Memória: Helena Greco

Posted: 27/07/2011 in DIREITOS HUMANOS, Justiça, Memória histórica
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Teoria e Debate nº 27 – dezembro de 1994/janeiro/fevereiro de 1995

publicado em 22/04/2006

Por Valter Pomar*

Discretos como é de praxe, mas sobretudo eficazes, os nossos amigos mineiros passaram meses fazendo lobby para que a seção Memória apresentasse, aos leitores de T&D, Dona Helena Greco. Justo pleito: nascida em 15 de junho de 1916, na cidade de Abaeté (MG), Dona Helena Greco foi jovem rebelde, estudante dedicada às línguas e à literatura, aluna do curso de farmácia da Faculdade de Odontologia e Farmácia da Universidade de Minas Gerais, esposa e mãe de três filhos. E assim, passaram-se 60 anos de sua vida, até que a repressão militar contra os movimentos estudantis despertou Dona Helena para uma nova fase de sua vida: o engajamento no movimento pela Anistia, pelos direitos humanos, na política partidária e no PT. Hoje Dona Helena Greco participa da administração petista de Belo Horizonte, como coordenadora da Coordenadoria de Direitos Humanos de Cidadania.

A entrevista concedida a T&D, em meados de 94, revela um pouco da trajetória dessa mineira para quem a solidariedade não é só no câncer.

Quando começou sua militância política?
Ela teve início quando fiz 60 anos. Sempre fui revoltada contra a injustiça social, a distribuição de renda, mas não tinha canal de participação porque nunca pertenci a partido nenhum, não conhecia partido que valesse a pena. Em 1970, aproximadamente, quando começou aquela enorme repressão sobre os estudantes, os meus filhos estavam na universidade. Minha filha caçula, a Heloísa, tinha um trabalho intenso no movimento estudantil, muito grande mesmo. Eu a via, às vezes, sair de casa às 6, 7 horas da noite e passava a noite fora, isto é, quando saía o jornal. Então pensei: eu preciso ver o que está acontecendo. Sabia que era perigoso, mas achei que devia fazer alguma coisa. E aconteceu. Até essa época eu participava de muitos trabalhos assistencialistas, lecionava aos domingos para estudantes que não podiam pagar, e também dava aula na penitenciária. Em 1956, meu nome apareceu pela primeira vez no jornal, com a seguinte manchete: “Os ladrões agora vão roubar em inglês”, por causa do inglês que eu ensinava para o pessoal. Foi uma experiência muito interessante. Mas voltando aos anos 70: a polícia invadiu os campus, prendeu vários estudantes, o que revoltou todo mundo e principalmente as mulheres mais conscientes. Já tínhamos conversado inclusive sobre a questão do Movimento Feminino pela Anistia e queríamos lançar um manifesto, um protesto, mas em nome de quem? Então nos reunimos e, no mesmo dia, formou-se o primeiro grupo do Movimento de Anistia, que correspondia ao que eu queria do ponto de vista de participação, a luta pelos direitos humanos, que foi minha bandeira a vida inteira, e a luta contra a discriminação da mulher. Conseguimos formar o primeiro núcleo do movimento, cujo lema era: “A luta pela Anistia Geral e Irrestrita, dentro de uma luta sem tréguas pelos direitos humanos”. A Terezinha Zerbini, presidente nacional, dizia que o nosso trabalho era “pela defesa da mulher e para que ela influencie a sociedade”. Não era só o que queríamos e, assim, um grupo de mulheres mais batalhadoras se uniu. Começou da maneira que a Terezinha queria, mansa e suave, depois passou a ter muita influência. Em 1975, todo mundo estava calado, todo mundo estava calado mesmo, e nós mulheres levantamos a voz a favor da anistia e dos direitos humanos e contra a discriminação da mulher. Assim formamos os nossos núcleos, foram nove núcleos. Houve a eleição em dezembro e eu fui eleita presidente do Movimento de Anistia, foi quando começou a minha luta política mesmo.

Presidente do movimento de Anistia em Minas ou nacional?
De Minas. O núcleo daqui inclusive se tornou um dos mais numerosos, chegando a ter trezentas mulheres.

Como você explica isso, logo em Minas, tido como um estado conservador?

