Arquivo de 21/04/2011

 

Entrevista: Márcia Florêncio

O Grupo Cultural AfroReggae faz 10 anos e se firma como um relevante projeto voltado para jovens de comunidades pobres. Não é o único do tipo, mas desenvolveu uma metodologia que une voluntarismo e profissionalismo à paixão pela iniciativa. A psicóloga Márcia Florêncio, uma das coordenadoras da ONG, revela que agora o AfroReggae está pronto para novos desafios: “Queremos entender melhor a conjuntura do país, nos meter um pouco mais, não no campo da política partidária, já que nosso trabalho é de intervenção política e social”. Palavra de mulher.

Como você chegou ao AfroReggae?

Márcia Florêncio – Conheci o AfroReggae quando ele ainda começava a se organizar, em 1993. Eu fazia parte de outra instituição, o Ceap [Centro de Articulação de Populações Marginalizadas]. No início, o AfroReggae buscava estar muito próximo a outras organizações, e o Ceap era uma delas. Depois, quando aconteceu a chacina [em agosto de 1993, 21 moradores(as) de Vigário Geral com idades entre 16 e 61 anos foram assassinados(as) por policiais militares], a gente se aproximou mais. O AfroReggae e o Ceap participavam das reuniões que discutiam o que fazer naquele momento, e eu era quem representava a instituição. Eram encontros de organização da comunidade de Vigário Geral em torno de procedimentos de sustentação do processo judicial de acusação contra policiais. Passamos cerca de um ano nos encontrando todos os domingos; era inevitável algum tipo de relação.

Foi um período muito violento em Vigário Geral. Vocês não temiam estar lá?

Márcia Florêncio – Éramos todos muito jovens, com 23, 24 anos. A gente não sabia muito bem o que estava fazendo ali. Com a maturidade de hoje, talvez não estivéssemos ali naquele momento. Foi uma época muito cruel. Às vezes, combinávamos às 9 horas da manhã de domingo. O pessoal do AfroReggae saía da Tijuca, de Guadalupe, e para chegar em Vigário não era muito fácil. Eu até tinha uma certa regalia por conta da instituição onde trabalhava. Então, o que eu fazia era dividir essa regalia com quem não a tinha.

Mas até então você não trabalhava no AfroReggae?

Márcia Florêncio – Não, ainda não trabalhava diretamente com o projeto. Mas em 1995 – o Júnior é um bom estrategista – fui convidada a fazer uma avaliação do grupo. Acho que foi o primeiro momento que o grupo parou para pensar no que estava realizando. Eles estavam bem inseridos em Vigário Geral e já faziam algumas atividades por lá. Era uma proposta muito simples, mas que já gerava alguns problemas. Eles se perguntavam o que fazer diante da falta de recursos e de uma comunidade que não desgrudava mais deles. Foi quando o Júnior disse: “A gente está precisando de uma psicóloga; você não tem algum tempo? Dá uma ajudazinha”. Eu fui nessa de dar uma ajudazinha e, em março de 1995, eu comecei a ficar mais presente. Mas só em 1997 fiz a opção de sair do Ceap e ficar no AfroReggae e também em um outro projeto, que é o Frei Gaspar, onde trabalhei até 1999.

Você disse que, com a maturidade de hoje, talvez as coisas tivessem sido diferentes. Maturidade atrapalha?

Márcia Florêncio – Não, mas dá um discernimento que, em determinados momentos, pode não ser bom. Era muito tiro, era muita violência, e a gente não tinha o menor problema de estar ali. Hoje, aos 34 anos, eu repensaria um pouco se valeria a pena começar a trabalhar em um lugar às 9 horas da manhã, dar a volta no Rio de Janeiro para terminar o final do dia em Vargem Grande, por exemplo. Era uma maratona de ônibus. Mais tempo na condução que no trabalho!

Como era essa rotina com tanta violência?

Márcia Florêncio – Vigário Geral era isto: a gente entrava e não sabia se saía ou como saía. Muitas vezes, a polícia tinha intervenções durante o dia, que normalmente significavam um transtorno na comunidade. Na maioria das vezes nem dávamos conta.

No início, o grupo era de quatro pessoas, depois viramos um grupo de oito ou nove pessoas. Não sabíamos os códigos da comunidade com tanta precisão. Na hora da correria, tem que saber para onde ir e com quem você tem que estar para fazer o quê. Era complicado também porque ainda havia a dúvida da comunidade com relação à gente. Muitos questionavam: “Quem é esse grupo, quem são essas pessoas que vêm para cá? Não pedem nada, mas movimentam as crianças três a quatro vezes por semana! O que é isso, quem são essas pessoas?”

Éramos diferentes. Normalmente as pessoas chegam lá cheias de cestas básicas, cheias de roupas, chegam com alguma coisa. A gente chegava com nada. Muito pelo contrário, ainda tínhamos que dividir o pão com mortadela, o guaraná Tobi patrocinado por um ou outro. Para eles, isso não era uma situação comum.

Imagina um projeto, uma instituição que não era instituição, que diz que tem um programa, mas que não era um projeto e que já dizia que era de um tamanho enorme! E que, apesar disso tudo, conseguia agregar algo em torno de 70 crianças, sem nada. Absolutamente nada. Não tinha material, não tinha comida, não tinha dinheiro, não tinha cartaz, não tinha “Ibope”. E isso em um momento em que várias instituições estavam dando muita coisa para Vigário Geral; só que também não sustentaram essa situação de doadoras por muito tempo.

Mas hoje a realidade é outra. Recentemente, vocês iniciaram a construção de uma nova sede.

Márcia Florêncio – Foi em meados de 2002 que iniciamos essa nova obra. Foi muito interessante ver a relação da comunidade com o AfroReggae. Tivemos que desmontar aquele centro cultural que tinha um simbolismo muito grande para a comunidade, as pessoas disseram assim: “O AfroReggae acabou”. Tivemos que explicar que não acabou, só vai entrar em uma nova fase. Como ainda não apresentamos o projeto final da obra, há uma curiosidade sobre o que vai acontecer ali, que casa é essa que o AfroReggae vai montar. Mas a casa de Vigário será inaugurada só em 2004, um sofrimento.

Mas, em 1997, quando inauguramos a primeira casa, diziam “Bom, o AfroReggae enriqueceu”. Quando as pessoas começaram a ver que não era bem isso, surgiu uma cumplicidade muito grande com a comunidade. Estavam naquela casa porque aquela casa era daquelas pessoas, não era do Júnior, da Márcia, do Teko ou do Plácido. Tínhamos uma coordenação local, feita pelos meninos. Na minha opinião, foi o que fez a grande diferença. Anderson, de 18 anos, Luisinho, de 17, e Robinho, o mais velho, de 20 anos, comandavam uma casa por onde passavam 300 pessoas por dia.

Como era essa coordenação local?

Márcia Florêncio – Alguns critérios para entrar na casa foram estabelecidos pela instituição; outros, pelos jovens. Pela coordenação dos jovens, não era permitido entrar sem camisa. Vocês imaginam, 42 graus, na favela, não poder entrar sem camisa? Mas, tudo bem, era uma norma definida por eles. Outras proibições eram quanto ao porte de armas ou estar drogado. Além de não fumar e não beber. Lembro de uma única vez, em um dia de festa, que resolvemos servir cerveja, mas os próprios meninos pediram para isso não acontecer mais.

As pessoas podiam entrar, estar, ficar… E isso era diferente com relação às outras instituições que tinham muitas regras de horários, de entrada, de saída. Esse foi o grande achado do AfroReggae na minha opinião. Estar ali em segurança. Você podia ficar o tempo que quisesse: na hora do lanche, você podia comer; na hora de fazer atividade, podia participar. Isso fez com que tivéssemos uma relação muito tranqüila com os jovens, com a própria comunidade. Nunca tivemos problemas de invasão na casa, de roubo, nada disso. E mesmo com a bandidagem local nunca tivemos problemas. Eles iam, olhavam, assistiam, desde que cumprissem as regras comuns a todos.

Por que tantas mudanças de casa?

