Arquivo de 26/10/2010

Camila Campanerut e Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em Brasília e São Paulo

Com o Congresso esvaziado até o segundo turno, os poucos parlamentares presentes em Brasília fizeram na tarde desta terça-feira (26) discursos em homenagem à memória do senador e corregedor do Senado, Romeu Tuma (PTB- SP), que morreu às 13h de hoje em São Paulo.

“O senador Tuma deixou aqui muitos amigos. Era assíduo às sessões do Senado Federal e do Congresso Nacional. Ao longo de sua vida pública, sempre esteve muito presente a necessidade de políticas voltadas para melhorar a segurança no país”, disse o senador Marco Maciel (DEM-PE), no primeiro discurso da abertura da sessão do Senado.

Também presentes em plenário, o senador reeleito pelo DF, Cristovam Buarque (PDT), chamou Tuma de “senador cordial” e, também em nome da legenda, o senador Acir Gurgacz (PDT-RO) fez uma breve declaração sobre o parlamentar.

“O Brasil ficou menor. Este Senado não merecia isso. Meu amigo Tuma era um homem de fé e não tinha dúvidas, não tinha angústias”, definiu o senador Pedro Simon (PMDB-RS), em uma longa fala que ressaltava as qualidades do colega.

Na mesma linha, o senador tucano Alvaro Dias (PR) destacou: “A sua ausência será mais sentida em razão do exemplo de ser humano cordato, amigo, solidário sempre, parceiro em todos os momentos, especialmente nos momentos de dificuldade”. 

A sessão plenária do Senado foi presidida pela senadora Serys Slhessarenko (PT-MT), que promoveu um minuto de silêncio à memória do falecido senador. “Na condição de amigo e parlamentar, ele significou muito. Só tenho a lamentar esta grande perda. Foi uma perda para o Brasil, uma perda para São Paulo, uma perda para todos nós. Ele deu grandes contribuições ao Parlamento, como um grande senador, de personalidade forte e determinada”, afirmou. “Era um amigo por quem eu tinha grande admiração e respeito.”

Já o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), escreveu no microblog Twitter: “Lamento o falecimento do senador Romeu Tuma. Minha solidariedade à família”. 
 
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) afirmou que durante os oito anos em que esteve no Senado teve uma relação “de muita proximidade e respeito” com o senador do PTB. “O Brasil perdeu um de seus maiores líderes”, disse. “Tuma era um exemplo de honradez e dignidade na política. Como corregedor do Senado manteve postura firme no cumprimento da lei.”

Torres também ressaltou que Tuma era um dos maiores especialistas em direito penal do Brasil e um grande conhecedor da segurança pública. “O senador Tuma vai fazer falta ao cenário político brasileiro, mas com certeza tem o seu nome inscrito nas posições mais altas da República”, disse.

O colega petista Delcídio do Amaral (MT) também demonstrou solidariedade. “Triste com a perda do amigo, companheiro e conciliador, o senador Romeu Tuma. O Senado e o Brasil perdem uma grande figura humana”, escreveu. 

Outro que mandou pêsames à família do senador foi o colega Arthur Virgílio (PSDB-AM). “Saúde a memória de Tuma. Um grande brasileiro. Vá em paz, querido amigo”, escreveu. “Tuma, homem da segurança, delegado da Polícia Federal, corregedor do Senado, jamais deixou a firmeza ofuscar a ternura.”

O senador Renato Casagrande (PSB-ES) postou que “a política brasileira perde um grande parlamentar”, enquanto o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) destacou que “Tuma era o mais cordial dos senadores desta legislatura”.

O líder do PTB, senador Gim Argello (DF), comentou a popularidade de Tuma, que, segundo ele, “era um homem conhecido no nosso país, que muitas vezes foi tutor nessa Casa de vários senadores (…). Mesmo enfermo, ele atingiu 4 milhões de votos sem fazer campanha, deitado em um leito de hospital”.  

Em nota, o partido de Tuma afirmou: “O PTB lamenta muito não apenas a perda de um político sério, de um senador que honrou seu Estado e seu país, mas principalmente, pela suas qualidades morais, pelo seu profundo espírito familiar e pelo seu maravilhoso caráter. Estamos com a sensação de que nesse momento triste, aplicam-se as palavras de Fernando Pessoa de que ‘tudo vale a pena se a alma não é pequena’, assinou o presidente estadual e secretário-geral da executiva nacional do PTB, deputado Campos Machado.
 

Mais repercussão

O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, disse que lamenta muito a morte do político. “Fui colega dele no Senado. Um homem sereno, que foi duas vezes senador por São Paulo. Quero, neste momento, mandar meu abraço a seus familiares, sua esposa, irmãos e filhos. Éramos amigos pessoais. Além de um político importante, eu perco um amigo também”, afirmou.

O partido de Serra também emitiu nota de tristeza e pesar sobre o “estimado amigo e senador Romeu Tuma”.

“Excepcional homem público, competente, íntegro e com uma extensa folha de serviços prestados, Tuma deixará, além de sua história, muita saudade. Aos familiares e inúmeros amigos que colecionou em vida, nossos mais sinceros votos de força e solidariedade”, escreveu Antonio Carlos Mendes Thame, presidente do PSDB de São Paulo, na nota.