Porque o nosso trabalho foi muito bom mesmo. Havia várias pessoas em Minas que estavam presas, desaparecidas, torturadas e muita gente que se importava com os familiares dessas pessoas. Lutamos durante um certo tempo pela anistia, depois vimos que não era somente disso que precisávamos. Era uma luta muito mais profunda, pela democracia e aí surgiu o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA). Eu fui vice-presidente do CBA em Minas e depois fiquei na Presidência, porque o presidente teve de se afastar por motivos de saúde. Já tínhamos discutido que o Movimento Feminino pela Anistia poderia desaparecer aqui em Minas. Eu já tinha discutido dentro do movimento que estava na hora de realmente engrossar as fileiras do CBA, que todo mundo deveria participar. Gostava de atender à questão da democracia, e o movimento feminino continuaria tratando unicamente a questão da mulher na política.

Como era sua relação com a Terezinha Zerbini, essa figura que tanta gente considera folclórica?
É até difícil falar. Quando me perguntavam se eu conseguia trabalhar com a Terezinha, eu respondia: “Não, não consigo”. Tínhamos modus operandis completamente diferentes, ela era uma pessoa muito interessante, vivia dizendo: “Não adianta querer transformar o Movimento Feminista de Anistia, nós somos da burguesia mesmo, e vamos continuar na burguesia. Não temos nada a ver com o resto da situação.” De modo que trabalhávamos com muitos embates. Agora a Terezinha teve um papel fundamental, foi ela que levantou a bandeira pelo primeiro movimento de anistia. E depois quando fomos conversar sobre o CBA, ela mesma propôs que o Movimento Feminista pela Anistia passasse para Movimento Feminista pelas Liberdades Democráticas. Dessa entidade nós não participamos. Minhas lutas foram todas dentro do CBA. Não tinha um presidente nacional, cada estado tinha o seu núcleo com um presidente.

Quem foi o presidente que se afastou em Minas?
O Betinho Duarte. Hoje ele é vereador e foi candidato a deputado estadual.

Como é que sua atuação foi desembocar no PT?

A atuação no PT foi quase que automática. Nunca tinha estado em nenhum partido, não havia nenhum que me satisfizesse. Depois comecei a verificar que o PT era exatamente o que eu queria de um partido, estava nascendo a partir das bases, participava das lutas populares. Sou inclusive uma das fundadoras aqui em Minas, assinei o manifesto… Foi realmente a primeira vez que apareceu um partido no qual eu achava que tinha um papel e que podia continuar meu trabalho pelas mulheres e, sobretudo, pela democracia.

Já são 15 anos de PT. Nesse período você chegou a fazer parte de direções partidárias? Como foi sua história dentro do partido?
Fiz parte da primeira direção em Minas e depois participei também do primeiro Diretório Nacional. Conversamos com os militantes e o pessoal mais envolvido achou que eu tinha nome para me lançar como vereadora, que conseguiríamos colocar pelo menos um vereador na Câmara. Assim, me candidatei com o apoio de várias pessoas do PT, de vários grupos e também de minha base. Tenho uma boa base, meus votos pingaram dos vários lugares que eu estava acostumada a ir. Fui eleita com 6.200 votos, fui a mais votada do PT e junto comigo subiu mais um, que imediatamente se incompatibilizou com o PT e passou para o PMDB, o Renê Trindade.

E isso foi quando?

Essa eleição foi em 1982. O Renê começou a defender posições que não tinham a ver com o PT. Só saiu candidato para se contrapor a outro nome que eles não queriam e que era um excelente candidato.

Como foi a experiência de representante do povo?
Fiquei dez anos com o mandato. Primeiro com mandato tampão e depois fui reeleita em 1988. Muitas pessoas pediram que eu me candidatasse a deputada estadual. Eu teria muitas chances de ganhar, mas não tenho essa vocação para a política, gosto do contato com o povo, que é o trabalho do vereador. Então fiz questão de lutar por mais quatro anos, e acabei ficando dez anos na vereança, consolidei uma série de trabalhos que tinha feito, inclusive, em 1983, só havia eu do PT na Câmara. A maioria era do PMDB, que tinha 23 representantes. Quer dizer, não precisavam do voto de mais ninguém. Mesmo assim eu fiz um trabalho muito bom, consegui instalar a Comissão Permanente dos Direitos Humanos da Câmara, que foi aceita por unanimidade e não foi vetada pelo Governo do Estado. Eu atuava na questão dos Direitos Humanos, a maioria dos meus trabalhos na Câmara foi nesse sentido.