Márcia Florêncio – De início, compramos um barraco. Na fachada, só tinha uma faixa de plástico, que foi doada pelo M.W. Barroso, uma empresa que fica lá perto e é um grande parceiro até hoje. Já em 1997, quando foi construído o Centro Cultural AfroReggae, vivíamos uma circunstância muito diferente. Não havia dinheiro para a obra; aí fizemos a campanha do metro. Era a venda hipotética de todos os metros da casa! Todos os amigos foram convidados a participar daquilo e compraram mesmo! Conseguimos o apoio para reforma e fomos comprando as casas ao lado. Foi assim que surgiu realmente o Centro Cultural, onde vivemos até o ano passado.

É importante lembrar que o Centro trouxe uma nova estética para a comunidade. Trouxe cor e formato diferentes. Era uma casa de dois andares, com estrutura, pintada por um morador local – o Valmir, que agora está na Espanha. Colocamos uma movimentação que antes não havia naquela rua. Chegavam muitas visitas, muita gente começava a querer ver as invenções que fazíamos por lá.

Nunca ocorreram problemas com o tráfico?

Márcia Florêncio – Não. Tivemos o cuidado que todo mundo tem ao receber uma visita. Recebemos muitas autoridades, algumas com aparato policial. Aí é preciso dizer: “Olha só, vai entrar um monte de polícia federal aqui, mas não tem nada a ver com ninguém, tem a ver com a visita. Se quiserem ficar, fiquem; se quiserem sair, saiam”. Não há uma relação de submissão e sim uma relação mínima que implica informar que vai entrar gente diferente na nossa casa.

Quantas pessoas vocês atendem?

Márcia Florêncio – A última contagem deu 474 pessoas. Estamos espalhados em vários lugares. Na Cidade de Deus, temos um trabalho em parceria com a Casa Sant’Ana, que é uma casa-dia para idosos. Lá o trabalho é muito específico.

Mas o que tem nos surpreendido é o trabalho em Parada de Lucas. São dez computadores instalados em uma sala bem pequena e temos 168 alunos. Funcionamos de segunda a sábado, em três turnos. A última turma acaba às 11 horas da noite. É muita coisa para pouca estrutura. Tentamos até acabar com algumas turmas, mas desistimos. O que ainda está faltando lá é um espaço aberto, com a nossa organização. Entendemos que esses espaços são fundamentais para a organização dos jovens, para uma nova relação com a comunidade, para um processo de participação comunitária com toda a cidade. É também importante para criar uma relação da instituição com a comunidade, passar a ser também o AfroReggae de Parada de Lucas. Aí a gente burla um pouco essa rivalidade que existe entre Vigário e Lucas.

As comunidades ainda estão em guerra?

Márcia Florêncio – Sim. E agora é uma guerra que a gente não sabe em que pé está. Algum tempo atrás, a gente podia dizer “a lógica é essa”. Quando eu comecei a trabalhar em Vigário Geral, eu entrava por Parada de Lucas para encurtar o caminho. Também costumava sair de Vigário por Lucas porque freqüentava uma escola que fica na divisa entre os dois bairros, o Ciep Cartola. Hoje, a cidade toda está sob uma tensão, e não sabemos o que vai acontecer. Ficamos pensando: o que vai acontecer? Vão fechar o quê? Vão atacar quem?

Tenho uma memória de Lucas que é meio de filme da Sessão da Tarde, meio mercado persa. Pessoas entrando e saindo, uma confusão. Demorei para entender que isso era exatamente o movimento de quando a droga chegava e começava a ser vendida. O cenário agora é muito diferente.

Mas nossa relação com Lucas começou na época em que houve um acordo de paz com Vigário, no começo de 1994. Foi selado oficialmente o pacto e aí começamos a fazer uma série de atividades levando amigos tão loucos quanto nós, como o Teatro do Oprimido e o pessoal do Amir Haddad. Em 1999, tivemos que nos distanciar porque começava a ser anunciado que a guerra ia retornar. Começamos um novo grande namoro em 2002, quando resolvemos premiar o presidente da Associação de Moradores de Vigário com o Prêmio Orilaxé. O presidente da associação de Lucas, o Carlinhos, que tinha acabado de ser eleito e que, em princípio, não tinha nenhuma ligação que o desabonasse, começou a falar da falta de projetos sociais na sua comunidade.

O que aproximou definitivamente o AfroReggae e Lucas foi o fato de uma repórter do jornal Extra, que conhecia muito bem o AfroReggae, ter comentado com o Júnior algo como “Acabei de entrevistar o presidente da associação e ele me disse que gostaria muito de um dia ter o AfroReggae lá dentro”. Depois disso, foi quase um ano de muita conversa.

Não sabíamos o que fazer, mas sabíamos que não era para copiar o modelo de Vigário, isso significaria uma estrutura de material e de pessoal. Começamos a pensar o que a comunidade gostaria de ter. E foi assim que descobrimos o interesse por cursos de informática. Procuramos o Rodrigo Baggio, do CDI [Comitê para Democratização da Informática], e ele doou cinco equipamentos novos. Duas pessoas de Lucas fizeram a capacitação no CDI, e começamos uma divulgação na comunidade, bem ao nosso estilo – cartazinho em poste, nas escolas, nos pontos estratégicos. Explicamos que era um curso um pouco contra a nossa lógica, pois cobraríamos R$ 5 de mensalidade. O AfroReggae não tinha nenhuma outra atividade paga, mas era uma lógica do CDI que respeitávamos.

Na primeira semana, não podíamos mais receber inscrição. No terceiro mês, fizemos uma avaliação e achamos que haveria desistências. O que aconteceu foi o contrário, ficamos com uma fila de 83 pessoas. Estamos tentando ver com o CDI como conseguir ampliar um pouco. Mas a gente precisa ter uma casa; o projeto para este ano em Lucas é ter uma casa.

Mas essa é uma iniciativa que tem mais características de serviço.

Márcia Florêncio – Acaba sendo serviço, e não um projeto. Quem vai para a aula das 9 às 10 horas quer ficar e acaba atrapalhando o outro. Com a casa, ele ficaria lá, passaria a ser um da casa. Com a Igreja Católica, já conseguimos um espaço, que está cedido para o AfroReggae por 20 anos, renováveis por mais 20. Está em cartório, tudo bonitinho. Não vai ter que brigar com ninguém. A cessão está registrada em cartório e foi feita em nome da diocese, porque o padre pode mudar de idéia… O Manuel Ribeiro, arquiteto responsável pelo projeto de Vigário Geral, está nos dando de presente o projeto de Lucas. Estamos muito empolgados.

Os traficantes de Vigário e de Lucas são de facções diferentes?

Márcia Florêncio – Sim, Vigário é do Comando Vermelho; Lucas é do Terceiro Comando.

O fato de o AfroReggae acabar atraindo jovens que poderiam ingressar no tráfico de drogas não gera problemas com essas facções criminosas? Qual a interface estabelecida entre vocês?

Márcia Florêncio – Não tem interface nenhuma. O que a gente tem é uma relação assim: “A gente não se mete na vida de vocês, nossa proposta não é chegar aqui como os salvadores da pátria, com a intenção de acabar com isso ou com aquilo. Viemos para fazer um trabalho específico para a comunidade. Se vocês acharem que tem algum problema, vamos conversar”. Até agora, ninguém veio e continuamos a fazer nosso trabalho.

Uma vez que ninguém vem dizer que horas a gente tem que funcionar, quem é que a gente tem que colocar no curso, quem a gente não pode atender, está tudo certo. Não tem essa relação de ter que ir lá pedir para estar aqui. Se alguém faz isso, não sou eu, não é o Júnior.

Claro que existem negociações a fazer quando se entra em uma comunidade, é preciso se apresentar. Mas o fato é que agora, quando o AfroReggae chega, alguns serviços chegam também. Parada de Lucas acabou de receber o benefício do Favela-Bairro. E nenhuma comunidade é boba.

Então é uma convivência pacífica?

Márcia Florêncio – Há uma convivência por estarmos ali! A gente não nega, mas convive com essa situação. É preciso entender quando um menino ou uma menina some ou reaparece nas atividades. No início, trabalhávamos o tempo todo com a intuição. Hoje, estamos buscando pensar adiante. O que tinha e ainda tem muito é a abordagem pessoal. Em geral, quando vemos que alguma coisa está saindo fora de linha, vamos até aquele jovem. O Júnior vai, eu vou. Nessa hora, todo mundo do AfroReggae quer estar junto. É uma força-tarefa que chega para saber qual é o problema. E se tiver que levar pra nossa própria casa, será levado. É uma coisa de estar junto.

