Arquivo de 21/05/2011

Por Otávio Brum (20/05/11)

Uma das dificuldades que nós temos ao enfrentar os problemas estruturais brasileiros é ter pouca gente debatendo. Seja nas universidades, seja na imprensa – menos ainda, que virou um monopólio, uma fábrica de dinheiro, uma manipulação escrota dos interesses das classes dominantes brasileiras.

Então a sociedade tem que organizar para promover debates em algum lugar. Nem mesmo os sindicatos, que antigamente tinham uma tradição de muito debate. Hoje em dia é raro termos debates no meio sindical. Que dirá nas forças armadas; que também tinham uma tradição de debates, com nossos marinheiros, nossos sargentos da aeronáutica. Mesmo lá no Sul, nós tivemos na história uma participação muito importante.

Este ano nós estamos completando 50 anos da legalidade. Lá no Rio Grande nós estamos todos celebrando aquela efeméride porque mobilizou toda a sociedade. E hoje pode acontecer qualquer coisa no mundo, no Brasil e há uma apatia generalizada. Então me alegro que hajam grupos que estão retomando essa boa tradição do debate. E hoje, de maneira muito ampla, imagino que o tema principal seja o problema da propriedade da terra e da organização da produção agrícola do nosso país, que antigamente, inclusive, aparecia apenas como problema camponês, questão agrária. Mas que nas últimas décadas, pelo próprio processo de desenvolvimento do capitalismo, a questão agrária se tornou em uma questão da sociedade brasileira e tem a ver com todos nós, por mais que moremos em um apartamento no vigésimo andar. Pagaremos o preço ou não na solução desse problema.

Então, nessa introdução queria apenas compartilhar algumas ideias gerais que nós discutimos no MST, nas nossas escolas, na Via Campesina, para que tenhamos mais tempo para debate e troca de ideias, que sempre é mais frutífero. (Embora nós da esquerda sempre tenhamos aquela mania: dizemos que vamos fazer uma introdução e acabamos usando a maior parte do tempo para falatório e quando chega na hora do debate não tem mais tempo. Então vou ver se me disciplino na meia hora.)

Primeiro há um problema estrutural na nossa sociedade, que tradicionalmente se chama de questão agrária, ou problema agrário, que é a concentração da propriedade da terra. A terra é um bem da natureza, não é fruto do trabalho de ninguém, assim como são a água, o sol, o vento. Ninguém pode dizer: “eu quero meu pedaço de vento”. Mas infelizmente, como a terra não se mexe, o capitalismo industrial, no século XVIII, inventou a propriedade privada da terra. Porque os capitalistas que tinham sua origem no comércio e na indústria, quando foram para a agricultura, exigiram do Estado, burguês, uma garantia jurídica. E foi aí, então, que nasceu a propriedade privada da terra, sendo um bem da natureza. Portanto, como propriedade privada, é muito recente, porque o capitalismo no início tratou de introduzir a propriedade privada das mercadorias e do trabalho, depois é que foi para a agricultura.

Então há um problema na sociedade brasileira que a forma como as classes dominantes se apropriaram desse bem da natureza levou a uma alta concentração da propriedade. Combinou grandes propriedades, em concessão de uso com o trabalho escravo. Nós passamos quatrocentos anos onde havia praticamente um monopólio na propriedade da terra, para algumas pessoas. E depois, ao longo da nossa história, mesmo quando nós entramos no período da Revolução Industrial, ainda que tardia, na década de 1930, com o governo Getúlio, ao contrário de todos os outros países industriais que fizeram a reforma agrária como uma forma de desenvolver o mercado interno, aqui no Brasil – como a indústria também nasceu colada com os grandes proprietários de terra – eles nunca permitiram que fosse feita uma reforma agrária.