E você preferiu não disputar a reeleição?
Não, eu fiz 78 anos, já pensou se fosse para ficar até os 80 anos na Câmara. Agora quando o Patrus saiu candidato, preferi ficar na Prefeitura, eu o apoiei e nós conseguimos elegê-lo. A plataforma de campanha do Patrus era consolidar tudo o que estávamos pleiteando, a Coordenadoria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura. Temos um programa muito bom a ser cumprido. Outra coisa interessante desse projeto é que nós estamos lá para permear todo o governo do Patrus e para cobrar algumas ações que são necessárias. Precisamos de muito empenho, vamos fazer oficinas, vamos fazer banco de dados. São três projetos diferentes, com uma ponte de ligação entre eles: a questão do direito da criança na rua, a questão dos direitos de cidadania, que atingirá os bairros da periferia e um levantamento do índice de violência nos bairros, mostrando como se dá a representação social da violência com outras pessoas. É preciso saber trabalhar com esse grupo de violência. Às vezes as pessoas têm medo, por isso visamos a formação de multiplicadores. São práticas em oficinas educativas, de onde podem sair os multiplicadores de informação sobre a questão dos direitos do cidadão e do indivíduo. Estas oficinas vão preparando o caminho para a implantação dos direitos. É um trabalho que estamos querendo fazer há muito tempo, pois já consolidamos uma boa experiência com a questão da violência e dos direitos humanos, trabalhando muito próximo à universidade. O que estamos tentando fazer, e acredito que conseguiremos, é tomar esse projeto de Direitos Humanos e Cidadania irreversível, mesmo quando terminar este governo. Fico assustada porque em São Paulo foi um horror … Do que a Erundina fez não ficou nada, mas em Belo Horizonte nós vamos tentar deixar algo. A idéia é justamente essa, desenvolver um tipo de autonomia nos locais de trabalho justamente para o governo não ser quebrado. O que nos preocupava no trabalho da Câmara era o fato de as pessoas chegarem quase que pedindo desculpas por estarem ali, ninguém tinha a menor noção de que estávamos sendo pagos com o dinheiro público. Só de serem atendidos já se davam por satisfeitos. É a não cidadania. Então o que estamos tentando fazer é justamente criar mecanismos institucionais mesmo, para que elas possam multiplicar as informações. Agora para isso é necessário todo um embasamento teórico, uma metodologia de trabalho para o acompanhamento do projeto num primeiro momento e depois a coisa acontece, mesmo que mude um pouco a linha. Queríamos implantar de tal maneira a Coordenadoria que ela ficasse fazendo parte realmente da estrutura da Prefeitura, seja qual for o governo.

Você relata que foi a partir dos anos 70 que começou a se integrar politicamente, a ter uma militância política mais ativa, e que antes já tinha algum tipo de trabalho na área dos direitos humanos. Sua formação universitária tem algo a ver com essa “área”?
Olha, eu sempre li muito, bastante literatura clássica, e várias línguas. Mas sou farmacêutica, com muita honra. Formada na Universidade Federal de Belo Horizonte, em 1937. Nessa época eu me formei, meu marido se formou em medicina e nós casamos.

Mas isso era usual nessa época para as mulheres?
De jeito nenhum, nada usual. Mas foi o seguinte, nós fomos um exemplo, porque na minha época havia algumas mulheres fazendo trabalho de homem, o que não era normal. Eram aproximadamente quatorze. Quando fui fazer vestibular de farmácia, éramos sessenta candidatos para 47 vagas. Naquele tempo tinha prova escrita, oral e prática.

Você chegou a exercer a profissão?
Eu trabalhei com o meu marido e com o meu cunhado nas Clínicas durante muitos anos, sem vínculo empregatício, substituindo pessoas. Sempre me interessei muito, contribui muito com as perícias médicas em Minas. Sempre me interessei pelas novidades, eu conheço bem as drogas e combato o excesso de medicamento. Fiquei muito entusiasmada porque há pouco tempo, ganhamos as eleições em nosso sindicato. Essa gestão me deu um grande orgulho porque deram meu nome a uma sala no Conselho Regional de Farmácia. Não tive muito tempo para me dedicar, mas tenho muito orgulho da minha profissão, inclusive minha filha diz: “Você devia ter feito mais alguma coisa”. Não fiz pós-graduação, mas eu nunca deixei de me interessar pela minha profissão.

