Entrevista com Lula por Helio Campos e Ricardo Kotscho (via brasileiros)

Posted: 22/12/2010 in Lula
Etiquetas:, , , ,

Eu briguei a vida inteira para ser presidente… Agora acabou… Graças a Deus, acabou bem…”

por Hélio Campos Mello e Ricardo Kotscho

Encontramos Luiz Inácio Lula da Silva, um senhor grisalho de “guayabera” branca, calça e sapatos pretos, já na pista do aeroporto de Congonhas para dar início a mais uma viagem de rotina. Conforme o combinado com ele na véspera, vamos entrevistar o presidente Lula nessa viagem a Ribeirão Preto e depois a Brasília, para fazer um balanço dos seus oito anos de governo. Faltavam 38 dias para Lula terminar seu segundo mandato, mas o clima já era de despedida.

Até os tripulantes da FAB, escalados para esse voo no Embraer 190 – o jato executivo reserva da Presidência (o AeroLula estava em manutenção) -, vieram pedir para tirar uma foto com o presidente antes de ele ir embora. “Preciso começar a desacelerar”, repete para si mesmo, evitando pensar no que pretende fazer depois de passar a faixa presidencial, no dia 1o de janeiro de 2011, para sua amiga Dilma Rousseff, a sucessora que ajudou a eleger do alto dos mais de 80% de aprovação do seu governo.

Mais que uma entrevista de prestação de contas, essa foi uma conversa entre velhos amigos, três sexagenários que se conheceram no final dos anos 1970, na cobertura das históricas greves dos metalúrgicos do ABC comandadas por Lula – o líder sindical, o repórter e o fotógrafo da revista IstoÉ – que naquela época jamais poderiam imaginar um filme com esse desfecho.

Nessa viagem pelo tempo, em que foi acompanhado pelo ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência, Lula não deixou pergunta sem resposta e respondeu até sobre o que não perguntamos, quando falou da sua polêmica política externa e da questão do Irã. Melhores e piores momentos dos oito anos, expectativa sobre o governo Dilma, as tensas relações com a imprensa, as principais conquistas e o que faltou fazer, o adversário tucano, a decepção com Obama, as histórias e os personagens que o marcaram, o que pretende fazer da vida. Falamos um pouco de tudo e, ao final da conversa, Lula parecia satisfeito consigo mesmo, com cara de missão cumprida.

Valeu, amigo Lula.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – Quem quer adoçante?
Brasileiros –
(Um jantar em sua homenagem oferecido pela comunidade luso-brasileira.).
Eu não estou tomando café, presidente, obrigado… Parei de fumar… A que horas você saiu daquela festa ontem?

Presidente Lula – Mais de meia-noite… Foi uma festa portuguesa com certeza. Cheguei em casa uma e pouco da manhã e agora, antes das nove, já estou aqui dentro do avião. Eu trabalho muito…

Brasileiros – Bom dia, presidente. Para começar, vou fazer uma pergunta difícil: tudo bem?
Presidente Lula –
Buon giorno… Sabe que esse “tudo bem” não é fácil da gente responder… Um dia desses, eu perguntei “tudo bem?” para uma mulher no elevador e ela me respondeu: “Você fala tudo bem porque ainda não foi à feira hoje!”. Mas isso foi no tempo da inflação a 80%… Aliás, eu estava lendo aqui a matéria (publicada na edição de novembro da Brasileiros) sobre o livro do Maílson da Nóbrega, que era o ministro da Fazenda na época, muito interessante. Mostra o poder que o Roberto Marinho tinha. Ele descreve como o Sarney o chamou para ir lá na ilha dele, no Maranhão. Depois de três horas de conversa, o Sarney fez o convite para ele assumir o Ministério, mas explicou que ainda teria de fazer algumas consultas políticas. E pediu para ele conversar com o doutor Roberto Marinho. O Maílson foi lá, conversou durante várias horas com o doutor Roberto Marinho e, terminada a conversa, o doutor Roberto Marinho disse que gostou dele. Lá, ele encontrou com o Antonio Carlos Magalhães, que também tinha ido conversar com o doutor Roberto Marinho, que lhe comunicou: “Olha, Maílson, o homem te aprovou!”. Aí, ele foi novamente procurar o Sarney, porque o presidente Sarney ia anunciar a nomeação. Mas, antes de ele chegar ao Sarney, a Globo já deu a notícia sobre o novo ministro da Fazenda. O Maílson diz assim: “Aí que eu descobri que o doutor Roberto Marinho tinha força no poder paralelo…”. O Sarney ainda não tinha indicado oficialmente o nome dele e a Globo anunciou o novo ministro. Não deixa de ser hilário…