É claro que já houve pedidos. Já dissemos: “Gostaria que você não vendesse drogas para determinadas pessoas”. É um pedido de vida. E a gente tem essa cara-de-pau e essa coragem de chegar lá e dizer isso. Mas da mesma forma também dizemos aos nossos jovens: “Gostaria que você não fizesse isso”. Muitas vezes, o que esses jovens precisam é de uma bronca ou de um colo, que traga para junto de nós e o tire dali.

Até agora, em algumas vezes a gente deu sorte, outras não. Temos muita tranqüilidade – no coração, não; na cabeça, sim – de que em todos os casos que houve foi porque fizeram essa opção. Não foi porque deixaram de ser cuidados ou amados. As três, quatro pessoas que me passam agora pela cabeça foram exaustivamente cuidadas por todos nós, cada um da sua maneira. Tinha uma ação institucional, uma ação do indivíduo profissional com aquele menino ou com aquela menina. Todos foram exaustivamente assistidos por nós.

Mesmo as pessoas que saíram – e aí em particular as meninas que saíram para ser mães ou para trabalhar – mantêm uma relação muito próxima com o AfroReggae. Em dias de festa, estão lá ajudando. Isso é muito particular, principalmente quando há um rompimento. Se a pessoa sai magoada, não volta, mal telefona para saber se as pessoas estão vivas. E essas pessoas todas ficam, quase que se pode contar em uma estatística que elas fazem parte do AfroReggae. Há aquelas meninas que saíram e hoje são mães de crianças de 3, 4 anos e já estão pensando em colocar o filho no projeto Criança Legal.

Mas e aquelas que fizeram a opção pelo tráfico?

Márcia Florêncio – A única coisa que posso afirmar é que, nesse caso, houve a possibilidade da escolha. Algumas escolheram estar no tráfico de drogas. Não é a escolha que eu gostaria que fizessem. Precisaram fazer uma escolha e fizeram. Não temos nenhum discurso para amenizar a dor. Que bom que a gente pode recebê-las de volta quando resolvem voltar.

E se o jovem optar pelo tráfico e quiser freqüentar o AfroReggae?

Márcia Florêncio – Desde que respeite as normas de não entrar armado, não entrar drogado e não usar o AfroReggae como subterfúgio… Mas temos os nossos cuidados. O AfroReggae tem uma carteirinha que dá uma certa imunidade à pessoa. Essas carteirinhas não circulam com facilidade porque pode acontecer de serem usadas de forma errada. São muitos os cuidados que devemos ter.

Mas não vou omitir que dói muito ter esse tipo de perda. Sempre lembro do Bigu, um jovem que perdemos para o tráfico. Ele era uma grande figura; ainda dói muito. Você acha que está na hora de largar tudo, que você foi superincompetente. Mas é muito bacana, mesmo depois de tudo isso ter acontecido, ver que a família desse jovem diz para a gente exatamente o contrário. A família dele continua sendo atendida por nós e a mãe dele diz que se seu filho viveu até os 19 anos foi porque ele estava no AfroReggae.

O que houve realmente com ele?

Márcia Florêncio – Era um menino que estava com a gente desde o início, mas era sempre muito flutuante. Em um determinado momento vimos que o estávamos perdendo. Então, o trouxemos para a estrutura institucional. Ele passou a ser funcionário do AfroReggae, de carteira assinada. Mas começou a ter uma vida dupla. Tentamos ficar com ele ainda mais perto nós.

Em um momento, ele assume: “Eu realmente tenho uma vida dupla; tento sair, mas não consigo. Quando eu me centro em uma determinada coisa, alguém vem e me leva. Eu não resisto. Mas eu não queria ficar porque sei que ali eu vou rodar”. Tentamos levá-lo para fora de Vigário Geral por um tempo, mas ele não quis sair. Não quis passar um tempo na casa do Júnior, não quis passar um tempo na minha casa, não quis sair de Vigário. Tentamos seduzi-lo ao máximo para a banda. Ele não era um bom músico, mas ele era muito esforçado e estava tentando.

Eu em particular tinha uma relação muito próxima com ele. Dizia que ele havia sido meu anjo da guarda em outra encarnação. A gente fazia aniversário junto, era uma relação muito diferente do que a que tinha com os outros meninos. Um dia, conversávamos e ele falou: “Tá complicado, mas eu vou tentar”. E tentou. Íamos nos apresentar no Domingão do Faustão e, quando ele soube que ia ser escalado, pirou, ficou alucinado, ia para o ensaio todos os dias. E foi a semana que realmente ficou melhor. Mas aí veio um feriado, 21 de abril de 1997. Ele ficou de bobeira em casa, nada para fazer… Alguém chamou. Ele foi e, pelo que soubemos, fizeram uma roleta-russa; e nessa ele dançou. Foi um caos. Foi o grande baque da instituição. Foi uma coisa tão louca que até hoje ainda não conseguimos falar coletivamente dessa morte.

Foi uma morte muito doída, mas foi também um momento de muita força entre nós. Ele havia participado de toda a obra da casa que seria inaugurada adiante. A família dele acabou ficando muito próxima da gente, viu que não era um discurso vazio, que gostávamos realmente do Bigu. Quando essa família está precisando de alguma coisa, ainda somos uma grande referência. E a gente faz questão de que seja assim. Família é isto: discute, briga, mas está sempre junto. E esse é um laço muito forte que temos em Vigário Geral.

Sentimos falta disso lá no Cantagalo, por exemplo, onde estamos muito longe da comunidade em si. A gente está no espaço da escola pública, um subsolo, um anfiteatro. Dá uma distância geográfica fenomenal da favela. Queremos estar embrenhados na confusão.

Para participar das atividades é obrigatório estar na escola?

Márcia Florêncio – Em um primeiro momento, não. Depois, sim. Fazemos um trabalho de acompanhamento. Mas a questão é como esse jovem está na escola. Não basta estar freqüentando as aulas. Às vezes, fico pensando como é que esses meninos e meninas têm tanta disciplina para passar horas estudando música, por exemplo, e não conseguem ter o mesmo desempenho na escola formal. Se me disserem que é indisciplina, falta de organização, não é. Eu os vejo estudando, ensaiando, mesmo em condições superprecárias.

Vocês nunca tentaram uma aproximação com as escolas?

Márcia Florêncio – Sim, criamos um fórum de diretores das escolas lá de Vigário. Queríamos escutar um pouco o relato desses profissionais, já que também ouvíamos os relatos dos jovens. E procurar o que era possível fazer em conjunto. Chegamos a identificar um problema que eram os horários livres entre uma aula e outra. O aluno acabava saindo da escola. Tentamos levar atividades nossas para dentro das escolas. Foi uma loucura! Se estava tendo capoeira para uma turma, uma outra que estava na sala de aula queria participar.

Aí, tentamos de outra maneira, pelo fortalecimento das professoras. Mas o que acabou acontecendo é que passamos a ser acionados cada vez que um jovem do AfroReggae fazia alguma bobagem na escola. Temos que achar um meio termo, mas não é nada fácil. Decidimos que, até 2005, vamos tentar de novo.

Como é trabalhar em comunidades em que muitas vezes, por causa de facções criminosas diferentes, seus(suas) moradores(as) nem podem se falar ou se visitar?

Márcia Florêncio – Trabalhamos efetivamente em Lucas, Vigário, Cidade de Deus e Cantagalo. Fora isso, o AfroReggae tem um projeto chamado Conexões Urbanas, em parceria com a Assessoria Especial de Eventos da Prefeitura, que vai para a sua 21a edição. Isso significa estar pelo menos 21 vezes em comunidades diferentes. Vamos a diversas comunidades, e eu nem sempre sei qual é o comando de lá. Na hora, isso não tem nenhuma importância.

