Arquivo de 05/11/2010

FELIPE BÄCHTOLD
DE SÃO PAULO

Uma ação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul encontrou nesta sexta-feira em Porto Alegre um depósito com material de apologia ao neonazismo, incluindo um vídeo com ameaças ao senador Paulo Paim (PT-RS). Ninguém foi preso.

Segundo a polícia, havia CDs, livros, panfletos, revistas, bonés e camisetas de propaganda neonazista, de discriminação a minorias.

O delegado Paulo César Jardim, do Grupo de Combate ao Neonazismo, diz que os donos do material já foram identificados e estão sendo procurados.

De acordo com o policial, os integrantes do grupo são jovens, incluindo estudantes de classe média, de ideologia ‘hitlerista’.

Jardim diz que, com a ação, a polícia desarticulou uma ‘célula’ do movimento na cidade. Outras operações, afirma, já evitaram ações violentas.

SUL

Os neonazistas do Estado, diz a polícia, têm ligações com grupos de outras partes do país, como Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

O Grupo de Combate ao Neonazismo atua no Rio Grande do Sul há oito anos e, segundo Jardim, é o único do tipo no Brasil.

O delegado diz que o Estado tem um histórico de ocorrências do tipo. ‘O partido nazista já existiu e foi tolerado no Rio Grande do Sul. Tivemos colonizações étnicas alemã e italiana’, falou.

O senador Paulo Paim, em nota, afirmou que não vai se ‘intimidar’ com a ameaça nem exigir segurança pessoal.

Fonte: folha.com

O ex-governador de São Paulo afirmou que o país está “fechado para o exterior” porque passa por um “processo claro de desindustrialização”. Ele criticou os investimentos do governo federal e a alta carga tributária do país.

“É um governo populista de direita na área econômica”, atacou Serra. Para o tucano, o presidente Lula exerce um “populismo cambial” e não tem um modelo econômico definido.

Segundo Serra, ele não pôde expor essas ideias do jeito que gostaria durante a campanha eleitoral, na qual foi derrotado pela candidata governista, Dilma Rousseff (PT).

O candidato derrotado à Presidência, José Serra (PSDB), acusou o presidente Lula de desindustrializar o país e adotar um “populismo” de direita em matéria econômica.

O comentário do tucano foi feito ontem durante um seminário em Biarritz, sul da França, sobre as relações entre a América Latina e União Europeia

“A democracia não é apenas ganhar as eleições, é governar democraticamente”, disse.

O sistema de orçamento participativo, uma das marcas das administrações municipais do PT, na qual o contribuinte decide sobre a destinação de parte dos impostos, também foi criticado pelo candidato derrotado.

Serra também comentou as ações brasileiras na política externa. Ele acusou o país de se “unir a ditaduras como o Irã”. Nesse momento, o tucano foi interrompido por um membro da Fundação Zapata, do México, que gritou “por que não te calas?”, provocando um alvoroço na sala.

A frase se tornou conhecida depois de o rei Juan Carlos, da Espanha, dirigi-la ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, durante a Cúpula do Chile, em 2008

Fonte: folhauol.com

O trecho Sul do Rodoanel deve custar R$ 180 milhões a mais para o Estado de São Paulo. É que as empreiteiras responsáveis pela obra alegam que tiveram que mudar o projeto original e comprar material de construção em outros locais para garantir a entrega em abril, antes da saída de José Serra do Palácio dos Bandeirantes.

Reportagem publicada na Folha de S. Paulo revela que “a tarefa de negociar com as construtoras para que a vitrine de Serra não atrasasse era do ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira de Souza.”.

Conhecido como Paulo Preto, o ex-diretor da Dersa é acusado de envolvimento em esquema para fraudar licitações de empreiteiras.

Leia aqui a reportagem da Folha de S. Paulo.

Pressa encareceu obra do Rodoanel, afirmam empresas

Para garantir entrega no prazo para Serra, construtoras alegam que custo subiu; Estado diz que conclusão até abril era contratual

ALENCAR IZIDORO
DE SÃO PAULO

Empreiteiras do trecho sul do Rodoanel dizem que a obra ficou mais cara devido à necessidade de correr para conter os atrasos e entregá-la até abril -antes de José Serra (PSDB) sair do governo para ser candidato à Presidência.
Esse é um dos principais argumentos utilizados pelas construtoras para reivindicar da Dersa pagamentos extras que superam R$ 180 milhões.
Os pedidos à estatal foram formalizados de abril a junho, conforme documentos acessados pela Folha, e estão sob análise no governo. O Estado alega, porém, que esse prazo era contratual -obrigação delas, sob pena de multa a ser calculada.
A obra já teve um aumento em 2009 -mais de R$ 300 milhões, em valores atuais- e totaliza hoje R$ 3,3 bilhões.
As empreiteiras afirmam que chuvas atípicas provocaram imprevistos que afetaram os cronogramas.
Para conter atrasos, conforme pedido pela Dersa, dizem que tiveram de mudar o projeto original de terraplanagem e comprar pedra e asfalto em lugar distante, porque usinas e pedreiras previstas não conseguiriam produzir tudo de última hora.
O resultado final, segundo elas, é que os gastos aumentaram com novos materiais, maior quantidade de caminhões e de funcionários.
A tarefa de negociar com as construtoras para que a vitrine de Serra não atrasasse era do ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto.
Ele ganhou projeção após ser citado por Dilma Rousseff (PT) em um debate -a petista disse, baseada na revista “IstoÉ”, que ele teria desviado R$ 4 milhões destinados à campanha tucana. O engenheiro nega a acusação.
Serra fez a inauguração do trecho sul do Rodoanel um dia antes de sair do governo.

ASFALTO E PEDRA
Alteração citada por empreiteiras para conter atrasos foi definida com a Dersa em novembro. Ela incluiu a troca de terra e argila por cimento e rachão na camada final da terraplenagem.
A “providência foi tomada”, segundo relato do consórcio formado por OAS/ Mendes Jr./Carioca, após “concluir” que era “a única maneira de viabilizar a entrega das obras no prazo fixado e em perfeitas condições técnicas e de segurança”.
O consórcio formado por Odebrecht/Constran menciona também a elevação de gastos com asfalto e pedras.
A proposta original era que 91% da pavimentação fosse feita em 2009, mas “praticamente a totalidade desse serviço teve que ser executada nos meses de janeiro a março de 2010”.
Como a usina de asfalto não tinha “capacidade para atender ao volume de repente demandado”, segundo as empresas, foi preciso buscar usinas complementares, de 10 km a 85 km de distância.

