Arquivo de 03/08/2011

Por Angélica Lovatto (01/08/11)

Nada mais prazeroso que fazer a resenha de um livro que em quatro meses esgotou sua primeira edição. Principalmente por tratar-se de um ensaio de interpretação histórica. Luiz Bernardo Pericás brindou-nos com uma pesquisa apurada, sobre um tema complexo, escrevendo um texto instigante.

O cangaço é um tema controverso. Objeto de teorias e interpretações, muitas vezes conflitantes, foi também alvo de paixões e ódios. O autor anuncia que sua intenção não é ser polêmico. Mas o livro está provocando excelentes polêmicas. Isso porque, tratando das relações entre coronelismo e política, cangaceiros e banditismo no Nordeste, uma das principais teses apresentadas é a de que o cangaço não lutava para reconstituir ou modificar a ordem social sertaneja. Alguns dos estudos sobre o cangaço insistiram nessa direção, através da seguinte lógica: supunha-se que os bandoleiros fizessem parte da população pobre, logo defendiam essa população. Inferia-se que, se a ordem social era a do mando dos coronéis – que exploravam e oprimiam a população pobre – então os cangaceiros, pela lógica, combatiam os coronéis e queriam mudar aquele estado de coisas. A pesquisa de Pericás aponta o inverso: os cangaceiros não lutavam em prol das causas populares e, ao invés de combaterem, mantinham ligações com os chamados coronéis: “O que se pode afirmar é que os cangaceiros não lutavam, deliberadamente, para a manutenção ou para a mudança de nenhuma ordem política” (p.188). E conclui: “Eles lutavam, isso sim, para defender seus próprios interesses”. (Ibidem).

Para demonstrar essa tese, o autor organiza a exposição de sua pesquisa em nove meticulosos capítulos, que dão ao leitor a possibilidade de acompanhar cada passo de sua coleta de dados e, ao final do livro, quem está lendo sente que – se ainda quiser discordar da tese principal – vai ter que, pelo menos, dispor-se a realizar um trabalho tão ou mais apurado. A edição da Boitempo, muito bem cuidada como sempre, traz outros atrativos que complementam e dão prazer à leitura: um Caderno de imagens e uma seção de Documentos, que não só ilustram como fundamentam as afirmações feitas. De muita utilidade é também uma Tabela de conversão de mil-réis em dólares, que facilita a compreensão dos aspectos econômicos. A relação das fontes consultadas também impressiona, pois o autor não só leu sobre o cangaço e temas correlatos, mas conversou com pesquisadores e estudiosos do banditismo rural nordestino. Viajou pela região do cangaço, refazendo a trajetória dos bandos. Por fim, passou um ano pesquisando como Visiting scholar na Universidade do Texas (Austin, EUA), que possui uma das maiores bibliotecas sobre temas latino-americanos. Ali encontrou informações e documentos sobre o cangaço no Brasil que – paradoxalmente – não estavam disponíveis no próprio país.

O recorte do estudo vai de 1890 a 1940. Pensando na história brasileira, o cangaço existiu num período recheado de transições fundamentais: assistiu à passagem da Monarquia à República, viu nascer o processo de industrialização, teve seu auge nos anos 1920, viveu a crise de 1929, sobreviveu – por algum tempo – aos impactos da Revolução de 1930, quando finalmente entrou em colapso, no início dos anos 1940. A pesquisa analisa a presença de cangaceiros numa região específica: o sertão e o agreste. Pericás questiona uma visão homogênea do Nordeste, particularmente nestas duas regiões, mostrando que em meio à pobreza – sem dúvida predominante – havia cordões de prosperidade. Foi justamente nestes setores prósperos que observou-se a maior incidência do cangaço. Outra novidade foi o recorte da pesquisa para além de Lampião, incorporando cangaceiros de outras épocas.

No início da leitura, estão disponíveis as discussões sobre a teoria do banditismo social. Considero este capítulo importante, pois dá ao leitor condições de acompanhar uma pré-discussão sobre o cangaço. Pericás contesta a tipologia básica de “banditismo social”, que em seu entendimento é bastante inexata – no caso específico do cangaço – pois não se pode enquadrar um número significativo de tipos homogêneos de marginais dentro de um sistema amplo coerente. O ideal, neste caso – defende o autor – é a interpretação social de eventos históricos, principalmente em se tratando de “delitos”. Daí sua opção pelo estabelecimento de uma análise factual e empírica rigorosa.