O que percebemos é que muitas vezes essa dificuldade de um serviço ou um projeto entrar em uma comunidade está relacionada ao mito de que as pessoas não querem aquilo. Nos aproveitamos do nosso sucesso para entrar nessas outras comunidades. E, com isso, temos desmistificado essa história de que as comunidades, por conta dos comandos, não estão preocupadas com seu desenvolvimento e crescimento. Mas também, sem nenhuma necessidade de esnobar, é muito difícil alguém recusar a nossa chegada. AfroReggae traz muita pompa, muito destaque, no mínimo significa uma matéria no jornal.

Qual o tamanho da equipe?

Márcia Florêncio – Muito pequena. Os que estão no show de domingo são os mesmos que, na segunda-feira de manhã, estarão trabalhando. Todo mundo faz tudo. Temos discutido isso.

Nosso grupo ainda é muito novo, os profissionais que trabalham com a gente vêm de uma outra lógica e demoram pelo menos um ano e meio para entender como funcionamos. Conseguimos ter uma equipe permanente e estamos procurando criar alguns benefícios para que ela fique – porque também corremos o risco de perder as pessoas.

Falamos que o grupo é pequeno, mas também não sabemos como expandi-lo. Como trazer novos profissionais para uma lógica tão diferente de trabalho? As pessoas – acabamos de contratar três pessoas: duas assistentes sociais e uma psicóloga – chegam tão fascinadas pelo AfroReggae show, pelo AfroReggae projeto social que deu certo, e isso às vezes é uma dificuldade. Nosso processo de seleção mudou muito, uma das etapas agora é passar dois meses na favela em que vai estar trabalhando e no rodízio com outras três. Aí a gente vê se a pessoa vai agüentar.

O AfroReggae não é muito masculino? Mesmo na equipe de coordenação, há mais homens que mulheres.

Márcia Florêncio – Às vezes, brinco que só resisti tanto tempo porque sou tão ou mais macho do que eles! Mas acabamos de fazer um seminário sobre os nossos dez anos de atuação e vimos que, na verdade, durante toda a história do AfroReggae, houve a presença de mulheres. Só que elas sempre estiveram na condição esperada por eles, de mulheres que aguardam o comando masculino. Sempre tinha uma, duas, inclusive na banda. Na equipe de coordenação, tivemos uma decisão institucional de recompor o núcleo com mais mulheres. Mas não foi fácil convencer 11 homens de que isso era preciso, quando só tinha uma mulher falando.

Passamos o ano de 2002 buscando o equilíbrio entre uma presença grande das mulheres e uma nova proposta de funcionamento, preocupados e atentos para a questão de gênero. O que temos neste momento, em 2003, é uma composição equilibrada, uma intenção das mulheres que estão nas ações diretas em comunidades de galgar espaços na instituição. Há também um grupo de mulheres, meninas novas, que está desejando um lugar diferente daquele ocupado nos espetáculos. Acho que, com toda essa preocupação, hoje temos mulheres mais fortes, o que é um grande alívio. Não é só assistente social, é uma assistente social que, na hora da reunião, se coloca, que vai lá e gera uma situação polêmica, que diz se não gostou.

E como reagiram as meninas das comunidades?

Márcia Florêncio – Foi muito difícil porque algumas meninas tinham o discurso de que mulher é para isso mesmo, de que mulher tem que obedecer, de que é pertencente ao homem, de que passa a ser objeto do outro e que está ali para procriar. Foi muito complicado, foi um discurso do “eu sozinha”. Mas conseguimos um equilíbrio pelo menos numérico da presença de mulheres. O engraçado é que, em 2002, em uma das nossas reuniões ampliadas, que são enormes, o grupo se deu conta que éramos quase metade. Aí o pessoal falou: “Que é isso? As mulheres estão invadindo o AfroReggae”. E em funções estratégicas. Por exemplo, toda a parte administrativa estava nas mãos das mulheres, a parte do trabalho social estava nas mãos das mulheres.

Mas há algum projeto voltado especialmente para meninas?

Márcia Florêncio – Ainda não. Estamos em contato com o pessoal da Criola [ONG de mulheres negras] para pensar o que pode ser feito. Até porque de uma hora para outra começamos a dizer: “Não podemos esquecer a questão de gênero”. Só que muitas vezes nem todos entendiam o que estávamos falando.

Aos poucos, vamos “descobrindo” o tema. Para nós, é importante não perder nunca a dimensão do humano, saber que quem está ali conosco no grupo não vai mudar rapidamente. Não é fácil fazer com que uma mulher de 40 anos entenda que tem o direito de ir à delegacia se tiver sido espancada pelo marido. Ela está apanhando há 25 anos, mas hoje já acha que não é bom. São mudanças ainda muito sutis. Mas a questão da presença das mulheres e também a discussão racial fazem parte do nosso presente. São coisas que ninguém precisa apontar. São desafios.

E a questão racial? A instituição tem o afro no nome, mas nunca tematizou isso.

Márcia Florêncio – A questão de raça também é algo que estamos introduzindo nos nossos trabalhos. Muitas vezes, nossos jovens só percebem a questão quando passam a se relacionar com essa sociedade cruel. E a banda tem um papel fundamental nesse perceber. Um dos cantores, o Anderson, descobriu-se uma figura muito importante como exemplo para outros. Ele está sempre com um visual bem cuidado, está estudando. Ele descobriu que pode, ao mesmo tempo em que está cantando, seduzir as pessoas, mas pode ser também um grande canal de informação. E ele traz a questão da raça para a instituição com uma força muito grande. Foi o Anderson quem nos colocou contra a parede de alguma forma ao dizer: “Sou negão, e daí? Mas não sou só um negão bonito, sou uma pessoa assim e assado”. Ele começa a falar o que é se sentir discriminado e a mostrar o que é ser um provocador. Ele foi funkeiro, sabe dizer isso com muita propriedade. E tem o seguinte discurso: “Olha só, AfroReggae, vocês podem ter dúvidas com relação ao nome de vocês, mas não podem ter dúvidas com relação à gente que está no projeto”.

Objetivamente, chegamos à conclusão de que não somos do Movimento Negro, que está organizado de forma tal que não entendemos. Porém, temos uma intervenção com uma população muito específica, que também é uma população negra, não exclusivamente negra, mas majoritariamente negra. A partir daí é que temos nos preparado para intervir. Até 1999, isso não era algo tão presente, mas hoje é. Não sabemos ainda lidar com ela 100%, mas é alvo da nossa preocupação, o que já avançou bastante.

Por meio da cultura, vocês estão resgatando a auto-estima desses jovens e fortalecendo a participação cidadã.

Márcia Florêncio – Essa foi a nossa primeira grande descoberta. O grande momento do AfroReggae foi quando descobrimos que esse trabalho que hoje é visto pela cidade – seja o Clube do Circo, a Trupe da Saúde ou a própria banda – na verdade só foi possível porque as pessoas acreditaram nelas próprias.

Se hoje esses jovens se apropriaram tão bem de suas histórias foi porque nossa preocupação nunca foi se virariam grandes artistas, mas que pudessem ter sua condição de cidadania repensada. E repensada a partir deles próprios.

Meu queridíssimo colega Júnior diz o seguinte: “Não quero que essas pessoas vivam o que eu vivi. Se eu puder evitar, vou fazer”. Assim fomos nos cumpliciando. Nosso grande desafio foi trazer para aquele grupo de jovens uma condição diferente da que cada um de nós tenha tido. E que eles pudessem se orgulhar do que fazem e do que são, compartilhando isso com outras pessoas. Orgulho não só de ter algo para si próprio, mas também ter orgulho de poder dividir com outro – seja o dinheiro ou o sucesso. Muito tranqüilamente, digo que a maior parte dos jovens do AfroReggae tem isso muito claro na cabeça: sabem que podem pedir socorro, mas sabem que podem socorrer alguém também.

Há alguma ligação com escolas de samba?

Márcia Florêncio – Não, neste momento não. Em Parada de Lucas, tem uma, do lado de fora de Vigário tem outra, no Cantagalo tem outra, mas nunca nos articulamos. O que temos em relação ao samba é a banda AfroSamba. Havia um grupo de meninos que tocava samba, um deles adorava cavaquinho. Montamos uma pequena estrutura com aulas teóricas de instrumentos específicos. Definimos que as aulas seriam de samba de raiz por ser algo que a juventude não conhece, não se apropria desse saber. Trabalhamos o samba a partir de uma leitura histórica da cidade. Hoje, eles cantam e sabem por que estão cantando aquele samba. Fazemos uma pesquisa de culturas e ritmos. E isso é fundamental, senão é o mesmo que cantar o “Funk das cachorras”! Para cantar um clássico tem que saber a origem dele, pelo menos quem o fez.