 

A revista Isto É (edição de 3/11/2010) confirma a suspeita apontada pela Bancada do PT de que o ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, tem um íntimo relacionamento com as empreiteiras da construção do Rodoanel que não se restringe ao negócio envolvendo uma empresa de familiares.

“É uma relação incestuosa que existe entre Paulo Preto, sua filha e José Serra”, ressaltou o líder da Bancada do PT, deputado Antonio Mentor, durante a apresentação à imprensa da representação do PT à Procuradoria Geral de Justiça para investigar tráfico de influência.

Para quem conhece os meandros do mundo da construção civil, a impressão que fica ao analisar as mudanças é de que o diretor do Dersa preferiu privilegiar as empreiteiras, em detrimento da qualidade do empreendimento e da boa gestão do dinheiro do contribuinte.

A iniciativa de Paulo Preto também tinha outro propósito: o de adequar o andamento da obra ao timing eleitoral.

Leia, abaixo, a íntegra da reportagem da revista Isto É.

Paulo Preto e os negócios em família

Empresa de transportes criada pelo genro e pela mãe do ex-diretor do Dersa alugou guindastes às empreiteiras que construíram o rodoanel paulista

À medida que são esmiuçados os passos de Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, nos subterrâneos do governo tucano, vão ficando cada vez mais claras as relações comprometedoras do ex-diretor do Dersa com as empreiteiras responsáveis pelas principais obras de São Paulo. Em agosto, quando trouxe a denúncia formulada por dirigentes do PSDB do sumiço de pelo menos R$ 4 milhões dos cofres da campanha de José Serra à Presidência, ISTOÉ revelou que a maior parte da dinheirama fora arrecadada junto a grandes empreiteiras responsáveis pela construção do rodoanel. Agora é descoberto um elo ainda mais forte entre o engenheiro e as construtoras da obra, considerada uma das vitrines do governo tucano em São Paulo. A empresa Peso Positivo Transportes Comércio e Locações Ltda., de propriedade da mãe e do genro do ex-diretor do Dersa, prestou serviços para as obras do lote 1 do trecho sul do rodoanel por um período de, pelo menos, três meses no ano de 2009. A informação foi confirmada à ISTOÉ pela Andrade Gutierrez/Galvão, do consórcio de empreiteiras contratado pela obra. Os serviços consistiram no fornecimento de guindastes para o transporte e a elevação de cargas. “A empresa Peso Positivo, assim como outros fornecedores prestadores de serviços do consórcio, é contratada sempre de acordo com a legislação em vigor. A decisão de contratar prestadores de serviços é exclusivamente técnica”, alega a Andrade Gutierrez.

Arquivos da Junta Comercial de São Paulo mostram que a Peso Positivo foi criada em 30 de julho de 2003, com capital social de R$ 100 mil. Os sócios são Maria Orminda Vieira de Souza, mãe de Paulo Preto, 85 anos, e o empresário Fernando Cremonini, casado com Tatiana Arana Souza, filha do ex-diretor do Dersa, que trabalha no cerimonial do Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo de São Paulo, e que já prestara serviços para a administração de José Serra à frente da Prefeitura de São Paulo. Tantas coincidências fizeram o PT pedir à Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo que investigasse as relações da Peso Positivo com o rodoanel. “É uma relação incestuosa que existe entre Paulo Preto, sua filha e José Serra”, afirmou o líder do PT na Assembleia, Antônio Mentor.

A confirmação da ligação entre as empreiteiras do rodoanel e a Peso Positivo, obtida por ISTOÉ, mostra que as suspeitas tinham fundamento. E também derruba de maneira cabal a versão de Cremonini, apresentada na última semana em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo”. Segundo ele, a empresa “nunca teve clientes” na construção civil. “Meus maiores clientes são a Petrobras e a Votorantim Metais”, afirmou o empresário. “A única coisa que o Paulo me deu nestes anos todos foi a mão da filha e uma bicicleta.”

O íntimo relacionamento de Paulo Preto com as empreiteiras do rodoanel não se restringe ao negócio envolvendo uma empresa de familiares. Na última semana, denúncia da “Folha de S.Paulo” revelou que Paulo Preto, um dia após assumir a diretoria do Dersa, assinou uma alteração contratual na obra. Essa mudança permitiu às empreiteiras fazer alterações no projeto do rodoanel e até utilizar materiais mais baratos. No acordo assinado por Paulo Preto em maio de 2007 ficou definido que, em vez de ganharem de acordo com a quantidade, tipo de serviço ou material usado na obra, as empreiteiras receberiam um “preço fechado” no valor de R$ 2,5 bilhões. Para quem conhece os meandros do mundo da construção civil, a impressão que fica ao analisar as mudanças é de que o diretor do Dersa preferiu privilegiar as empreiteiras, em detrimento da qualidade do empreendimento e da boa gestão do dinheiro do contribuinte.

A iniciativa de Paulo Preto também tinha outro propósito: o de adequar o andamento da obra ao timing eleitoral. É que o acordo teve como contrapartida das empreiteiras a garantia de acelerar a construção do trecho sul para entregá-lo até abril deste ano, quando José Serra (PSDB) saiu do governo para se candidatar. O cronograma foi cumprido a contento. Agora, as empreiteiras apresentam um fatura extra de R$ 180 milhões. Essa espécie de taxa de urgência soma-se, portanto, aos adicionais de R$ 300 milhões já pagos em 2009.

As suspeitas sobre a maneira como Paulo Vieira de Souza atuava no Dersa extrapolam os limites geográficos da cidade de São Paulo. Recaem também sobre a fase III das obras de ligação das rodovias Carvalho Pinto e Presidente Dutra, no município de São José dos Campos. Desde que assumiu a diretoria de engenharia do Dersa, ele assinou dois aditivos sobre o convênio de R$ 84 milhões. Um desses aditivos previu a “implantação da marginal Capuava”, que nunca foi entregue. Onde foi parar o R$ 1,1 milhão, relativo à execução desse trecho, ninguém sabe dizer. “O dinheiro simplesmente desapareceu”, acusa o vereador de São José dos Campos Wagner Balieiro (PT). “Tive uma reunião com os diretores do Dersa e ninguém conseguiu me explicar por que a marginal não foi executada, embora o dinheiro tenha sido pago”, afirma Balieiro

A defesa da inocência do integralismo paulista. A naturalidade com que são tratados os brasileiros de todo o brasil… pobres, pretos, nordestinos, incultos… não sabemos votar nem reconhecer a grandiosidade da caridade da elite que até nos autoriza a viver. E alegam que pagam nossas contas.

