Archive for the ‘SOCIALISMO’ Category

Publicado no Site da Fundação Perseu Abramo,

 

 

Os heróis da Revolta dos Búzios foram homenageados em cerimônia de entronização no Panteão da Pátria, em Brasília, ontem. A solenidade foi promovida pela Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal. Fruto do projeto de lei 5.819/09, de autoria do deputado Luiz Alberto (PT-BA) e sugerido pelo Grupo Cultural Olodum, a Lei 12.391, que elevou os heróis dos Búzios à Heróis da Pátria, foi sancionada em março de 2011 pela presidenta Dilma Rousseff.

A Lei determina a inscrição dos nomes dos líderes da Revolta dos Búzios – Lucas Dantas de Amorim Torres, Luís Gonzaga das Virgens e Veiga, Manoel Faustino Santos Lira e João de Deus do Nascimento – no Livro dos Heróis Nacionais, conhecido como o “Livro de Aço do Brasil”. Os quatro novos heróis negros brasileiros se juntam a Zumbi dos Palmares.

“A luta dos que sonhavam com uma república de igualdade e com o fim da escravidão, no século 18, em Salvador, inspirados pela Revolução Francesa, recebe, com esta Lei, uma demonstração de reconhecimento da sua importância para a nação. Esta é mais uma vitória para o povo negro. Precisamos sempre exaltar esses que são os verdadeiros heróis da nossa nação”, afirmou o deputado Luiz Alberto.

Os soldados Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens e os alfaiates Manoel Faustino e João de Deus foram enforcados e esquartejados como revoltosos em 12 de agosto de 1798.

A Revolta dos Búzios, também conhecida como Revolta dos Alfaiates ou Conjuração Baiana, reuniu a população negra que sonhava e lutava pela implantação de uma República democrática e pelo fim da escravidão.

“O legado da Revolta dos Búzios, assim como de outras revoltas organizadas e levadas adiante por africanos, negros livres, é, indiscutivelmente, o da liberdade, ainda que na diáspora forçada. A inspiração que nos deixaram é a coragem para lutar mesmo que tudo esteja contra as nossas aspirações”, refletiu o parlamentar.

 

Leia mais:

– A Revolta dos Búzios – Voto de Emiliano José, como relator, na Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal, ao projeto do deputado Luiz Alberto (PT-Bahia), que propunha inscrever os nomes dos heróis da Revolta dos Búzios no Livro dos “Heróis da Pátria” – em 30/9/2009. Publicado na revista CartaCapital, em 6/9/2009.

*Silvio Durante e Rui Deglan

Os grandes produtores de laranja apelam ao Estado que compre o excedente da produção de suco. Mas o que fica evidente é que a anarquia da produção gera um abominável desperdício e a vergonhosa fome de milhões de seres humanos.

O “protesto” dos produtores e anarquia da produção

O Estado de São Paulo é responsável por 90% de toda produção de laranja do Brasil. Os laranjais cobrem vastas áreas onde outrora fora a vegetação nativa do Cerrado. A última semana de julho foi marcada por um protesto singular na cidade de Taquaritinga, no interior do Estado.

Segundo informações do Portal de Notícias G1.com, os produtores de laranjas começaram a destruir os pés de laranjas de suas plantações, pois não há para quem vender a produção. No dia 26 de julho, fora distribuído à população daquela cidade cerca de 12 toneladas de laranja e 200 litros de suco. Parte deste inclusive fora jogada em praça pública da cidade como “protesto”.  Era tanta laranja que chegou um momento que a população não conseguia mais carregar.

No mesmo portal, em notícia do dia 26 de julho, eles justificam dizendo que “A crise no setor é causada pelas supersafras dos últimos dois anos e a redução mundial do consumo de suco. A perda da produção em 2012 deve variar entre 50 e 100 milhões de caixas da fruta, segundo estimativas da Câmara Setorial de Citricultura do Ministério da Agricultura e da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos“. E mais a frente concluem: “A concorrência com outras bebidas, como os isotônicos e as águas saborizadas, é apontada como a principal causa para o encolhimento do mercado, mas a crise econômica na Europa e restrições dos Estados Unidos ao produto brasileiro por causa do uso de um agrotóxico proibido naquele país – o Carbendazim – também prejudicaram as vendas.”

Produtores da Região de Bauru também tomaram medida semelhante, enterrando várias toneladas de laranjas. Dialogando com funcionários da Secretaria de Agricultura de Bauru, o professor Silvio Durante foi informado que os produtores preferem destruir as laranjas, pois o mercado interno não teria capacidade para consumir tudo o que foi produzido. Ainda que toda essa laranja fosse levada a mercados, feiras e frutarias, seria tanta oferta que o quilo do produto ficaria a quase um centavo de Real.