Como é que a sua família via isso na época, de você fazer um curso superior?
Eu estava com 17 anos quando me envolvi, eu ia estudar medicina. No vestibular eu tirei segundo lugar e a minha mãe disse: “Você vai estudar medicina, você vai fazer curso superior, mas eu não vou ajudar em nada”. Eu não podia fazer curso sem dinheiro, então fui ao juizado, pedi uma licença para ficar maior e receber a minha herança para poder estudar. Mas temos que entender outra coisa, eu era filha de imigrantes italianos, muito rígidos com a educação. A educação de homens e mulheres era muito diferenciada. A única maneira de tratar a mulher era como dona de casa, prendas domésticas. Eu era a mais velha de uma família de sete irmãos e rompi desse jeito. Tenho muito orgulho da minha família, do meu pai. Acho meu pai um sujeito formidável. Ele era napolitano e veio fazer o curso primário aqui, de modo que ele não sabia o italiano, ele sabia o napolitano. Quando surgiu Mussolini, por exemplo, recebíamos uma enxurrada de propaganda lá em casa, como meu pai não sabia italiano, quem fazia as leituras todas era eu, com 14, 15 anos. Aquilo era recebido com uma certa simpatia, a ponto de um dos meus irmão chamar-se Mussolini. Foi quando eu entrei para o Colégio Sta. Maria e encontrei lá uns professores muito bons, e inclusive o professor Veloso, que fazia questão de mostrar para os alunos que o Brasil não era aquilo que todos ensinavam no curso primário. Tinha uma freira paulista, muito ufanista, que assistia as aulas desse professor, porque era homem, e ficava nos vigiando. Ela ficava na cadeira, quando ele saía só faltava ela dizer: “Não é isso não, o professor está muito errado, o Brasil é um país formidável mesmo, nós não precisamos fazer nada, é só continuar do jeito que está.” Eu tive influência também do meu marido. Nós vivíamos juntos desde crianças, ele estudava lá em casa, é meu primo de primeiro grau, e a turma dele era muito boa, e tinha um irmão também que era um grande intelectual, e tanto eu quanto meu marido, fomos a primeira geração de intelectuais. Agora eu quero que fique bem claro que eu me orgulho muito da minha família, eles eram pessoas muito interessantes, muito honestas.

Sua mãe também é italiana?
Não, minha mãe é outro caso. Ela era de uma família tradicional quatrocentona lá do oeste de Minas e nós somos descendentes diretos de Joaquina Pompeu. Agora a minha mãe tinha a educação de uma pessoa que achava que o papel da mulher é esperar o marido e criar os filhos. Eu tinha mais conflitos com minha mãe que era brasileira do que com meu pai que era italiano. Meu pai era muito mais humilde que muita gente. Embora fosse italiano, não se conformava que tirássemos notas melhores em francês, inglês e italiano do que em português,- sendo que ele não sabia que essas línguas são mais fáceis.

Para ter vindo ao Brasil com 14 anos, e ter se casado com uma integrante de uma família quatrocentona ele se estabeleceu rápido. O que fazia?

Ele começou fazendo tudo o que podia. Quando foi para Pitangui ele fazia os trabalhos que ninguém queria fazer e começou a ficar conhecido. Inclusive nessa cidade ele ficou noivo da filha do patrão dele, não deu certo e acabou, mas já estava bem entrosado na realidade brasileira. Depois foi para Abaeté, onde eu nasci e abriu uma casa comercial. Todo dia funcionava, sem horário para fechar. Eu me lembro até hoje. Todo o pessoal da cidade ia conversar lá. Meu avô era um coronel tradicional, e convenceu a minha mãe a se casar. Ela era uma mulher belíssima. Eu sempre tive uma revolta com a injustiça social, isso eu acho que não é inato, porque eu lia demais, era difícil uma semana que eu não lesse dois ou três livros e muito devo a esse professor de quem eu falei. Então comecei a fazer esse assistencialismo, freqüentando as prisões… e fiquei solta na vida até descobrir a luta pela anistia e conseguir um partido que servisse para mim. Aliás, era muito mais fácil lutar contra a ditadura do que lutar agora, porque você sabia quem era quem. Eu acho bom quando se tem um inimigo que está ali reconhecido e que assume que é inimigo. O secretário de Segurança só faltava me botar para fora e me chamava de comunista e aquela coisa toda. Agora se vou à Secretaria a pessoa nem sabe quem sou: “ô Dona Helena, coisa boa que a sra. está aqui? Quanto tempo que a sra. não aparece!” Mas me dá uma aflição. Não é questão de falta de jogo de cintura, tem coisas que a gente não pode misturar.

Você falou que o seu pai na época recebia propaganda de Mussolini e se interessava?

Demais. A colônia era muito unida, reuniam-se onde era a Câmara. A maioria achava aquilo uma coisa muito séria.