Então, nós nascemos mal da concentração e não tivemos capacidade nem vontade política para fazer uma reforma agrária que democratizasse a propriedade da terra. Voltando de novo à história do capitalismo, durante todo o século XIX e início do século XX, todos os países industriais e a burguesia industrial tomaram a iniciativa de fazer a reforma agrária, como uma maneira de, democratizando a propriedade da terra, ampliar o mercado interno para as mercadorias industriais. Na medida em que, ao democratizar o acesso à terra, os camponeses, que antes pagavam a renda da terra, ao livrarem-se dela, transformando-se em pequenos proprietários, transformaram-se também, automaticamente, em consumidores dos bens produzidos pela indústria.

O que pouca gente se lembra é que justamente a reforma agrária, quando ela nasceu com essa expressão, e, por isso é considerada a reforma agrária clássica, foi implementada pelas burguesias industriais. Primeiro na Europa Ocidental, depois nos Estados Unidos e a última grande reforma agrária clássica foi feita depois da Segunda Guerra Mundial no Japão e, inclusive, segundo a literatura, foi a reforma agrária mais radical que nós tivemos feita pela burguesia, com um agravante ainda: ela foi feita a mando militar pelo exército invasor dos Estados Unidos, sob o comando do general Arthur McCarthy, que impôs à sociedade japonesa uma reforma agrária como forma de quebrar os proprietários de terra feudais e expansionistas.

Então, entre 1945 e 46, até 1947, o exército americano impôs ao Japão uma reforma agrária que distribuiu terra para 4.000.000 de famílias e cada família recebeu até dois hectares de terra; acima de dois hectares todo mundo foi desapropriado porque a terra era considerada latifundiária. E isso foi a base econômica que transformou o Japão de um país arrasado pela guerra, talvez tenha sido, junto com a Rússia, o país que mais sofreu com os horrores da guerra; duas bombas atômicas. E em 40 anos eles se transformaram de novo em uma potência industrial, porque criaram um mercado interno democrático, todos os camponeses passaram a consumir bens industriais.

A burguesia industrial brasileira, por ter implementado um modelo de industrialização dependente, dependente das transnacionais, do capital estrangeiro, da tecnologia – há farta literatura sobre isso –, aqui no Brasil não quiseram fazer a reforma agrária porque, em vez de ganhar dinheiro com o mercado interno, mantiveram o processo de industrialização dependente, ou voltada para uma elite consumidora de luxo ou para o exterior. E por isso, talvez tenha sido, segundo Wladimir Pomar em um livro que publicou recentemente sobre os latifundiários do Brasil, o único país que se industrializou no século XX sem fazer reforma agrária. E esta é uma das causas do porquê que as cidades brasileiras se incharam durante o século XX. De 1930 a 80 nós tivemos um boom industrial, foi a economia industrial que mais cresceu naqueles 50 anos em todo o planeta, nós crescemos em média 7,6% ao ano durante 50 anos. Não há paralelo no século XX equiparado à nossa economia, no entanto, empurramos os pobres, em vez de para a reforma agrária, empurramos para a cidade, e vocês estão pagando o pato desse erro histórico das classes dominantes. Com cidades inchadas, onde se pode botar Jesus Cristo de governador e a Virgem Maria de prefeita, não se resolve mais, tal o agravamento dos problemas sociais que resultaram em nossas cidades.

Chegamos agora a essa etapa nova do processo sócio-econômico brasileiro em que depois da crise do capitalismo industrial na década de 1980. Da década de 1990 para cá nós entramos no período histórico em todo o mundo, inclusive somado à derrota dos países do Leste, socialistas, a uma nova etapa do capitalismo que foi chamada grosso modo de neo-liberalismo. Mas neo-liberalismo é apenas um rótulo, na verdade o capitalismo entrou em uma fase dominada pelo capital financeiro; é esta etapa que nós estamos vivendo e que Wilferd, Bukharin e o tal de Vladimir Ulianov haviam previsto para a década de 1930, mas que agora, do final do século para cá, é que veio se completar de forma plena, em que o capital financeiro é que domina toda economia. E domina no sentido de que o maior processo de acumulação de riqueza, embora siga sendo produzido pelo trabalho, na agricultura, na indústria, no comércio, o principal resultado desse processo de acumulação de riquezas acaba sendo acumulado na esfera do capital financeiro, por diversos mecanismos que eles passaram a operar da década de 1990 para cá. Então esse capital financeiro começou a tomar conta das várias esferas produtivas e nos últimos dez anos chegou na agricultura. E chegou na agricultura pelos bancos, pelas empresas transnacionais e tomou conta do processo da produção agrícola brasileira.