Ana Cláudia Barros   A atendente de suporte técnico Fabiana Pereira, 35 anos, uma das articuladoras do Movimento São Paulo para os Paulistas, sai em defesa da estudante de direito Mayara Petrusco, apontada como uma das responsáveis por desencadear a onda de manifestações preconceituosas contra os nordestinos na internet após a vitória de Dilma Rousseff (PT). Em redes sociais, Mayara declarou que "nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, … Read More

via Blog do murilopohl

Na foto, José Serra, o herói da Direita Cristã

Numa entrevista ao Caderno ‘Sexta-Feira e Fim de Semana’, do jornal Valor Econômico, o professor e filósofo Vladimir Safatle, da USP, mostrou de forma brilhante o sinistro legado que José Serra deixou para a política brasileira: a criação de uma corrente de diretia radical que, nos EUA, se chama de Direita Cristã e, no momento, paralisa o sistema político americano com o movimento Tea Party.

O sinistro do legado da campanha calhorda – como diria o Ciro Gomes – do aborto é, segundo o Safatle, que Serra destampou um monstro que a habilidade política brasileira escondia no armário.

Irresponsavelmente, Serra abriu o armário e trouxe esse segmento político para a cena brasileira e, de lá, ela não vai sair.

Serra fez o papel que George Bush desempenhou nos EUA: transformou cristãos católicos de direta em personagens irremovíveis do sistema político.

É isso o que ele representa.

É essa a sua única obra.

Leia o professor Safatle:

A candidatura Serra, durante todo o primeiro turno, nunca empolgou eleitoralmente. Não cresceu. Começou a crescer de verdade quando o Serra resolveu flertar com setores conservadores da sociedade brasileira, ou seja, os setores mais conservadores da igreja – teve votação expressiva no chamado cinturão do agronegócio – e também com a fina flor do pensamento conservador. Isso poderia parecer uma estratégia eleitoral. De fato, mostrou uma coisa que a gente não sabia: existe um pensamento conservador forte no Brasil e esse pensamento tem voto. Pode ser mobilizado por questões relativas à modernização dos costumes. Um exemplo, ainda no governo Fernando Henrique, quando José Gregori era secretário dos Direitos Humanos, aprovaram o PNDH 2 [Programa Nacional de Direitos Humanos], em 2002. E se você for ver, por exemplo, no capítulo sobre o aborto, ele é idêntico, fora uma ou duas palavras, ao PNDH 3, que foi criticado durante a campanha eleitoral. Parece que foi um processo deliberado, problemático, que coloca questões sobre o que vai ser sua candidatura daqui para a frente. Terminou prometendo que seria contra a lei da homofobia em encontro com pastores evangélicos. Com isso, Serra destampou uma franja eleitoral que estará presente no debate nos próximos quatro anos. Esse tipo de pauta não vai desaparecer. Vai voltar em vários momentos. A primeira questão é saber como isso vai se configurar. Até porque existe uma tendência mundial de construir um pensamento conservador que tem forte densidade eleitoral. A gente vê isso nos EUA, na Europa, e vai ver no Brasil de uma maneira ou de outra.

– A questão do aborto foi um dos pontos mais baixos da história recente da política brasileira. Discordo terminantemente de que tenha sido um movimento espontâneo da sociedade civil. Ao que tudo indica, e a própria imprensa investigou isso, o candidato da oposição disparou por meio da central de boatos da internet toda essa questão. Existia um acordo tácito entre os dois grandes partidos políticos brasileiros, PT e PSDB, de que essa questão não seria posta em debate, porque vem de aspectos dos mais arcaicos da sociedade brasileira, e nenhum dos partidos queria jogar isso contra o outro justamente por esse arcaísmo. Quando o papa João Paulo II veio ao Brasil, houve um desconforto porque Ruth Cardoso [ex-primeira-dama] tinha se declarado a favor da legalização do aborto. E de repente temos a mulher do candidato da oposição [Monica Serra] dizendo que Dilma é a favor de matar criancinhas!
– De fato meu lado perdeu, com muita clareza. Não sou filiado ao PT nem a partido algum. Todos aqueles para quem a modernização dos costumes é fundamental no interior do desenvolvimento das sociedades democráticas perderam. Não foi simplesmente uma questão ligada ao aborto. Foi uma maneira que o pensamento conservador encontrou de pautar a agenda do debate político neste país. Mostraram que têm força, têm voto e conseguem bloquear a discussão. E agora não vão sair, vão ficar. Havia uma espécie de ilusão de que não havia espaço para um partido que conseguisse mobilizar o pensamento conservador no Brasil. Isso não é verdade, eles demonstraram que têm força. Quando Serra colocou essa questão no debate, com clareza e todas as palavras, cobrando da adversária que ela se posicionasse, ele criou uma situação que, daqui por diante, é uma questão da política brasileira e todos vão ter de se posicionar a respeito.

Do: www.paulohenriqueamorim.com.br

Por Paulo Cezar

Ótima matéria do Valor expondo as entranhas da Vale e os motivos das pressões pela saída de Agnelli….Os fatos acabam mostrando que ao contrário do que dizem alguns dogmas, todas as organizações humanas são politicas e estão sujeitas a interesses que muitas vezes prejudicam a organização…. A diretora tucana é aliada e executora das ordens duras de Agnelli, que ao que parece, extirpa vozes contrárias e cria inimigos….Me parece que se trata de um tucano enrustido que somente atendeu ao Lula pontualmente para permanecer no cargo… 

Do Valor

Dias tensos nos bastidores e no comando da grande mineradora

Vera Brandimarte, Vera Saavedra Durão, Ivo Ribeiro, Graziella Valenti e Catherine Vieira | De São Paulo e do Rio
05/11/2010

A Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, vem apresentando resultado recorde apesar dos tempos difíceis do mercado mundial. No terceiro trimestre, o lucro líquido da empresa alcançou R$ 10,5 bilhões, e o acumulado em nove meses, R$ 20,1 bilhões. No melhor ano até então, 2008, no período foram R$ 18,8 bilhões. No entanto, nunca Roger Agnelli, o poderoso, admirado e temido CEO da Vale, esteve tão na berlinda.

Faz alguns meses, o processo de tomada de decisões no conselho tornou-se mais arrastado e as decisões de Agnelli deixaram de ser prontamente referendadas pelos acionistas – entre os quais a controladora Valepar, que reúne a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e outros fundos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Bradespar, empresa de participações do Bradesco, e a japonesa Mitsui. Até a presidência do conselho de administração está em compasso de espera: Ricardo Flores, que acaba de assumir a Previ, deve ser nomeado para o lugar de Sergio Rosa, ex-presidente da Previ e chairman da Vale desde abril de 2003.