Mas a primeira leva de imigrantes italianos era à esquerda, principalmente em São Paulo…
Em São Paulo, mas aqui não. Meu pai veio no final do século passado com treze anos e ficou no meio da colônia italiana. Ele morreu em 1932, quanto eu estava com dezesseis anos.

Quer dizer, seu pai em nenhum momento teve assim influenciou sua opção política pela esquerda?
Não, porque ele não era mesmo de esquerda, era um patriota tremendo que queria o bem da Itália e não soube inclusive distinguir o que aconteceu. Ele era um homem muito justo e muito correto, se tivesse visto as bobagens que Mussolini fez…

E a sua mãe, ela tinha alguma influência política ou pessoal sobre a sua formação, seu caráter, a sua conduta?
Uma das coisas que eu achava que tinha que fazer para ser diferente era fumar. Naquele tempo era um horror uma moça fumar. Eu não fazia trabalho caseiro. Lá em casa éramos quatro mulheres, praticamente três, porque comigo não conta, cada uma tinha que fazer uma coisa e eu dizia: “Comigo não conta não”. Ela não tinha muito tempo de nos educar e meu pai era uma pessoa extremamente fechada. Ele era duro consigo mesmo, duro com a família, e não tínhamos diálogo. Então eu comecei a fazer umas coisas, de propósito. Eu saia à noite e não voltava. Prá começar não quis ir para o colégio do Sagrado Coração, onde todos os bonzinhos iam estudar. Eu fui para o Colégio Sta. Maria que sempre foi progressista, apesar das freiras francesas. Foi quando eu estava nesse colégio, aos 11 anos, que ele me chamou e disse: “Eu vou te internar”. Eu respondi: “Pode deixar papai que eu cuido dos meus negócios”. Então fui falar com uma das freiras do colégio e ela perguntou: “Cadê o seu pai?” Eu disse: “Ele não veio, eu que estou acostumada a fazer minhas coisas”. E me internei.

Como é que foi a trajetória dos seus irmãos e irmãs? Nenhum teve uma percurso parecido com o seu?
Não. Eram todos muito tradicionais mesmo. Quando o negócio ficou preto, na época da guerra, quiseram inclusive convencer meu irmão a trocar de nome. Mas ele disse: “Não, eu sou fascista mesmo”. Mas acabaram trocando o nome da família dele, incorporando outro sobrenome. Já o meu irmão mais velho tinha simpatia pelo Partido Comunista. Ele não era militante de partido político, mas fazia questão de apoiar os candidatos comunistas. Inclusive a primeira vez que eu me candidatei, ele falou que não podia me apoiar porque o voto era vinculado e ele estava fechado com o Partido Comunista.

Que na época estava no PMDB.
Exato.

São quantos irmãos?
Nós éramos sete.

Na época, o seu comportamento era completamente diferente, ou havia outras moças com atitudes tão independentes quanto as suas?
Tínhamos um grupo e sempre andávamos juntas: eu, a Maria de Fátima e a Norma, que está em São Paulo, trabalhando no Instituto Butantã.

Porque você não teve uma carreira acadêmica, uma vida acadêmica tradicional e intelectual?

Essa é uma pergunta que eu faço para mim mesma. Eu não sei como não me tornei uma empresária, pela minha forma de induzir, de formar minha equipe. Teria capacidade de ser catedrática, mas com essa mania de fazer tudo ao mesmo tempo, fiquei sem uma meta. Quando despertei, já era tarde.

Na época da ditadura Vargas você não se engajou?
Não. Aliás, no finalzinho do governo Vargas meu marido ganhou uma bolsa e fomos para os Estados Unidos. Me ofereceram um trabalho como farmacêutica, mas eu não tinha nenhuma prática de manipulação. Então resolvi que eu queria mesmo era ser garçonete, porque iria ganhar uma nota, ou então fazer entregas na casa daquelas atrizes. Estava louca para isso! Ficamos um ano lá, em São Francisco.

Quais são suas lembranças do governo de Jango ?

Eu sei que ele estava entusiasmado com as coisas. Jango era compadre do deputado Wilson Guedes, que morava perto da minha casa e vinha sistematicamente visitá-lo. Sempre nos encontrávamos. Mas naquele tempo eu tinha uma certa resistência com autoridades. Depois percebi que ele era uma pessoa muito interessante. Eu poderia ter tido um bom contato com ele. Já o Tancredo atrasou 50 anos nossa História, fazendo as alianças que fez, mexendo daqui e dali. E depois formou-se um mito em torno dele. Disseram que ele morreu em 21 de abril, e, na verdade, já estava morto há alguns dias. Aí é que o pessoal ficou totalmente iludido, o povo achando que ele era mesmo o tal. Eu não sei o que teria sido do Brasil se ele não tivesse morrido. Se seria melhor do que foi, porque acabamos ficando com o Sarney, que era vice dele, em função das alianças que tinha articulado.