No Brasil e na maioria dos países agrícolas da periferia se produziu então, fruto dessa nova etapa do capitalismo, um novo modelo de produção agrícola, uma nova aliança de classes, entre os grandes proprietários de terra que se aliaram com as empresas transnacionais, que controlam os insumos agrícolas, a tecnologia, as máquinas, o mercado e controlam o preço dos produtos agrícolas; e com os bancos. Para dar alguns exemplos gerais, aqui no Brasil, esse setor da grande propriedade, que produz para exportação, produz mais ou menos R$ 120 – 130 bi por ano, por safra. Para ele produzir esse volume de produção, precisa tirar do banco em torno de R$ 100 bi, ou seja, na verdade o banco antecipa a maior parte do volume de produção, e para o fazendeiro depois vai ficar a diferença, os R$ 20 bilhões, com que ele paga porcamente a mão de obra e o resto fica com ele. Mas a maior parte da taxa de lucro produzida pelos produtos agrícolas acaba ficando, ou com o banco, pelos juros, ou pela empresa transnacional, que controla o preço e o mercado. Então, por exemplo, o Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja. Muito bem! Todo mundo bate palmas, a Globo incensa o agronegócio: “Agora somos o maior produtor de soja!” Sim. E quem fica com os lucros da soja para ser produzida neste território? Cinco empresas transnacionais: A Monsanto, a Bunge, a Cargill, a DuPont, e a ADM. Existe inclusive estudos calculando as taxas de lucro. Os proprietários de terra ficam com 8-9% da taxa de lucro e essas empresas ficam com 15 a 16% da taxa de lucro produzida pela soja.

Essa aliança entre os grandes proprietários de terra, os bancos  e as empresas transnacionais é o que se chama do modelo do agronegócio.

A grande imprensa, que é uma idiota, não tem ideia, só copia o que a classe dominante quer, acaba projetando que agronegócio é apenas uma operação comercial com mercadorias agrícolas, como se fosse um verbete. Não. Agronegócio é um modelo de produção agrícola imposto ao nosso país, resultante dessa nova aliança de classes, essas três classes que eu citei. E esse agronegócio se apropria das nossas terras, da nossa natureza (…)

Essas empresas estão preocupadas em produzir mercadorias e não alimentos, tanto é que todos aqueles alimentos que não dão lucro elas param de produzir. E, ao mesmo tempo, como é controlado por um oligopólio de poucas empresas, vocês devem ter percebido o que aconteceu esse ano, por exemplo: apesar da safra vir aumentando a cada ano no Brasil, os preços agrícolas continuam aumentando. No capitalismo concorrencial é o contrário: quando a produção sobe, os preços caem. Aqui no Brasil não, a produção sobe, os preços sobem também. Por quê? Porque as empresas que controlam o preço no mercado já o fazem no sistema de oligopólio, não é mais em concorrência. Então, depois que elas se apropriam do volume de produção botam o preço que querem, e quando elas não controlam a produção em si, mas elas controlam o mercado, impõem o preço de qualquer maneira.