Em seguida, mergulha-se diretamente num capítulo vital para o entendimento posterior de todo o conjunto de argumentações que compõem a tese defendida: a explicitação das origens de classe e as motivações para a entrada no cangaço. Nele, demonstra-se que apenas a “arraia miúda” dos bandos cangaceiros tinha origem popular. As lideranças eram de estratos mais altos da sociedade e controlavam uma estrutura hierárquica rigorosa, dando a tônica da atuação. Alguns líderes eram filhos ou os próprios coronéis. Descendentes de membros da Guarda Nacional e de latifundiários também lideraram o cangaço. Outros eram, ainda, aliados da elite local, mesmo que inimigos de outros políticos e fazendeiros, ou seja, a grande motivação para a entrada no cangaço vinha de disputas entre famílias e/ou políticos locais: a morte de um parente ou de um aliado era a porta de entrada para a efetivação da vingança. Não havia propriamente um motivo social para a defesa da população pobre contra os coronéis. Ao contrário, os cangaceiros viam a massa anônima como seus “empregados” e, reciprocamente, estes os enxergavam como “patrões”. Há um relato instigante, onde pessoas de populações paupérrimas atravessavam quilômetros, a pé, em direção às cidades, muitas vezes vendendo a roupa do próprio corpo para comprar o que comer, pois preferiam ficar literalmente nus (e passar por essa vergonha), do que aliar-se a bandos do cangaço para conseguir melhores condições de sobrevivência. Isso porque os cangaceiros eram capazes de atos de extrema crueldade em relação a qualquer pessoa, e, portanto, também em relação aos pobres. Isso causava medo. Importante ressaltar, no entanto, que também existiram atos de extrema generosidade em relação aos pobres, mas essa não era a tônica, simplesmente pelo fato de que essa não era a motivação que mobilizava a entrada no cangaço. Enfim, não se procurou construir uma base de apoio popular real entre os bandidos e o povo.

Na continuidade dos capítulos (aspectos militares, questão racial, Prestes e Lampião, comunistas e cangaço etc.), vai ficando perceptível ao leitor que Pericás não contesta apenas uma das teses mais difundidas sobre o cangaço (a que difunde uma visão homogênea do Nordeste), mas também a visão de que o cangaço seria a representação de uma manifestação pré-política e inconsciente. Esta tese advoga que os cangaceiros não tinham um viés revolucionário, e nem um viés conservador/institucional. Mas o autor – nos capítulos “Relações sociais e estrutura dos bandos” e “Mulheres e crianças no cangaço” demonstra que, a despeito de um viés específico de atuação, os cangaceiros não estavam desprovidos de consciência política. No entanto, o cangaceirismo apresentou um paradoxo muito interessante: não reproduziu, de forma idêntica, as relações de dominação vigentes. O “soldado raso” e o “comandante” viviam da mesma forma no cotidiano dos bandos, comiam a mesma comida, dormiam no mesmo chão. O mesmo acontecia com mulheres, crianças e, até mesmo, os cachorros, tudo contribuindo para uma combinação de família, comunidade sertaneja, emprego e organização militar. No tocante às mulheres, embora sempre em papel secundário na sociabilidade do cangaceirismo, observou-se um papel de maior destaque, se comparado à mesma estrutura dos lares tradicionais, à época.

Portanto, além de polêmicas, as teses demonstradas por Luiz Bernardo Pericás inovam no mínimo em três dimensões: na interpretação propriamente dita do cangaço, na pesquisa estruturada em fontes originais e na forma de expor os resultados da pesquisa, onde cada capítulo dá vontade ao leitor de continuar, num único fôlego, até o fim, seja pela concordância, seja pela negação do que está ali defendido. A obra abre espaço para novos debates e ricas discussões sobre um assunto que ainda atrai paixões e ódios.

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Angélica Lovatto é professora da UNESP-Marília, doutora em Ciência Política pela PUC-SP e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais (NEILS/PUC-SP) e Grupo Estudos Cultura e Política do Mundo do Trabalho (Unesp-Marília).

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PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:

08/2010/ – Revista Teoria e Debate – Em xeque, idealizações sobre o cangaço – José Rodrigues Máo Júnior

Nov/2010/ – Revista Leituras da História – Luz de Lampião – Robson Rodrigues

Nov/2010/ – Revista Leituras da História – Os homens do cangaço – Redação

Out/2010/ – Revista Pesquisa Fapesp – A cor que invadiu o sertão – Redação

07/06/2010 – Caros Amigos – Historiador analisa o fenômeno do cangaço – Gabriela Moncau

16/06/2010 – Seminário Cariri-Cangaço – Os Cangaceiros – Ensaio de Interpretação Histórica – Redação

22/06/2010 – Radar Político – O Estado de S. Paulo – Lampião e o cangaço em novas interpretações históricas – Moacir Assunção

14/07/2010 – Portal da Fundação Maurício Grabois – A volta dos cangaceiros – Augusto Buonicore