DNA – Na Cidade de Deus, em Osasco (SP), onde fica o headquarter do Bradesco, não há mais sustentação incondicional a Agnelli, um dos mais promissores executivos do banco quando foi indicado para comandar a Vale, nove anos atrás – apesar do prestígio que ele tem junto ao presidente da Bradespar, Mario Teixeira. Agnelli teria violado regra da cultura do banco: não misturar negócios com política e não se indispor, especialmente em público, com governos. 

Um dos problemas seria a declaração atribuída ao CEO da Vale de que os boatos de sua iminente saída da companhia seriam motivados por pessoas do PT (Partido dos Trabalhadores) que querem posições na Vale. Em entrevista ao Valor, Agnelli explica o contexto em que tal declaração foi dada, e diz que não foi uma crítica ao partido nem confronto com o governo do presidente Lula. 

Os percalços de Agnelli têm explicações diferentes dentro da própria corporação. O Valor ouviu, nos últimos dois meses, diretores e ex-diretores da Vale, atuais e ex-conselheiros da companhia, acionistas, competidores, parceiros e analistas para relatar o que ocorre na empresa, cuja imagem no mercado está sendo arranhada diante da possibilidade de substituição do CEO por razões políticas. Seria apenas um rumor sem consequências, sustentado pelo clima eleitoral, quando ambições se exacerbam, ou haveria outras razões para supor-se que o ciclo da gestão Roger Agnelli completou-se na Vale?

Ele esteve à frente da transformação da Vale de uma empresa com receita líquida de R$ 9,5 bilhões, no ano de 2000, em uma companhia de R$ 48,5 bilhões no ano passado (foi a R$ 70,5 bilhões em 2008, antes da crise, e deve alcançar algo próximo a R$ 72,5 bilhões este ano, segundo previsões de mercado). Ainda pelos padrões contábeis brasileiros, seu lucro líquido veio de R$ 2,1 bilhões em 2000 para esperados R$ 22,7 bilhões neste ano (em 2009, o resultado foi de R$ 10,2 bilhões, depois do recorde de R$ 21,3 bilhões em 2008). O valor em bolsa da companhia passou de R$ 16,7 bilhões no último pregão de 2000, para R$ 275 bilhões na última segunda-feira. Os acionistas receberão cerca de US$ 3 bilhões de dividendos e juros sobre capital próprio relativos a 2010 (em torno de R$ 5,1 bilhões), comparados a US$ 246 milhões no ano de 2000.

A Vale comprou empresas mundo afora, disputou o controle de concorrentes, arrematou a Inco, uma das maiores do mundo em níquel e um dos orgulhos canadenses, diversificou-se para áreas como fertilizantes e carvão e virou um negociador à altura de seu tamanho ao puxar o minério de ferro de um patamar de US$ 20 a tonelada para até US$ 140 em dez anos. Em 2005, surpreendeu o mercado internacional ao emplacar um aumento de 70,5%, quebrando o padrão dos leves ajustes anuais, e este ano voltou à carga com a introdução da sistemática de reajuste trimestral, que em um mercado comprador permite recuperação mais rápida de preço. Soube dimensionar e tirar partido do voraz apetite de quem podia pagar pelo seu produto: a China.

Nesse período, o CEO da Vale tornou-se um dos executivos mais admirados e bem pagos. Em 2009, a remuneração paga à diretoria, que na média teve 6,33 membros no ano, somou R$ 43 milhões. Para este ano oito executivos terão R$ 79,8 milhões, dos quais R$ 23,5 milhões em ações, segundo declaração à CVM (Comissão de Valores Mobiliários). 

Por nove anos Agnelli ganhou o prêmio Executivo de Valor, um certificado de sucesso no meio empresarial conquistado em eleição promovida pelo Valor e os maiores headhunters em atuação no Brasil. Por conta desse desempenho, recebeu das mãos do presidente Lula, na festa dos 10 anos do jornal, em maio, um prêmio como um dos cinco executivos da década.

Tudo em sua vida profissional desde que chegou à Vale tornou-se superlativo, o que muitas vezes é criticado interna e externamente. O aparato de seguranças que o cerca em seus deslocamentos, os aviões que o servem – o Global, da Bombardier, que só se rivaliza com o Gulfstream G550, de seu desafeto Eike Batista, ou com o Falcon, da Dassault, todos com preços que variam de US$ 50 milhões a US$ 60 milhões, ou seu mais novo helicóptero da Eurocopter, avaliado em US$ 15 milhões – são de fazer inveja a donos de conglomerados. Mas também é superlativa a carga de trabalho que o executivo se impõe, unanimemente reconhecida como um dos motores do crescimento da Vale.

Mas se não há nada de errado com a companhia e suas perspectivas neste momento, como explicar o ocaso de seu brilhante CEO?

Segundo testemunho de nove diretores e ex-diretores da Vale, Agnelli se desgasta com seu time por sua personalidade forte e centralizadora, demonstra não confiar em seus diretores, proíbe-lhes o contato direto com o conselho de administração e a expressão de opinião, criou um sistema muito pouco transparente de promoções sem critério de meritocracia e acabou por restringir suas relações a um pequeno círculo, incapaz de criticá-lo, no qual desponta Carla Grasso, a diretora de Recursos Humanos e Serviços Corporativos. Com Agnelli, a Vale perdeu muitos de seus valiosos diretores, entre eles Gabriel Stoliar, Mozart Litwinski, Antonio Miguel Marques, Armando Santos, Diego Hernandez, Guilherme Laager, Phil Du Toit, Demian Fiocca, José Lancaster, Murilo Pinto Ferreira, Nélson Silva, Dalton Nosé, José Francisco de Martins Viveiros e Fabio Barbosa.

Ex e atuais executivos reclamam da relação com o presidente e da pouca importância que é atribuída à diretoria executiva, ausente em processos de decisão relevantes. Os diretores executivos, diz um deles, só foram oficialmente informados de que a Vale comprara a Fosfértil (um negócio de US$ 3,8 bilhões) no dia seguinte do anúncio ao mercado. O pedido de demissão de Fabio Barbosa, CFO (diretor-executivo de Finanças) desde 2002 e para o mercado o homem mais forte da companhia depois de Agnelli, assim como sua substituição por Guilherme Perboyre Cavalcanti, foram comunicados aos diretores e conselheiros em lacônico e-mail, numa sexta-feira, 25 de junho, durante o jogo do Brasil com Portugal na Copa do Mundo da África do Sul, deixando todos perplexos. Procurado na segunda-feira seguinte pelo Valor, Sergio Rosa, presidente do Conselho, se disse surpreso. Ele ainda desconhecia as razões da demissão. Da mesma forma o representante do Bradesco, Renato Gomes, admitiu ter sido surpreendido: “Fábio tinha um bom trabalho na companhia. Roger comunicou os motivos da sua saída ao representante dos acionistas, Mario Teixeira, ao longo do fim de semana. Mas como estava de férias ainda não recebi a informação”, afirmou na época ao Valor.