Brasileiros – Alguém ainda tem esse poder? Seria possível acontecer algo parecido hoje em dia ou o País mudou?
Presidente Lula –
Acho que não é possível você exercer a Presidência da República, se estiver subserviente a algum setor, a algum empresário ou a algum político. Ou seja, você só pode exercer a Presidência corretamente se estiver totalmente independente para tomar as decisões. Eu tenho um profundo respeito pela imprensa brasileira, tenho um profundo respeito pela democracia, mas as pessoas precisam aprender que a liberdade de imprensa é, sobretudo, a boa qualidade da informação, a neutralidade da informação, a isenção da informação. Se a sociedade puder, livremente, fazer suas opções e interpretações daquilo que ela vê, ouve e lê, a imprensa cumpre seu papel. Você participou daquele fatídico almoço na Folha de S.Paulo, em 2002, quando eu me levantei da mesa e saí porque fui desrespeitado. Foi o último. Então, eu acho que essa relação entre a imprensa e o governo mudou. Mudou porque mudou o Brasil, porque mudou a economia, porque mudou a consciência das pessoas. Melhorou a visão empresarial, melhorou a visão dos trabalhadores, os meios de comunicação são muito mais numerosos. Nós temos, hoje, muito mais opções. Não temos apenas uma revista ou um canal só de televisão, apenas um jornal. Temos muitos jornais, muitas televisões, temos a internet… Acho que isso é muito bom para o Brasil, isso é bom para o povo brasileiro.

Brasileiros – Presidente, faltam poucas semanas para o término dos seus dois mandatos como Presidente da República. Como o senhor gostaria de ser lembrado pelos historiadores do futuro, daqui a cem anos?
Presidente Lula –
É muito difícil responder a esta pergunta. Seria presunção da minha parte dizer como é que eu quero ser lembrado. Isso depende da ótica das pessoas que forem estudar o que aconteceu no período do meu governo. Certamente, se algum historiador, daqui a cem anos, for consultar apenas um ou outro jornal para saber como foi o meu governo, ele poderá ter uma impressão negativa. Mas se esse mesmo historiador tiver o cuidado de analisar além da imprensa brasileira, a imprensa internacional e acessar a internet da época, ver as mudanças ocorridas na economia brasileira, irá constatar a melhoria no padrão de vida do povo brasileiro. Assim, ele poderá ter uma outra impressão, eu diria favorável, do nosso governo, daqui a cem anos. Mas, de qualquer forma Ricardo, a nossa passagem pelo governo é como se fosse a construção de uma casa. Se eu fiz o alicerce, o alicerce está feito. Se eu fiz a parede, a parede está feita. Se eu fiz o telhado, o telhado está colocado. Ou seja, as pessoas só podem ver aquilo que está sendo feito. Eu, sinceramente, gostaria de ser lembrado da forma mais honesta possível, seja por um pensamento contrário ou a favor do meu governo. Só quero que a pessoa seja justa na avaliação que está fazendo. Depois, é o seguinte: não dá para escolher como você quer ser lembrado. Tem gente que vai se lembrar do Ronaldão pelos gols que ele fez no Inter de Milão, que vai se lembrar dele quando jogou no Barcelona, que vai se lembrar dele da Copa do Mundo de 2002… Tem gente que vai se lembrar do Ronaldo do Corinthians… Então, vai depender muito sob qual ótica a pessoa estiver analisando.


Brasileiros – Se o senhor tivesse de definir em poucas palavras qual a marca que ficou do seu governo, o que diria? Por exemplo: Fernando Henrique Cardoso foi o presidente do Plano Real e da estabilidade econômica. E no seu caso?
Presidente Lula –
Foi o governo da inclusão social. Veja bem, Ricardo, deixa eu te falar uma coisa: um governo poderia ser medido por uma única coisa, mas nós não podemos ser. Porque, veja, quando eu falo em inclusão social, é que nós nunca tivemos uma relação entre Estado e sociedade como nós temos agora. Nunca tivemos a participação da sociedade na condução do governo como nós temos agora. Você deve ter visto o jornal Valor desses dias: todas as empresas de economia aberta tiveram o maior ganho da história delas, tivemos o maior número de empresas criadas… Nós vamos chegar a dois milhões e meio de empregos criados com carteira profissional assinada, só de janeiro a outubro deste ano. No nosso período, registramos o mais importante processo de distribuição de renda. É um conjunto de medidas que nós tomamos, voltado para a inclusão social de milhões de brasileiros. Até me assustei outro dia em uma reunião sobre microcrédito com a quantidade de coisas que está acontecendo nessa área. Eu, que sou o presidente da República, não tinha dimensão do que está acontecendo com o microcrédito em nosso País.