Os produtores exigem que o governo do Estado compre o excedente da produção de suco e distribua nas merendas escolares e para entidades assistenciais.

A cretinice da grande Imprensa

No Jornal Nacional no mesmo dia 26 de julho, e também no site deste mesmo noticiário, a manchete “Produtores protestam jogando laranja fora no interior de São Paulo” abordava o tema e mais a frente na matéria: “Um produtor não pensou duas vezes. Sem ter para quem vender a fruta, começou a destruir 30 mil pés de laranja. “Foi a pior crise do setor”, reflete.”

É incrível, mas as imagens mostram laranjas sendo jogadas pelas ruas, litros e mais litros de suco sendo derramados e pés de laranja sendo destruídos por tratores.

Você pode acessar a matéria digitando o link a seguir no seu navegador de internet: http://glo.bo/N6Dw6V

Lembremos que quando o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MS) destruiu algumas centenas de pés de laranjas da CUTRALE, plantados em terras públicas griladas, na cidade de Borebi, interior paulista, o grande mídia fez uma verdadeira pirotecnia, demonizando esta ação e acusando o MST de todo tipo de adjetivos pejorativos para que a opinião pública se posicionasse contra essa ação, que em última instância, foi um ato para que o Estado faça a Reforma Agrária.

Agora, a imprensa toma uma outra postura: curiosamente não critica a derrubada de 30 mil pés de laranja; não faz alarde em torno do suco e da laranja jogados fora e dá ênfase na exigência dos grandes produtores para que o Estado “salve” o setor, comprando o excedente da produção.

Planificação da produção é a saída para a crise

Nenhuma medida do Estado sob a égide do capitalismo será suficiente para “salvar” o sistema, posto que o mercado é anárquico por natureza. A antiga tese do “mercado autorregulável” mostra-se ineficaz em seu poder explicativo a cada crise de superprodução, seja em qual setor ela ocorra.

Os defensores da teoria do “Estado Mínimo” que sempre vociferam contra a presença do Estado na esfera econômica e torcem o nariz para qualquer medida regulamentadora agora tratam de esquecer tudo o que os neoliberais escreveram em suas teses sobre a não intervenção do Estado na Economia quando se trata de “salvar” seus negócios.

Foi assim quando os governos da Europa e dos EUA “salvaram” os bancos privados da falência, as indústrias automotivas e agora, no interior paulista, o agronegócio exige o mesmo para o Brasil Ou seja, o discurso da “mão pesada” do Estado é só para tempos de vacas gordas, pois basta uma crise para que a mão pesada do Estado transforme-se na “mão amiga”.

Contra a anarquia capitalista só existe uma possibilidade: o Socialismo. Nossa certeza é de que este modo de produção econômica não se baseia em utopias, mas em um método de análise científica que é o materialismo histórico e dialético. Matematicamente é comprovado que dadas os atuais estágios das forças produtivas, a planificação do que produzir, quando produzir e como distribuir a produção eliminará a fome e as doenças no mundo e por extensão todas as mazelas que assolam a humanidade. Mas para isso é necessário acabar com a propriedade privada dos grandes meios de produção.

*Silvio Durante – graduado em História, especialista em Filosofia e membro da Executiva do PT de Bauru/SP

*Rui Deglan – professor de História da rede pública e membro do PT de Pederneiras/SP

Publicado originalmente no Esquerda Marxista

A Venezuela prepara um plano com a assessoria de Cuba para criar um “exército guerrilheiro” que teria um milhão de militantes em 2013, para enfrentar uma “hipotética invasão” dos Estados Unidos, denunciou a deputada da oposição María Corina Machado, em uma entrevista divulgada no dia 12 de agosto.

O denominado “Plan Sucre”, que conta com os eixos jurídico, direcional, logístico, educativo e doutrinário, prevê a “transformação de um exército profissional em um exército guerrilheiro”, disse a deputada ao jornal El Universal, declarando que teve acesso a um exemplar do plano, impresso por uma instituição pertencente à Força Armada Nacional Bolivariana (FANB).

“O objetivo estratégico é construir uma nova doutrina militar bolivariana para realizar com êxito uma Guerra Popular Prolongada (GPP) ante uma hipótese de guerra por parte do império [norte-americano] contra a República Bolivariana da Venezuela”, disse a parlamentar, citando um parágrafo do documento.

Machado explicou que a GPP é um “conceito maoísta” que foi utilizado no Vietnã, na Iugoslávia e em Cuba, o qual prevê que, diante de uma “assimetria de forças combate-se com o desgaste do inimigo, através do tempo, depois de atraí-lo para o interior de seu território, combatendo-o com a participação de toda a população”.

“Estamos diante de uma proposta de clara inspiração e assessoria cubana”, segundo a opinião da deputada, acrescentando que o plano militar prevê ainda o “fortalecimento” das milícias [bolivarianas] “em detrimento dos componentes regulares” do Exército.

O plano prevê a “potencialização da milícia territorial, com o objetivo de garantir as forças necessárias para a defesa integral da nação, tendo como meta o alistamento de um milhão de milicianos em 2013 e de dois milhões em 2019”, informa outro parágrafo do texto.

As milícias, consideradas pelo presidente Hugo Chávez o “povo em armas”, surgiram em 2005 como uma resposta a possíveis agressões “imperialistas”, fazem parte das Forças Armadas e dependem diretamente do presidente.

No eixo educativo, o documento assinala “a necessidade de se transformar o processo de ensino e aprendizado da FANB, a milícia bolivariana e o restante do povo”, como uma consequência da “ameaça que representa o império para a Pátria Bolivariana, no presente e no futuro”, entre outros fatores.

Machado pretendeu – em inéditas eleições primárias em fevereiro – ser a candidata única da oposição para enfrentar Chávez nas eleições presidenciais de 7 de outubro, mas foi por fim escolhido o ex-governador Henrique Capriles Radonski.

Publicado originalmente em Defesa Net

 

O direito de greve é dos mais importantes para a classe trabalhadora brasileira e foi duramente conquistado após décadas de lutas e muitas perseguições, suor e sangue derramados. Instrumentos de organização e de luta da classe trabalhadora, a Central Única dos Trabalhadores e o Partido dos Trabalhadores atuaram fortemente no Congresso Nacional e junto à sociedade para assegurar na Constituição Federal esse importante direito a todos os trabalhadores e trabalhadoras.

A decisão do governo federal de cortar o ponto dos servidores públicos é recebida com imensa surpresa e desapontamento pela EPS, ainda mais quando está evidente a dificuldade enfrentada por esses setores e pela decisão ser tomada em pleno curso das negociações. Um desrespeito aos servidores e ao direito de greve da classe trabalhadora, além de uma forma de agir absolutamente contraditória com a idéia de serviço público de excelência e com o perfil democrático que devem ter os governos do PT.

Entendemos que nem sempre nossos governos são capazes de atender a todas as reivindicações das e dos trabalhadoras e trabalhadores, porém o respeito aos direitos desta classe devem prevalecer.

Os servidores públicos federais são aliados na execução acertada de políticas que mudaram a vida de dezenas de milhões de brasileiros. É preciso reconhecer que não haveria o sucesso inédito das políticas públicas do governo sem o envolvimento efetivo de milhares de servidores em todo o país. Portanto, é inexplicável e inaceitável punir quem faz uma justa reivindicação.

O crescimento do PIB nos últimos anos, com o patamar que alcançamos recentemente de sexta maior economia do mundo, legitima a reivindicação de reajuste salarial. O desenvolvimento alcançado precisa e deve ser dividido com os trabalhadores e as trabalhadoras. Importante ressaltar que não há desenvolvimento econômico e social equilibrado sem Estado capaz de atender as demandas por serviços e políticas públicas que ainda existem, e esses serviços e políticas públicas são executadas pelos servidores e por mais ninguém.

Importante reconhecer também que ainda existem na estrutura de remuneração destes servidores dezenas de correções a serem feitas. Salvo algumas categorias melhor remuneradas, a esmagadora maioria dos servidores públicos convivem com baixa remuneração, distorções salariais graves entre carreiras que deveriam ser equiparadas, ausência ou insuficiência de Planos de Carreiras adequados, baixo investimento em capacitação, sobrecarga de trabalho brutal e, em muitos casos, condições de trabalho ruinosas. Entendemos que mesmo que não haja recurso para tudo, há recursos suficientes para garantir avanços significativos e
atender ampla margem das reivindicações da categoria.

Nós, da EPS, entendemos que o caminho para a solução das greves é a negociação com os servidores e suas entidades. Não é possível admitir corte de salário ou outras medidas de perseguição contra trabalhadores e trabalhadoras que estão lutando por seus direitos. O fim da greve também é de interesse da classe trabalhadora.

A CUT tem a responsabilidade de ser protagonista desse processo, deve convocar o conjunto da classe trabalhadora a mobilizações, e assumir a mediação do diálogo entre a presidenta Dilma Rousseff e o fórum de entidades nacionais de trabalhadores do serviço público federalem busca de uma negociação digna. A EPS repudia a decisão do governo, defende a continuidade das negociações, se solidariza com os servidores públicos federais e estará lutando para que a presidenta Dilma reconheça o valor desta categoria, realize uma negociação franca e atenda suas reivindicações.

Esquerda Popular e Socialista

publicado em 8 de julho de 2012 às 18:07

As comemorações de 9 de julho em São Paulo exaltam uma rebelião oligárquica de oito décadas atrás. Curiosamente, outra revolta, deflagrada em 5 de julho de 1924, que contou com forte componente popular, passa em brancas nuvens nos calendários oficiais.

por Gilberto Maringoni, em Carta Maior

Os dias 5 e 9 de julho condensam caminhos pelos quais a história paulista poderia seguir. São dois tabus no estado. Um é esquecido, o outro é exaltado.

A primeira data marca uma violenta reação ao poder do atraso, tendo por base setores médios e populares. E a segunda representa a exaltação do atraso, capitaneada pela elite regional.

Dia 5 de julho, há 88 anos, uma intrincada teia de tensões históricas desaguou no episódio que ficaria conhecido como Revolução de 1924. Suas raízes estão no agravamento de problemas sociais, no autoritarismo dos governos da República Velha e em descontentamentos nos meios militares, que já haviam gerado o movimento tenentista, dois anos antes.

Naquele duro inverno, em meio a uma crise econômica, eclodiu uma nova sublevação. Tropas do Exército e da Força Pública tomaram quartéis, estações de trem e edifícios públicos e expulsaram da cidade o governador Carlos de Campos. No comando, em sua maioria, camadas da média oficialidade. Quatro dias depois, era instalado um governo provisório, que se manteria até 27 de julho. O país vivia sob o estado de sítio do governo Arthur Bernardes (1922-1926).

Entre as reivindicações dos revoltosos estavam: “1º Voto secreto; 2º Justiça gratuita e reforma radical no sistema de nomeação e recrutamento dos magistrados (…) e 3º Reforma não nos programas, mas nos métodos de instrução pública”. No plano político, destaca-se ainda “A proibição de reeleição do Presidente da República (…) e dos governadores dos estados”.

Várias guarnições de cidades próximas aderiram ao movimento. Apesar da falta de um programa claro, setores do operariado organizado apoiaram os revolucionários e exortaram a população a auxiliá-los no que fosse possível.

Bombas, tiros e mortes

As ruas da capital foram palco de intensos combates, com direito a fuzilaria, granadas e tiros de morteiros. Cerca de trezentas trincheiras e barricadas foram abertas em diversos bairros.

A partir do dia 11, o governador deposto, instalado nas colinas da Penha, seguindo determinações do presidente da República, decidiu lançar uma carga de canhões em direção ao centro. O objetivo era aterrorizar a população e forçá-la a se insurgir contra os rebelados.

De forma intermitente, os bairros operários da Mooca, Ipiranga, Belenzinho, Brás e Centro sofreram bombardeio por vários dias. Casas modestas e fábricas foram reduzidas a escombros e cadáveres multiplicavam-se pelas ruas.

Sem conseguir dobrar a resistência, o governo federal decidiu bombardear a cidade com aviões de combate.

O fim da rebelião

Três semanas depois de iniciada, a rebelião foi acuada. Dos 700 mil habitantes da cidade, cerca de 200 mil fugiram para o interior, acotovelando-se nos trens que saiam da estação da Luz. O saldo dos 23 dias de revolta foi 503 mortos e 4.846 feridos. O número de desabrigados passou de vinte mil. No final da noite do dia 28, cerca de 3,5 mil insurgentes retiraram-se da cidade com pesado armamento em três composições ferroviárias. O destino imediato era Bauru, no centro do estado.

Deixaram um manifesto, agradecendo o apoio da população: “No desejo de poupar São Paulo de uma destruição desoladora, grosseira e infame, vamos mudar a nossa frente de trabalho e a sede governamental. (…) Deus vos pague o conforto e o ânimo que nos transmitistes”.

As tensões não cessariam. No ano seguinte, parte dos revolucionários engrossaria a Coluna Prestes (1925-1927). Mais tarde, outros tantos protagonizariam – e venceriam – a Revolução de 30.