Naquela mesma segunda-feira, Agnelli colocou seu indicado na sala de Fábio Barbosa. Mas, de forma também pouco usual, Cavalcanti teve que esperar por três meses até ser oficialmente nomeado pelo conselho da empresa. Demorou igualmente meses a aprovação da nova estrutura executiva das áreas operacional, logística e comercial, que passou de unidades de negócios para uma estrutura matricial, assim como tem sido retardada a aprovação do novo plano de remuneração dos executivos.

Nada ou muito pouco dessas dificuldades transparece para o público externo. Cada vez mais a Vale tem aparecido em campanhas publicitárias ao redor do mundo e em grandes entrevistas com anúncios de planos – alguns recebidos com ceticismo, como o de tornar-se a maior empresa do mundo em biocombustível. Isso exigiria domínio de vastas extensões de terra, complexas relações contratuais de fornecimento de matéria-prima e de trabalho, conhecimento tecnológico e de mercado, que estão distantes da experiência da companhia.

Incomoda sobretudo ao público interno a sustentação dada por Agnelli a Carla Grasso, a quem cabe executar as decisões impopulares. Ex-secretária de Previdência Complementar do Ministério da Previdência no governo Fernando Henrique Cardoso, ex-mulher de Paulo Renato, ministro da Educação de FHC, Carla Grasso entrou na Vale em dezembro de 1997, logo após a privatização da empresa, como diretora de pessoal, administração e tecnologia da informação do centro corporativo e foi responsável pela “limpeza” da companhia, que incluiu, além do forte enxugamento de quadros, o afastamento de diretores e mudanças no plano de previdência dos funcionários, associados à Valia.

Agnelli não só a manteve mas a promoveu a diretora executiva, responsável também pelas áreas de TI, suprimentos, comunicação e atividades da corporação. Uma de suas funções, segundo depoimentos colhidos, é ‘fritar’ o executivo que cai em desgraça perante Agnelli. Um deles, depois de meses de ‘fritura’, que inclui exposição e cobrança em tom duro de supostos erros durante reunião de diretoria, teria enfartado durante uma viagem internacional. Demitiu-se em seguida e iniciou um novo negócio. Outro executivo, que se propôs a ser candidato a representante dos trabalhadores no conselho, foi demitido sem receber bônus a que tinha direito. Processou a Vale, tomou um processo e acabou por acusar a direção da empresa de abuso de poder e assédio moral. O processo corre na Justiça trabalhista do Rio.

Em comum, ex-executivos relatam a experiência de terem sido ungidos a gênio para cair de repente e sem muita explicação ao inferno, quando um tratamento frio começou a lhes ser dispensado.

Grasso não quis dar entrevista e, por meio da assessoria de imprensa, declarou: “Várias decisões são tomadas em consenso da diretoria executiva. Eventualmente, os diretores podem ter que executar alguma medida em nome do colegiado, o que não significa que tenha sido uma decisão individual”. Agnelli defende com veemência sua diretora, afirmando que ela é apenas a executora das decisões.

Como responsável pela área de comunicações, Grasso tampouco ajudou Agnelli em suas relações com a mídia. Em muitos momentos, quando negociava aquisições internacionais, Agnelli se irritou ao ver publicadas notícias sobre a operação. O executivo chegou a desconfiar até mesmo de seu conselho, de seus diretores, e tornou-se cada vez mais econômico nas informações para seu time. Ao Valor, inúmeras vezes disse que a publicação das notícias era crime, pois aquelas eram informações sigilosas, e que sabia quem as passava ao jornal. Como elas não foram obtidas de forma ilegal, o problema voltava para a própria Vale. Principalmente durante duas dessas operações, da canadense Noranda e da mineradora suíça Xstrata. Esta última, segundo um conselheiro, foi barrada pelo conselho para sorte da Vale. Teria sido um péssimo negócio porque logo veio a crise global, os preços dos metais desabaram e, para fechar a operação, a Vale teria que contrair uma dívida avaliada em pelo menos US$ 50 bilhões.

Agnelli usou, na semana passada, o argumento do crime para advertir os conselheiros de que nada poderia vazar em suas reuniões. Ele poderia reclamar se fossem informações estratégicas, mas não sobre o entrevero que se deu com fundos de pensão a respeito de suas declarações durante viagem à Zâmbia, em meados do mês passado, quando boatos sobre sua substituição já ganhavam corpo. Segundo o jornal “O Globo”, ele disse: “Tem muita gente procurando cadeira, essa é a realidade. E normalmente é a turma do PT. Toda eleição acontece isso. Agora, quem decide são os acionistas”. Sabendo dos bons números que teria a divulgar relativos ao trimestre já fechado, não teve dúvidas em manter sua aposta: “Qualquer decisão (sobre sua permanência no cargo) estará sempre fundamentada em resultados. O resto é jogo de bastidor, jogo de eleição, jogo político, jogo de sindicato”. 

Agnelli justifica que respondeu a pergunta insistente sobre se estava deixando a companhia, e quis apenas explicar que seus acionistas não tinham essa opinião. Mas, pelo período eleitoral e pelas acusações que a oposição tentava colar em Dilma, de que o PT estava fazendo um aparelhamento nas empresas nas quais o governo tinha participação, o comentário não caiu bem. Nem no governo nem nos fundos de pensão, que tomaram as dores e cobraram explicações, e nem no Bradesco, onde a identificação do banco com o executivo da Vale poderia provocar constrangimentos com o governo.

Agnelli teve com Lula um relacionamento mais de altos que de baixos. Esteve ao lado de Lula em todas as incursões internacionais do Presidente da República desde seu primeiro governo, emprestando-lhe um passaporte global. As relações ficaram ruins com a crise, em 2008, quando o governo apelou às grandes empresas para que mantivessem nível de emprego e investimentos, para o país passar sem traumas pela crise.

Mas a Vale esteve entre as primeiras a anunciar uma grande demissão. Lula passou a bater na empresa. Cobrou mais investimentos no Brasil. Agnelli tentou compor. Viu boas perspectivas no setor de fertilizantes e buscou jazidas fora do país. Comprou a Fosfertil, garantindo o que o governo queria: quebrar o oligopólio estrangeiro que se estabelecera no setor de fertilizantes após a privatização.