Oficialmente vocês são uma ONG?

Márcia Florêncio – Sim. Uma ONG que tem uma empresa que é geradora de recursos para a ONG. Isso está no contrato. De tudo que entra na empresa, 30% vai para a instituição. Essa é uma lógica que vale até mesmo se alguém é convidado para dar uma palestra e tem um pró-labore. Todo mundo sabe que 30% deverão ir para a instituição. Isso é algo que ninguém precisa mais falar para ninguém.

Vocês têm aliados e parcerias as mais variadas. Como é feita essa divisão?

Márcia Florêncio – São três formas: apoio, financiador e parceiro. Sempre deixamos claro que, para nós, ser parceiro não é simplesmente emprestar o nome. Parceiro é quem trabalha junto. Quando alguém nos oferece uma parceria, não perguntamos o que vai dar, mas o que vai fazer. Se a instituição nos procura para dar algo, é um apoio. Pode ser algo mais momentâneo. Já o financiador é alguém que nós escolhemos para ajudar no nosso trabalho. Escolhemos porque alguns que se apresentam podem não ser bons para nossa filosofia. Empresas de tabaco e bebida alcoólica não aceitamos – nem como apoio, nem como financiador, nem como parceiro.

É dessa maneira que a gente tem conseguido tanta coisa. A campanha dos dez anos do AfroReggae, por exemplo, foi uma campanha superbonita, feita por um pessoal que nunca imaginamos ter acesso, o mesmo que produziu o filme Eu, tu, eles. Essa postura tem nos facilitado em várias situações, especialmente em campanhas políticas. Como sempre reconhecemos o apoio da prefeitura do Rio, em nenhum momento fomos chamados a fazer campanha política obrigatória. É claro que há as parcerias desejáveis, as intencionais e, outras, necessárias. Mas quem não vive assim?

Há remuneração das pessoas envolvidas com os projetos?

Márcia Florêncio – Em 1997, quando a banda começou a viajar pra fazer shows, nos perguntamos por que um trabalho social não pode efetivamente melhorar a vida das pessoas no que diz respeito a dinheiro. Queremos que as pessoas tenham condições de acesso. Oxalá ela vá comprar comida em vez de comprar tênis, se o seu problema for falta de comida em casa! Ou vá comprar um colchão para parar de dormir no chão. Mas é uma opção dela. Da mesma forma que decidimos entrar ou não no cheque especial.

Nossa alternativa foi pegar o que fazíamos de melhor, a música – e na época nem era tão boa assim –, e investir como um projeto de geração de renda. Descobrimos que podíamos vender shows e pequenos produtos. Houve um certo constrangimento no começo porque as pessoas ligavam e diziam assim: “O AfroReggae pode tocar não-sei-onde?” A gente dizia, “Pode”. “Vocês têm alguma exigência?” No começo, a gente dizia que não. E aí a gente passou por muitas, muitas furadas.

É verdade que o AfroReggae ainda faz muita coisa de graça, mas, quando pode, também cobra para fazer. Também vimos que, em muitos casos, podemos pedir pelo menos o transporte e a alimentação. E tem ainda aquelas instituições que nos convidam e podem sim pagar por nossa apresentação. Com o tempo, chegamos à conclusão de que são dois esquemas diferentes. Um de graça e outro cobrando. E, onde tem recurso, todo mundo ganha.

Quem acabou resolvendo mais diretamente isso foi o Júnior. Ele começou a fuçar esses modelos, esses mecanismos, e disse que o AfroReggae teria uma parte para fazer dinheiro e a outra parte ligada ao trabalho social. E, na medida do possível, a primeira sustenta a outra. Em 1999, começamos a experimentar esse método, e 2002 foi o grande ano dessa lógica.

E o método tem dado certo?

Márcia Florêncio – Ficamos de agosto de 2002 a fevereiro deste ano sem o nosso principal recurso externo. E foi graças a esses trabalhos de sustentação interna que não paramos as nossas atividades. Foi a primeira crise financeira do AfroReggae em que não se cortou ninguém, não se diminuiu nem se atrasou salário. No último cálculo, vimos que estamos gerando 28% do que precisamos de dinheiro.

Em 2003, se continuarmos tratando esse tema com a transparência que temos dado, provavelmente conseguiremos fechar o ano gerando 35% da nossa receita. É muito dinheiro. Vai dar para ter projeto de bolsista, de intercâmbio. Recentemente, os meninos saíram para fazer pesquisa para o próximo disco, tudo já com esse recurso interno. Isso dá para o AfroReggae uma condição um pouco diferente.

Mas o bom é esta possibilidade: circular dinheiro, de maneira que todo mundo entenda como circula. Os grupos que têm cachê, por exemplo, discutem entre si seu percentual. É uma lógica interessante e que foi construída a muitas dores de cabeça. Todo mundo sabe quanto ganha, quando vai ganhar, quando o dinheiro chega. Não há com o que se envergonhar por ser um projeto social que também gera recursos. Não há por que dessa culpa ou vergonha de ganhar dinheiro.

Os jovens do projeto estão crescendo e começam a dizer: “Tudo bem, aula disso e daquilo é muito bacana, mas e o que mais?” É muito ruim deixar de ter um jovem participando do projeto porque há uma outra iniciativa dando uma bolsa merreca de R$ 50. Ou porque ele teve que se virar. Às vezes, uma assistente social chega desesperada: “Fulano saiu porque arrumou emprego”. Qual emprego? Virou auxiliar de camelô em Duque de Caxias. Quanto ganha? R$ 15 por semana.

O trabalho que a gente faz exige um tempo enorme, uma dedicação exclusiva e não é fácil ser artista. No carnaval de 1998, os meninos não tiveram um dia de descanso, começaram a trabalhar às 9 horas da manhã e acabaram às 11 horas da noite. Por que não dizer que isso é um trabalho e, por isso, que precisa ser remunerado? Essa discussão acontece em outros grupos que conheço bem. No Nós do Morro, por exemplo, há uma relação fenomenal mas não se pode ganhar dinheiro. Então só vai ser remunerado quando entrar no grande circuito? Aí já virou pop star. Isso não faz sentido. Acho que isso tem que ser mais discutido entre os grupos que têm uma atuação parecida.

Então, a banda é remunerada?

Márcia Florêncio – Na verdade, todo mundo ganha quando entra dinheiro, desde que trabalhe. O pessoal da banda tem uma forma diferente porque trabalha a partir de cachê. Se vendermos o show, 30% são para a instituição, e o restante é dividido de acordo com o percentual estabelecido para cada um. Pode ser que em um mês eles ganhem muito, no outro não ganhem nada. Vai depender da venda de shows. Estabelecemos que todo mundo que trabalha nesses momentos de organização do show ganha, desde que seja uma apresentação paga. A verdade é que trabalhamos tendo dinheiro ou não, o diferencial é que sempre sabemos o que está acontecendo com o recurso que chega.

Hoje, os artistas da banda, como fazem pelo menos um grande show por mês, já podem se programar contando com um recurso mensal a receber. Isso mudou a relação deles com as famílias, diferente do que era há quatro anos. Não são mais apenas aqueles meninos que tocam. São os meninos que tocam, porém ganham dinheiro tocando. O nosso cuidado agora é com o mundo do artista, um mundo fascinante, sedutor, encantador. São jovens lindos e também encantadores e sedutores.

Existe algum método para multiplicar o trabalho do AfroReggae? Como superar os limites de uma ação direta?