Promovida pelas camadas médias do meio militar, o levante ganhou apoio de parcelas pobres da população. Talvez por isso seja chamada de “a revolução esquecida”.

A revolução que não foi

A segunda data, 9 de julho, é marcada pelo estopim de uma revolução que não faz jus ao nome. É exaltada e cultuada como uma manifestação de defesa intransigente da democracia, ela faz parte da criação de certa mitologia gloriosa para São Paulo.

O evento, em realidade, representa a sublevação da oligarquia cafeeira contra a Revolução de 30, que a retirou do governo e se constituiu no marco definidor do Brasil moderno.

Aquele processo não pode ser visto apenas como uma tomada de poder por um punhado de descontentes. Suas causas envolvem as contrariedades nos meios militares e tensões do próprio desenvolvimento do país. A crise de 1929 acabara de chegar, colocando em xeque o liberalismo reinante.

A Revolução consolidou a expansão das relações capitalistas, que trouxe em seu bojo a integração ao mercado – via Estado – de largos contingentes da população. O mecanismo utilizado foi a formalização do trabalho.

As novas relações sociais e a intervenção do Estado na economia – decisiva para a superação da crise e para o avanço da industrialização – implicaram uma reconfiguração e uma modernização institucional do país. A conseqüência imediata foi a perda da hegemonia da economia cafeeira, centrada principalmente em São Paulo e parte de Minas Gerais. Percebendo as mudanças no horizonte, as classes dominantes locais foram à luta em 1932.

A locomotiva e os vagões

Explodiu então a rebelião armada das forças insepultas da República Velha e da elite paulista, querendo recuperar seu domínio sobre o país.

Tendo na linha de frente a Associação Comercial e a Federação das Indústrias (FIESP), o levante tinha entre seus líderes sobrenomes importantes do Estado, como Simonsen, Mesquita, Silva Prado, Pacheco e Chaves, Alves de Lima e outros. O movimento contou com expressivo apoio popular, uma vez que os meios de comunicação (rádio, jornais e revistas) reverberaram as demandas das classes altas.

A campanha que precedeu a sublevação exacerbou uma espécie de nacionalismo paulista, incentivado por grupos separatistas. Entre esses, notabilizava-se o escritor Monteiro Lobato. A síntese da aversão local ao restante do país expressava-se na difundida frase, que classificava o estado como “a locomotiva que puxa 21 vagões vazios”, em referência às demais unidades da federação.

Contradição em termos

O objetivo do movimento, derrotado militarmente em 4 de outubro, era derrubar o governo provisório de Getulio Vargas e aprovar uma nova Constituição. Daí a criação do nome “revolução constitucionalista”, uma contradição em termos. Revolução é uma ação decidida a destruir uma ordem estabelecida. A expressão “constitucionalista” expressava uma tentativa recuperação do status quo, regido pela Carta de 1891. Se é “constitucionalista”, não poderia ser “revolução”.

Os sempre proclamados “ideais de 1932” são vagas referências à constitucionalidade e à democracia. Mas não existia, por parte da elite, nenhuma formulação que fosse muito além da recuperação da hegemonia paulista (leia-se, dos cafeicultores).

Exatos oitenta anos depois, o 9 de julho segue comemorado como a data magna do estado, uma espécie de 7 de setembro local. E os acontecimentos de 5 de julho de 1924 continuam como páginas obscuras de um passado distante.

A elite paulista voltaria ao poder em 1994, pelas mãos de Fernando Henrique Cardoso e do PSDB. Seu mote foi dado no discurso de despedida do senado, em 1994: “Um pedaço do nosso passado político ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas, ao seu modelo de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista”.

Os objetivos desse setor continuaram os mesmos, décadas depois: realizar a contra-Revolução de 30.

As tensões entre as datas – 5 e 9 de julho – expressam duas vias colocadas até hoje nos embates políticos paulistas: a saída conservadora e a saída antielitista.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Leia também:

Luiz Claudio Cunha: As garras do Brasil na Operação Condor

Santayana: As hienas e o assalto ao povo

Lula a Chávez: “Sua vitória será nossa vitória”

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As eleições municipais sempre foram o terreno propício para as escaramuças políticas. Os partidos tentam se firmar, ganhar mais espaço no campo institucional, cacifar-se para as próximas contendas estaduais e nacional. O pragmatismo nas alianças vira regra. Faz parte do jogo na democracia liberal. Neste sentido, a recente disputa entre PT e PSB, ambos da base de apoio do governo Dilma Rousseff, é natural. O que chama atenção, porém, é a postura da mídia demotucana, que tenta atiçar ao máximo esta divisão.
Animados, os jornais O Globo, Estadão e Folha já decretaram o enterro definitivo da aliança entre petistas e socialistas. Eles contabilizam as fraturas ocorridas, principalmente, nas disputas para as prefeituras de Belo Horizonte (MG), Recife (PE) e Fortaleza (CE). O que se especula é que o PSB, presidido pelo governador pernambucano, já teria definido um plano próprio para as eleições presidenciais. “Cresce entre os socialistas a tese de Eduardo Campos disputar o Planalto já em 2014”, garante Christiane Samarco, do Estadão.
Os partidários do racha
A mídia dá espaço exatamente aos que sempre pregaram este racha. “O resultado das eleições deste ano pode determinar a nossa alforria”, festeja o deputado Júlio Delgado, do PSB de Minas Gerais, que nunca escondeu suas relações com o tucano Aécio Neves. Setores mais sectários e hegemonistas do PT também torcem pelo divórcio entre as duas legendas, sem levar em conta os estragos que isto pode causar à gestão da presidenta Dilma Rousseff e às próprias alianças do gelatinoso campo progressista no futuro.
Neste sentido, vale registrar o alerta do ex-ministro José Dirceu, que sempre teve uma visão mais estratégica da disputa em jogo. “O fim da aliança em Belo Horizonte, depois de ter ocorrido o mesmo em Recife e Fortaleza, põe em risco o acordo nacional entre os dois partidos”, afirmou, advertindo para o perigo do afastamento entre as duas siglas e culpando os tucanos pelo acirramento da divisão. O presidente do PSB, Eduardo Campos, também já teria entrado em campo para apagar o incêndio e evitar o pior.
O desejo da direita nativa
É certo que a mídia demotucana não inventa; ela apenas manipula e amplifica as dificuldades que são reais nas relações entre PT e PSB. Nas eleições municipais de 2008, os socialistas apoiaram candidatos petistas em dez capitais. Neste ano, a coligação só vingou em cinco. Sentindo-se mais fortalecimento, principalmente no Nordeste, o PSB lançou agora candidaturas próprias em 11 capitais – quatro a mais do que em 2008. Estes dados, segundo a mídia demotucana, indicariam que o racha entre PSB e PT é inevitável.
Mas a dinâmica política difere do desejo da mídia demotucana. Os dois partidos são aliados, não estão casados indissoluvelmente, e tem projetos próprios. Cada um tenta se cacifar para a natural batalha pela hegemonia na sociedade. Esta disputa, porém, tem que ser travada com cuidado, sob o risco de colocar a perder tudo o que foi construído pelo campo democrático e popular desde a primeira vitória presidencial de Lula. Neste caso, o bloco neoliberal-conservador e sua mídia teriam, de fato, muito a comemorar.

Congresso em Foco

“Os Heróis de uma época devem ser reconhecidos como aqueles que souberam ver com clareza: seus feitos e palavras são os melhores do seu tempo”


POR MÁRCIA DENSER

Relendo Rumo à Estação Finlândia, o famoso livro de Edmund Wilson que, em linhas gerais e acompanhando cronologicamente a trajetória de algumas personagens históricas, traça o histórico dos movimentos comunistas no mundo entre os séculos 18 e 20, releitura que, aliás, recomendo vivamente para todos, e principalmente aqueles (que já são legião) que estão perdendo o sentido de “histórico”, de “humano” e, sobretudo, a combinação de ambos, quer dizer, que sejamos a “Humanidade vivendo na História”.

Segundo Wilson, o mais importante que Marx, Engels e seus contemporâneos extraíram da filosofia de Hegel foi o conceito de “transformação histórica”: para este, as grandes figuras revolucionárias da História não eram apenas indivíduos extraordinários, mas agentes através dos quais as forças das sociedade em que eles se inseriam realizavam seus propósitos inconscientes. A exemplo de Júlio César, que lutou, derrotou rivais e destruiu a constituição de Roma, visando à conquista da supremacia, mas o que o torna importante para o mundo é o fato de que ele estava fazendo o que era necessário para unificar o Império Romano, ou seja, impondo um regime autocrático, a única solução possível, em nível histórico.

