Arquivo de 24/04/2011

Por Igor Fuser (19/04/11)

A corajosa atitude do Brasil ao condenar o golpe de junho de 2009 em Honduras e, mais tarde, abrigar na sua embaixada o presidente deposto Manuel Zelaya, em desafio aos EUA e à direita brasileira, foi o melhor momento da política externa de Lula. Agora, quando se discute a diplomacia do novo governo, pode-se abordar o tema com uma pergunta: se o golpe em Honduras tivesse ocorrido hoje, será que a dupla Dilma Roussef e Antonio Patriota agiria do mesmo modo que Lula e Celso Amorim?

A julgar pelos sinais emitidos por Brasília, a resposta é: “provavelmente, não”. O episódio mais expressivo do contraste entre as duas gestões foi o apoio do Brasil, em março, à resolução que instituiu um relator especial da ONU para investigar a situação dos direitos humanos no Irã. Essa foi uma decisão importante, pois colocou o Irã na berlinda entre os vilões humanitários do mundo, abrindo caminho para a adoção de medidas mais agressivas contra o regime de Teerã.

Como se sabe, o interesse do chamado “Ocidente” nada tem a ver com a proteção dos cidadãos iranianos. Trata-se, ao contrário, do uso oportunista da retórica dos direitos humanos para hostilizar os governos nacionalistas no Oriente Médio, em benefício dos planos dos EUA de dominar aquela região estratégica.

O próprio Amorim rompeu seu silêncio para criticar a nova posição do Itamaraty, que, segundo ele, “fará a alegria daqueles que desejam ver o Brasil pequeno e sem projeção internacional”. Com a mudança, argumenta o ex-chanceler, ficará mais difícil o nosso país exercer o papel de mediador e até interceder junto ao governo iraniano em casos específicos, como o da mulher ameaçada de apedrejamento – um castigo bárbaro cuja concretização o Brasil ajudou a evitar.

Enquanto isso, a direita aplaude. Uma colunista tucana chegou a qualificar a política externa de Lula como “um ponto fora da curva”. Há algo de verdade em dizer isso de um governo que sempre se mostrou generoso com os banqueiros e o agronegócio, ao mesmo tempo em que se exagera o alcance da mudança. Prova disso é a recusa brasileira em endossar a intervenção na Líbia, atitude que demarca os limites da guinada no Itamaraty. Nada indica um retorno à posição submissa dos tempos de FHC. Mas o retrocesso é inegável.

Fonte: Brasil de Fato

Causou grande repercussão no Nordeste do país, especialmente na Paraíba, o posicionamento do músico Chico César, atual Secretário de Cultura do Estado, sobre as bandas que tocam o chamado “forró de plástico”, um lixo cultural que se dissemina como gafanhoto. César afirmou que o governo não vai pagar por apresentações dessas bandas nas festas juninas de Campina Grande.

Com teclado e dançarinos, as bandas “de plástico” não usam sequer sanfona, estão tomando conta e, por incrível que pareça, ameaçam seriamente a cultura da região. “Nós vamos contribuir com a cultura tradicional, com o pé de serra, com Biliu de Campina, Pinto do Acordeon, entre outros”, afirmou Chico César.

Devido à polêmica causada pelas declarações, o secretário divulgou uma nota oficial em que fica clara a triste conjuntura em que uma das maiores manifestações culturais e seus principais representantes hoje são vaiados, porque a população está sendo doutrinada a ouvir a tal música de plástico.

Leia um trecho da nota do secretário e músico Chico César sobre a polêmica:

“Não faz muito tempo vaiaram Sivuca em festa junina paga com dinheiro público aqui na Paraíba porque ele, já velhinho, tocava sanfona em vez de teclado e não tinha moças seminuas dançando em seu palco. Vaias também recebeu Geraldo Azevedo porque ele cantava Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro em festa junina financiada pelo governo aqui na Paraíba, enquanto o público, esperando a dupla sertaneja, gritava ‘Zezé cadê você? Eu vim aqui só pra te ver’”.

Mas a justa luta do músico é inglória e ele recebe ataques até de parlamentares. O deputado Raniery Paulino (PMDB), por exemplo, afirmou que “o governo não pode determinar os artistas que o povo deve ou não ouvir”. Mas a mídia pode, não é, deputado?

Na nota, Chico César rebate as acusações de que está sendo intolerante: “Intolerância é excluir da programação do rádio paraibano (concessão pública) durante o ano inteiro, artistas como Parrá, Baixinho do Pandeiro, Cátia de França, Zabé da Loca, Escurinho, Beto Brito, Dejinha de Monteiro, Livardo Alves, Pinto do Acordeon, Mestre Fuba, Vital Farias, Biliu de Campina, Fuba de Taperoá, Sandra Belê e excluí-los de novo na hora em que se deve celebrar a música regional e a cultura popular”.

Chico César não comprou apenas uma briga meramente cultural-ideológica. Ele tem contra si o poder midiático, os interesses financeiros, o jabá e, como se vê, até lobbies na Assembléia Legislativa.

É triste constatar que, quanto mais o tempo passa, mais Pier Paolo Pasolini tem razão.

Fonte: Fatoetc