20/07/2010 – Yahoo Brasil – Memórias do Cangaço – Bernardo Ricupero

31/07/2010 – Estado de Minas – Muito além do mito – Carlos Leite

01/08/2010 – Revista MES – Os Cangaceiros – Redação

01/08/2010 – Revista de História da Biblioteca Nacional – Os Cangaceiros: ensaio de interpretação histórica – Marcello Scarrone

14/08/2010 – Correio Braziliense – A era do couro – Carlos Marcelo

18/08/2010 – O Estado de S. Paulo – Cangaceiro, um assunto delicado – Moacir Assunção

20/08/2010 – Jornal da USP – Cangaceiros, o poder paralelo do sertão – Paulo Hebmüller

09/09/2010 – Revista Brasileiros n. 38 – Uma nova visão – Mouzar Benedito

18/09/2010 – Blog – Homero Fonseca – A outra face do cangaço – Homero Fonseca

24/10/2010 – Blog do Serivaldo Araújo – Falar sério é preciso – Serivaldo Araújo

27/11/2010 – Rádio SBS – Luiz Bernardo Pericás: A verdadeira face do cangaço brasileiro – Beatriz Wagner

27/11/2010 – Blog Substantivo Plural – O cangaço, a estética, o mal – Marcos Silva

5/11/2010 – Revista IstoÉ – A influência estética de Lampião – Wilson Aquino

10/02/2011 – Revista CULT – Visões originais sobre o cangaço – Fabrizio Rigout

25/02/2011 – O Estado de S. Paulo – Direto da Fonte – Peixeira – Sonia Racy

07/04/2011 – Brasil de Fato – O cangaço desmistificado – Aldo Gama

22/04/2011 – Livraria da Folha – Cangaceiros inspiraram novos políticos: roubavam, matavam e tinham mil mulheres – Da Redação.

22/04/2011 – Bol Notícias – Entretenimento – Cangaceiros inspiraram novos políticos: roubavam, matavam e tinham mil mulheres – Da Redação.

15/06/2011 – Cadernos do Tempo Presente – Um novo olhar sobre o cangaço: entrevista com Luiz Bernardo Pericás – Grupo de Estudos do Tempo Presente

22/06/2011 – Em minutos – Entrevista com o prof. Dr. Luiz Bernardo Pericás – Da Redação.

01/08/2011 – Lutas Sociais – número 26 – A desmistificação do cangaço – Angélica Lovatto

Fonte: Lutas Sociais – número 26

 O ato tem por objetivo pressionar o governo para a pauta da Reforma Agrária


Comunicação e Cultura do MST/SP

 

 

Cerca de 500 trabalhadores e trabalhadoras acampados e assentados do MST do estado de São Paulo ocuparam a sede da Superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), na manhã de hoje, 03 de agosto. O ato tem por objetivo pressionar o governo para a pauta da Reforma Agrária.

Desde junho deste ano, os trabalhos do órgão em São Paulo encontram-se completamente paralisados, aguardando a nomeação de um novo superintendente.

A pauta de reivindicações do Movimento no estado é antiga: desapropriação de terras, regularização dos assentamentos já existentes, assistência técnica, crédito para a produção, infraestrutura e negociação das dívidas das famílias assentadas.

Segundo Gilmar Mauro, da Direção Nacional do MST, “O Incra de São Paulo não tem superintendente, não tem assistência técnica proporcional à demanda, não tem dinheiro. É mais fácil perguntarmos o que afinal temos para realizar a Reforma Agrária!”.

A atividade integra a Jornada Nacional de Lutas das centrais sindicais, movimentos sociais e diversas organizações, que realizarão uma série de manifestações durante o mês de agosto. “É preciso compreender que a Reforma Agrária não depende apenas do MST, mas de toda a sociedade. Estamos reivindicando terra sim, mas também um outro modelo de produção que vai contra o que está sendo praticado pelas grandes empresas, com o apoio do Estado brasileiro. Trata-se de discutir se vamos continuar comendo esta comida envenenada, e que tipo de uso queremos dar aos nossos recursos naturais, que estão sendo transformados em mercadoria”, afirma Gilmar.

Além desta ocupação, o MST participa do ato das Centrais Sindicais e Movimentos Sociais realizado hoje na capital paulista. A pauta integrada contempla, entre outros pontos: 1) Redução da jornada de trabalho, sem redução salarial; 2) Destinação de 10% do PIB para a educação e 3) Campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida.

Por Carlos Henrique Machado Freitas

Não é demasiadamente paradoxal, justamente uma retórica nauseabunda que viveu de enigmas glaciais apresentar a Abóbora Celeste, a SEC, inflamar o universo da cultura e desaparecer?

