Há frases nitidamente imperialistas e machistas em Aristóteles. Há frases machistas e racistas em Kant. No entanto, não pode passar pela nossa cabeça, sem cair no ridículo, preparar obras desses autores com notas de rodapé alertando o leitor sobre a particularidade de época dessas frases. Por que isso seria ridículo? Por uma razão simples: o clássico se caracteriza por falar de uma situação particular com tal maestria que ele a eleva à condição universal, extrapolando seu contexto, sem que com isso precise qualquer retoque – até porque os retoques que não puderem ser universalizados é que garantem que o conteúdo mais importante seja universalizado.

Quem não sabe isso não sabe o que é um clássico. Então, pode querer “consertar” obras clássicas. Age como um restaurador de quadros que, estupidamente, corrige um Picasso ou uma Anita Malfatti e, então, descobre que ao fazer isso tornou tais obras sem valor.

A educação brasileira já faz alguns anos que está caótica. Então, é fácil de entender que já tenhamos em cargos de importantes instituições governamentais que lidam com a educação, aqui e ali, pessoas que não tiveram uma educação formal regular e, então, não aprenderam como ler os clássicos – mal sabem o que é um clássico. Em nenhum momento leram Machado de Assis. Nem mesmo quando crianças alcançaram Monteiro Lobato. Essas pessoas teriam de voltar para a escola. Mas, qual a escola? Destruímos a escola pública e a escola particular já está no mesmo caminho.

Logo teremos o círculo vicioso: os que comandam a educação no Brasil serão tão sem educação quanto os que, estando na escola, terão como destino a substituição desses comandantes. E então, sem mais, esses bárbaros irão censurar Kant, Aristóteles, Picasso, Anita Malfatti, Machado de Assis e, é claro, Monteiro Lobato. Dirão que não estão censurando e, sim, “melhorando”, “corrigindo”, colocando “detalhes de alerta”. O que pode acontecer de ruim quando chegar esse tempo, que já está de portas abertas para nós? O pior pode ser isto: a sociedade não perceber que o que essas pessoas se propõem a fazer é ridículo e denota que estão no lugar que ocupam de modo ilegítimo. São incompetentes.

O ministro da Educação Fernando Haddad não concordou com a barbárie do CNE de rasurar a obra de Lobato, acusada de modo descabelado de racista. No entanto, triste do país que precisa ter no ministro da Educação a figura do policial do policial. Ou seja, teremos de ficar à mercê do eventual iluminismo de um mandatário no MEC para que o CNE não volte a agir como visigodos em Roma?

Está na hora da sociedade brasileira se perguntar como ela chegou ao que chegou. Ou seja, como que montamos um Conselho Nacional de Educação (CNE) que, ao invés de ser a elite intelectual da nação, se comporta segundo personagens que ateariam fogo à biblioteca de Alexandria exatamente para poderem aquecer a cidade no inverno?

Há pessoas que culpam o “politicamente correto” nesse caso. Outros dizem que seria a estupidez de alas do “movimento negro”. Nem uma coisa, nem outra. O “politicamente correto” nasceu sem caráter revisionista. Ela visava o futuro de nossa linguagem, para suavizar relações, não a destruição do patrimônio cultural. E o “movimento negro”, ainda que tenha muito que aprender com a capacidade de rir de si mesmo do “movimento gay”, não pode carregar nas costas o que foi feito por pessoas que não o integram – não oficialmente. A atitude do CNE é do CNE. O erro veio dali. É um erro que denota falta de familiaridade com a cultura. Precisamos corrigir isso.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Comentários
  1. Eugênio diz:

    O episódio da Revolução de 1932 evidenciou as tensões havidas entre o papel desempenhado por São Paulo na construção da nação e suas aspirações frustradas com a Revolução de 1930.
    A memória estabelecida desde então somente parcialmente guarda correspondência com o complexo quadro político e social que culminou com a guerra civil. Em 10 de agosto, depois de um mês de conflitos, MONTEIRO LOBATO enviava uma carta emocionada a Waldemar Ferreira, um dos líderes da “revolução”, na qual apresentava um balanço da crítica situação em que se encontrava São Paulo, observando ao seu amigo que “há o que a boca diz e há o que o coração sente. Minha boca diz o que todos neste momento dizem – mas meu coração, e talvez o de São Paulo inteiro, sente o que vai escrito nas tiras anexas”. E o que o coração de LOBATO expressava traduzia-se num texto intitulado “A defesa da vitória de São Paulo”, em que deixava claro que, para os paulistas, só havia dois caminhos: hegemonia ou separação.
    Para ele, o que se passava era uma “guerra de independência disfarçada em guerra constitucionalista” e exortava os dirigentes paulistas a não sucumbir aos apelos da “linda ideia romântica da brasilidade”. O alongar-se da guerra acirrou o clima de animosidade, expresso na crescente repulsa de alguns paulistas aos naturais de outros estados. Mário de Andrade, que no início portava-se como crítico, vendo a guerra como uma “injustiça”, não tardou em colaborar anonimamente com o Jornal das Trincheiras, posteriormente lamentando-se não poder estar no front. Após o armistício, manifestava ao amigo Carlos Drummond de Andrade o rancor que lhe dominava a alma: “No momento, eu faria tudo, daria tudo para São Paulo se separar do Brasil”.

    http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/o-espirito-que-nao-descansa

    Portal Luis Nassif

    http://www.luisnassif.com/forum/topics/o-espirito-que-nao-descansa?xg_source=activity

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