Márcia Florêncio – O bom é saber que temos inspirado muita gente. O AfroReggae deve ser um grupo de muita luz. Temos tentado, ainda de maneira tímida, criar condições para que essa multiplicação seja a partir de uma célula única. Ou seja, o AfroReggae propõe a instalação de um núcleo em outro lugar. Sempre que viajamos com uma atividade cultural-artística procuramos unir também uma atividade social. Nessas ocasiões, buscamos conhecer alguma iniciativa daquele bairro, daquela favela, que está recebendo nossa apresentação. Há também muitos grupos que nos procuram. E, quando isso acontece, a gente atende, abre a casa, diz como funciona. Temos mostrado que não precisa de muito dinheiro para fazer o que fazemos, pelo menos não no começo, quando a estrutura é menor. Aprendemos que algumas ações precisam de menos dinheiro do que nos dizem e que outras podem ser feitas com pouquíssimo ou nenhum recurso.

Temos know-how hoje para multiplicar ainda mais. Em relação a isso, um sonho muito antigo, que talvez este ano dê para avançar, é sistematizar melhor nosso trabalho e, a partir disso, ter um núcleo que se destine a receber esses grupos que nos procuram. Achamos importante relatar também como foram nossas escolhas até aqui. Explicar, por exemplo, por que não aceitamos “qualquer dinheiro” vindo de “qualquer fonte”.

Este é um grande desejo: fortalecer grupos que talvez tenham tantos problemas como tivemos – tantos não-incentivos como nós tivemos –, mas que podem, a partir da nossa experiência, acreditar mais! E que esse grupo possa continuar e, daqui a dez anos, ser um outro AfroReggae ou até uma instituição melhor que o AfroReggae.

Como identidade, vocês se sentem parte da sociedade civil? Por exemplo, como é percebida a relação com uma instituição como o Ibase?

Márcia Florêncio – A gente se sente da cidade. Mas, em relação ao Ibase, há uma história diferente. Há uma relação de gratidão, um amor incondicional. A ida do Betinho ao nosso barraco, quando ele quase não ia mais a lugar nenhum, é uma marca na nossa trajetória. É uma relação de afeto e que vai além de uma nomenclatura.

Como funciona o Conexões Urbanas?

Márcia Florêncio – O Conexões é uma daquelas coisas que a gente começa sem saber bem por quê. Algumas pessoas vão entrando na história junto com a gente, e acaba acontecendo. Nossa idéia era experimentar em outros lugares o que a gente vinha fazendo em Vigário. Em 1995, levamos o Caetano e a Regina Casé para a favela. Foi muito legal. Descobrimos que levar artista para a favela era muito bom, motivava a comunidade, criava um bochicho legal. Depois, fizemos o batizado da capoeira com Fernanda Abreu e Gabriel, o Pensador. A inauguração da nossa casa foi um dia de festa com Cidade Negra, Fernanda Abreu e O Rappa. Mas tudo restrito a Vigário.

Resolvemos, então, fazer um piloto no Morro da Formiga, na Tijuca. O Bill [MV Bill, rapper carioca], que está até hoje no projeto, e a Fernanda Abreu se apresentaram. Depois, procuramos a Secretaria Especial de Eventos da prefeitura do Rio e começamos a moldar melhor. É uma estrutura muito grande, fenomenal, que acontece dentro da comunidade.

O que acontece não é só um show. A comunidade, pelo menos durante um mês, vive uma grande movimentação. É a possibilidade de ter benefícios diretos da prefeitura. O show necessita de instalação elétrica, que fica lá mesmo depois do espetáculo. O lixo é retirado. Geralmente, são áreas de lazer mal cuidadas, abandonadas. A gente entra com o show, a prefeitura oferece projetos de capacitação, de liderança comunitária e de ações específicas. Por exemplo, se percebemos que o posto de saúde local não está bom, avisamos.

No dia do show, pela parte da manhã, acontece uma feira social. Tem campanha de prevenção da dengue, de Aids, DSTs, e uma atividade voltada para crianças.

Seu primeiro contato com o AfroReggae foi em uma avaliação. E agora, uma outra avaliação, qual seria?

Márcia Florêncio – A primeira avaliação é a de que fizemos mais do que imaginamos. Hoje, sabemos que o que foi começado não dá para parar. Depois de dez anos, estamos prontos para novos desafios. Queremos entender melhor a conjuntura do país, nos meter um pouco mais, não no campo da política partidária, já que nosso trabalho é de intervenção política e social.

Mas não tenho dúvidas de que, por um longo tempo, ainda seremos esse grupo. Daqui a algum tempo, outras pessoas entrarão e talvez sejamos mais compartimentados. Talvez surja um setor que cuide mais da empresa, um que cuide mais da área social, outro setor que cuide mais do intercâmbio…

O AfroReggae ainda é muito acelerado. Nem sei se encontraríamos outra forma, mas percebo que é necessário um pouco mais de cautela. A conjuntura pede um pouco mais de cautela. Estamos metidos em muitos lugares, nos relacionamos com muita gente. Temos que preservar todos, inclusive nós mesmos.

Participaram desta entrevista: Atila Roque, Cândido Grzybowski, Iracema Dantas, Jamile Chequer e Marcelo Carvalho

Comissão organizadora dos Blogueiros Progressistas de SP
O I Encontro Estadual de Blogueiros Progressistas promoveu neste final de semana, 15,16 e 17 na Assembleia Legislativa de São Paulo diversas mesas de debates sobre temas da Blogosfera e dos Meios de Comunicações. No sábado pela manhã aconteceram debates sobre a Opressão na Mídia, Mídia Livre, e Marco Regulatório da Mídia.
Um dos pontos alto do encontro foi o debate sobre Democratização das Comunicações, com a presença do jornalista e blogueiro Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, dos deputados federais por São Paulo, Luiza Erundina e Paulo Teixeira, membros da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e Democratização das Comunicações, e também o deputado estadual Antonio Mentor (SP), autor do projeto de lei que cria a Consecom- Conselho Estadual de Comunicação.
A deputada Luiza Erundina anunciou que uma das tarefas da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão será ficar de olho na Comissão de Ciência, Tecnologia e Informática da Câmara, composta em boa parte de concessionários de empresas de rádio e televisão.
Na sequência duas mesas despertaram o interesse dos participantes do encontro paulista de blogueiros progressistas, A Militância Virtual e Redes Sociais, e o debate sobre Proteção Jurídica na Blogosfera.
No domingo após as oficinas, Sustentação Financeira na Blogosfera, Educação na Blogosfera, Ferramentas Tecnológicas, Comunicação Comunitária, várias propostas foram encaminhadas a comissão organizadora do encontro que serão inseridas na Carta dos Blogueiros Progressistas de São Paulo.
Os blogueiros vivem uma nova era da internet no país, segundo dados do Ibope o número de pessoas com acesso à internet em qualquer ambiente (domicílios, trabalho, escolas, LAN houses ou outros locais) atingiu 73,9 milhões no quarto trimestre de 2010. O número representou um crescimento de 9,6% em relação aos 67,5 milhões do quarto trimestre de 2009, segundo dados divulgados pelo instituto.
Os Blogs no Brasil, segundo pesquisa realizada pela empresa especializada em tráfego online, a comScore, 70% dos brasileiros acessaram blogs durante o ano de 2010, enquanto no resto do mundo a média foi 50%.
Para o relatório divulgado, a principal concentração de audiência dos blogs brasileiros foi na época das eleições (final do ano passado), quando, entre outubro e novembro quase 40 milhões de usuários acessaram os blogs à procura de comentários sobre os candidatos à eleição.
A Blogosfera é produto dos esforços de pessoas independentes das corporações de mídia, os blogueiros progressistas, definido e alinhado com comunicadores que além de seus ideais e pensamentos políticos, ousam produzir o que já é considerado o primeiro meio de comunicação de massas autônomo e independente. Democratização das Comunicações já.
Fonte: marciabrasileira.blogspot.com
por Gavan McCormack*, no Le Monde Diplomatique francês  
 
Tradução: Antonio Martins

Março de 2011 poderia marcar na história japonesa, uma ruptura comparável à de agosto de 1945, assinalando a morte de um modelo particular de organização do Estado e da economia. Em agosto de 1945, os cogumelos atômicos explodidos no céu de Hiroshima e Nagasaky haviam selado o fim da guerra em que os jovens oficiais do exército de Kwantung haviam envolvido o Japão nos quinze anos anteriores. Da mesma maneira, o medo de um novo apocalipse nuclear, nascido do caos engendrado pelos tremores de terraami de 11 de março, deveriam marquer uma ruptura com as escolhas feitas ano a ano pela oligarquia empresarial desde o imediato pós-guerra. O Estado nuclear é obra desta gente.

