Aylton Silva

A possibilidade real da mocinha ser processada e condenada deve ser sim comemorada. Aliás, mais que isso, a repercussão que o fato está tendo, inclusive na grande mídia (TVs etc.), serve para destampar o poço do esgoto, e espalhar aos quatro ventos o mau cheiro que sai dali.

Ora, na esquerda, no PT, todos sabem que um dos motivos do “teto”, político e eleitoral, que não conseguimos ultrapassar no Estado é justamente esse reacionarismo de amplos setores da classe média (que, portanto, não está só na “elite”, mas se espraia por todo um segmento da classe trabalhadora um pouco melhor remunerada). Mas também entre nós, isto é apenas comentado, nunca é devidamente considerado nas nossas estratégias, quase como se isso já tivesse virado uma coisa “natural”. E, com isso, vamos deixando passar, e não nos atentamos a quanto deixamos de fazer, como partido, movimento social e como governo, na disputa ideológica.

Senão, vejamos: como governo, ajudamos um monte de jovens trabalhadores com o PROUNI a estudarem nas mesmas universidades onde esses preconceitos ou são disseminados (a FMU onde estuda a mocinha é uma delas), que formam o jovem para “disputar” na sociedade (o combustível necessário para que o preconceito sobreviva), ou onde não existe minimamente sequer uma cultura humanista que contraponha valores diferenciados; como partido, não temos nenhuma estratégia, junto a entidades sindicais, de professores, ou junto às ditas entidades de classe, ou mesmo junto aos nossos professores universitários petistas ou de esquerda, que permitam que a universidade, as faculdades, possam ser palco da disputa ideológica, e não apenas local de reprodução e de fortalecimento da ideologia do mercado, como cada vez mais é hoje (não me venham dizer que isto é impossível não: quando estudei numa escola de arquitetura que à época era a mais cara de SP, cheia de estudantes de origem burguesa ou de classe média alta, nossos professores, a maioria de esquerda, compravam a briga por um curso voltado ao entendimento da realidade que nos cerca, lembrando do compromisso de transformação social etc., coisa que hoje a maioria nem sonha em fazer, e olha que dali saíram um monte de arquitetos que foram trabalhar com movimentos sociais, nos nossos governos etc. Muitos daqueles professores, sei que hoje continuam dando aulas por aí, mas todos bastante “pianinhos”, devidamente domesticados nos seus “empregos”…); não cobramos nas federais novas (me refiro particularmente à UFABC, aqui na minha cidade), que as diretrizes dos cursos sejam minimamente progressistas (fazer campanha na Federal daqui foi desalentador…); não preparamos nossa juventude partidária para o embate ideológico no dia-a-dia das comunidades onde vivem, levando-as a gastar ao maior parte de suas energias apenas nas disputas internas, e por aí vai…

Muitos podem achar que confiro à escola (incluindo aí o ensino médio), à universidade, um papel demasiado, como se a luta de classes fosse quase tão somente movida a idéias, desconsiderando ou deixando em segundo plano as condições materiais de existência etc. No entanto, pergunto qual é o lugar, em nossa sociedade, em que a disputa ideológica teria, em tese, melhores condições de acontecer, principalmente para amplas massas de jovens – cada vez maior, abarcando boa parte dos advindos da classe trabalhadora – que, tendo ultrapassado o limite da luta pela sobrevivência, procuram entender o mundo em que vivem? Pergunto, onde boa parte dos nossos quadros dirigentes tiveram o primeiro contato com o pensamento de esquerda? Onde começaram a sua militância?

“Voltando ao começo” de minhas considerações, o mérito desse “destampar” essa tampa, é que agora teremos que encarar de frente essa luta, tirando-a dos seguros subterrâneos no qual o conservadorismo sempre a manteve e onde a alimentou. No entanto, não podemos nos enganar, pois não necessariamente o conservadorismo “recuará”: ao contrário, serão forçados a  buscar uma organicidade que talvez ainda não têm, e aglutinar todo esse conjunto disforme de “idéias” em ações cuja natureza ainda não sabemos o que será, mas podemos imaginar: reuniões e ações juntando pais, colegas de classe, vizinhos, professores, contra a “perseguição contra quem pensa diferente, contra a ditadura vermelha em ação…”; o fortalecimento de redes de direita na internet com o mesmo teor. Ou não?

E aí, meus caros, precisaremos também elevar o tom, e encarar de frente uma luta que, saindo dos subterrâneos e dando-se em terreno mais aberto, poderá conferir à luta de classes, no seu aspecto ideológico, um grande salto, se soubermos enfrentá-la adequadamente.

A respeito: uma boa condenação para mocinha e para os coleguinhas dela seria condená-los a trabalhar pesado, durante um ano, justamente naqueles trabalhos a que durante décadas os migrantes nordestinos se dedicaram em SP. Por exemplo, um ano na construção civil, como servente de pedreiro, fazendo massa, virando concreto etc. Isso não é sadismo: é algo didático, até para lembrá-la que nas paredes, nos pisos, da casa ou apê bacana onde ela deve morar, está ali plasmado o sangue e o suor de muitos nordestinos.

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