Arquivo de 22/01/2011

 do O esquerdopata

Antonio Prata em Crônicas e Outras Milongas

O aeroporto tá parecendo rodoviária
O FUNCIONÁRIO do supermercado empacota minhas compras. A freguesa se aproxima com sua cesta e pergunta: “Oi, rapazinho, onde fica a farinha de mandioca?”. “Ali, senhora, corredor 3.” “Obrigada.” “Disponha.”
A cena seria trivial, não fosse um pequeno detalhe: o “rapazinho” já passava dos quarenta. Teria a mulher uma particularíssima disfunção neurológica, chamada, digamos etariofasia aguda? Mostra-se a ela uma imagem do Papai Noel e outra do Neymar, pergunta-se: “Quem é o mais velho?”, ela hesita, seu indicador vai e vem entre as duas fotos, como um limpador de para-brisa e… Não consegue responder.
Infelizmente, não me parece que a mulher sofresse de uma doença rara. Pelo contrário. A infantilização dos pobres e outros grupos socialmente desvalorizados é recurso antigo, que funciona naturalizando a inferioridade de quem está por baixo e, de quebra, ainda atenua a culpa de quem tá por cima.
Afinal, se fulano é apenas um “rapazinho”, faz sentido que ele nos sirva, nos obedeça e, em última instância, submeta-se à tutela de seus senhores, de suas senhoras.
Nos EUA, até a metade do século passado, os brancos chamavam os negros de “boys”. Em resposta, surgiu o “man”, com o qual os negros passaram a tratar-se uns aos outros, para afirmarem sua integridade.
No Brasil, na segunda década do século XXI, o expediente persiste.
Faz sentido. Em primeiro lugar, porque persiste a desigualdade, mas também porque todo recurso que escamoteie os conflitos encontra por aqui solo fértil; combina com nosso sonso ufanismo: neste país, todo mundo se ama, não?
Pensando nisso, enquanto pagava minhas compras, já começando a ficar com raiva da mulher, imaginei como chamaria o funcionário do supermercado, se estivesse no lugar dela. Então, me vi dizendo: “Ei, “amigo”, você sabe onde fica a farinha de mandioca?”, e percebi que, pela via oposta, havia caído na mesma arapuca.
Em vez de reafirmar a diferença, reduzindo-o ao status de criança, tentaria anulá-la, promovendo-o ao patamar da amizade. Mas, como nunca havíamos nos visto antes, a máscara cairia, revelando o que eu tentava ocultar: a distância entre quem empurra o carrinho e quem empacota as compras.
“Rapazinho” e “amigo” -ou “chefe”, “meu rei”, “brother”, “queridão”- são dois lados da mesma moeda: a incapacidade de ver, naquele que me serve, um cidadão, um igual.
Não é de se admirar que, nesta sociedade ainda marcada pela mentalidade escravocrata, haja uma onda de preconceito com o alargamento da classe C, que tornou-se explícito nas manifestações de ódio aos nordestinos, via Twitter e Facebook, no fim do ano passado.
Mas o bordão que melhor exemplifica o susto e o desprezo da classe A pelos pobres, ou ex-pobres que agora têm dinheiro para frequentar certos ambientes antes fechados a eles, é: “Credo, esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!”. De tão repetido, tem tudo para se tornar o “Você sabe com quem está falando?!” do início do século XXI. Se o Brasil continuar crescendo e distribuindo renda, os rapazinhos, que horror!, ganharão cada vez mais espaço e a coisa só deve piorar. É preocupante. Nesse ritmo, num futuro próximo, quem é que vai empacotar nossas compras?
@antonioprata

 

Blog do Mello
Classe mérdia tem uma solução para tudo: ‘Basta tirá-los dali’

Mendigos nas ruas? – Basta tirá-los dali. Menores consumindo crack? – Basta tirá-los dali. Prostitutas na calçada? – Basta tirá-las dali. Excesso de carros nas ruas? – Basta tirá-los dali. Sem terra invadindo terras improdutivas? – Basta tirá-los dali. Sem teto invadindo prédios desocupados? – Basta tirá-los dali. Moradores em áreas de risco? – Basta tirá-los dali. Favelas? – Basta tirá-los dali.

E colocar onde?

Isso não querem saber: acham que políticos foram eleitos para isso. Querem que eles façam o serviço sujo.

Os últimos acontecimentos no Rio e em SP mostram que à direita e à esquerda muitos querem a solução simplista da classe mérdia: – Basta tirá-los dali. Mesmo que para isso seja necessário chamar a polícia.

Ou seja: mendigos, sem-teto, sem terra, prostitutas, drogados, todos são caso de polícia.

Não são não. Polícia é para quem precisa de polícia. Eles precisam é de política com P maiúsculo: política social, inclusão. Cidadania. Não temos que tirá-los dali. Temos que incluí-los aqui.

Somos humanos; isso, em suma, é o que somos

Quase 70 milhões de moradores em 560 municípios metropolitanos e de regiões economicamente integradas deixarão de pagar tarifas de ligações telefônicas interurbanas para se comunicar com usuários de municípios vizinhos identificados pelo mesmo código nacional de área (DDD). Essas ligações passarão a ter tratamento tarifário de chamada local, anunciou nesta sexta-feira a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), um dia depois que seu Conselho Diretor aprovou a revisão do regulamento que trata do serviço de telefonia fixa em áreas locais, ampliando o conceito de áreas metropolitanas e de Ride (Regiões Integradas de Desenvolvimento).
As operadoras de telefonia terão que se adequar à nova prática em 120 dias, contados a partir da data da publicação do regulamento.
As regiões metropolitanas e Rides contempladas são:
Porto Alegre (RS)
Curitiba, Londrina e Maringá (PR)
Baixada Santista e Campinas (SP)
Belo Horizonte e Vale do Aço (MG)
Rio de Janeiro (RJ)
Vitória (ES)
Distrito Federal e entorno (DF/GO/MG)
Goiânia (GO)
Vale do Rio Cuiabá (MT)
Salvador (BA)
Polo Petrolina-Juazeiro (PE/BA)
Aracaju (SE)
Maceió e Agreste (AL)
Campina Grande e João Pessoa (PB)
Recife (PE)
Natal (RN)
Fortaleza e Cariri (CE)
sudoeste maranhense (MA)
Grande Teresina (PI/MA)
Belém (PA)
Macapá (AP)
Manaus (AM)
Roraima capital, região central e sul
Florianópolis, Chapecó, Vale do Itajaí, norte/nordeste catarinense, região carbonífera e Tubarão (SC).
Nas regiões de Foz do Rio Itajaí (SC), Grande São Luís (MA) e São Paulo (SP), todos os municípios já são considerados integrantes de uma mesma área de tarifação local.