Diferente do desastre de 1945, que teve causas puramente humanas, o de 2011 teve com origem fenômenos naturais, muito agravados pelas decisões dos homens. De qualquer forma, as duas catástrofes têm em comum o fato de terem abalado o mundo.

Durante várias décadas, a “síndrome de Hiroshima”, ou, em outras palavras, o medo e a repulsa do povo japonês a tudo que tem traços nucleares, havia conduzido as autoridades nipônicas a manter a maior discreção possível sobre sua cooperação militar com os Estados Unidos, no quadro de uma estratégia de dissuasão militar. A tal ponto que os “tratados secretos” (mitsuyouku), expressão deste compromisso, e mais particularmente os acordos fechados nos anos 1960 e 1970, só foram publicados há dois anos, por ocasição de uma mudança de poder.

Também foi em regime de total opacidade, e sem jamais ser submetida à sanção das urnas, que se tomou a decisão de adotar uma política energética nacional centrada principalmente no nuclear. A catástrofe de Fukushima faz explodir as manipulações de todo tipo que foram necessárias para a instalação de tal programa: campanhas publicitárias repetidas, dissimulação, mentiras, em particular em casos de acidente, e desinformação quanto aos riscos envolvidos, e sobre a segurança .

Agora, quando nenhum caminho de saída para a crise atual parece surgir, constata-se que a democracia japonesa terá de repensar os mecanismos que permitiram a seus governantes esmacar toda a oposição e conduzir o país ao ponto de ruptura em que se encontra. Além do assombro de uma fusão nuclear, de suas consequências sobre a saúde humana e o ambiente, dos problemas causados pelos cortes de eletricidade, trata-se de uma crise da capacidade de governo e da democracia. Parece ter chegado o momento em que os cidadãos precisam encontrar uma forma de reassumir o controle, tirando-o de uma classe dirigente constituída de altos funcionários, políticos profissionais e economistas e inventando um modo responsável e sustentável de gestão dos serviços públicos. A busca de novas formas de geração de energia e de desenvolvimento socioeconômico emerge como o mote que poderá mobilizar a sociedade japonesa.

O fato de que um país mártir do nuclear tenha adotado esta energia com um fervor próximo à obsessão é um paradoxo real. Gozando de uma posição privilegiada e protegido pelos Estados Unidos, o país tornou-se, nos últimos cinquenta anos, um Estado fortemente nuclearizado e uma superpotência do plutônio. É o único país não-nuclear, em termos militares, a se envolver com o desenvolvimento de usinas de enriquecimento e retratamento de urânio e com o projeto de um super-reator. Seus governantes fizeram uma escolha: viram no mineral mais perigoso que a humanidade conhece uma solução mágica para assegurar a segurança energética do país. Enquanto a comunidade internacional concentrava atenção sobre a ameaça representada pela Coreis do Norte, o Japão fugia à vigilância internacional e perseguia seu destino nuclear.

Vale a pena conhecer a história. Só dez anos após Hiroshima e Nagasaki, na época dos “átomos para a paz” do presidente norte-americano Dwight Eisenhower, a comissão japonesa de energia atômica começou a arregaçar as mangas. O programa nuclear de longo prazo lançado em 1967 já incluia o ciclo de combustão e o projeto de super-gerador. A produção de energia nuclear nunca deixou de aumentar, desde então, alimentando uma parte cada vez mais importante da rede nacional de distribuição. Responsável por 3% da energia produzida em 1973, no momento do promeiro choque de petróleo, ela passou a 26% em 2008 e atinge hoje 29%. Em 2006, o ministério da Economia, Comério e Indústria (METI) inaugurou uma “nova política energética”, que tinha por objetivo fazer do Japão uma potência nuclear (genshiryoku rikkoku).

O caminho previa o desenvolvimento do nuclear (destacadamente), da hidreletricidade e de outras formas de energia renováveis. Juntas, elas deveriam suprir 50% das necessidades energéticas do país em 2020, chegando a 70%, em 2030. O plano para necessidades energéticas de base, concebido em 2010, previa construir nove novos reatores até 2020 e catorze até 2030. Ao mesmo tempo, a utilização da capacidade dos reatores existentes deveria passar de 60% em 2008 a 85% em 2020 e 90% em 2030.

O sonho de uma energia eterna e infinita inspirou gerações de burocratas japonseses. Próximo ao reator de plutônio de Monju, o parque temático Tsuruga, dedicado ao nuclear (“Aquatom Nuclear Theme Park-Science Museum”) acolhe os visitantes com estas palavres: “O Japão é pobre em recursos naturais. É por isso que Monju, um reator de plutônio, é neceessário. Porque o plutônio pode ser utilizado durante milhares de anos”.

Bilhões e bilhões de ienes foram investidos nos programas de pesquisa e desenvolvimento, enquanto orçamentos adicionais formidáveis foram consagrados à construção de gigantescos complexos industriais. Se são confiáveis as cifras fornecidas pela muito oficial Federação das Companhias de Eletricidade, a central de Rokkasho, no norte da província de Honshu, teria custado, ao final de seus quarenta anos de vida, a soma de 19 trilhões de ienes (360 bilhões de reais) – o que a transformaria na instalação nuclear civil mais cara do Japão, e talvez do mundo.

O país domina o ciclo completo da combustão nuclear. Constroi usinas de tratamento de dejetos, queima uma mistura de plutônio (como ocorre, desde o dim de 2010, no reator 3 da central de Fukushima, Dai-ich) e estoca grandes volumes de dejetos de baixa atividade. Engaja-se no desenvolvimento da supergeração, uma tecnologia tão difícil de controlar e tão cara que todos os outros países a deixaram temporariamente de lado, considerando-a como um sonho cuja hora não chegou. Da preparação do combustível à construção e operação dos reatores; da extração de dejetos a seu retratamento e estocagem, cada etapa do ciclo representava um problema – mesmo antes que o tsunami inundasse a central de Fukushima.

Uma memória dos desastres

Até 11 de março de 2011, o Japão contava com 54 reatores em atividade. A opção por estocar dejetos muito tóxicos, de atividade futura muito longa, em piscinas localizadas ao lado dos reatores, revelou-se um erro fatal. Segundo Robert Alvarez, as piscinas de descontaminação emitem uma radiotividade de cinco a dez vezes maior que a do núcleo do reator. “Cada uma delas”, afirma ele, contém uma concentração de césio 137 superior à liberada pelo conjunto dos testes nucleares realizados no hemisfério Norte”. E continua: “As emissões de césio 137 que poderiam se seguir a um incêndio tornariam inabitável uma região mais vasta que a de Tchernobyl”. Deslocamento ocorrido sob o impacto do terremoto ou vazamentos causados pelo desabamento da estrutura? O que quer que seja, os bastões de combustíveis de diversas usinas foram parcialmente expostos e houve incêndios, cujas consequências ainda é preciso avaliar. O trabalho de resfriamento só foi feito após imensos esforços, e com resultados limitados, utilizando a água do mar despejada em meio ao incêndio, a partir de helicópteros e mais tarde, finalmente, após o religamento, in extremis, das bombas.

Assim que a crise for superada, as usinas precisarão ser descontaminadas e desmanteladas. É um trabalho que se anuncia, desde já, difícil e caro. O processo poderá se estender por vários anos, ao menos uma década. Ao mesmo tempo, será preciso encontrar uma forma de compensar a perda em geração elétrica. As centrais serão recobertas por um sarcófago de cimento, como em Chernobyl? Em qualquer caso, parece claro que elas se converterão num memorial dos erros devastadores cometidos pelo Japão nuclear do pós-guerra.