Brasileiros – No começo do governo, o senhor admitia que teria dificuldades na área econômica, perante a difícil situação em que o País se encontrava, e repetia sempre: “Nós só não podemos errar na política”. Ao fazermos um balanço desses oito anos, notamos que o governo acabou acertando mais na economia e encontrou mais dificuldades na área política. O que aconteceu? Por quê?
Presidente Lula –
Nós tivemos dificuldades nos dois, acertamos nos dois e também erramos nos dois, na política e na economia. Tivemos um extraordinário crescimento econômico já em 2004. Quando eu falei do espetáculo do crescimento, em agosto de 2003, não foram poucas as charges e os artigos irônicos com o presidente da República. No ano seguinte, nós crescemos 5,2%, um número excepcional que há muito tempo não acontecia no Brasil. Em 2005, nós cometemos um erro na política econômica, apertamos muito, não crescemos. Ao mesmo tempo, foi o ano da grande crise política, tivemos problemas sérios. No balanço geral, acho que nós conseguimos ir bem nos dois, nos saímos bem na economia e nos saímos bem na política.


Brasileiros – Se pegarmos agora os indicadores econômicos e sociais de 2003 e compararmos com os números de 2010, até os líderes da oposição reconhecem que o País melhorou em todos os campos. Com toda franqueza, ao assumir o governo o senhor sonhava com esses resultados e a consequente aprovação do governo acima de 80% no final do segundo mandato? O senhor esperava mesmo isso?
Presidente Lula –
Não, veja… A única coisa que eu tinha certeza era que eu não podia errar, eu tinha convicção de que, se eu errasse, nunca mais um trabalhador iria chegar à Presidência da República. Então, eu tinha de acertar, eu tinha de provar a cada dia, a cada hora, que nós éramos capazes de governar esse País. Ninguém precisava provar, mas eu precisava provar. Graças a Deus, saímos vencedores.

Brasileiros – Em que área se deu a principal mudança positiva e qual foi a maior deficiência do seu governo, que ficarão como herança para a sua sucessora… (Antes que eu terminasse de fazer a pergunta, o taifeiro da Aeronáutica vem com o carrinho e começa a servir o café da manhã completo: frutas, pães, frios, omelete, sucos, café expresso.)
Presidente Lula –
Espera aí… Agora, eu vou comer… Sabe, um dia desses estava vindo nesse avião e peguei um pacotinho de manteiga… Não conseguia abrir a embalagem. Você tem de abrir com a faca, é um absurdo. Fiquei invocado e liguei para o Inmetro… Fiz uma denúncia para o Inmetro, falei que isso era uma vergonha. Essa aqui você puxa e abre, tem outras que não têm como abrir… O Inmetro mandou uma certificação mostrando que nenhuma marca estava dentro das normas, e comunicou às empresas para consertar…

Brasileiros – Presidente, saiu isso no Fantástico domingo… Todas as empresas foram reprovadas e foram obrigadas a mudar a embalagem.
Presidente Lula –
Mas o que Fantástico não falou é que fui eu que fiz a denúncia, porque certamente o Inmetro não comunicou para eles…

Brasileiros – Voltando para a pergunta: em que área se deu a principal mudança positiva e qual foi a deficiência do seu governo, que fica de herança para a sua sucessora?
Presidente Lula –
Ricardo, se fosse fácil resumir assim, meu filho, eu poderia dizer muitas vezes que foi a inclusão social. Eu sempre vou dizer que a inclusão social foi a grande conquista do nosso governo, mas é preciso especificar o que é essa herança social, ou seja, você tem o Bolsa Família, você tem uma redução da pobreza, a geração de empregos, a distribuição de renda, então eu acho que a inclusão social foi o grande mote.