Pois sim, o MinC está experimentado o castigo de sua própria vingança, num nostálgico Deus Santo, o mercado, que não nasceu, chocou. O esplendor neoliberal de cultura deu bolor.

O novo MinC é o protagonista da mais longa crise que a cultura institucional brasileira já viveu, tudo para não ferir os homens do mercado neoliberal de cultura. E a pergunta não é outra que não, “Qual é a nova etapa da crise?”

Depois de sete arrastados meses quando todos esperavam o espetáculo de crescimento com a prometida criação de valores para a arte brasileira, a Secretaria da Economia Criativa avisa que está ressignificando e contextualizando o Hércules, o Elefante Dourado do mercado, a SEC.

E assim seguimos, vivendo tão somente de neurolinguística. A fábula que mereceu na mídia status de o “Grande Acontecimento” se mostra uma grande tragédia. Eu posso levantar aquela cartolina no maracanã e dizer “EU JÁ SABIA”.

O filósofo dessa verdadeira patacoada tinha aparecido nos jornalões se mostrando todo orgulhoso de sua vestimenta de chefe cultural da nação. Ele deixava escapar no canto da boca um tom irônico de que a peça teatral que colocava a ministríssima na boca de cena tinha como diretor e roteirista a sua romântica assinatura. Agora, diante desse deserto de virtudes, o guru da ministra se oculta ou usa a pior das fugas, criminaliza quem o critica. Ora, não foi o mesmo que shakespereanamente distribuiu conselhos, conhecimentos e espírito de anjo salvador da cultura nacional? Agora que vive um penoso oposto de todos os fatos fabricados em nome da adoração ao mercado, está enfrentando na contramão a exigência de alguma coisa pra ser colocada no lugar do que foi grosseiramente destruído dentro do MinC.

“O PT deseja promover uma reaproximação com o conjunto da intelectualidade historicamente ligada ao partido. Este é o momento para expressar publicamente na sociedade os nossos valores e defender as nossas idéias.” (Rui Falcão).

Pelo que entendi, de forma fina, Rui Falcão deu um basta na extravagante contra-natureza imposta pela vontade das multinacionais dentro do MinC. Isso era fatal. Todos os sinais característicos de um cenário de guerra já haviam sido revelados dentro da sua profundidade para que vivêssemos um estado de perturbação. Foi o próprio MinC que se acorrentou em seus tormentos. Foi ele mesmo que anunciou que, de posse de um poderoso cadeado, trancaria as correntes e mergulharia num pântano para fazer o espetáculo da apineia e renascer em grande estilo com uma vitória sobre a cultura dos movimentos sociais.

Sete meses depois, descobriu-se que a camisa de força criada pelos próprios caciques do MinC sequer foi calculada, tudo não passava de títulos para manchete. E o prodigioso MinC apagou.

2 de agosto de 2011 | 19h07

Sílvio Guedes Crespo

O jornal britânico “Financial Times” publicou em seu site nesta terça-feira, 2, duas reportagens sobre o Brasil.

Brasil curte o próprio sucesso em meio à ‘insanidade’ global“;

Brasil reforça luta contra importados“.

A primeira mostra-se entusiasmada com a economia brasileira, cujo principal problema é “administrar o próprio sucesso”. A segunda alerta que o mesmo país está se movimentando para proteger a indústria local.

FHC e Lula

“Os brasileiros nos últimos meses chegaram, de repente, à invejável posição de espectadores das loucuras do mundo desenvolvido”, afirma o jornal.

O “Financial Times” atribui aos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva essa posição alcançada pelo País.

Para o diário, FHC “lançou uma série de políticas com o objetivo de estabilizar os preços e a taxa de câmbio”, enquanto Lula “manteve o foco na estabilidade econômica e ampliou programas sociais para melhorar o padrão de vida dos mais pobres”.

Mesmo assim, o país tem desafios. São eles, na avaliação do “FT”: mercado de trabalho operando no limite (pouca mão de obra disponível), fraco sistema educacional, infraestrutura pobre, alto endividamento das famílias, custos “proibitivos” para as empresas.

Luta contra importados

A reportagem sobre a luta contra os importados analisa o Plano Brasil Maior, lançado nesta terça-feira pela presidente Dilma Rousseff, que inclui redução de impostos no valor total de R$ 25 bilhões em dois anos.

“Apenas uma semana depois de introduzir novas regras ásperas para controlar o real, o governo do Brasil voltou atenções para as importações”, diz o texto.

O jornal ouve um analista da instituição financeira japonesa Nomura. Para ele, algumas dessas medidas fazem sentido – por exemplo, a de barrar produtos asiáticos que chegam ao Brasil por meio de países sul-americanos. Mas o mesmo economista acredita que são as importações que “estão livrando o País do problema da inflação”.