Antes de Fukushima, outres complexos, entre os mais conhecidos, já haviam suscitado inquietudes. Em julho de 2007, a central nuclear de Kashiwazaki (em Niigata), a maior do mundo, cujos reatores geram 8 mil megawatts (Mw), havia resistido a um terremoto de magnitude 6,8, embora não tivesse sido concebida para enfrentar um abalo de tal força. O incidente revelou que as estruturas foram edificadas sobre uma falha nunca antes detectadas. O pior foi evitado, mas maus funcionamentos foram constatados: conduítes aparentes, incêndios e despejo de partículas radioativas no mar e na atmosfera. A usina Hamaoka, de Shizuoka,190 quilômetros a sudoeste de Tókio, tem cinco reatores. Também foi construída em zona sísmica (a junção das placas eurasiana, pacífico-filipina e norte-americana), que, segundo os sismólogos, poderia tremer num futuro próximo. A todas estas inquietações, o operador da usina responde que a usina pode resistir a um terremoto de 8,5 – a maior magnitude já resgistrada na região. O tremor de intensidade 9 que abalou Fukushima tornou, em poucos minutos, as instalações caducas. Se um evento semelhante se produziesse em Hamaoka, seria preciso evacuar 30 milhões de pessoas.

Nos dias de hoje, outro projeto desperta controvérsias. Dois reatores deveriam ter sido instalados em Kaminoseki, uma pequena comuna de 3.700 habitantes, situada ao sul do Parque Natural do Mar Interior, a 80 quilômetros de Hiroshima. O começo da operação está previsto para 2018, para um, e 2022, para o segundo. Depois de trinta anos de debates e adiamentos, devidos à forte oposição da população local – especialmente a pequena comunidade de pescadores da ilha de Iwaishima, situada a quatro quilômentros da futura central – a aplainagem do terreno e o aterramento de áreas marítimas começaram em 2010. Desde então, incidentes envolvendo barcos de pesca ou dos moradores, canoas e caiaques multiplicaram-se. À luz dos eventos recentes, parece dícil imaginar que o governo seja capaz de intervir para calar os que protestam. Ao contrário: o prefeito da região manifestou-se há pouco, para pedir a paralisação dos trabalhos.

Agência Internacional de Energia pede moratória — e é ignorada

Os reatores nucleares geram grandes quantidades de dejetos que devem ser estocados e reprocessados. Desde 1992, os dejetos de alto teor de reatividade são reprocessados em usinas como a de Sellafield, na Inglaterra, e La Hague, na Normandia. Cada carregamento encaminhado a estes destinos contém uma concentração de plutôpnio equivalente a dezessete bombas atômicas. Mohammad El-Baradei, antigo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), considerava o reprocessamento um processo muito perigoso, que deveria ser efetuado sob rígidas regras internacionais. Ele pediu ao Japão uma moratória de cinco anos no enriquecimento e reprocessamento. Uma recomendação que o Japão ignorou, alegando que a medida deveria se aplicar a novos projetos, e não às centrais que já operavam há décadas

A central de Rokkasho, a norte de Fukushima, no departamento de Aoumori, reúne no mesmo espaço produção de energia, reprocessamento, enriquecimento e estocagem de dejetos. Isso faz dela a maior central nuclear civil do mundo. Sua unidade de reprocessamento pode converter 800 toneladas de dejetos por ano. A isso, acrescentam-se, todos os anos, oito toneladas de plutônio puro, utilizável para fins militares (o equivalente a mil ogivas de mísseis nucleares). Após diversos contratempos, o reprocessamento começou em 2006, em caráter experimental, sem atingir, até o momento, o regime de pleno funcionamento comercial. Uma outra unidade de reprocessamento, a de Tokaimura, está paralisada desde 1999, após um acidente ocorrido no supergerador, que causou a irradiação de centenas de pessoas e matou dois operários. Desde então, os dejetos se acumulam. A maior parte é estocada, como em Fukushima, ao lado do reator de que é extraída.

No caso de Rokkasho, mesmo que o reprocessamento serja retomado em breve, ele só poderá beneficiar uma ínfima parte dos resíduos que se acumulam por anos. O estoque foi estimado em 12,6 mil toneladas, em 2006. A questão dos dejetos japoneses, incluído o plutônio (um quinto dos estoques mundiais de uso civil), continuará a exigir providências.

Os dejetos de baixa atividade são conservados em recipientes de 200 litros. Em alguns casos, estão armazenados no mesmo local dos reatores; em outros, são encaminhados ao depósito subterrâneo de Rokkasho, projetado para receber três milhões de recipientes. As quarenta cavidades, com capacidade de 10 mil recipientes cada uma, serão mais tarde recobertas de terra e vigiadas por 300 anos. As montanhas artificiais formadas serão como imensos cogumelos venenosos, num reduto tranquilo da região de Aomori.

Os dejetos de alta atividade são vitrificados e depositados em recipientes antes de retornarem a Rokkasho, onde são estocados por 30 a 50 anos, até que sua temperatura baixe lentamente, de 500 a 200 graus. Apenas ao atingir esta condição, poderão ser sepultados – a mais de 300 metros de profundidade. Suas radiações só se dissiparão após alguns milênios.

O combustível misto de óxido de urânio e plutônio (MOX), utilizado no rator 3 da central de Fukushima, constitui uma maneira de reutilizar o plutônio sem convertê-lo em dejeto – integrando-o ativamente, ao contrário, num ciclo energético eterno. Os supergeradores oferecem também uma solução ao problema do acúmulo de plutônio. Permitem “gerar” um plutônio puro de altíssima qualidade. Ou seja, o processo produzir uma quantidade deste mineral maior que a inicial. Os riscos e custos ligados a esta tecnologia são tão relevantes que o Japão é hoje o único país a seguir em tal caminho tecnológicos, apesar dos pobres resultados alcançados.

O protótipo de supergerador de Monju, implantado em Tsuruga, no departamento de Fukui (costa ocidental) precisou ser fechado em 1995, em sequência a uma tentativa de camuflar incêndio por negligência, ocorrido após fugas de sódio. Em 2003, o julgamento, pela Corte Suprema, de um processo originado na sequência autorizou a reabertura das instalações, mas dificuldades técnicas impediram a retomada da operação. Segundo as previsões atuais, o supergerador poder operar em 2050 – ou seja, com 70 anos de atraso, em relação à meta oficial. Elas sugeriam que Monju fosse substituído por uma nova central, por volta de 2030. Tudo isso, com um custo de um trilhão de ienes (R$ 19 bilhões).  
 
Erros humanos e práticas fraudulentas 
O Japão é hoje vítima de erros de avaliação desastrosos e práticas fraudulentas, que se entrelaçam ao longo de meio século. Incluem falsificação de documentos, fabricação de relatórios, mistificação dos inspetores de segurança nuclear, minimização dos riscos e falta total de transparência na apuração de incidentes e paralisações. Nenhuma abuso foi evitado, no esforço para alcançar a meta estabelecida. Ao perceber seu país, um dos mais avançados científica e tecnologicamente, reduzido à tentativa de interromper um processo de fusão nuclear por meio de métodos tão grosserios como o uso de mangueiras d’água, a sociedade japonesa (e o resto do mundo) se questiona. Que nação – entre elas os Estados Unidos, que se lançam a um “renascimento nuclear” – seria capaz de reagir melhor, em tais circunstâncias?
Apesar da catástrofe que continua a ameaçar, abandonar a energia nuclear não seria tarefa para amanhã. A classe dirigente continuará a perseguir seus sonhos de liderança mundial. Continuará, portanto, a vislumbrar no nuclear uma energia limpa e ilimitada, capaz de rsolver o problema do aquecimento climático. Desejará manter uma força nuclear de dissuasão (braço armado dos Estados Unidos no Pacífico). Para boa parte da população, os objetivos são outros. Cada vez mais vozes se erguem em favor de um processo realmente democrático de decisão envolvendo as fontes de energia. Sugerem o fim do programa nuclear militar e o planejamento de uma alternativa ao nuclear civil. As aspirações incluem o desenvolvimento de energias renováveis, o fim das emissões de gases do efeito-estuva, a reciclagem dos materiais existentes.
Na queda de braços que opõe uma burocracia firmemente aferrada a um Japão nuclear e uma sociedade civil impaciente pela emergência de um novo padrão social, econômico e ecológico, haverá um antes e um depois do 11 de Março.
Gavan McCormack é professor emérito na Universidade da Austrália e autor de diversos livros, entres os quais Client State: Japan in the American embrace [“Estado-Cliente: o Japão na órbita dos Estados Unidos], Verso, Nova York, 2007