Brasileiros – E qual foi a principal deficiência, a herança maldita do seu governo?
Presidente Lula –
Isso não existe, mas certamente existem coisas que a gente não conseguiu fazer. Não existe herança maldita, sobretudo para a Dilma, porque tudo que nós construímos, nós construímos juntos. Pode ser que depois de alguns meses ela descubra uma herança maldita…

Brasileiros – Mas ela não vai poder falar, ela participou do governo… Presidente, o senhor percorreu o Brasil inteiro, várias vezes, para cima e para baixo. Nunca um Presidente viajou tanto pelo País. Qual foi o lugar que mais o marcou, a cena, a pessoa, a viagem, que ficará para sempre em sua memória?
Presidente Lula –
Ah, tem muita coisa! A minha cabeça não é uma máquina fotográfica… É uma máquina de filmar… Tem muita coisa na minha cabeça, Ricardo. Por exemplo, a primeira vez que eu fui visitar uma plataforma da Petrobras. Eu fiquei muito emocionado, porque é um monstro, é uma cidade de aço. Antes de eu chegar à Presidência, diziam que a gente não tinha tecnologia para fazer, e nós fizemos e mostramos para o Brasil. Também quando eu cheguei ao canal da transposição do São Francisco… Quando a gente fica sobrevoando a região de helicóptero e vê aquele canal de água no meio do sertão seco, é um negócio emocionante… Agora, o que mais me emociona mesmo é que em volta das obras estão as pessoas que fizeram aquilo ali ou se beneficiaram delas. A alegria delas é contagiante…

Brasileiros – Lembra do que te falou uma dessas pessoas…
Presidente Lula –
Posso me lembrar de uma mulher em Cabrobó, porque ela me contou a sua história. Quando começou o canal do São Francisco, ela pediu 50 reais emprestados para o sobrinho dela e começou a fazer pastel para o pessoal da obra. Vendeu muito pastel e guaraná e começou a oferecer mais coisas. Em seis meses, ela estava com um restaurante, servindo mais de 400 refeições, comprou motocicleta… A alegria dela era incrível. Ela falou para mim: “O meu maior orgulho é que neste ano eu paguei 5 mil reais de Imposto de Renda…”. Pois é, enquanto o presidente da República estava recebendo devolução – no ano passado, eu recebi a devolução -, essa mulher estava pagando 5 mil reais de Imposto de Renda, e ela falava com orgulho daquilo. A outra história que eu me lembro é a de um baixinho do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, lá de Pernambuco. Ele veio para uma reunião comigo, em Brasília, e eu percebi que ele não tinha dente. E eu falei: “Companheiro, não dá para colocar dente na boca?”. “Ah! Não tenho dinheiro”, ele respondeu. Aí, eu perguntei para o governador Eduardo Campos: “Não tem um programa Brasil Sorridente lá em Pernambuco?”. “Tem, presidente.” “Então leva esse companheiro!” Aí, ele levou o baixinho ao dentista e depois eu encontrei esse companheiro com dentinho na boca, bonitinho, e ele me falou quando o encontrei de novo: “Fazia muito tempo que eu não conseguia mastigar, agora eu estou mastigando tudo. Eu não podia comer uma castanha, eu não podia comer uma carne! Presidente, só falta o senhor me dar uma coisa, agora que eu estou com a boca boa… Eu preciso de um carrinho…!”. Mas deixa eu dizer uma coisa antes da próxima pergunta: vocês precisariam viajar comigo para ver as grandes obras que estamos tocando. Hoje, o Brasil está construindo as três maiores hidrelétricas do mundo, estamos fazendo as duas maiores ferrovias e as duas maiores refinarias do mundo. É pouco?


Brasileiros – Presidente, do que o senhor mais vai sentir falta ao deixar o governo?
Presidente Lula –
Eu acho que eu vou sentir falta das amizades que eu construí nesses oito anos. Vou voltar agora para o meu berço natural, o meu ninho em São Bernardo, deixar de lado amigos que conheci nos anos de governo. Foi muita gente que eu conheci, e agora cada um vai cuidar da sua vida. Vou dizer uma coisa para você: eu estou consciente de que, ao deixar a Presidência da República, eu tenho de desencarnar do mandato. É um processo de desencarnação mesmo. Eu quero ficar desintoxicado do poder, fazer uma limpeza no corpo, tirar da minha vida tudo que não precisa, sabe… Tenho de começar a desacelerar. Porque eu preciso ficar o mais próximo possível da vida de um ser humano normal, e não ficar querendo curtir um status de ex-presidente, que não tem importância. Porque ex-presidente, você sabe, é que nem ex-marido, vale muito pouco… E eu também não quero ficar vivendo de saudade, sabe como é? Eu vou guardar recordação das coisas boas e vou ter de tocar a vida para a frente…

Brasileiros – O que o senhor gostaria de fazer nessa nova fase que começa a partir do dia 1o de janeiro de 2011?
Presidente Lula –
Eu quero voltar ao Pacaembu para ver jogo do Corinthians, vestido de torcedor, encontrar os meus companheiros do sindicato e tomar uma cerveja, eu quero ser um homem comum…

Brasileiros – Como era antes de ser presidente…
Presidente Lula –
É isso… Um pouco mais livre até… Porque, antes de ser presidente, eu queria ser presidente, e eu agora já fui presidente…


Brasileiros – Por falar nisso, o que o senhor gostaria de ter feito, e não conseguiu, para melhorar a vida do povo brasileiro? Qual foi a sua maior frustração. E qual foi a sua maior alegria no governo?
Presidente Lula –
Alegrias foram muitas e frustrações, também muitas. Antes de terminar o mandato, a gente não deve ficar dizendo que foi tudo só alegria. Eu vou dizer para você que a minha maior tristeza no governo não foi o mensalão, nem foram as críticas da oposição. Para mim, a coisa mais dolorida foi a tentativa de culpar o governo por aquele acidente da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Nunca vi tanta perversidade de alguns setores dos meios de comunicação, ao tentar jogar nas costas do governo a responsabilidade pelo maior acidente aéreo do País. Depois que ficou provado que tinha sido erro humano, ainda assim nenhum crítico teve coragem de pedir desculpas. Este foi o momento mais duro nos oito anos de mandato.

Brasileiros – E a maior alegria?
Presidente Lula –
Meu mandato é um rosário de coisas boas, mas, obviamente, quem conviveu comigo sabe que eu colocava eleger a minha sucessora como uma das grandes conquistas do meu governo. E conseguir, depois de oito anos de mandato, eleger a primeira mulher presidenta da República do Brasil, eleger uma mulher que a maioria dos políticos não acreditava que pudesse chegar lá, é bom demais, é o maior reconhecimento pelo nosso trabalho. Tenho certeza de que a Dilma vai ser uma excepcional presidenta da República.

Brasileiros (brincando) – Então, tua maior alegria vai ser na hora em que passar a faixa para ela… E eu pensei que a tua maior tristeza tivesse sido quando eu saí do governo…
Presidente Lula –
Sempre tem um momento de tristeza no governo quando alguém sai. Na verdade, são dois momentos diferentes. Uma coisa é quando é o ministro que pede para sair, é o cara que procura o presidente e comunica: “Presidente, eu vou sair, porque eu quero ser candidato a isso, vou fazer tal coisa na vida”. O cara só comunica e não se preocupa em saber se o governo vai ficar bem ou mal. O cara vai embora e pronto. Agora, quando é o presidente que decide tirar o cara… haja sofrimento!

Brasileiros – Para você, sempre foi muito difícil isso, mandar alguém embora, demitir um amigo, eu me lembro, desde os tempos do sindicato…
Presidente Lula –
É difícil porque tem gente que chora, tem gente que fica às vezes sem falar nada… Teve gente que começou a chorar antes mesmo de eu comunicar a demissão. O bom do ser humano é isso, o lado emocional estar presente em todas as coisas. Mas, realmente, é muito difícil você chegar para o cara e falar: “Olha, companheiro, eu não quero mais você trabalhando comigo”. Agora, se é o contrário, o sujeito chega para você com a maior desfaçatez e diz simplesmente: “Presidente, eu vou embora!”.

Brasileiros – Em algum momento, o senhor se arrependeu de ter sido eleito Presidente?
Presidente Lula –
Eu briguei a vida inteira para ser presidente… Você me conhece, no sindicato, quando as coisas estavam feias eu dizia: “Quem quiser me derrotar vai ter de ir para a rua”. No PT e no governo, a mesma coisa: eu dizia que quem quisesse me derrotar, teria de ir para a rua. De modo que, Ricardo, o importante é que eu vou terminar o meu mandato de oito anos sem mágoas, sem nenhuma razão para ter nenhuma tristeza. Não há razão para guardar qualquer mágoa dos meus opositores nem de nenhum companheiro. Fui oposição muito tempo, e sei qual é o papel da oposição – sobretudo, fazer oposição quando o governo está bem.


Brasileiros – Pelo jeito, você está chegando ao final do seu governo de alma leve…
Presidente Lula –
De alma leve… Me sinto muito mais sabido do que quando entrei, muito mais preparado. Com muita humildade, vou utilizar todas as coisas que foram bem-sucedidas no meu governo para trocar experiências com países mais pobres do que o Brasil. Se você quiser encontrar um homem de alma limpa hoje, olhe para mim… Te digo que Deus foi generoso comigo em excesso, por ter me permitido fazer tudo o que eu fiz. Não é uma obra de capacidade e de inteligência, é alguma coisa superior guiando a gente. Eu acredito nisso.

Brasileiros – Ao se despedir de Fernando Henrique Cardoso, no dia da sua posse, em 2003, o senhor disse a ele na porta do elevador: “Saiba, Fernando, que você deixa aqui um amigo”. O que vai dizer para a Dilma nessa hora, ao se despedir dela?
Presidente Lula –
Não sou eu, é ela quem vai ter de dizer alguma coisa para mim… Eu vou te contar uma coisa, embora eu tenha consciência de que “rei morto, rei posto”, embora eu tenha consciência de que a Dilma tenha de montar um governo com a cara e à semelhança dela, eu não sou inocente para não saber que tenho responsabilidade. Não sou inocente para desconhecer a relação que eu tenho com a sociedade brasileira. Quero exercitar essa relação de amizade, a respeitabilidade que eu conquistei e o companheirismo que eu produzi no governo para ajudar a Dilma a fazer mais e melhor do que eu fiz.

Brasileiros – Pegando um pouco, o que o senhor falou sobre a oposição em seu discurso da vitória, a presidente eleita estendeu a mão à oposição. Como será a sua postura em relação ao Fernando Henrique, ao PSDB, o senhor vai trabalhar para uma união…
Presidente Lula (cortando a pergunta no meio) –
Não existe essa possibilidade, não existe. Nós temos de ter claro o seguinte: Partido Democrata é Partido Democrata, Partido Republicano é Partido Republicano, PSDB é uma coisa e PT é outra coisa. Está certo que nós temos amigos comuns, que de vez em quando, no afã de nos ajudar, falam pensando que a gente é a mesma coisa… E não é, não tem similaridade entre um tucano e uma estrela, não tem. Já estivemos próximos, é verdade, no começo da criação do PSDB, por ocasião da Constituinte, ou seja, já estivemos bem mais próximos do que hoje, mas isso acabou com o tempo.


Brasileiros – Só para lembrar um fato: no final de 1993, em um almoço na Cantina do Mario, discutindo o cenário para a campanha presidencial de 1994, o senhor chegou a falar com o Tasso Jereissati sobre a possibilidade da formação de uma chapa PT-PSDB…
Presidente Lula (cortando a pergunta) –
Não, não falei só com o Tasso Jereissati, falei com mais gente. Era o Tasso, era o Fernando Henrique, era o Sérgio Machado, era o José Serra, falei com todos eles. Nós chegamos a discutir a composição da chapa, mas não foi possível. E eu acho que nem eles devem ter remorso e nem nós. Ou seja, nós trilhamos caminhos diferenciados, o que é importante para a democracia brasileira. O que é grave é que, na campanha passada, os tucanos se apresentaram com uma predisposição de baixar o nível do debate, como eu não via há muito tempo. Sinceramente, do ponto de vista de quem vê de fora, o Serra saiu um pouco menor desta vez que em 2002. Do ponto de vista da questão ética, da questão moral, eu acho que ele saiu inferiorizado, o tempo é que vai mostrar. O tipo de campanha que ele fez não combina com a trajetória política dele. Eu vou ter um comportamento na minha vida agora como teve o Pelé, como teve o Rivelino, que pararam de jogar, mas não desaprenderam. Vou ser apenas torcedor, e torcedor tem mais autonomia. Pode gritar mais, não têm as barreiras que um dirigente partidário tem.

Brasileiros – Não vai ser técnico, mas vai dar seus palpites, é isso?
Presidente Lula –
Vou, sim… Sou um homem hoje realizado, um homem feliz.

Brasileiros – Dá para perceber…

O comandante informa que o pouso está autorizado e, dentro de instantes, pousaremos no aeroporto de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Fechamos a mesa, desligamos os gravadores, mas o presidente continua falando.

Presidente Lula – Agora em off… (ao final, ele só pediu para não publicar um determinado trecho da conversa). Me lembro quando fui a primeira vez a uma reunião do G8, a convite do Chirac. Eu só tinha uns cinco meses na Presidência. Cheguei lá e já estavam o Putin, o Bush, o Tony Blair, o Prodi, o Schroeder, o primeiro ministro do Canadá. Como convidados, estavam também o presidente do Senegal, o rei da Arábia Saudita, estava o Fox, do México, o presidente da Indonésia, e eu fiquei pensando o que estava fazendo lá no meio deles… De repente, eu fiquei olhando para a cara daquele pessoal e pensei: “Espera aí, o que esses caras são mais do que eu? Quem eles representam e quem eu represento? Quem pode falar em nome dos trabalhadores mais do que eu?”. E hoje eu me dou conta, Ricardo, que eu me reuni mais vezes com os trabalhadores dos países deles do que eles próprios, e depois de ser presidente! Quando vou ao G20, a referência para os dirigentes sindicais sou eu. Então, eu fiquei pensando: o que Tony Blair representa, o que o Bush representa, qual é o público deles? Por que eu tenho de me sentir inferior a eles?

Brasileiros – Em que momento você se deu conta do que representa ser presidente do Brasil?
Presidente Lula –
Eu percebi, eu me lembro como se fosse hoje, na hora em que o Bush entrou no salão. Estava sentado ao lado do Kofi Annan, estava todo mundo sentado na hora em que o Bush entrou. Todo mundo se levantando, eu segurei na mão do Celso Amorim e falei: “Fica aí, daqui a gente não vai levantar”. Ninguém levantou para mim, por que eu tenho de levantar? Fiquei sentado e o Bush foi até lá para me cumprimentar. E aí, meu caro, eu vi que respeito é respeito. Respeito não é porque você tem dinheiro ou porque você tem arma nuclear. O respeito vem pelo seu comportamento. E eu termino o meu mandato com uma relação de amizade internacional extraordinária, eu tenho consciência de que as pessoas me respeitam, e é isso que eu quero. O Brasil não precisa ser mais do que ninguém, mas também não precisa ser inferior a ninguém.

O avião agora já está parado na pista, mas Lula continua falando sobre a política externa.

Presidente Lula – Essa questão do acordo com o Irã me deixou pessoalmente decepcionado.

Brasileiros – Foi um erro o Brasil entrar nessa história?
Presidente Lula –
Foi um erro deles…

Brasileiros – De quem? Do Irã?
Presidente Lula –
Não, foi um erro do Bush, do Obama… O que eles queriam? Queriam levar o Irã para a mesa de negociação? Eu perguntei ao Obama se ele já tinha conversado com o Ahmadinejad. Não. Perguntei ao Sarkozy. Não. Perguntei ao Gordon Brown: você já conversou com o homem? Não. Ninguém nunca tinha conversado com ele! Ficam brigando pelos assessores… Aí, eu falei para o Obama: “Obama, você é o presidente mais importante do mundo. Pega um telefone e liga para o cara. Convida ele para vir aqui…”. Falei para o Sarkozy a mesma coisa. No final da reunião, eu avisei para eles: “Eu vou ao Irã. Vou a Israel, vou ao território palestino e vou conversar com o Ahmadinejad”. Eles passaram a dizer que não ia dar certo, não ia dar certo, não ia dar certo. E eu falei: “Só queria que vocês não fizessem o bloqueio ao Irã antes de eu ir lá”. Porque eles queriam fazer o bloqueio de qualquer jeito. Daí, o Obama ficou muito nervoso, muito irritado. Os outros também mostraram irritação, mas todo mundo, pela nossa relação de amizade, ficou condescendente. Fui embora e, quando ia viajar ao Irã, antes de ir, recebi uma carta do Obama, que dizia textualmente quais as coisas que ele achava importantes o Ahmadinejad fazer para permitir o acordo. E o Ahmadinejad fez exatamente o que estava pedido na carta do Obama. Para minha surpresa, quando viajei ao Irã, passei na Rússia, e o Obama tinha ligado para o Medvedev, para reclamar da minha ida. Chego no Qatar, a Hillary Clinton tinha ligado para o Emir do Qatar para reclamar da minha ida. Na verdade, a dona Hillary Clinton trabalhou contra o tempo inteiro. Nós chegamos lá, eu e o Celso Amorim, passamos o dia inteiro em reuniões, fui falar até com o grande líder religioso deles, o Khomeini. A toda hora, eu falava para o Ahmadinejad: “Vim aqui para fazer o acordo. Se você não fizer acordo, estará abrindo mão dos dois países que querem contribuir para a paz, o Brasil e a Turquia. Você sabe que eu estou perdendo a amizade com os meus aliados, porque eu acho que a paz vale tudo isso.” Na hora em que ele topa os termos do acordo, os caras não aceitam! Não aceitam o que eles mesmos queriam que o cara fizesse. Sabe aquele negócio… Eu te devo 50 dólares. Aí, eu demoro para pagar e, quando vou pagar, você fala: eu não quero mais os 50 dólares! Então, eu fiquei sentido pessoalmente. De qualquer forma, eu descobri também que o Conselho de Segurança da ONU precisa mudar e eles não querem mudar nada. Eles estão em um baile com cinco caras e cinco mulheres bonitas. Por que convidar um sexto ou um sétimo cara para o baile?