Política
Autor(es): Raymundo Costa
Valor Econômico – 26/10/2010
 
Lula cobrou maior participação de Dilma na campanha.
Para a crônica da eleição presidencial de 2010, cujo desfecho será conhecido no domingo à noite: Lula exigiu a radicalização política da campanha de Dilma Rousseff, mas foi decisão da candidata assumir ela mesma o ataque, como ocorreu no primeiro debate do segundo turno. Neste debate ela falou o nome de Paulo Preto, que atingiu a campanha tucana muito mais do que reconhece o PSDB.
O presidente do PT, José Eduardo Dutra, classificou de prostração o que ocorreu com o PT, ao ver escapar entre os dedos a vitória no primeiro turno. Todos contavam com isso, havia festa preparada e a candidata e dirigentes de seu comitê não conseguiram disfarçar o abatimento, ainda na noite de domingo 3. Aliás, do comando da campanha, só José Eduardo Dutra e Antonio Palocci ao lado da candidata, em sua primeira aparição pública depois da eleição. Guido Mantega parecia deslocado no quadro. Parecia ter sido convocado de última hora para a composição da cena, a cena da qual fazia parte também o candidato a vice-presidente, Michel Temer.
A avaliação mais dura, na primeira reunião de balanço do “por que da não-vitória no primeiro turno” foi do presidente Lula. Ele disse que fez e aconteceu na campanha, com a ressalva de que o candidato não era ele, Lula. A candidata era Dilma. Era ela quem deveria se expor mais, “botar a cara na frente”, segundo o relato de presentes à reunião.
Disse que ele demitira Erenice Guerra, pela coordenação da campanha ela teria permanecido na Casa Civil, tirando votos de Dilma. Mesmo fora do governo, Erenice ainda incomoda a campanha de Dilma – ontem ela depôs na Polícia Federal. Em terceiro lugar, Lula criticou o fato de a campanha ter se deixado envolver no debate sobre o aborto. “Tem que fugir desse assunto. Isso não dá voto para ninguém. Isso só tira voto”, disse, segundo relatos de integrantes do PT.
Foi Lula também quem disse que era necessário ampliar a coordenação da campanha. “Tem que acabar com esse triunvirato aqui”. O presidente referia-se, segundo participantes da reunião, a José Eduardo Dutra, presidente do PT, ao deputado Antônio Palocci e ao ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, todos integrantes do primeiro time do comitê de Dilma Rousseff. Dutra saiu do primeiro turno mais fraco na presidência do PT. Na mesma hora ficou decidido que seriam chamados, para reforçar a campanha, o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e o deputado Ciro Gomes (PSB-PE). Na sequência também foi convocado o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.
É lenda que o ex-ministro José Dirceu tenha se integrado à coordenação. Ele tem trabalhado a militância petista para a eleição da candidata, mas não integra a direção do comitê. Dirceu sabe que sua situação impede que ele seja chamado para o ministério de um eventual governo Dilma, mas ficou ressentido com o jeito como a candidata tratou do assunto, numa declaração em que foi taxativa ao dizer que não havia hipótese de ele integrar seu ministério. A prioridade de José Dirceu é resolver seu processo no Supremo Tribunal Federal (STF). Eventualmente, até na reforma política, que a candidata assegura ser prioridade de seu governo, caso vença a eleição de domingo.
Lula classificou de “chocha” a campanha do PT. Com uma promessa aqui, outra ali, não havia acontecido nada. “Vamos pôr o Fernando Henrique o (Fernando Henrique Cardoso presidente entre 995-2003) na roda”, provocou Lula. “Vamos pôr os oito anos dele. Nós não comparamos os oito anos nossos com os oito anos deles”. Um integrante do grupo ainda tentou argumentar: “O Serra não pôs o Fernando Henrique (na campanha)”. O presidente não deixou por menos: “O Serra não pôs o Fernando Henrique porque ele sabe que não pode. Nós temos que pôr o Fernando Henrique “.
Na visão de Lula, se o PT dizia que iria ganhar no primeiro turno, e as pesquisas indicavam realmente essa possibilidade, “a militância fica em casa”. Já que a eleição está decidida – argumentou -, ela pensa que o partido não precisa dele para assegurar a vitória. Era necessário, portanto, estabelecer alguma polêmica para esquentar a eleição – e para Lula a chave era a comparação entre seus dois mandatos com os dois de FHC.
A conclusão do encontro: a coordenação da campanha fraquejou mesmo. Todos seus integrantes achavam que a eleição ia ser um passeio e não estavam preparados para o segundo turno. Diferentemente do que ocorreu com Lula em 2006, quando o PT também se preparou para liquidar a reeleição pela via rápida, mas não subestimou o potencial negativo do escândalo dos aloprados (a aquisição, por petistas, de um suposto dossiê contra José Serra, à época candidato ao governo do Estado de São Paulo). Agora, não. Estavam todos acomodados.
Dilma ficou definitivamente incomodada com o “tudo eu, tudo eu” de Lula. É dela a decisão de “mostrar a cara”, mesmo na hora de atacar José Serra nos debates e no horário eleitoral, uma decisão temerária. No primeiro debate, Dilma foi muito mais que “assertiva”. Atacou duramente a campanha de Serra por causa da polêmica em torno do aborto, chamou o candidato tucano de “mil caras” e, como desejava Lula, botou “na roda” o governo de Fernando Henrique Cardoso e o tema das privatizações, sempre um assunto que joga os tucanos na defensiva.
Foi com muita sede ao pote, segundo avaliação de petistas, mas pôs fogo na militância, que resolveu sair de casa. Em seguida recuou um pouco e agora está num tom considerado mais adequado. Ela não precisa ser agressiva, porque está ganhando a eleição, como indicam as pesquisas eleitorais. Dilma “pôs a cara”, mas foi Lula quem botou a campanha no ataque. Entre março e abril, ele dissera que faria “tudo” para eleger Dilma. Cumpriu a promessa e provavelmente estabeleceu um novo paradigma para as campanhas presidenciais brasileira. Domingo o país fica sabendo.
Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras