Arquivo de 10/08/2011

 

 

Por Rafael Soriano
Da Página do MST

 

Com a presença de agricultores do MST de todo o estado de Alagoas desde a última segunda-feira (8/8), o Assentamento Oziel Alves recebeu a visita da nova superintendente do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Lenilda Lima, e sua equipe.

Em reunião realizada com os assentados, os representantes do Incra foram enfáticos em afirmar que o MST sempre atuou na região dentro das normativas do instituto.

Desde o início de julho, denúncias de suposta improbidade e má-fé no uso dos recursos por lideranças do MST na região ganharam as páginas de jornais de circulação estadual.

Na época, o Movimento divulgou nota esclarecendo a situação de um grupo (autor das falsas denúncias) que se articula em torno de uma policial civil para coagir os agricultores contra a presença do MST.

Essa funcionária pública, conhecida como Val, impedida de ser assentada, usou seu filho como laranja na relação de beneficiários de Oziel Alves.

Nesta segunda-feira, cerca de 200 famílias acampadas e assentadas se mobilizaram até o assentamento Oziel Alves para reafirmá-lo como uma área conquistada pelo MST.

As famílias chegaram ao anoitecer, ergueram acampamento na escola do assentamento e permaneceram em vigília. Pela manhã da terça-feira, um mutirão foi organizado para limpeza da escola, que funcionou normalmente a partir das 8h.

Os dirigentes do MST foram até a Delegacia de Maragogi para prestar queixa de ameaças proferidas por José Paulo dos Santos, aliado de Val.

“Há duas semanas, quando da presença de técnicos da empresa de Ates (Assistência Técnica, Social e Ambiental) que atende a região, Paulo afirmou que se eu viesse ao assentamento ia botar fogo no carro que eu estivesse”, informou Débora Nunes, dirigente do Movimento.

Um Boletim de Ocorrência foi gerado com as denúncias, que também incluíram os questionamentos aos supostos desvios de verbas citados por Paulo e outros na imprensa.

Desencontro

Na tarde da terça-feira, a assembleia que estava marcada com a presença do Incra não ocorreu. Em vez disso, a superintendente Lenilda Lima fez seu trabalho em duas etapas:

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

Ministro da Defesa, o ex-chanceler Celso Amorim assume a condução das Forças Armadas com o desafio de reaparelhar os quartéis e ampliar o volume de recursos destinados à manutenção dos setores mais sensíveis à segurança nacional. De volta às sombras, as lideranças de ultradireita que integram grupos como O Guararapes, com mais de 200 mil simpatizantes inscritos na página que mantém na internet, o Inconfidência, o Independente 31 de Março e o Ternuma, todos constituídos, em sua maioria, por oficiais e civis que participaram de alguma forma da quebra institucional do regime democrático em 1964, apenas assistem ao avanço do governo popular da presidenta Dilma Rousseff e, no máximo, acorrem aos artigos online para as críticas às ações governamentais.

Em texto publicado na sessão Artigos Militares do grupo Guararapes, na web, o general de Divisão reformado Francisco Batista Torres de Melo classifica Brasília como a “ilha da Fantasia”. Ele cita as “casas suntuosas, os desfiles de mulheres bonitas, as festas disputadas pelos que procuram o brilho do dinheiro fácil”. Segundo o ex-militar, “risos vulgares, amizades conquistadas pela hipocrisia do fausto” fazem parte do “mundo deslumbrante dos palácios, onde os decotes mostram os seios que não amamentam os filhos da Pátria (Legiões) e sim, o brilho dos olhos decrépitos carcomidos pela ganância do poder”.

“As crises Palocci, Ministério dos Transportes, Campinas e outras e outras são apenas a continuação da degenerescência da sociedade brasileira. Vão ao Senado e falam mentiras, lorotas, gabolice, tentando enganar, fraudar, falsear a verdade e há senadores que batem palmas falsas. A última crise ou a próxima confirmam o que disse (o imperador romano) Augustus: “Quem se desculpa se acusa”. Até o ex-presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) correu à capital para se desculpar e colocar em forma os corruptos e defender o indefensável. A autoridade da presidente foi pisada e ela, também, obrigada, como Luís XVI, ficou com a corte e pode perder a cabeça amanhã”, sugere em seu artigo o general aposentado.

Na opinião, porém, de um oficial reformado e severo analista do meio militar, ouvido pelo Correio do Brasil na condição de anonimato, expressões como esta do general da reserva demonstram apenas que a manutenção da doutrina anticomunista responsável pela presença das Forças Armadas ao lado golpe de Estado, nos Anos de Chumbo, segue intacta, embora contida em um estado de hibernação pelas condições geopolíticas em que o país se encontra. Às vésperas da Copa do Mundo e sede das próximas Olimpíadas, a última coisa de que o Brasil precisaria, nesse momento, “seria de uma quartelada”, avalia o observador da caserna. Com diploma da Escola Superior de Guerra, o analista acrescenta que a falta de líderes na extrema-direita e as recentes fraturas nas hostes conservadoras, após a derrota do candidato deste setor nas últimas eleições presidenciais, apenas facilitam o percurso do ministro Amorim.

– Hoje em dia não há mais aqueles manifestos raivosos que antecederam a tomada do poder por parte dos militares brasileiros. No comando do Exército, por exemplo, há um oficial que não é combatente, ou seja, não integra as armas que conduzem a batalha, como a Infantaria e a Artilharia, por exemplo. Discreto e inexpressivo politicamente junto à tropa, o general de Exército Enzo Martins Peri, carioca, de 70 anos, é da Arma de Engenharia. É raro um oficial desta Arma seguir tão longe assim. Quadro técnico, Peri é reconhecido por sua capacidade de gestão e já pressionava o então ministro Nelson Jobim pelo reaparelhamento da estrutura militar brasileira. No primeiro encontro com o novo ministro, ele e os comandantes da Marinha e da Aeronáutica mantiveram o bordão por mais recursos para este segmento da defesa nacional – relata a fonte.

Antes mesmo de assumir o posto, Amorim teria obtido da presidenta Dilma a garantia de novos investimentos para as três Armas, o que o animou a substituir Jobim, que renunciou após uma série de críticas desencontradas sobre o atual governo. Quadro de esquerda, Amorim também já iniciou uma série de conversas para que o Congresso aprove o relatório da Comissão da Verdade, de forma a permitir que e a história do período militar seja passada a limpo no Brasil, como determina a Organização dos Estados Americanos (OEA). Acusado de torturador, em 1985, pela ex-deputada Bete Mendes (PT), o ex-coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ou “doutor Tibiriçá”, como era conhecido nos porões da ditadura, aguarda pacientemente por seu julgamento, sob o arcabouço dos líderes da ultradireita “que envelhecem nas rodas saudosas do Clube Militar”.

– Cada dia que passa é um a menos para os poucos militares que participaram da desventurada ditadura brasileira. A maioria da tropa, que não integrou o movimento de 64, hoje se permite servir ao país da melhor maneira possível. Sem dinheiro sequer para o ‘rancho’ nos quartéis, o oficialato comparece ao serviço pela manhã, cumpre uma rotina básica, pratica seu esporte preferido e segue para a vida, seja estudando para algum concurso ou trabalhando como consultor na área de Segurança, entre outras atividades. Mas longe da questão ideológica que moveu um contingente inteiro, 50 anos atrás, contra os direitos democráticos da nação – acrescentou o analista.

militar

Jobim usou farda sem nunca ter sido militar

Ainda segundo o militar ouvido pelo CdB, “não passam de bazófia” os editoriais na imprensa conservadora sobre possíveis dificuldades à frente, na gestão de Amorim.

– A condução econômica do país, seja pela presidenta Dilma, seja por seu antecessor, não deixa dúvidas quanto à necessidade de se manter o poder nas mãos dos civis e, para gerir as Forças Armadas, Amorim não precisará vestir o uniforme verde-oliva, sem nunca ter sido um militar, para ser aceito como líder da tropa, a exemplo do que fez aquele a quem sucede, que sequer continência sabia bater corretamente – concluiu.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

Data: 10/08/2011

Na abertura do Encontro Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional no Contexto da Política de Desenvolvimento Urbano, que aconteceu nesta quarta-feira (10), o presidente do Conselho Nacional de Segurança de Alimentar e Nutricional (Consea), Renato Maluf, lembrou que houve avanços na área, mas o assunto precisa ser mais debatido pela sociedade.

“Temos cidades que ainda não tratam a questão do abastecimento alimentar com a prioridade e a importância que o tema merece”. Renato Maluf afirmou ainda que, para que o assunto segurança alimentar evolua, é necessário que os governos busquem maior entrosamento e que fiquem claras as atribuições de cada esfera governamental.

Em sua apresentação, a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, do Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome (MDS), Maya Takagi, elencou os avanços e destacou o Decreto 7272, que define as diretrizes e objetivos daPolítica Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

“Segurança alimentar é um tema intersetorial e abrange várias áreas – passa por questões do uso racional da terra, dos modos de produção, da regulamentação dos preços dos alimentos e do consumo”, disse ela. “Nosso desafio é como harmonizar e materializar essas questões com o desenvolvimento urbano”, concluiu.

O encontro é uma das etapas preparatórias para a 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, marcada para Salvador (BA), de 7 a 10 de novembro.

Fonte: Ascom/MDS

10/08/2008 – 06:00 | Enviado por: Ana Paula Amorim

Jornal do Brasil: terça-feira, 10 de agosto de 1999

“Se minha alma está morta, que a ressuscitará?”
(Frei Tito em um dos poemas de despedida).

Depois de 14 meses de sofrimento nos porões da ditadura, Frei Tito foi um dos 70 presos trocados pelo embaixador suiço Giovanni Enrico Bücher. Voou em janeiro de 1971 para o exílio no Chile, de onde seguiu depois para Roma, onde o Vaticano não aceitou um “padre vermelho”, e foi acolhido na França pelos dominicanos. As feridas do corpo se cicatrizaram, mas as torturas deixaram marcas indeléveis na alma.

Na solidão do convento, o dominicano era atormentado pelos fantasmas do passado e no dia 10 de julho de 1974, se enforcou sob a copa de um álamo,

Neste dia, os dominicanos e seus amigos, especialmente aqueles que compartilharam a dor de frei Tito nos anos de chumbo do regime militar, reúnem-se em igrejas e concentram-se em praças públicas para homenagear sua memória.

Nascido em 14 de setembro de 1945 em Fortaleza, Tito de Alencar Lima entrou para a Ordem dos Pregadores, nome oficial dos dominicanos, em 1965, depois de ter sido dirigente regional e nacional da Juventude Estudantil Católica (JEC), um dos movimentos de vanguarda da militância cristã na época. Foi preso na madrugada de 3 para 4 de novembro de 1969 pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu primeiro torturador. Com outros dominicanos, entre os quais frei Betto, ele era suspeito de participar do esquema de Carlos Marighella, líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN), que pregava a luta armada. A prisão dos frades levou à morte do guerrilheiro, que caiu numa emboscada e foi metralhado no local em que deveria encontrar os religiosos. Frei Tito é lembrado como herói e mártir.

É preferível morrer do que perder a vida

Os agentes da repressão espalharam a notícia de que os dominicanos traíram Marighella, numa versão oficial que acabou convencendo até aliados de organizações de esquerda.

Terça-feira, 10 de agosto de 1999

Foi só a partir da publicação do livro Batismo de Sangue, que frei Betto lançou em 1982, que a história se esclareceu. Fernando Gabeira foi testemunha de seu calvário. O frade dominicano passou por diversas torturas e nada falou.

Batismo de Sangue se tornou também filme dirigido por Elvécio Ratton. Em fevereiro de 2002 foi criado no Museu do Ceará o Memorial Frei Tito.

Confira também:
10/08: 1935: É inaugurada a Rádio Jornal do Brasil

Amanhã: Em 1908 – Aberta a Exposição Nacional

250 famílias reivindicam terra do INSS utilizada ilegalmente pela usina

Terra para produzir alimentos é uma das reivindicações dos Trabalhadores Sem Terra. Pela manhã deste sábado (06/08), 250 famílias ocuparam o Sítio Boa Vista que tem cerca de 80 hectares. A área pertence ao INSS e está localizada na região do Salto Grande no município de Americana-SP, próximo ao Sobrado Velho. As famílias reivindicam que essas terras públicas se tornem um assentamento de reforma agrária.

Já há três anos, parte desses trabalhadores está vivendo em barracos de lona, lutando por um pedaço de terra para sobreviver. Várias ocupações foram feitas na região e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) se nega a assentar as famílias.

Já há alguns anos a Usina invadiu áreas nessa região para o monocultivo da cana-de-açúcar. A monocultura da cana degrada a natureza com o esgotamento das riquezas minerais do solo e o uso intensivo de agrotóxicos. Constatamos que a Usina grila mais de 4.000 hectares de terras públicas dos governos municipal, estadual e federal.

A área é próxima ao assentamento Milton Santos, onde estão assentadas 75 famílias atualmente. Desde 2002 o MST ocupa e denuncia o uso indevido da terra pela Usina Ester, área essa que é do INSS. Na última ocupação, feita na mesma área, as famílias sofreram um despejo violento pela Policia Militar de Americana. Esse despejo foi realizado sem uma liminar da justiça, o que deixa claro que a PM executou uma ordem da Usina Ester.