Nós estamos vivendo na sociedade brasileira agora, além da herança anterior da propriedade da terra extremamente concentrada, e, portanto, antidemocrática, antipopular, uma nova situação, que não estava presente na época da reforma agrária clássica, que é o confronto entre dois modelos de como produzir na agricultura. De um lado nós temos o agronegócio, que é baseado nessa aliança, na grande propriedade, com o banco, com as empresas transnacionais, e de outro lado, nós teríamos a proposta da agricultura familiar, da Via Campesina, como nós dizemos internacionalmente, que é organizar a produção prioritariamente para alimentos, e alimentos saudáveis. Há um confronto permanente entre esses dois modelos, e esses dois modelos são antagônicos  nas suas propostas e nos seus resultados. A grande propriedade precisa a todo instante ir aumentando a sua escala, porque, como tem que dividir o lucro com o banco e com a multinacional, a maneira do proprietário se defender um pouco dessa transferência de renda que vai ter que fazer de qualquer maneira, porque ele pega dinheiro do banco, compra o adubo, compra a semente, compra uma máquina de uma multinacional, ele amplia o tamanho da sua propriedade, a cada ano ele quer aumentar a escala. O pequeno agricultor não precisa aumentar a escala, ele vai tentar desenvolver uma forma de produzir na mesma área de uma forma melhor. São duas visões: um quer aumentar a escala e o outro quer aumentar a produtividade. O pequeno agricultor tem que, necessariamente, dar emprego aos seus filhos, para os vizinhos, e, portanto, é uma agricultura intensiva de mão de obra; o grande proprietário do agronegócio, ao contrário, ele quer expulsar, ele quer se ver livre da CLT e colocar máquina. O pequeno agricultor vive no meio rural e conhece a natureza, então sabe que não pode agredí-la porque ela se vinga. Assim, ele tem que ter uma atitude de respeito com a natureza, porque é a vida dele, ele mora lá. O grande proprietário não mora na propriedade, mora no Rio de Janeiro, em São Paulo. 80% dos fazendeiros que têm mais de 2.000 hectares no Brasil moram em São Paulo – a Receita Federal tem até o nome e o endereço. Esse proprietário do agronegócio, ao invés de usar mão de obra e respeitar a natureza, usa veneno, o agrotóxico, que é produzido por uma multinacional. E esses venenos, como são de origem química, não são degradáveis, não se destroem. Eles destroem a fertilidade natural do solo porque matam aquelas bactérias, os micronutrientes que têm, consequentemente o agricultor fica mais dependente de adubos químicos na próxima safra. Ele mata todos os outros seres vegetais, todos os outros seres animais que há na área e ainda fica o resíduo no produto para nos matar devagarinho. Afinal, não podem nos matar de uma hora para a outra porque senão paramos de consumir. Então recebemos doses sistemáticas de venenos até que, um belo dia, descobrimos que estamos com câncer e daí colocamos a culpa em qualquer um, menos na Bayer, que é a verdadeira culpada.

Nós vivemos uma situação hoje onde o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de agrotóxico. Não há nenhum paralelo: nem de volume total, nem de relativo. O Brasil está consumindo 156 quilos de veneno por hectare. Não tem paralelo isso. Estamos consumindo, em média, cinco quilos por pessoa. Essa é cota de vocês, por ano. Todo este veneno é produzido por dez empresas, nove delas transnacionais. Algumas delas, inclusive, produzem fórmulas de veneno aqui no Brasil que já estão proibidas em seus países de origem. Então, para aproveitar a pesquisa, eles aplicam aqui ou, muitas vezes, até importam, como a Polícia Federal já apreendeu produtos importados pela Syngenta, venenos produzidos na Suíça, que lá foram proibidos. Eles, disfarçadamente, puseram outro nome: “leite em pó”, assim entrou pelo porto de Santos – sendo que é o mesmo veneno proibido na Suíça. Há também outras falcatruas: na semana passada, a Anvisa fez outra apreensão. Mas, no ano passado, ao total, a Anvisa conseguiu detectar 500 mil litros de veneno adulterado por estas três empresas: a Bayer, a Syngenta e a Basf. Claro que sobre uma coisa dessas só vai sair uma notinha minúscula nO Globo, daquelas que parecem anúncios de obituário. Todo o produto químico contém na embalagem um rótulo informando sua composição e a farsa se consistia em manter o rótulo indicando um conteúdo legalizado pela Anvisa, porém embalando um veneno muito mais potente e perigoso para o agricultor acreditar que aquele produto, sim, é o bom, é o que mata mesmo! No entanto, o conteúdo não condiz com o rótulo. É um duplo crime. Primeiro, porque é mentiroso. Depois porque se o agricultor se intoxica, a indicação médica é que leve junto o rótulo e, ao chegar no hospital,  o que há no rótulo é diferente daquilo com que ele foi contaminado.