Não foi apenas o seu – de Julio Cesar – interesse pessoal e, sim, um impulso inconsciente, que ensejou a realização daquilo cujo momento havia chegado. Assim são todos os grandes homens da história – cujos objetivos pessoais envolvem as grandes questões, através das quais se manifesta a vontade do Espírito do Mundo. Eles podem ser chamados de Heróis, na medida em que seus objetivos e sua vocação derivam não do curso regular e tranquilo dos eventos, sancionado pela ordem vigente, e sim de uma fonte oculta – que não atingiu ainda a existência fenomenal, presente – aquele Espírito interior e coletivo, ainda oculto sob a superfície, o qual, invadindo o mundo exterior, qual uma casca que se irrompe, quebrando-o em mil pedaços, porque é um núcleo diferente daquele que pertencia à casca em questão.

Tais indivíduos não tinham consciência da Idéia Geral que estavam manifestando no momento em que promoviam seus objetivos pessoais, eram homens práticos, políticos. Porém, eram homens de pensamento, de idéias, que tinham uma visão das exigências do seu tempo – do que estava maduro para se desenvolver. Era esta a própria Verdade de sua época, de seu mundo, já formada no útero do tempo.

Portanto, os Heróis de uma época devem ser reconhecidos como aqueles que souberam ver com clareza: seus feitos e palavras são os melhores do seu tempo. Foi com eles que os outros aprenderam e aprovaram sua prática. Pois o Espírito, que deu esse novo passo na história, é a alma mais recôndita de todos os indivíduos, porém vive num estado de inconsciência do qual só é despertado pelos grandes homens. Esses líderes da alma são seguidos por seus companheiros, que sentem o poder irresistível dum Espírito Encarnado.

O fato é que Marx e Engels combinaram as metas dos utópicos com o processo hegeliano de desenvolvimento orgânico. Influenciado por tais idéias, em dezembro de 1943, Marx assim descreveu o proletariado alemão como o detentor do processo de emancipação na Alemanha:

“Uma classe radicalmente acorrentada, uma das classes da sociedade burguesa e que a ela não pertence, uma ordem que causa a dissolução de toda ordem, uma esfera que tem caráter universal em virtude de seu sofrimento universal e que não se arroga nenhum direito específico, porque não é vítima de nenhuma injustiça específica e sim da injustiça total, que não pode mais invocar um direito histórico e sim apenas um direito humano, que não se coloca em um antagonismo unilateral e sim em um antagonismo absoluto em relação a seus pressupostos – uma esfera, enfim, que não pode se emancipar sem libertar-se de todas as outras esferas da sociedade e, ao fazê-lo, libertar todas essas esferas elas próprias; que, em resumo, como representa a total destituição da própria humanidade, só pode se redimir através da redenção da toda a humanidade.”

Relendo tais palavras, é completamente impossível manter-se indiferente.

E à consciência agoniada de que elas estariam descrevendo a sociedade atual, – pior! – 99% da Humanidade em 2012.

SOBRE O AUTOR

Márcia Denser

* A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma(Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim(Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel” – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel” está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos de Márcia Denser.
Publicado originalmente por ronaldo – livreiro

 

Por Alan Rodrigues, na Istoé

A primeira foto acima, à esquerda, correu o mundo depois da noite de 4 de novembro de 1969. Ela era vista como prova da iminente vitória do governo contra a oposição armada à ditadura militar brasileira. Carlos Marighella, 58 anos, o terrorista mais caçado do País, líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização responsável por dezenas de assaltos a bancos e explosões de bombas, estava morto. Amigo de Fidel Castro, celebrado pela Europa como principal comandante da guerra revolucionária na América do Sul, Marighella tinha levado quatro tiros numa emboscada policial na alameda Casa Branca, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Segundo a versão dos militares, o guerrilheiro fora atraído para um “ponto” com religiosos dominicanos simpatizantes da ALN e trocara tiros com os agentes que varejavam o local do encontro. Um conceituado fotógrafo da revista “Manchete”, Sérgio Vital Tafner Jorge, então com 33 anos, fez o clique da câmara rolleiflex que registrou Marighella estirado no banco traseiro do fusca dos dominicanos. Barriga à mostra, calça aberta, dois filetes de sangue escorrendo pelo rosto.