Agora, mais uma vez, os usineiros, através da polícia militar, tentaram retirar as famílias por meio de uma liminar já vencida, de dois anos atrás. Mas a resistência dos trabalhadores impediu a ação ilegal da polícia neste sábado.

O acampamento tem se ampliado com a vinda de novas famílias. Elas permanecerão na área até que os órgãos responsáveis atendam todas as suas reivindicações.

Nesta segunda-feira (08/08), às 8 horas da manhã, haverá um ato político em defesa da reforma agrária na área de ocupação. Todos os companheiros e companheiras que apoiam essa luta estão convidados a participar desse ato junto com as famílias acampadas.

Terra para quem nela trabalha!

 

A terra é do povo!

 

Viva a Reforma Agrária!

MST – Regional Campinas

Redação Carta Capital 10 de agosto de 2011 às 9:08h

Mais de 100 padres de paróquias pobres de Madri se juntaram ao crescente protesto contra o custo da visita do papa Bento XVI à cidade na próxima semana.

Um fórum de sacerdotes estima que a passagem do religioso pela capital espanhola deva gerar gastos de cerca de 60 milhões de euros, sem incluir despesas com segurança. Segundo eles, o valor não é tolerável em um momento de cortes bilionários no setor público e de índices de desemprego  a 20%.

A visita de Bento XVI faz parte do Dia Mundial da Juventude, apoiado por mais de 100 empresas, incluindo a Coca-Cola, Telefônica e Santander. Porém, por meio de redes sociais, mais de 140 grupos já se posicionaram contra o evento e planejam protestos.

O maior alvo das queixas é a gratuidade do transporte público para os cerca de 500 mil peregrinos esperados para o evento, poucos dias após o metrô aumentar o preço das passagens em 50% e anunciar o corte de cerca de 40 milhões de euros do orçamento da educação.

Tática agressiva

Segundo uma recente pesquisa do Escritório Nacional de Estatísticas da Espanha, o número de fieis entre 18 e 24 anos no país caiu 56% nos últimos dez anos. Motivo pelo qual o diretor executivo do evento, Yago de la Cierva, justificou, ao jornal britânico The Guardian, o investimento no Dia Mundial da Juventude. “Os jovens gostam de grandes eventos e a igreja usa todas as ferramentas existentes para apresentar a mensagem de Jesus Cristo”.

Em novembro do ano passado, uma visita de Bento XVI a Barcelona também gerou polêmica. O custo estimado foi de meio milhão de euros, além dos valores com segurança, transporte e acomodação do papa e de outras mil autoridades que o acompanham, pagos pelo governo da Catalunha.

Na cidade, houve protestos contra o posicionamento da igreja Católica em relação à homossexualidade e à proibição do uso da camisinha como medida de prevenção à gravidez e doenças sexualmente transmissíveis.

A primeira retirada forçada dos Xavante de Marãiwatsédé de seu território tradicional aconteceu em 1966 

Renato Santana

De Ribeirão Cascalheira, Mato Grosso (MT)

“Nunca Xavante chorou de medo, nunca fugiu de morrer. Xavante sempre enfrenta por seus direitos. Estou preparando muito bem essa guerra, está sendo pensado. É assim desde o século passado. Afirmamos e mantemos isso”. A fala é de cacique Damião Paridzane, da Terra Indígena Xavante Marãiwatsédé, no Mato Grosso (MT). No último dia 28 de julho, parecer jurídico, uma carta escrita pelo cacique, além de um abaixo-assinado, chegaram às mãos do desembargador Federal Fagundes de Deus a tratar dos últimos episódios que põem em risco a posse Xavante de Marãiwatsédé.

Com a paciência esgotada, a liderança indígena organiza seu povo para resistir a mais uma tentativa de retirada dos Xavante de seu território originário, além de reivindicar ao governo federal a desintrusão de todos os não-indígenas do território homologado desde 1998 – a morosidade, na avaliação dos indígenas, é a principal razão para mais uma tentativa de expulsão do povo Xavante de Marãiwatsédé.

O recado do cacique tem destino certo. Fazendeiros, posseiros, madeireiros e grileiros, invasores do território, se articularam com deputados estaduais e conseguiram que a  Assembleia Legislativa do MT aprovasse, em junho, a Lei nº 9.564 que autoriza o governo do estado a realizar permuta com a União da área homologada de Marãiwatsédé pela do Parque Estadual do Araguaia.

A permuta garantiria aos depredadores e invasores a continuidade da exploração do território indígena – que já perdura desde os anos 1960, década em que ocorreu a primeira retirada forçada dos Xavante de Marãiwatsédé. “A comunidade não quer ser retirada pela segunda vez da terra. Para nós não interessa. Essa lei é contra os direitos que a Constituição dá para os índios. Estamos firmes e animados para a decisão final da Justiça”, disse cacique Damião.

Enquanto os Xavante se organizam para resistir, o governo federal vacilou na retirada dos fazendeiros e posseiros que ainda insistem em se manter no território já homologado e agora depende de decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) para fazer a desintrusão. Eles são os principais interessados e articuladores da retirada dos Xavante das terras. Mesmo com a declaração oficial da Fundação Nacional do Índio (Funai) contrária à lei aprovada no MT, os cerca de 670 Xavante ocupam somente 20% de um total de 165.241 hectares. O resto da terra continua vítima da grilagem e devastação.

Em maio deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) detectou que dentro da Terra Indígena Xavante Marãiwatsédé, área da Amazônia Legal, 68,8 quilômetros quadrados estão desmatados, sendo o maior foco do país – o que equivale a 43 vezes o Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

“Marãiwatsédé foi demarcada, homologada e ainda tem posseiro, fazendeiro criando gado? Isso é um desrespeito. Queremos que o governo federal os retire para que meu povo possa recuperar a terra da devastação, muito prejudicada”, reivindicou cacique Damião.

Permuta: mecanismo ilegal

De acordo com parecer jurídico elaborado pelos advogados Denise da Veiga Alves e Adelar Cupsinski, ambos assessores jurídicos do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a Terra Indígena Marãiwatsédé é bem de uso especial da União “para o fim específico de posse permanente e usufruto exclusivo de suas riquezas pelo povo Xavante”. Portanto, a Lei nº 9.564 sancionada pelo governador de Mato Grosso, Silval Barbosa, atinge as raias da inconstitucionalidade.

Outro argumento usado pelos advogados dá conta de que a inalienabilidade e a indisponibilidade – termos constitucionais – sobre Marãiwatsédé significam, na prática, que as terras indígenas não podem ser cedidas, doadas, transferidas, vendidas ou permutadas.

Veja parecer na íntegra

“A posse do território é garantida por força constitucional ao povo Xavante. Não se pode confundir Direito Civil com Direito Originário, o indigenato, ou seja, o direito indígena ao usufruto e posse das terras é anterior a qualquer reconhecimento formal pelo Estado”, completou a advogada Denise.

Um abaixo-assinado com mais de 500 assinaturas a favor dos índios Xavante foi anexado ao parecer, além da carta. Cacique Damião, que nasceu em Marãiwatsédé, acredita que o apoio externo é importante, sobretudo porque a recuperação ambiental do território é necessidade imediata. Os Xavante vivem de roças de tocos tradicionais: arroz, milho, feijão, abóbora, mandioca, melancia, inhame, cará. Como a terra está muito fraca – não há mata – essa produção não vem em grande quantidade. Eles coletam e caçam, mas pouco para a comunidade. Há também uma roça de arroz mecanizada, que a Fundação Nacional do Índio (Funai) ajuda a manter.

“Isso mostra que estamos confiantes, resistentes. Dentro da tradição na nossa terra tem o inhame, um pouquinho de caça, que quase acabou por conta da ação dos invasores. Sempre digo: índio não pode esquecer a tradição. E nós nunca acabamos por isso. Meu pai faleceu, mas fui criado sem sair da tradição. Essa é a origem do índio no Brasil”, completou.

Veja parecer na íntegra

Para cacique Damião não existe outro documento que a cultura – num gesto simples, retira um pedaço de madeira de sua orelha esquerda furada e diz: “Isso aqui mostra que sou índio, o toré mostra que sou índio, os rituais mostram que eu sou índio. E a gente tem terra. Nós não invadimos ou roubamos nada. Nos invadiram e nos roubaram”.

1966: a primeira retirada forçada dos Xavante de Marãiwatsédé

Os Xavante de Marãiwatsédé, pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê e de família linguística Jê, fazem parte do grande povo Xavante que habita o leste do Mato Grosso. No total, são 18 mil indivíduos em 11 Terras Indígenas e divididos em 178 aldeias. Os primeiros registros dos A’wue datam de 1751, quando as terras foram de forma paulatina invadidas. Os Xavante de Marãiwatsédé foram os últimos a terem contato com a sociedade envolvente, no final dos anos 1950, pelas ações de atração do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Muitos sertanistas e agressores foram mortos na tentativa pacífica ou violenta de aproximação com esses índios.