Como a Anvisa conseguiu detectar? Os funcionários destas multinacionais, percebendo o engodo, ligaram para a agência e fizeram denúncia anônima.  De outra forma ninguém descobriria. Há heróis anônimos entre os operários que, sabendo o grau de toxicidade daquilo que está sendo vendido se animam a denunciar, então eles vão lá, fazem os testes e apreendem.

Esse mesmo agronegócio também não tem nenhuma responsabilidade com o meio ambiente. O que se pode perceber no debate do Código Florestal. O que eles querem mudar? Querem liberar que se derrube o mato até o rio, que não seja mais necessário respeitar o topo da montanha, justamente onde é feita a recarga do lençol freático e se ela estiver desprotegida escorre para a planície. A exemplo do que aconteceu na serra fluminense. A mudança que querem é para não precisar respeitar mais essas margens nem as reservas legais que são obrigados a manter onde há floresta nativa. Este é o principal objetivo das mudanças que querem impor. E se conseguirem – espero que o governo e a Dilma tenham bom senso para vetar – toda a sociedade brasileira vai pagar, muito caro. Porque as consequências do desequilíbrio do meio ambiente, não são apenas nas lavouras, se vai chover mais ou menos, são para as cidades. Alguns programas de televisão mais sérios convidaram cientistas que explicaram: As chuvaradas que caíram tão forte na serra (fluminense) vieram da Amazônia, porque se formou um verdadeiro rio celestial (sic), lá jã não há mais controle: onde havia floresta agora só há soja, e onde há soja matam tudo com veneno. Imaginem uma fazenda de 240.000 hectares onde se joga veneno de um avião, matam tudo, só sobra a soja. Evidentemente isso gera um desequilíbrio. Consequentemente, no período de chuva, ao invés da chuva cair sobre lá e se distribuir de maneira homogênea como acontecia, ela forma um rio celestial que são casualmente carregados para o Sudeste, São Paulo e Rio de Janeiro, dependendo do movimento dos ventos. Então, se quisermos evitar desastres aqui, temos que preservar a Amazônia.