E o golpe militar de 64?
Quase não vi nada na rua. Não estava muito a par do que estava acontecendo, porque a perseguição mesmo foi em 1969. Então tive contato com o manuscrito de um preso político, contando o que estava acontecendo. Quando fui contar a outras pessoas, ninguém acreditou. Aí fiquei preocupada, muito preocupada. Nossa luta contou com muita ajuda dos próprios presos políticos dentro da cadeia. Nas reuniões da Anistia sofremos sete atentados. O CAC (Comando Anticomunista) e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) começaram a soltar bombas, a invadir nossas igrejas. Nossas reuniões foram invadidas três vezes. Uma bomba explodiu no banheiro, mas não machucou ninguém, porque metade da sala estava vazia. O efeito da bomba destruiu o banheiro. Os nossos carros estavam na porta e foram todos depredados. Furaram pneus, picharam e depois de alguns dias apareceu um grupo de policiais federais. Decidimos continuar as reuniões nas nossas próprias casas. Uma outra vez, estava hospedando a Terezinha Zerbini e uma amiga nossa que foi vítima de tortura, e jogaram uma bomba aqui em casa. Meu portão estava com uma grade fora do lugar e a bomba ricocheteou e caiu no passeio, fazendo um buraco bem razoável. No dia seguinte vieram uns oficiais perguntando o que tinha acontecido. Eu respondi: “Eu é que vou perguntar a vocês o que aconteceu, eu não devo satisfação nenhuma não”. Toda hora recebíamos telefonemas e cartas tão baixas que não dá nem para comentar. Tentei até fazer uma coletiva para imprensa. Depois passei a ser seguida e diziam que era para me proteger. Tinha um tal de Ariovaldo que ficava atrás de mim e um dia eu virei e disse: “ó, tampinha!”. Ele ficou danado da vida. Às vezes a gente dizia o que estava com vontade, até arriscava. Eu fiquei inclusive conhecida de tal modo, que não podia fazer qualquer coisa sem assumir que tinha feito. Mas eu acho que isso é muito bom.

Você foi à Europa como delegada do CBA, em um congresso internacional. Como foi essa experiência?
Aconteceu uma coisa muito interessante logo de saída, porque estávamos numa reunião dos movimentos pela Anistia, eram três ou quatro movimentos, e o CBA já estava formado. Cogitou-se mandar uma pessoa para representar todas as mulheres que lutavam pela anistia e lançaram o meu nome, que foi aprovado, mas a Terezinha Zerbini não ficou muito satisfeita.

Foi nesse episódio que você conheceu a Dona Maria Augusta?
Foi. Encontrei ela e várias outras mulheres.

Com essa vida heterodoxa, como eram as suas relações com as famílias tradicionais aqui de Minas?
Havia alguns contatos. Mesmo quando eu era muito nova já dava as minhas opiniões, depois as relações ficaram cada vez piores. É por isso que eu insisto, enquanto o PT não apareceu eu não tinha partido.

E quanto à mineirice, você acha que ela existe mesmo?
O mineiro tem uma canção popular que diz o seguinte, referindo-se a São Paulo: “O mineiro compra bonde mas vende reboque ao paulista”. As coisas são assim. Há um relacionamento meio complicado, muita coisa entra em choque. Tudo que acontece aqui é por causa da mineirice. Temos alguns políticos que são verdadeiras anedotas. Por exemplo, o Alkmin, uma pessoa com muita presença de espírito, uma coisa tremenda. Outra figura interessante era o ex-presidente Juscelino Kubistchek, que levou o Brasil para a era da indústria, sendo que nós não estávamos preparados para isso. Uma vez Juscelino participou de um almoço da Associação Médica do Brasil, da qual meu marido era membro. Fizemos uma fila para cumprimentá-lo e tinha muita gente. Você acredita que ele reconheceu todas as pessoas?

Qual é sua visão sobre religião, particularmente sobre a Igreja ?

Eu tenho muito respeito pelas Igrejas legítimas, não por essas corjas de organizações que se especializam em tirar dinheiro dos pobres. A religião não está entre meus pensamentos prioritários. Fé é uma coisa muito interessante, ou você tem ou não tem. Eu me caracterizo como uma pessoa agnóstica, que é uma coisa que nem existe mais. Eduquei minhas duas filhas e meu filho dentro desse principio.