A entrevista é finalmente interrompida para o presidente descer do avião, e cumprir seus compromissos em Ribeirão Preto: início das obras do alcoolduto São Sebastião-Uberaba e apresentação dos resultados das ações governamentais para o setor sucroenergético no período 2003-2010. Só retomamos a conversa, já no avião novamente, às quatro da tarde. Na cabine presidencial, agora também viaja o ministro da Agricultura, Wagner Rossi.

Brasileiros – Qual a coisa que o senhor mais tem vontade de fazer em seu primeiro dia sem agenda, sem protocolo, depois de entregar a faixa à presidente? Ninguém acredita que o Lula vai ficar parado em casa, sem fazer nada, sentado no sofá…
Presidente Lula –
Realmente, eu não vou conseguir ficar sentado em casa no sofá. É o que eu disse: vou ter de primeiro desencarnar da Presidência, até por necessidade de sobrevivência. Quero estar bem com a minha cabeça quando deixar de ser presidente. A gente não deixa apenas quando entrega a faixa, a gente só deixa quando consegue tirar da cabeça a ideia de que você foi presidente. Tem de voltar a ser o que você sempre foi antes, entendeu? A única profissão que eu tive na vida foi a de torneiro-mecânico. É a única coisa que eu aprendi a ser. Agora, nem isso sei mais, mudou tudo. No meu tempo, torneiro tinha de ser um artista, agora é um operador de máquina. Presidente não era profissão, era exercício de um mandato. Acabou… Graças a Deus, acabou bem…

Brasileiros – Na imprensa, sai todo dia matéria sobre os planos de Lula para o futuro ao deixar a Presidência. O senhor, afinal, já definiu o que pretende fazer da vida, depois de descansar alguns dias?
Presidente Lula –
Ainda não defini e não tenho preocupação em definir, e não sei o que eu pretendo fazer da vida. Só posso definir o que eu quero fazer depois que eu deixar de ser presidente. Enquanto eu for presidente, eu não penso sobre isso e não decido o que eu vou fazer.


Brasileiros – Como o senhor imagina que será o governo Dilma? Apenas uma continuidade do governo Lula ou terá outras características? E quais seriam? Em que Dilma é diferente de Lula?
Presidente Lula (brincando) –
Se for só uma continuidade, já vai ser uma grande coisa… Agora, como é outra pessoa, é outra cabeça, certamente ela pode fazer mais e pode fazer melhor. Além disso, a Dilma já vem com uma experiência de oito anos de governo. Portanto, ela pode marcar um gol de placa que eu não marquei… A situação do Brasil hoje é invejavelmente melhor do que quando eu peguei o País em 2003. O Brasil está em outro patamar. E ela tem mais conhecimento hoje do que eu quando entrei no negócio. A relação dela com os partidos é muito melhor que a minha quando ganhei as eleições. Então, todas as condições, meu filho, estão dadas para ela fazer um extraordinário governo. Eu espero estar na arquibancada, gritando e torcendo. Não sou daqueles que vai ao estádio para vaiar o meu time. Eu vou para aplaudir o meu time.

Brasileiros – Nesse seu último Natal no Palácio da Alvorada, que presente o senhor gostaria de receber?
Presidente Lula –
Eu não sou de esperar presente de Natal. Veja, para mim, Ricardo, que sou um homem de poucas pretensões materiais, se a minha família estiver com saúde, se meus amigos estiverem todos bem, eu, sinceramente, me sentiria muito gratificado. Se eu estiver com toda a minha família, e se o Zé Alencar puder tomar um gole comigo, já está ótimo.

Brasileiros – O que o senhor vai dizer ao companheiro do PT, que certamente vai aparecer, para lançar o seu nome para 2014?
Presidente Lula –
Eu acho que qualquer resolução sobre 2014 deve ser encabeçada pela companheira presidenta, quando ela entender que chegou o momento de discutir a eleição. Como eu acredito que ela vai fazer um bom governo, ela pode conquistar o segundo mandato, e ganhar as eleições

Anúncios
Comentários
  1. Luiz F. Taranto diz:

    “Conversa entre velhos amigos” só podia dar em uma bela entrevista!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s