Voltando à questão agrária. Hoje no Brasil nós temos esses dois problemas fundamentais: um é a concentração da propriedade, o que é um absurdo, uma vez que afronta o espírito da nossa Constituição, que é boa neste sentido e determina que todas as propriedades sejam produtivas, respeitem o meio ambiente, não tenha trabalho escravo, respeite os trabalhadores, e as que descumprirem devem ser desapropriadas para serem distribuídas para os trabalhadores. E de outro lado nós temos o confronto entre duas visões, entre dois modelos de produzir na agricultura: um modelo dos pequenos agricultores e o outro modelo do agronegócio, que só quer ter lucro, sem nenhuma responsabilidade, nem com seus trabalhadores, nem com o ambiente, nem com a sociedade em geral, porque só conseguem produzir com muito veneno, que, repito, não é um problema só da propriedade deles. Na maioria dos países da Europa, inclusive, já está proibida a pulverização aérea. Aqui no Brasil 25% de todo o veneno utilizado é pulverizado por avião. Depois que vai para a atmosfera, claro que a maior parte pode cair naquele território, mas uma vez na atmosfera, encontram água. No início deste ano ocorreu uma chuva ácida na praia de Florianópolis. Foi feita uma pesquisa em laboratório e constataram que tratava-se de veneno vindo de lavouras de soja do Mato Grosso; atingindo uma população litorânea em Florianópolis. Isso nunca tinha acontecido na história da cidade, pelo que se lembre a população mais antiga. Mas o Professor Vanderlei Pignatti, um grande cientista que vem há anos pesquisando o efeito dos agrotóxicos na natureza e na saúde humana na Universidade Federal do Mato Grosso, acabou de publicar uma pesquisa de 10 anos – que até a Globo teve que repercutir – onde ele encontrou 6 tipos de agrotóxicos no leite materno das mães da cidade de Lucas do Rio Verde; não eram agricultoras nem moravam no depósito de veneno, mas pessoas comuns que moram naquela localidade que é cercada por plantações de soja. Portanto, ficou constatado que o avião passa e o veneno fica para todo mundo. As pessoas vão se alimentando e próprio leite materno que achávamos ser o melhor antibiótico natural do mundo, agora vem com seu conta-gotas de veneno, para já ir acostumando as crianças. O resultado disso, só para assustá-los mais um pouco, é que nossos amigos do Instituto Nacional do Câncer já revelaram em vários artigos que a estimativa é o surgimento de 40 mil novos casos de câncer de estômago no Brasil, sendo que metade vai a óbito. E o que mais chamou a atenção desses especialistas é que antigamente o câncer aparecia nas pessoas de mais idade em decorrência do envelhecimento natural das células. Agora o câncer aparece em crianças com 8, 10, 15 anos, o povo brasileiro de todas as idades está pagando. Mas ninguém vai responsabilizar a Bayer, a Syngenta, a Basf… Colocamos a culpa em uma desgraça, “Deus não me protegeu”, “faltei várias sessões do Candomblé” e me deu este problema. Quando, na verdade, é um problema do sistema. Hoje a situação que enfrentamos nos movimentos camponeses é que temos que fazer uma luta muito mais difícil, não é mais apenas lutar contra os latifundiários e, atrasados, o grande proprietário de terra, que era a luta passada, até a década de 1960/70. A luta era pela democratização da terra. Agora temos que lutar contra a concentração da terra e, ao mesmo tempo, fazer uma luta contra o modelo agrícola, que, no fundo, é enfrentar um bando, uma transnacional, é ter que falar mal da Bayer. Para dar outro exemplo, o Dantas, que mora na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) nunca viu um pé de milho na vida dele, apesar de já ter sido pobre. Mas como banqueiro, depois de rico, duvido que ele tenha chegado a menos de um quilômetro de um pé de milho. Ele é um banqueiro que administra um fundo de investimento de um banco americano. Com este fundo de investimento ele comprou em três anos no Sul do Pará cinquenta e seis fazendas, seiscentos mil hectares, e colocou um milhão de cabeças de gado – não se tem notícia de que banco ganhe dinheiro com zebu na história do capitalismo, banco ganha dinheiro com juros. Então deve haver alguma outra razão do porquê de uma conta de investimentos americana resolve comprar terras no Brasil e usou o tal banqueiro como testa de ferro. Ele comprou essas cinquenta e seis fazendas em nome desse fundo de investimento. Nós ocupamos cinco fazendas dele. A notícia saiu primeiro no New York Times e o jornal O Globo só repercutiu que saiu no New York Times. Em outra fazenda, a Santa Bárbara, que tinha até campo de aviação, nós tínhamos um acampamento na frente, umas mil famílias. Um capataz resolveu fazer um despejo do nosso acampamento, despejo violento, tentaram fazer. Mas o que me causou estranhamento foi que a equipe de reportagem da Globo chegou de helicóptero um dia antes do despejo. Não havia ordem judicial nenhuma para o despejo, até porque estávamos acampados na beira da estrada. Agora notem as ilações que há dos proprietários de terra lá no fundo do Pará. Quem vai ter notícias de onde é que fica Eldorado dos Carajás? Nós ocupamos uma área lá do fim do mundo, na fronteira agrícola, que teoricamente não interessaria às forças do capital, mas, mesmo assim, lá surge a Globo para defender, surge o New York Times, e nós é que viramos os bandidos.