Você várias vezes disse que desenvolveu trabalhos assistencialistas, certamente fazia isso com algum nível de relação com a Igreja?
Nunca. Inclusive em grande parte dessas visitas, quem me acompanhava era a professora de música da minha filha Heloísa, que era judia, de modo que não tinha nada a ver com a Igreja. Era mesmo a única coisa que se podia fazer. No entanto, uma coisa me preocupa muito hoje. Estou achando essa campanha contra a fome muito assistencialista, está faltando politização nisso, você não acha? Se a pessoa está com fome você dá um prato de comida para ela, não vai pregar a causa do porquê as pessoas estão com fome. Mas acho que o presidente deve fazer outra coisa qualquer, não sei bem o que é, mas está me preocupando esse negócio de dar pão, cesta básica. Tudo bem, mas isso devia estar associado a outro tipo de política. Ter que depender de favor é muito ruim, porque o que a gente quer é que todo mundo tenha o direito de trabalhar e comprar o que é preciso. Mesmo porque as famílias do interior, da zona rural, vêm para cá e a maioria delas é muito bem estruturada. Estão acostumados a trabalhar juntos. Chegando aqui não há empregos, a mãe vai trabalhar como doméstica e o pai vai fazer biscate, os meninos ficam sozinhos, e os valores da família começam a ser substituídos, influenciando as crianças. Voltando à questão da assistência social, é lógico que se a pessoa tem condições de trabalhar, não vou dar um prato comida. O trabalho deve ser no sentido de criar mais empregos.

Você tem opiniões no mínimo radicais. Você chegou a estudar a literatura propriamente política, ou sua formação foi intuitiva?
Completamente. Bem nova, por exemplo, eu achei que devia ler O Capital, e li. Mas eu nunca fiz um estudo sistemático, como com a literatura. Eu tenho invejada minha filha, como socióloga ela estudou as coisas na hora certa. Tudo o que eu fiz, fora a farmácia, foi como autodidata. Hoje as pessoas dizem que isso é ter uma visão panorâmica das coisas, mas eu lutei com dificuldade exatamente pela minha falta de estudo sistemático da leitura política.

E sobre a questão do feminismo, você chegou afazer alguma reflexão, ou também é uma coisa que você foi desenvolvendo …

Não. O negócio é muito interessante. Até que no começo eu tinha uma certa resistência, eu não falava que era feminista de jeito nenhum, eu falava que era feminina. Então fui estudar bem a questão e vi o horror que era, o que a mulher vinha sofrendo. Aí acho que veio um certo carinho, sabe, a evolução dos novos movimentos, a conquista há pouco tempo em países como a Suíça – onde a mulher não podia nem votar. Aí comecei a me enfronhar, a ter a necessidade de ser feminista mesmo de lutar contra a discriminação da mulher.

Segundo D. Maria Augusta, quem mais influenciou a cabeça das mulheres da época dela, e da sua também, foi Coco Chanel, porque impôs uma revolução de costumes. Aliás, D. Maria Augusta é muito crítica contra as feministas… como se diz?

Descabeladas. Pois é, eu concordo com ela. Aliás, eu gosto demais de D. Maria Augusta. Eu não sei se ela se lembra de mim, mas eu me lembro muito bem dela.

Fale um pouco do que vocês estão fazendo agora, da pressão sobre o governo acerca dos desaparecidos…
Agora estamos realizando uma série de eventos para lembrar a Anistia, e esta é uma data expressiva. Fazem 15 anos. Vamos tentar fazer com que toda a documentação que existe sobre os desaparecidos seja aberta e inclusive aqui em Belo Horizonte temos uma dificuldade séria. Eles falam que a documentação sumiu, foi queimada, mas ninguém sabe quem é que mandou queimar e onde foi queimada, de modo que achamos que é falta de boa-vontade para nos entregar. Queremos que seja feita uma estátua em homenagem aos mortos e desaparecidos e pretendemos ainda obter financiamento de pessoas e entidades de forma que não pese para os cofres públicos. Já conversamos com o artista plástico Amilcar de Castro e deve haver uma reunião entre vários outros artistas para decidir quem deverá fazer a obra, que será erguida na Praça da Escola de Direito. Há também um outro programa aqui que se encaixa nessa proposta, o BHC. Acrescentamos o BHC e a tortura, de modo que estamos fazendo esse trabalho, lembrando os que foram torturados e conseguindo que Belo Horizonte se apresente como exemplo de cidade sem torturas, pois sabemos que há tortura em todas as delegacias e que ela foi institucionalizada e agora temos que tomar cuidado para que não seja banalizada também. Já que estamos falando nisso. Um outro exemplo que eu queria mencionar e que não falei ainda é o 64 Nunca Mais. São trinta anos de golpe militar, uma data também muito expressiva. Queremos que aquilo nunca mais aconteça, por isso preparamos vários eventos muito bem sucedidos, inclusive os cartazes foram muito bem aceitos.

