Arquivo de 18/07/2011

Publicado originalmente no blogdocappacete

Jovem Marx

Nesta terça-feira (19), das 10h às 19h35 a versão integral do filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”
O projeto Revoluções exibe nesta terça-feira (19), das 10h às 19h35 a versão integral do filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”, uma produção de 9 horas e meia do cineastra e escritor alemão Alexander Kluge. O filme, inédito em português, será exibido em três partes no Sesc Pinheiros, no Auditório Paulo Autran.
Alexander Kluge é um dos fundadores do Novo Cinema Alemão e pretende com este filme reconstruir o projeto do cineastra Sergei Eisenstein ao filmar o livro “O Capital” de Karl Marx, a partir da estrutura do livro “Ulisses”, de James Joice.

Confira a programação da exibição:

10h às 13h – Parte I: Marx e Eisenstein na mesma casa (Marx und Eisenstein im gleichen Haus, Alemanha, 2008, cor e p&b, 189 min.)
14h às 16h – Parte 2: Todas as coisas são homens enfeitiçados (Alle Dinge sing verzauberte Menschen, Alemanha, 2008, cor e p&b, 120 min.)
16h30 às 19h35 – Parte 3: Paradoxos da sociedade de troca (Paradoxe der Tauschegellschaft, Alemanha, 2008, cor e p&b, 183 min.)
No mesmo dia, a Versátil Home Vídeo lançará uma caixa contendo os DVDs do filme, além do curta “Amor Cego – Conversas com Jean-LucGodard”, no qual Kluge entrevista Godard.
O projeto Revoluções: educação, história, direitos humanos, cinema e fotografia é uma iniciativa de artistas, estudantes, professores, jornalistas, cineastras e militantes com objetivo de refletir o tema das revoluções sociais a partir da política e da estética. A coordenação geral e curadoria é Moara Rosseto Passoni e Henrique P. Xavier.
Serviço:

O quê: Filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”
Quando: 19/07, das  10h às 19h35
Onde: Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195, Pinheiros)
Mais informações: revolucoes@revolucoes.org.br
Maria

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

José

José Roque dos Santos, 59 anos, e Maria do Socorro Diniz, 58 anos, o casal das fotos ao lado, não têm escolaridade, nem terra, nem futuro algum. São dois lavradores de Doverlândia, um município perdido de Goiás, de pouco mais de 7 mil habitantes. À meia noite de segunda-feira, 23 de maio, o casal foi colocado dentro de um ônibus com outras 30 pessoas e, em troca de lanche e uma camiseta, foram enviados pelo sindicato rural local para Brasília, a seis horas de viagem de lá. José e Maria se juntaram, então, a outras centenas de infelizes enviados à capital federal pela Confederação Nacional de Agricultura (CNA) para, exatamente como gado tocado no pasto, pressionar os deputados federais a votar a favor do projeto de Código Florestal do deputado Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil.

Conversei com o casal enquanto ambos, José e Maria, eram obrigados a segurar cartazes pela votação do texto de Rebelo, defendido por figuras humanasdo calibre da senadora Kátia Abreu, do DEM de Tocantins, presidente da CNA, e do deputado Ronaldo Caiado, do DEM de Goiás, ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR), velha agremiação de latifundiários de inspiração fascista.

José e Maria não sabem ler e nem têm a menor idéia do que é o Código Florestal. Quando lhes perguntei a razão do apoio ao projeto, assim me falaram:

José – Acho que vai ser bom pra nós e pros nossos netos, foi o que disseram.

Maria – É pra cuidar das terras, do futuro do Brasil.

Afora isso, não sabem nada. Nem uma pálida idéia do que é o projeto de Aldo Rebelo, muito menos o que é reserva ambiental e mata ciliar. Nada.

Os cartazes, me contaram, foram entregues por um certo “Luís, do sindicato dos fazendeiros” de Doverlândia, também responsável pela distribuição das camisetas da CNA. Eles foram embarcados em direção a Brasília sem chance de contestação. Os dois não têm um único centímetro de terra, mas trabalham na terra de quem manda, no caso, um fazendeiro da região. Enfrentaram um frio de 9 graus na viagem até Brasília, tomaram café com leite e pão em barraquinhas armadas em frente ao Congresso e, quando os encontrei, tomavam conta da fila de doces, frutas e confeitos que a CNA havia preparado na entrada da Câmara dos Deputados para impressionar a mídia. Tinham esperança de conseguir um almoço de graça e se mandar de volta para Doverlândia, às 17 horas de terça-feira, dia 24, a tempo de dormir em casa. Triste ilusão.

As gentes usadas como gado pela CNA para garantir a aprovação do projeto de um comunista ficaram enfurnadas no Congresso até tarde da noite, famintas e exaustas, obrigadas a se espremer nas galerias e a servir de claque contra os opositores do Código Florestal. E, é claro, a aplaudir Ronaldo Caiado.

Que essa perversão social ainda exista no Brasil, não me surpreende. Há anos tenho denunciado, como repórter, esse estado de coisas.

O que me surpreendeu mesmo é que os deputados do PCdoB não tenham se retirado do plenário, senão por respeito a José e Maria e à história do partido, mas ao menos por vergonha de serem cúmplices da miserável escravidão a que o casal de Doverlândia e seus companheiros da terra foram submetidos em troca de lanches e camiseta.