Essas são as dificuldades que estamos enfrentando agora na Reforma Agrária: não basta mais apenas lutar pela democratização da propriedade, mas precisamos lutar contra o modelo perverso por trás do qual há forças do capital muito mais poderosas do que antes com o latifúndio. E isso nos leva também a mudar a visão de Reforma Agrária, que é a reflexão interna que nós fizemos no movimento, que também agora não basta mais só distribuir a terra. Na década de 1960, aquela proposta generosa, que até agora é a melhor no meu ponto de vista, do Celso Furtado, anunciada por João Goulart na Central do Brasil no dia 13 de março de 1964. Aquela proposta era a proposta de uma reforma agrária clássica, inclusive muito sábia por parte de Celso Furtado, porque ele defendia naquela lei que deveriam ser desapropriadas apenas as fazendas acima de 500 hectares, portanto estabelecia limite de tamanho, 10 quilômetros ao lado das BR’s, das ferrovias e dos açudes públicos. A ideia era transformar o camponês em abastecedor e consumidor das cidades, integrá-lo ao mercado. Essa era a ideia da reforma agrária clássica, muito generosa, que foi transformada em proposta de lei e, dezoito dias depois, derrubaram João Goulart, um dos motivos foi esse, embora não o único.

Agora, uma reforma agrária que só distribui terras não tira o pobre da pobreza porque o modelo de produção está controlado por grandes capitalistas, então na nossa proposta, que é o que estamos debatendo com o Governo Dilma, é que temos que incorporar outros elementos como o Programa de Agroindústria, para que o agricultor que recebe a terra quando produza não fique dependente de vender apenas a matéria-prima apenas para alguma multinacional. Ao invés de produzir leite e ter que vender in natura para a Nestlé pagar apenas cinquenta ou sessenta centavos por litro, não há empecilho nenhum em termos um pequeno laticínio em cada comunidade agrícola, ele pasteuriza e vende na cidade a R$ 1,20, ainda assim vai ser mais barato do que a Nestlé vende no Walmart. Mas a única maneira do agricultor sair da pobreza com leite é se ele for dono do laticínio, se ele participar da pasteurização. Se ele continuar vendendo leite in natura não vai sair da pobreza nunca. A agroindústria é fundamental para que esses pobres do campo saiam da pobreza. Segundo elemento: a educação. Tão importante quanto democratizar a terra é democratizar a escola. Nos últimos dez anos as prefeituras fecharam no Brasil 24 mil escolas e substituíram por kombis que buscam as crianças, quando chove não podem ir. Isto é uma vergonha, um assassinato da cidadania das crianças do meio rural. Nós temos que levar a escola aonde o povo mora e não o contrário, trazer o povo para a cidade, é uma maneira de simular o êxodo. Faz-se necessária, então, a democratização da educação, não apenas do nível fundamental, mas todos os níveis. E, terceiro, temos que combinar com um vigoroso programa de difusão das técnicas de agroecologia. Já há ciência e conhecimento científico acumulado que nos permite produzir sem veneno, sem baixar a produtividade, mas tem que ser disseminado entre a população. Ninguém nasce sabendo. Existe o conhecimento, mas está ainda restrito e precisamos amplificá-lo entre os agricultores. Técnicas que nos permitem produzir alimentos saudáveis, sem venenos e respeitando o meio ambiente. E por último, um grande programa de reflorestamento. É verdade que os grandes agricultores e os próprios assentados ou recebem terras degradadas ou, por ignorância, vão derrubando as árvores até  o corte. Qual seria a solução “milagrosa” do ex-comunista Aldo Rebelo? “Já que derrubaram, vamos incentivá-los a que continuem!”. Ao invés de legalizar um problema que vai afetar todos nós , o que devemos criar é um programa de incentivos para que se recupere as matas ciliares, na beira dos córregos e nos topos das montanhas. E para isso precisa-se de dinheiro público, precisa-se de um programa. A reforma agrária não é só dividir um quadrado burro, como se diz no INCRA, ela deve vir combinada com esses quatro programas, dessa forma, sim, produziremos alimentos saudáveis, recuperaremos a cidadania entre os pobres do campo e construiremos uma sociedade mais democrática. Sem isso continuaremos tendo graves problemas com o êxodo rural e com a pobreza no campo.

* Otávio Brum é jornalista