O governo também julgava que a empresa deveria compensar um Estado pobre como o Pará, porque o minério de ferro de Carajás é extraído sem compensação adequada em impostos. De Carajás a Vale extrai anualmente quase 100 milhões de toneladas de minério de ferro, isento de ICMS, porque é todo para exportação, e tributado em apenas 2% pela Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, sobre a receita líquida anual. A compensação seria uma usina siderúrgica no Estado. Projetos de exportação de placas (aço semiacabado) ficam próximos de portos, onde recebem o minério e o carvão importado. Esse ficaria no meio do caminho entre Carajás e o porto de Ponta da Madeira, no Maranhão, e não havia parceiros interessados. Agnelli resistiu, foi criticado por Lula, até o mercado julgar que sua cabeça estava a prêmio. Cedeu, em busca de reconciliação, sob crítica da área financeira da empresa.

Na siderúrgica do Pará, localizada em Marabá, o Valor apurou com diferentes fontes que os trabalhos de terraplenagem iniciaram-se no ano passado, como queria Lula, com tomada de preços de fornecedores. Mas até hoje o projeto de engenharia não foi encomendado. Tivesse o PSDB ganho as eleições, seria menor a ingerência política na Vale para obrigá-la a fazer investimento sem grande retorno. Um ano atrás, a vitória da candidata Dilma Rousseff, uma desconhecida no mundo político, sobre o candidato José Serra, do PSDB, parecia impossível. Agnelli poderia simplesmente ter tentado ganhar tempo ao postergar o projeto de engenharia. Ele explica que a demora na decisão deveu-se ao problema de logística, solucionado pelo governo com a construção de eclusas no Rio Tocantins.

As relações com seu maior apoiador junto ao PT, Sergio Rosa, também mudaram. No começo da gestão de Rosa, a Previ vinha de um período negro de déficit nas contas e travava guerra pública com o Opportunity, de Daniel Dantas, pelo controle da Brasil Telecom. Qualquer deslize do fundo e dos seus dirigentes significava munição para os adversários. Nesse contexto, a Vale era a menina dos olhos da Previ, que alcançou superávits recordes tendo a mineradora como estrela da sua carteira.

De postura extremamente discreta, Rosa nunca fez uma crítica pública a Agnelli, o que, por sua vez, acabou por identificá-lo com o presidente da Vale aos olhos de áreas do governo. O ex-presidente da Previ agiu como bombeiro nas relações governo e Vale, quando Lula passou a criticar Agnelli, mas pessoas próximas a Rosa consideram que o CEO da Vale não retribuiu o esforço. “Jamais se pediu cargo ou a cabeça de ninguém”, afirmou fonte dos fundos, referindo-se a boatos de que os fundos queriam a demissão de Carla Grasso, vista como o braço do PSDB na Vale junto com o ex-diretor Fábio Barbosa. “A Previ tinha apreensão de que ela saísse, porque acabaria alimentando esse tipo de comentário.” Procurado, Rosa disse que prefere sempre tratar dos assuntos da empresa internamente.

Um executivo experiente do setor avalia ser natural os problemas enfrentados por uma gestão de 10 anos, e, se o CEO não tem habilidade no trato com as pessoas da corporação, “leva a desgaste mesmo que tenha agregado bastante valor à companhia”.

Contra a boataria, Agnelli tem a mostrar o desempenho da companhia, que agrada investidores, sobretudo externos. A seu favor também conta o quanto cairia mal uma substituição entendida como só por razões políticas. A questão é saber quanto do seu desgaste para o público interno seria amenizado por uma eficiente política de RH e até que ponto o novo governo, que será acompanhado pelos demais acionistas, está disposto a correr o risco de sua substituição para renovar a Vale.

Publicado origináriamente no: Blog de luisnassif

Renato Rovai

A estudante de Direito Mayara Petruso atendendo ao chamado da campanha
tucana que transformou a campanha numa guerra entre gente limpinha e a
massa fedida, principalmente a que reside no Nordeste e vive do Bolsa
Família, escreveu as mensagens reproduzidas acima na noite de domingo,
logo após o anúncio da vitória de Dilma Roussef.

A estudante é uma típica paulistana de classe média alta. Um tipo que
não gosta de estudar, adora consumir e que considera nordestino um ser
inferior. Nada mais comum em almoços de domingo nos ambientes dessa
elite branca paulistana do que ouvir gente falando coisas semelhantes
ao que escreveu Mayara Petruso na sua conta no tuiter. Na cabeça da
menina, ela não deve ter falado nada demais. Afinal, é isso que deve
ouvir desde criança entre familiares e amigos.

Fui ao orkut de Mayara para checar minhas desconfianças. E confirmei
tudo que imaginava. Ela deve morar na região Oeste de São Paulo, onde
vive este blogueiro há muito tempo e onde este preconceito é ainda
mais latente do que em outras bandas da cidade. Digo isto porque uma
de suas comunidades é a do “Parque Villa Lobos”. Se morasse na Mooca
provavelmente nem se lembraria de tal parque. Se vivesse nos Jardins,
citaria o do Ibirapuera.

Mas há outras comunidades que revelam mais profundamente a alma da
“artista” que escreveu o post mais famoso do pós-campanha. Um post que
levou o debate sobre a questão do preconceito ao Nordeste ao TT
mundial no tuiter.

A elas: “Perfume Hugo Boss, Eu acho sexy homens de terno, Rede Globo,
CQC, MTV, Magoar te dá Tesão? e FMU Oficial”.

Não vou comentar suas comunidades “Eu acho sexy homens de terno” e nem
“Magoar te dá tesão?” por considerar tais opções muito particulares.
Mas em relação ao fato da moça estudar na FMU, a Faculdade
Metropolitanas Unidas, queria fazer algumas considerações. Nada contra
a instituição ou aos que nela estudam, mas pela situação social da
garota, ela deve ter estudado em escola particular a vida inteira e se
fosse um pouco mais esforçada teria entrado numa faculdade onde a
relação candidato/vaga é um pouco mais dura.

Ou seja, como boa parte dessa classe média alta paulistana, Mayara é
arrogante, mas não se garante. Muita garota da periferia, sem as
mesmas condições econômicas que ela deve ter conseguido vôos mais
altos, deve já ter obtido mais conquistas do que a de poder consumir o
que bem entende por conta da boa situação financeira da família.

Ontem, Mayara pediu desculpas pelo “erro”. Disse que afinal de contas
“errar é humano” e que “era algo pra atingir outro foco” e que “não
tem problema com essas pessoas”. Não desceu do salto alto nem pra se
penitenciar. Preferiu fazer de conta que era uma coisa menor, ao invés
de pedir perdão, afirmar que era um erro injustificável e que entendia
toda a revolta que seu post produzira.

