23/08/2010

Últimos dias de dezembro de 2001, alto de um morro da zona sul do Rio, 11h. Eu, a serviço de uma emissora de televisão como repórter, esperava o representante da associação de moradores para fazer uma matéria sobre o aluguel de lajes de alguns barracos da favela durante o reveillon. Os estrangeiros estavam pagando altas quantias para ter uma visão privilegiada da queima de fogos em Copacabana. Ao meu lado, cinegrafista e motorista da minha equipe além de outros jornalistas.

Subitamente um carro tipo station wagon aparece na curva sob o barulho de cantadas de pneus ladeira acima. De longe já era possível ver os fuzis que saíam pelas janelas. Quando o veículo para, a alguns metros de distância, descem nada menos do que oito homens, todos armados. Um deles começa a caminhar em minha direção. A essas alturas, quem estava comigo mal conseguia respirar. 

– Aí, meu irmão, tu não morava no Parque? – tratei de perguntar antes de qualquer iniciativa de ameaça. 

– Parou, parou, tá tranquilo, tá tranquilo, vigia a área, vigia a área – ordenou o chefe, momentos depois de me reconhecer onde ele menos imaginaria. 

Fazer matérias dentro de comunidades nunca foi problema para mim. Fui criado na maior delas. Tive amigos que num dia jogavam bola comigo, no outro estavam presos. Como jornalista, já apurei, em silêncio, o assassinato de pessoas que conhecia desde criança. Mas naquele dia, o tal “estalo” que um dia acontece para que, finalmente, a gente acorde, me trouxe a certeza da importância de uma oportunidade na vida de alguém. Filho de porteiro com empregada doméstica, ambos sem nem o ensino básico completo, aprendi com eles a necessidade da Educação. 

Tive sorte. Escola Pública, no meu tempo, ainda era sinônimo de qualidade. Pude fazer tudo, até universidade, sem o tormento de mensalidades. Acabei me formando em Jornalismo, virei repórter de televisão – quem diria, o favelado andando de terno e gravata, aparecendo para todo o Brasil em rede nacional.

Naquele diálogo no alto de um morro da zona sul do Rio ficou muito claro que eu não era um privilegiado que tinha conseguido escalar a pirâmide social apenas por esforço meu, dos meus pais ou dos meus professores, amigos, chefes, etc. Eu simplesmente estava ali, frente a frente com a minha possível história, por um único motivo: me deram uma chance. 

– Quem diria, hein… A gente jogava bola junto, morava no mesmo lugar… Hoje, você tá aí, terno, gravata, bonitinho, e eu… sou o dono do morro… – disse o chefe do tráfico de drogas pra mim, exibindo dois fuzis. 

Antes de deixar o local, assegurou minha permanência na favela o tempo que fosse necessário e orientou por rádio vigilância permanente para que nada me acontecesse. Assim que o carro desceu a ladeira, ficou a pergunta que não me sai da cabeça: e se não tivessem me dado uma chance? 

Antes que perguntem: a pessoa em questão foi presa dois anos depois na Baixada Fluminense. Tinha 31 anos. Cumpre pena de 69 anos em regime fechado por homicídio qualificado, tentativa de homicídio, roubo mediante grave ameaça ou violência, além de formação de quadrilha.  

Che Oliveira
Ex-aluno do Colégio Pedro II – Humaitá, Jornalista formado pela Universidade Federal Fluminense com passagens pela Band, Rede Tv!, Globo e Record, onde exerceu até janeiro o cargo de Chefe de Redação
Fonte: ANF – Agencia de Notícias da Favela  http://www.anf.org.br

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