A mídia hegemônica atravessa um período de contradições e paradoxos. O cenário foi muito bem definido pelo jornalista Altamiro Borges no livro A Ditadura da Mídia: “Se por um lado, nunca foi tão poderosa, em decorrência dos avanços tecnológicos nos ramos das comunicações e das telecomunicações, do intenso processo de concentração e monopolização do setor nas últimas décadas e da criminosa desregulamentação do mercado que a deixou livre de qualquer controle público (…) Por outro lado, ela nunca esteve tão vulnerável e sofreu tantos questionamentos da sociedade. No mundo todo, cresce a resistência ao poder manipulador da mídia”

Num país onde menos de dez famílias controlam a quase totalidade da mídia, essa discussão se torna ainda mais importante. Apesar de a Constituição Brasileira proibir que políticos sejam concessionários de emissoras de rádio e TV, todos sabem a farra que é a prática no país. Empresas abertas em nomes de laranjas são frequentemente usadas por especuladores, igrejas e políticos como aponta o levantamento do Donos da Mídia, que monitora as propriedades dos veículos de comunicação por todo o Brasil. Segundo a pesquisa, no país, 271 políticos são sócios ou diretores de 324 veículos de comunicação. Entre os detentores diretos ou indiretos de concessões estão José Sarney, Antonio Carlos Valadares, Mão Santa, Jayme Campos, Jorge Bornhausen, Roseana Sarney e Tasso Jereissati.

Uma sociedade verdadeiramente democrática requer o cumprimento dos direitos humanos, a diversidade de opiniões e escolhas, a cidadania, que passa obrigatoriamente por uma mídia mais popular e solidária. Estudiosos como Borges indicam que o Brasil é o país da América Latina que menos passos deu rumo à democratização da informação. Com o tema “Para além do nosso umbigo: os desafios da imprensa sindical”, o 3º Seminário de Imprensa Sindical, promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência do Serviço Público Federal em Santa Catarina (Sindprevs), em abril, em Florianópolis, lançou luz sobre a necessidade de se avançar numa comunicação popular. Diante disso, os sindicatos precisam se unir a fim de lançar um jornal com pauta unificada. Esta é a constatação do coordenador no Núcleo Piratininga de Comunicação, Vito Giannotti, que abriu a primeira palestra do seminário. Ele falou sobre “Por que nossa comunicação deve superar os limites do nosso umbigo?” e defendeu a necessidade de um jornal diário, comprometido com os trabalhadores e capaz de fazer frente aos grandes jornalões.

Como instrumentos seculares de organização social, os sindicato têm um papel fundamental diante desse contexto. No entanto, o potencial exercido por esses instrumentos está aquém das possibilidades, como constata Vito. Com a experiência de quem ajudou a fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e escreveu mais de 20 livros relacionados à luta dos trabalhadores e à imprensa sindical, ele chega a uma avassaladora conclusão: “90% dos jornais sindicais não servem pra nada. Os jornais sindicais não servem para nada no sentido de lutar por outra sociedade, mais solidária. A maioria está limitada às preocupações de reeleger a diretoria para a próxima gestão” – afirma Vito.

Na avaliação do pesquisador, em geral, a pauta dos jornais sindicais se restringe às questões do “próprio umbigo”, como ele define. A tragédia inicial na comunicação sindical é que os principais leitores dos jornais sindicais são trabalhadores cujo único interesse é saber se houve reposição salarial. A preocupação que prevalece é com o próprio bolso, com o próprio umbigo.  Como superar isso? Além de abordar questões referentes a benefícios e aumento salarial da categoria, um jornal sindical precisa oferecer educação, cultura, saúde, salário mínimo, questões mundiais, Cuba, Egito…,

Os meios de comunicação de massa são instrumentos essenciais do mundo contemporânea ao estabelecerem parâmetros por meio dos quais as pessoas leem e interpretam o mundo. A informação precisa informar e qualificar já que a comunicação é um estímulo para a organização dos trabalhadores. Bush não teria invadido o Iraque se não houvesse um consenso mundial, através da mídia hegemônica. A lógica que orienta a mídia comercial coloca interesses empresariais e metas de lucros acima de tudo, ignorando os valores fundamentais da convivência humana. O jornalismo sindical pode, sim, fazer contraposição à Veja, à Folha, à Rede Globo, e a todos os grandes grupos. O jornalismo preso aos interesses empresariais tende a negligenciar grupos sociais periféricos e temas isolados. O jornalismo comprometido com a coletividade permite uma compreensão ampliada não só dos grupos marginalizados, mas de toda a sociedade. Ignorar o papel da mídia na construção contra-hegemônica é fechar os olhos para o potencial transformador dos meios de comunicação.

Magali Moser – Jornalista

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