jornalistamagalimoserConheça a CooperDotchi, a cooperativa agrícola do norte catarinense que tem a cooperação como resistência para as famílias ruraisNa entrada do assentamento, a placa dá as boas-vindas ao visitante: “O futuro está na produção orgânica”. Ao lado da frase, o símbolo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) identifica a área de 51 hectares, em Araquari, na região norte catarinense, a 20 quilômetros de Joinville. O local que abriga dez famílias é um dos 18 assentamentos produtores de alimentos para a Cooperdotchi, a cooperativa do MST que leva frutas e verduras sem agrotóxicos para a mesa de escolas públicas e entidades sociais da região. Criada em 2006, a entidade envolve 500 famílias e se consolida a cada ano a partir dos ideais de solidariedade e cooperação, contrariando a lógica capitalista. Não só garante a subsistência dos indivíduos, como possibilita investimentos para ampliar a própria cooperativa. As metas para este ano são audaciosas: aumentar a produção, que no ano passado chegou a 600 toneladas in natura, e partir aos poucos para a industrialização dos alimentos, a fim de evitar o desperdício. Ao todo, o MST conta com dez cooperativas em Santa Catarina.

Assentamento do MST em Araquari, no Norte de SC, é um dos produtores para Cooperativa Cooperdotchi

O principal movimento social de luta pela reforma agrária desde a década de 1980 tem nas cooperativas uma estratégia coletiva de organização da produção nos assentamentos. Um dos desafios da Cooperdotchi é a conquista do selo de certificação na linha agroecológica, partilhado do método de certificação participativa da Rede Ecovida. Em Araquari, uma das mudanças adotadas visando a certificação é a plantação de ervas medicinais entre a estrada de chão, que leva ao assentamento e às áreas de produção. A planta popularmente conhecida como Mão de Deus cria uma barreira entre a estrada e a plantação, impedindo que o pó contamine os alimentos cultivados. O assentamento de Irineópolis já obteve a certificação. A meta é assegurar o título para todos os assentamentos ligados à Cooperdotchi e, assim, facilitar a comercialização dos alimentos colhidos nas propriedades. Para isso, o trabalho já começou, com o uso de biofertilizantes e adubos orgânicos, fabricados principalmente com dejetos de animais, e fundamentalmente produzidos nas propriedades dos assentados, além das atividades coletivas de formação dos agricultores.

Folhas verdes estão entre as verduras cultivadas pelos produtores em Araquari

A coordenação do setor de compra e venda e a tesouraria da cooperativa tem à frente João Guilherme Zeferino. Durante 12 anos ele morou debaixo de lona com a mulher Delize e os dois filhos à espera de um pedaço de terra. Aos 48 anos, não tem dúvida de que valeu a luta e está otimista com a cooperativa que ajudou a fundar.

_ É uma garantia de renda mensal. Muitos agricultores não sobrevivem tendo de pagar água e luz todo o mês, com uma safra a cada seis meses. O cooperativismo tem se mostrado a única saída para os pequenos produtores se manterem no campo. _ pondera.

Das dez cooperativas do MST em Santa Catarina, cinco delas, incluindo a Cooperdotchi, utilizam a marca registrada Terra Viva, possível de ser encontrada em grandes mercados. A Cooperdotchi comercializa em média uma variedade de 25 produtos, entre cenoura, beterraba, repolho, brócolis, alface, laranja, banana, maçã… O objetivo para os próximos anos é profissionalizar os agricultores em uma área de produção específica, para assegurar a diversificação dos produtos durante todo o ano.

A lei nacional de 2009 que torna obrigatória a aquisição de 30% da merenda escolar como proveniente de agricultura familiar fortalece o trabalho da cooperativa. Em algumas cidades do litoral catarinense, a escassez da atividade agrícola têm dificultado o cumprimento da lei. A Cooperdotchi já tem contrato com os municípios de Rio Negrinho, Piçarras e São Bento do Sul. Nesta última, com previsão de aumentar os alimentos de 30% para 40%. As negociações estão avançadas em Balneário Camboriú, Barra Velha, São João do Itaperiú, Joinville, Araquari e Garuva.

Além das escolas públicas, um outro cliente da cooperativa é o governo federal, através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) executado pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), que assegura a compra de alimentos para entidades cadastradas, geralmente assistenciais, como hospitais e Apaes. Chegar aos supermercados tradicionais, como pontos de venda, também é estratégia da cooperativa, mas com ressalvas. Na avaliação dos associados, o processo pode tornar os agricultores reféns dos sistemas de produção, o qual força a produzir em grandes escalas e vender a partir da “lei de oferta e procura” grandes quantidades de produções por pequenos preços, “escravizando-os”.

_ Não queremos produzir em escala industrial. Se não, o agricultor vai virar um trabalhador de fábrica, escravizado a horários pré-determinados. A intenção é mantê-los no campo com qualidade de vida _ argumenta Zeferino.

Na Central de Distribuição da Cooperativa, João Guilherme Zeferino atuando no processo de seleção dos alimentos

Localizada em região privilegiada, com a vantagem de um clima ameno, capaz de garantir a produção durante todo o ano, a Cooperdotchi, ao contrário das outras cooperativas do MST no Estado, beneficia-se da instalação próxima a grandes centros urbanos, com a facilidade de escoamento dos produtos.

A cooperativa leva no nome uma homenagem ao companheiro Dolcimar Luiz Bruneto, conhecido como Dotchi, que faleceu em um acidente durante a entrega de verduras da cooperativa. A estrutura é simples; escritório, unidade de separação de alimentos e dois caminhões e um automóvel pik-up, usados na distribuição dos alimentos. A Central de Distribuição da Cooperativa fica em São Bento do Sul. Num galpão onde funcionava uma fábrica de móveis, hoje adaptada para recebimento e manuseio dos alimentos. Os trabalhadores – todos assentados do MST – separam e organizam os alimentos para distribuição, nas escolas e entidades.

