestina e qualquer pessoa é capaz de entender. O que Serra revela mesmo é desprezo pelo povo brasileiro e suas diferentes falas, que fazem nossa riqueza cultural. Revela também ser avesso à imprensa, principalmente aquela que não lhe bajula e está disposta a praticar jornalismo de verdade.

Vamos ver se não vai entender William Bonner e Fátima Bernardes quando for entrevistado amanhã, no Jornal Nacional, onde se espera que seja inquirido com a mesma severidade destinada à Dilma Rousseff.

Folha de São Paulo – 09/08/2010

SP gasta R$ 63 mi em quadras malfeitas

Tribunal de Contas relata falhas em escolas estaduais, como colocação de pilares muito próximos às linhas das quadras

Em Limeira, estudante se chocou contra coluna e desmaiou; cobertura que não barra sol e chuva é outro problema

FÁBIO TAKAHASHI
DE SÃO PAULO

Sol e chuva em quadras, mesmo depois de cobertas, e risco de acidentes com alunos. Auditoria do Tribunal de Contas encontrou esses problemas num programa do governo de SP que prevê reforma nas escolas estaduais.

O órgão analisou o projeto de cobertura de quadras da Secretaria da Educação, iniciado em 2007 e que consumiu no ano passado R$ 62,6 milhões (equivalente a metade do atual orçamento para informatização de colégios).

Um dos principais problemas relatados foi a colocação de pilares (que sustentam o teto) muito próximos às linhas das quadras.

Há o risco de os alunos baterem nas colunas, como ocorreu na escola Gustavo Piccinini, em Limeira (151 km de São Paulo), no ano passado -um aluno desmaiou após o choque.

AO TEMPO

Técnicos visitaram no ano passado 56 dos 363 colégios que receberam a cobertura em 2009. Além do risco de acidentes, foi constatada ineficácia da obra na maioria dos casos, pois não há anteparos laterais na cobertura.

Assim, as quadras recebem, lateralmente, sol e chuva. O problema foi apontado por 57% dos diretores.

O relatório critica também a condição do piso de diversas quadras, que está irregular; a pintura das linhas, que sai facilmente; e a má situação de traves e tabelas.

A Secretaria da Educação nega que haja risco de choques, pois o projeto prevê recuo entre a quadra e os pilares. Diz, porém, que onde houve constatação de problemas os reparos já foram feitos ou estão em andamento.

Para o tribunal, “a fiscalização realizada pela FDE [braço da secretaria responsável pelas obras] não foi rigorosa” -a pasta contratou empresas para executar os serviços. O órgão destaca que a secretaria contratou oito consórcios, por R$ 34 milhões, justamente para fiscalizar reformas nas escolas.

“O maior problema são os pilares, que trazem sérios riscos aos alunos”, diz a analista técnica do Conselho Regional de Educação Física (SP) Carolina Machado d’Ávila.

Segundo ela, o ideal é que haja distância de no mínimo 1,5 m entre a linha da quadra e um anteparo. Em alguns casos analisados, praticamente não há espaço de segurança.

“Mas também é preciso elogiar a iniciativa do governo. É raro haver investimento nas quadras. Só é preciso mais cuidado”, disse ela.

Uma das escolas auditadas pelo tribunal, a Djanira Velho, em Ribeirão Preto (313 km de SP), ainda tem rachaduras no piso e o fundo da quadra molha quando chove, conforme verificou a Folha em visita.
Ainda assim, a diretora comemora a obra. “Via os alunos na quadra, ao meio-dia, vermelhos por causa do sol. Para nós, agora está ótimo”, disse Maria Lúcia Gabriel.

Análise: Deficiências representam falta de zelo com patrimônio e com próprio público

WALTER ROBERTO CORREIA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Os problemas encontrados nas quadras das escolas públicas podem ser analisados sob diversos aspectos.

A escola pública é um patrimônio público. A quadra, quando é deixada com deficiências ou sem manutenção, representa uma falta de zelo com o patrimônio público e com o próprio público.
Isso tem sido uma cultura nos últimos anos: o que é público não é de ninguém.

Outra questão é a de gestão. Os setores de planejamento, projetos, orçamento e licitação não atendem às demandas singulares de cada uma das cerca de 5.000 escolas estaduais em São Paulo.
Quem faz o projeto não sabe qual é a real necessidade dos colégios. As construções muitas vezes são improvisadas, projetadas sob a perspectiva da economia, não da utilização educativa.
O diálogo entre o pedagógico e o econômico não se efetiva. Investe-se da maneira menos onerosa, mas não da forma mais inteligente.

A quadra, quando tem obstáculos de acesso ou estruturas que aumentam os riscos de acidente, reflete uma falta de compreensão das especificidades daquele ambiente -o que ocorre em outros locais, como salas de aula, laboratórios e espaços de circulação.

Os espaços deveriam priorizar o diálogo e a interação entre as pessoas, sobretudo as demandas provenientes do movimento do corpo humano.

WALTER ROBERTO CORREIA é professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP

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Outro lado: Governo diz que fornece melhoria e realiza reparos

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirma que adotou um modelo de obras compatível com o orçamento disponível, considerando o universo de cerca de 5.000 prédios da rede, “fornecendo a melhoria e o mesmo padrão para todos”.

Em nota, o órgão do governo estadual alerta para a “diferença entre construir um ginásio de esportes para poucas escolas ou a cobertura de quadra para quase todas as escolas públicas”.

RISCO

Sobre o risco de acidente, a secretaria afirma que o projeto prevê um espaço entre as linhas e os pilares, mas algumas escolas pedem que a área demarcada seja estendida, pois há quadras com tamanho menor que o padrão.

A pasta diz, sobre o fechamento lateral das quadras, que o projeto permite que a ação seja feita em um segundo momento do programa. “A adoção desses fechamentos poderá ser meta futura da Secretaria da Educação, por ocasião da conclusão das coberturas em todas as escolas possíveis”.

Alguns dos problemas apontados pela auditoria, como desgaste de linhas, podem ser decorrentes do próprio uso dos espaços, afirma a pasta do governador Alberto Goldman (PSDB). “Informamos que o relatório já foi respondido ao Tribunal de Contas e, nos casos em que foi constada a necessidade de reparos, construtivos ou não, informamos que alguns já foram realizados e outros estão sendo providenciados”, afirmou a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.