Esse trabalho que o Nilmário Miranda está fazendo, você acompanha?
Eu tenho muita dificuldade em viajar, mas acabei indo a Brasília, para apresentar a documentação. Inclusive fizeram um painel interessante sobre os mortos e desaparecidos. Conseguiram retratos e vários documentos.

A idéia de vocês é reivindicar a abertura de todas as informações e que a União assuma a responsabilidade, é isso?
No Chile já houve o reconhecimento da tortura e nós queremos que aconteça o mesmo aqui. Que o Estado brasileiro assuma a responsabilidade plena e total pela prisão, tortura, morte e desaparecimento de pessoas. Queremos a imediata criação de uma Comissão Especial de Investigação e a reparação desses atos pelo Ministério Público, Legislativo, e com o apoio da OAB e de outras instituições. Que os familiares e amigos dos mortos e desaparecidos e os grupos Tortura Nunca Mais possam ter poderes plenos para investigar, colocar testemunhas, requisitar arquivos e exumar cadáveres, com o objetivo de esclarecer cada um dos casos. A reparação é o começo de uma mobilização para que não sejam indicados para cargos de confiança pessoas que tenha participado do governo militar e da tortura.

Vocês não acham que isso pode ser entendido pelos quartéis como revanchismo, como “troco”?
Muitas vezes acham sim, mas agora já estão compreendendo que nós não estamos brincando. Não tem revanche coisa nenhuma, o que queremos é justiça. E por essa justiça vamos combater até as últimas conseqüências. Isso sempre dá um mal-estar no pessoal fardado. Inclusive é muito importante a desmilitarização das polícias militares estaduais e sua desvinculação do Exército. Trabalhamos para que seja aplicada a lei incriminadora, assegurando o cumprimento do artigo 5, parágrafo 3, da Constituição Federal, que proíbe torturas e tratamento degradante a qualquer cidadão. Na época da Constituinte mandamos milhares de assinaturas para aprovação desta lei. Nosso movimento queria que a tortura fosse considerada crime contra a humanidade e “inanistiável”, mas não conseguimos, porque a turma da pesada, com um lobby muito grande introduziu essa lei geral de crimes hediondos e um monte de modificações, que não satisfaz para a questão específica da tortura. Um torturador é uma pessoa que não dá para viver. Não é mesmo? É importante também o desmantelamento de todos os órgãos de repressão política, que ainda existem. Li há pouco tempo na Folha de S. Paulo uma carta de um militar dizendo que os sem-terra estão querendo implantar aqui uma república marxista-leninista e que eles recebem dinheiro do exterior. Isso causa uma grande preocupação, embora os militares não tenham agora a força que tinham, porque inclusive não estão muito unidos entre si. A gente deve prestar muita atenção nisso, sabe? Não podemos fazer nada que favoreça a direita. Vamos lutar para sermos bons cidadãos e conseguir o governo certo, as pessoas certas nos lugares certos. A mensagem que eu daria é essa, que eu estou muito preocupada com isso.

De onde você tira essa vitalidade toda? É muito impressionante 78 anos e imbatível desse jeito.
Quando eu lembro que tenho 78 anos levo um choque, porque eu não me sinto com 78 anos. Agora eu tenho uma coisa que é muito excelente. Tive uma infância boa, uma juventude boa, mas eu acho que a maioria das minhas realizações foram depois da idade madura, na terceira idade, como vocês chamam. Então eu acho muito importante estar com essa idade e ter conseguido fazer uma triagem do que é bom e do que é ruim para poder continuar. Quando eu tinha 70, 74, 75 anos, os repórteres perguntavam qual era a minha idade e eu falava: depende, se é a minha idade cronológica é tanto, mas se é a minha idade psicológica, eu dizia 57, 45. Porque eu não me sinto velha mesmo. Ainda mantenho a capacidade de ficar indignada.


*Valter Pomar é diretor de T&D.

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