_ Com a cooperativa, melhorou bastante para nós. Há um tempo atrás, a gente produzia só para comer, agora tem a certeza da renda _ comemora Isaías Ribeiro, 25 anos, um dos sócios da cooperativa, há 11 anos em assentamento do MST.

Isaías Ribeiro é um dos sócios da cooperativa e atua no processo de separação dos alimentos, em São Bento do Sul

As famílias moradoras do assentamento em Araquari estavam acampadas em Garuva. Entre elas, a do agricultor Verildo Zucco, 52 anos. Natural do Rio Grande do Sul, ele mora com a esposa e dois filhos na propriedade.

_ Trabalhei durante muito tempo da minha vida como arrendatário, de forma individual. Só enxergava o dinheiro a cada seis meses. Com a cooperativa melhorou 100% _ avalia.

Agricultor Verildo Zucco é um dos que comemora os resultados da cooperativa

A Cooperdotchi surgiu para facilitar a distribuição e comercialização dos alimentos. Os primeiros dois anos foram de burocracia, para deixar a casa em ordem, com todas as exigências de procedimentos jurídicos necessários. Nos anos seguintes, o salto foi inevitável, hoje a cooperativa reúne 96 sócios. Entre as intenções da coordenação está a ampliação do número de associados. Mas o trabalho é feito em paralelo à capacitação e formação de consciência dos agricultores. Tudo isso para não perder a identidade coletiva que faz o MST ser conhecido mundialmente como principal movimento pela luta da terra e justiça social.

Texto e fotos: Jornalista Magali Moser

As cidades que integram a Cooperdotchi:

Araquari

Bela Vista do Toldo

Canoinhas

Garuva

Irineópolis

Itaiópolis

José Boiteux

Mafra

Monte Castelo

Papanduva

Rio Negrinho

Santa Terezinha

Taió

Vidal Ramos

Timbó Grande

Matos Costa

Santa Cecília

São Bento do Sul ( com pequenos agricultores).

As cooperativas do MST em Santa Catarina:

Cooperdotchi – Rio Negrinho

Cooperunião – Dionísio Cerqueira

Cooperoeste – São Miguel D’Oeste

Cooperal – Abelardo Luz

Coopercontestado – Fraiburgo

Coopertel – Ponte Alta

Cooptrasc – Chapecó

Coopermock – Água Doce

Cooproeste – Lebon Régis

Cooperativa Central de Reforma Agrária (CAA) – Chapecó

A Cooperdotchi:

A Cooperdotchi tem o apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em parceria com a Cooperativa dos Trabalhadores da Reforma Agrária de Santa Catarina (Cooptrasc), que disponibiliza no convênio de ATES, para assistência técnica na região, 7 técnicos em agropecuária, 1 técnico administrativo, 3 agrônomos, 1 Veterinário e 1 Administrador. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Ministério de Desenvolvimento Social (MDS) também apóiam a entidade.

Os netos de Seu Zucco, no assentamento do MST, em Araquari

Produtos colhidos nos assentamentos do MST em Santa Catarina

Rosa Africana, possível de ser encontrada no assentamento em Araquari

Depois de morar debaixo de lona por 12 anos, com o marido e os dois filhos à espera de um pedaço de terra, Dona Delize celebra cada conquista da cooperativa

A solidariedade econômica no Brasil

Experiências de cooperação econômica como a relatada na matéria da jornalista
Magali Moser vêm se disseminando pelo território nacional nas últimas duas décadas. A
economia solidária é um fenômeno recente cujas razões de seu surgimento e expansão
estão em análise. No caso brasileiro, penso que ela foi resultado histórico da forma como
a “questão social” se apresentou na década de 90. Isto é, da contradição entre a trajetória dos movimentos sociais, o reconhecimento de sua importância na constituição de uma sociedade civil ativa e na institucionalização de esferas e políticas públicas (construção democrática de base) e, por outro lado, a incapacidade de construção de uma ordem econômica capaz de assegurar de forma substantiva a cidadania ampliada requerida pelo processo de democratização. Assim, ao lado dos avanços democráticos foi emergindo uma profunda crise social que afetou dramaticamente o mundo do trabalho (os trabalhadores) e a situação social e econômica dos setores populares (exclusão social).
Neste contexto, a economia solidária surgiu como uma nova maneira de
enfrentar a crise por meio da articulação entre democracia radical e economia. As
exigências “econômicas” da economia solidária reforçaram os princípios políticos dos
movimentos e organizações da sociedade civil (autonomia e autogestão, por exemplo) e,
por sua vez, houve uma crescente “politização” da economia solidária na perspectiva de sua
incorporação na agenda do Estado (políticas públicas) e na sua visibilidade pública como uma nova questão para a esfera pública. Assim sendo, constatamos uma trajetória de crescente ampliação da atuação de governos no apoio a economia solidária.
No atual contexto de ampliação das relações de trabalho capitalistas (emprego) a
economia solidária avança na organização econômica dos camponeses, das comunidades
e povos tradicionais, dos artesãos, dos coletores de material reciclável e das pessoas em
desvantagem social.
A FURB está inserida neste contexto a mais de uma década. A Incubadora Tecnológica
de Cooperativas Populares (ITCP) e o Núcleo de Pesquisa sobre Economia Solidária, Trabalho e Desenvolvimento Regional têm sido os principais espaços acadêmicos de elaboração e atuação neste amplo campo de possibilidades emancipatórias.

Valmor Schiochet (Dr)
Professor do Mestrado em Desenvolvimento Regional e
Coordenador do Grupo de Pesquisa – Gepesol

 

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