Os primeiros posseiros da Terra Indígena  Marãiwatsédé a invadiram em 1958. Quase quatro anos depois, a fazenda Suiá-Missú era instalada nas terras indígenas como propriedade escriturada. Os Xavante, reduzidos pelos assassinatos e doenças trazidas pelas expedições punitivas e grupos de atração do SPI, foram usados como mão-de-obra pela família Ometto, ‘dona’ da fazenda. Quando essa mão-de-obra foi considerada dispensável pelos invasores, um acordo envolvendo os Ometto, a FAB e o  SPI  decidiu pela retirada forçada dos Xavante de suas terras para a Missão Salesiana de São Marcos, 400 km ao sul do território originário – completamente tomado por posseiros, grileiros e latifundiários.

Pela janela de um C-47 da Força Aérea Brasileira (FAB), Damião Paradzane, ainda um jovem índio, viu o Território Indígena Marãiwatsédé se afastar de seu povo – composto por 263 indivíduos. Em São Marcos, os indígenas se encontraram com outros grupos Xavante, como eles reduzidos pela atração da sociedade envolvente e invasores de territórios. No novo território uma epidemia de sarampo matou cerca de 80 índios. Os indígenas sobreviventes, com a estrutura social fragilizada, se dividiram. A reviravolta ocorreu apenas na década de 1980.

Remanescentes de Marãiwatsédé e as novas gerações se reorganizaram para recuperar o território. Descobriram que a fazenda Suiá-Missú, maior propriedade constituída no território, encontrava-se sob controle da Agip do Brasil S/A, filial da corporação italiana. Na Conferência Mundial do Meio Ambiente, a ECO 92, no Rio de Janeiro, em meio às várias discussões que pautaram o encontro, os executivos da Agip prometeram devolver o território para os Xavante.

Invasões não cessaram com homologação de território

Em 9 de abril de 1992, os estudos de identificação da área foram concluídos pelo Grupo de Trabalho da Funai. A homologação de Marãiwatsédé só viria em 11 de dezembro de 1998. O território teria 165.241 hectares, estendendo-se pelos municípios de Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia, São Félix do Araguaia e Serra Nova Dourada, a leste de MT. No entanto, a fazenda Liquifarm Agropecuária Suiá-Missú S/A, da Agip, não entrou na identificação e homologação – sendo leiloada numa manhã de 30 de novembro de 1992.

Os Xavante foram enganados e entre a conclusão dos estudos e a homologação, grileiros e fazendeiros, respaldados por políticos, estimularam a invasão de pequenos posseiros no território. Segundo levantamento da Opan, anúncios foram feitos em várias partes dos estados de Mato Grosso e Goiás para que toda e qualquer gente desfavorecida de terras fossem ocupar Marãiwatsédé.

As matas e o cerrado, áreas consideradas ruins para o cultivo, foram destinadas a esse povo sofrido pela concentração de terras nas regiões de onde chegaram. A devastação da natureza se intensificou no território Xavante. Nas terras tidas como de boa qualidade, o latifúndio se instalou com suas centenas de cabeças de gado e o desmatamento para o pasto também tomou outras proporções.

“Sabiam e sabem que é área dos índios, já na época de 1993 eles se envolveram com políticos de São Félix e Cuiabá. Os fazendeiros trouxeram vários posseiros, de outras cidades, de Goiás, São Paulo. Nós achamos que tem de tirar eles porque não são índios e ocupam área indígena demarcada”, indignou-se o cacique Damião.

Em 2003, os anciãos Xavante se reuniram e manifestaram aos mais novos o desejo de regressar a Marãiwatsédé – terra onde a cosmologia Xavante encontra força como morada da ancestralidade e dos encantados. Cerca de 280 indígenas fazem o caminho de volta, mas na entrada do território são barrados na BR-158 pelos invasores das terras – a estrada foi bloqueada por um ônibus da prefeitura de Alto Boa Vista. Os Xavante decidem não voltar para São Marcos e acampam às margens da BR.

Por lá ficaram sob lonas de novembro de 2003 a agosto de 2004, quando sentença do Supremo Tribunal Federal (STF) garante a entrada dos indígenas no território para ocupar a fazenda Karu – ou seja, depois de cinco anos da homologação  de Marãiwatsédé .