“MINHAS SINCERAS DESCULPAS AO POST COLOCADO NO AR, O QUE ERA ALGO PRA
ATINGIR OUTRO FOCO, ACABOU SAINDO FORA DE CONTROLE. NÃO TENHO
PROBLEMAS COM ESSAS PESSOAS, PELO CONTRARIO, ERRAR É HUMANO, DESCULPA
MAIS UMA VEZ.”

Ela foi criada para isso. Para dispensar esse tipo de tratamento a
nordestinos e pobres e por isso a dificuldade de ser mais humilde. É
difícil para esse grupo social entender que preconceito é crime por
ensejar um tipo de xenofobia que coloca quem o pratica no mesmo
patamar de um tipo como Hitler. Ela odeia nordestinos. Ele odiava
judeus. A diferença é que ela não pode afogar de fato aqueles que
vivem na parte de cima do mapa. Já o alemão pôde fazer o que bem
entendia com aqueles que julgava ser um estorvo na sociedade que
governava.

Mas Mayara é o produto de um tipo de discurso. Ela não merece ser
responsabilizada sozinha por isso. Talvez seja o caso de alguma
entidade vinculada à cultura nordestina mover um processo contra a
estudante. Menos pra tirar dinheiro ou coisa do gênero, mais para
utilizar o caso como exemplo. E fazer com que ela atue em espaços
vinculados à cultura da região para aprender a ter mais respeito com a
história e com o povo dessa parte do Brasil.

Os verdadeiros culpados são outros. São aqueles que com seus discursos
preconceituosos têm alimentado esse separatismo brasileiro. E em boa
medida isso se dá pela nossa “linda e bela” mídia comercial e mesmo
pela manifestação de um certo setor da política que sempre que pode
busca justificar a vitória da aliança liderada pelo PT como produto do
“dinheiro dado a essa gente ignara e preguiçosa que vive no Nordeste a
partir do Bolsa Família”. Ou Bolsa 171, nas palavras de Mayara.

Mas esse comportamente também é produto de um tipo de preconceito
velhaco que nunca foi combatido de forma educativa e que é alimentado
diariamente nos ambientes familiares dessa elite branca. Cláudio Lembo
sabia do que estava falando quando usou essa expressão. Ou começamos a
discutir esse preconceito com seriedade, tentando combatê-lo com leis
claras, educação e cultura ou corremos o risco de mesmo avançando em
aspectos econômicos,  retroceder do ponto de vista de outras
conquistas democráticas.

Afinal, ainda há quem ache que pregar a morte daqueles que pensam
diferente é apenas um problema de foco.

Renato Rovai é editor da revista Fórum outro mundo em debate.

Aylton Silva

A possibilidade real da mocinha ser processada e condenada deve ser sim comemorada. Aliás, mais que isso, a repercussão que o fato está tendo, inclusive na grande mídia (TVs etc.), serve para destampar o poço do esgoto, e espalhar aos quatro ventos o mau cheiro que sai dali.

Ora, na esquerda, no PT, todos sabem que um dos motivos do “teto”, político e eleitoral, que não conseguimos ultrapassar no Estado é justamente esse reacionarismo de amplos setores da classe média (que, portanto, não está só na “elite”, mas se espraia por todo um segmento da classe trabalhadora um pouco melhor remunerada). Mas também entre nós, isto é apenas comentado, nunca é devidamente considerado nas nossas estratégias, quase como se isso já tivesse virado uma coisa “natural”. E, com isso, vamos deixando passar, e não nos atentamos a quanto deixamos de fazer, como partido, movimento social e como governo, na disputa ideológica.

Senão, vejamos: como governo, ajudamos um monte de jovens trabalhadores com o PROUNI a estudarem nas mesmas universidades onde esses preconceitos ou são disseminados (a FMU onde estuda a mocinha é uma delas), que formam o jovem para “disputar” na sociedade (o combustível necessário para que o preconceito sobreviva), ou onde não existe minimamente sequer uma cultura humanista que contraponha valores diferenciados; como partido, não temos nenhuma estratégia, junto a entidades sindicais, de professores, ou junto às ditas entidades de classe, ou mesmo junto aos nossos professores universitários petistas ou de esquerda, que permitam que a universidade, as faculdades, possam ser palco da disputa ideológica, e não apenas local de reprodução e de fortalecimento da ideologia do mercado, como cada vez mais é hoje (não me venham dizer que isto é impossível não: quando estudei numa escola de arquitetura que à época era a mais cara de SP, cheia de estudantes de origem burguesa ou de classe média alta, nossos professores, a maioria de esquerda, compravam a briga por um curso voltado ao entendimento da realidade que nos cerca, lembrando do compromisso de transformação social etc., coisa que hoje a maioria nem sonha em fazer, e olha que dali saíram um monte de arquitetos que foram trabalhar com movimentos sociais, nos nossos governos etc. Muitos daqueles professores, sei que hoje continuam dando aulas por aí, mas todos bastante “pianinhos”, devidamente domesticados nos seus “empregos”…); não cobramos nas federais novas (me refiro particularmente à UFABC, aqui na minha cidade), que as diretrizes dos cursos sejam minimamente progressistas (fazer campanha na Federal daqui foi desalentador…); não preparamos nossa juventude partidária para o embate ideológico no dia-a-dia das comunidades onde vivem, levando-as a gastar ao maior parte de suas energias apenas nas disputas internas, e por aí vai…

Muitos podem achar que confiro à escola (incluindo aí o ensino médio), à universidade, um papel demasiado, como se a luta de classes fosse quase tão somente movida a idéias, desconsiderando ou deixando em segundo plano as condições materiais de existência etc. No entanto, pergunto qual é o lugar, em nossa sociedade, em que a disputa ideológica teria, em tese, melhores condições de acontecer, principalmente para amplas massas de jovens – cada vez maior, abarcando boa parte dos advindos da classe trabalhadora – que, tendo ultrapassado o limite da luta pela sobrevivência, procuram entender o mundo em que vivem? Pergunto, onde boa parte dos nossos quadros dirigentes tiveram o primeiro contato com o pensamento de esquerda? Onde começaram a sua militância?

“Voltando ao começo” de minhas considerações, o mérito desse “destampar” essa tampa, é que agora teremos que encarar de frente essa luta, tirando-a dos seguros subterrâneos no qual o conservadorismo sempre a manteve e onde a alimentou. No entanto, não podemos nos enganar, pois não necessariamente o conservadorismo “recuará”: ao contrário, serão forçados a  buscar uma organicidade que talvez ainda não têm, e aglutinar todo esse conjunto disforme de “idéias” em ações cuja natureza ainda não sabemos o que será, mas podemos imaginar: reuniões e ações juntando pais, colegas de classe, vizinhos, professores, contra a “perseguição contra quem pensa diferente, contra a ditadura vermelha em ação…”; o fortalecimento de redes de direita na internet com o mesmo teor. Ou não?

E aí, meus caros, precisaremos também elevar o tom, e encarar de frente uma luta que, saindo dos subterrâneos e dando-se em terreno mais aberto, poderá conferir à luta de classes, no seu aspecto ideológico, um grande salto, se soubermos enfrentá-la adequadamente.

A respeito: uma boa condenação para mocinha e para os coleguinhas dela seria condená-los a trabalhar pesado, durante um ano, justamente naqueles trabalhos a que durante décadas os migrantes nordestinos se dedicaram em SP. Por exemplo, um ano na construção civil, como servente de pedreiro, fazendo massa, virando concreto etc. Isso não é sadismo: é algo didático, até para lembrá-la que nas paredes, nos pisos, da casa ou apê bacana onde ela deve morar, está ali plasmado o sangue e o suor de muitos nordestinos.

Alexandre Criscione
 
 
São auspiciosas as notícias de que a estudante de Direito paulista Mayara Petruso (foto acima) pode ser processada criminalmente por racismo, crime que cometeu recentemente no Twitter. E de que outros que se juntaram a ela naquele crime estão sendo identificados para sofrerem o mesmo tipo de processo.
 
Os crimes de racismo e de discriminação na internet datam de há muito tempo sem que jamais tenham ocorrido punições exemplares, de forma a pelo menos fazerem com que os racistas e discriminadores por orientação sexual, região do país etc. contenham as suas personalidades degeneradas.
 
No domingo à noite, usuários de redes sociais começaram a postar mensagens ofensivas ao Nordeste, relacionando o resultado da eleição presidencial à boa votação de Dilma na região. As mensagens foram desencadeadas após Mayara postar no Twitter a seguinte sentença:
 
@mayarapetruso: “Nordestisto não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado. #nordestisto”
 
Não satisfeita, Mayara terminou de expor suas perversões morais:
 
@mayarapetruso: “Brasileiros, agora fodam-se! Isso que da, dar direito de voto pra nordestino. #nordestisto”.
 
Essas postagens da moça no microblog foram o que bastou para desencadear uma onda surpreendente de mensagens furiosas contra negros e nordestinos que engolfou as redes sociais. Todavia, foram poucas dessas mensagens que se igualaram às da jovem paulista estudante de Direito em termos de perfil criminoso, pois ela pregou até assassinato.
 
Por chocante que seja, é preciso rever algumas dessas mensagens:
 
@dilma_Bebada: “Infelizmente quem decide eleição não é quem lê jornal, e sim quem limpa a bunda com ele. Quem perdeu foi o Brasil! #euquero45”
 
@emerlinlipe: “tem gente que fala que todos os brasileiros são iguais discordo… Não quero e não sou igual ao povo do Norte/nordeste”
 
@ClaytonAmerico: “Bem vou trabalhar porque não ganho bolsa família dos nordestinos. Nem faço 2 filhos por ano pra ter mais bolsa família
#nordestisto
 
@Ju_Balog: “Enfie seu OXENTE no cu, vagabundos q vivem de bolsa miseria, vc’s não trabalham 1/3 do q a gente em SP #nordestisto
 
@carolsalgueiro: “Rindo muito da tag #nordestisto. Já vi nordestino dizendo que é educado e inteligente, AVÁ!”
 
@FerLeoni: “Para eleitores de merda, uma presidente de merda! #nordestisto”
 
@suhelen1: “80% do amazonas vota na Dilma… cambada de índio burrooooooooooooo”
 
@andrebittarello: “Me tornei RACISTA HOJE POR CAUSA DE VOCÊS PRETOS FEDIDOS QUE SÓ QUEREM TER FILHOS E ENCHER A BARRIGA COM O DINHEIRO DOS QUE TRABALHAM!!!”
 
@edujunior: “Sou bem a favor de um muro separando sul/sudeste do norte/nordeste”
 
@DeehSativa: “No Sul/Sudeste tem muito mais gente bonita do que no Norte/Nordeste”
 
@LorenzoC_: “ADOREI O QUE A MAYARA PETRUSO DISSE. E XENOFOBIA É O CARALHO, ISSO QUE ELA DISSE É SIMPLESMENTE A VERDADE!”
 
@Pedroo_MG: “A cmo eu Queria Q o sul/sudeste se separasse do Norte/Nordeste. Pra até Q enfim Governo ñ ganhar eleição por dar esmola, e sim por projetos.”
 
@tayane_monteiro: “só nordestinos fdp pra vota na Dilma! Nordestino num serve pra NADA DE UTIL vem pra SP ENCHE O SACO e vota na merDilma”
 
@Mikafrauzola: “Bando de nordestinos FDP …..são tão burros, que qlqr idiota faz a cabeça dles….por isso q eu odeio nordestino…..”
 
@Mikafrauzola: “Tbm esse país é cheio de baiano morte de fome… por isso q ela ganhou….”
 
O que chama a atenção nessas barbaridades é que foram proferidas todas por jovens brancos, ao menos de acordo com as fotos deles nos perfis no Twitter em que foram publicados os textos acima. E, pelo que escreveram, fica claro que são paulistas.
 
O fato de jovens terem posições políticas e preconceitos tão formatados sugere que essa mentalidade decorre da criação que receberam dos pais, até mesmo quando as posições políticas deles não sejam do mesmo jaez das dos filhos.
 
Ninguém que pertença às classes média alta e alta de São Paulo terá sido surpreendido pelo nível de xenofobia, de racismo e de intolerância – e mesmo de ignorância – de jovens que se julgam “inteligentes e estudados”, mas que escreveram textos compatíveis com os mais baixos níveis de instrução ou de civilidade.
Desde que me conheço por gente – e tendo nascido e crescido na classe média alta paulistana, entre a qual vivo até hoje – que ouço preconceitos contra os nordestinos, os quais, em meu Estado e na minha cidade – e, sobretudo, no bairro paulistano em que resido –, sempre foram chamados de “baianos”, sendo-lhes atribuído tudo que há de ruim por aqui.
 
Esse preconceito extremamente arraigado entre a elite paulista sempre esteve lá e sempre ficou fora da imprensa, que jamais denunciou fenômeno que data de décadas e décadas e décadas. A campanha de José Serra à Presidência, porém, teve o “mérito” de expor à luz do dia essas perversões de classe, de etnia e geográficas.
 
Só uma punição exemplar dos que cometeram esses crimes, portanto, pode começar a inibir, se não o preconceito deles, a difusão aberta de suas “idéias” odiosas e repugnantes, vertidas por jovens que têm tudo na vida e que consideram natural externar os preconceitos que lhes foram incutidos no ambiente familiar enquanto cresciam