“Foi tudo uma farsa”, revela agora à ISTOÉ Sérgio Jorge, que está com 75 anos. “Eu vi os policiais colocando o Marighella no banco de trás do carro”. Naquela noite, Jorge estava no Estádio do Pacaembu à espera dos melhores ângulos de um Corinthians x Santos quando ficou sabendo da morte do guerrilheiro. Ele abandonou o estádio antes mesmo de a notícia ser confirmada pelos alto-falantes do Pacaembu e recebida com um urro de comemoração pela torcida. Acompanhado de outros quatro fotógrafos, Jorge chegou à alameda Casa Branca pouco depois das 20 horas. O que ele viu ali – e foi proibido de documentar – era diferente do que aparece na famosa foto estampada depois nas páginas da “Manchete” e em dezenas de outras publicações. Jorge está decidido a contar para a Comissão da Verdade, que o governo federal vai instalar no próximo mês, a armação que testemunhou. Já foi pensando nisso que, no mês passado, com a ajuda de um amigo que serviu de modelo e um fusquinha emprestado, Jorge procurou reproduzir numa nova foto exatamente o que presenciou no dia 4 de novembro de 1969. O resultado é a segunda cena da página anteior, à direita: o amigo de Jorge, representando Marighella, ocupa o banco da frente do carro, numa posição distinta daquela que a polícia fez questão de espalhar. Eram os anos de chumbo e havia muita coisa para ser escondida.

Os mais famosos retratos da ditadura começam a contar suas verdadeiras histórias. Sérgio Jorge ganhou coragem de revelar a farsa da morte de Marighella depois que o fotógrafo-perito Silvaldo Leung Vieira contou, no dia 5 de janeiro, ao jornal “Folha de S. Paulo” que sua foto do jornalista Vladimir Herzog morto nas dependências do DOI-Codi, em 1975, era – como já se sabia – uma encenação criada pelos militares. Vieira está atrás de uma indenização do Estado brasileiro, pois julga que teve prejudicada sua carreira de funcionário público. Já Sérgio Jorge quer apenas acertar contas com o passado. “Vi que tinha chegado a hora de contar. O Brasil mudou”, diz ele. Durante mais de 40 anos, Jorge remoeu os fatos daquela noite, que é capaz de reconstituir em detalhes. Ele e os outros fotógrafos, logo que chegaram à alameda Casa Branca, foram recebidos aos gritos pelo temido delegado do Dops, Sérgio Paranhos Fleury, o homem que comandou o cerco a Marighella. “Não quero ouvir um clique! Todos encostados no muro, com as máquinas no chão!”, ordenou Fleury. Ninguém ousou desobedecer. “Era uma loucura, ficamos vendo tudo aquilo acontecer sem poder registrar nada”, diz Jorge. Marighella estava no banco da frente, com uma perna para dentro do carro e outra para fora, os dois braços caídos e quase nada de sangue na roupa. Três policiais retiraram o corpo do fusca (veja reconstituição acima) e o deitaram na calçada. Abriram a calça de Marighella e revistaram seus bolsos. Tentaram, então, recolocá-lo no banco de trás. “Mas não conseguiam e foi preciso que um dos policiais desse a volta no automóvel e puxasse o corpo para dentro.” A ação durou cerca de 40 minutos até que os fotógrafos foram autorizados a fotografar. Chegando perto do carro, Sérgio Jorge pôde ver que havia uma pasta atrás do banco dianteiro e, sobre o assento de trás, uma peruca e uma capa.

Na presença de Sérgio Jorge e dos demais fotógrafos, os policiais, sem nenhum constrangimento, encenavam um número que viria a se tornar corriqueiro naqueles tempos: o teatro do confronto entre guerrilheiros urbanos e as forças da repressão. A ditadura no Brasil deixou um saldo macabro de 475 adversários mortos, 163 deles ainda desaparecidos. Foi a partir de 1969, o ano da morte de Marighella, que o regime militar ingressou em seu período mais duro e a eliminação de inimigos passou a ser regra. As execuções de militantes de esquerda, sem chance de prisão, tornaram-se tão comuns quanto os laudos fantasiosos de inquéritos policiais destinados apenas a escamotear uma política oficial de extermínio. No caso de Carlos Marighella, o esclarecimento de sua morte é especialmente problemático, pois existem pelo menos três versões conflitantes para ela. Primeiro há a versão dos militares, segundo a qual ele foi varado por uma rajada de metralhadora quando, do banco de trás do fusca dos dominicanos, reagiu a tiros a uma ordem de prisão do delegado Fleury. A perícia, entretanto, acabou concluindo que não saíra um tiro sequer da arma de Marighella. Desse modo, a tese da polícia parece não ser mais que um esforço para esconder a provável execução sumária do guerrilheiro, além de uma tentativa de driblar uma complicação extra do episódio: a suspeita de que, naquela noite, foi o fogo amigo que matou também uma jovem policial e um dentista alemão que casualmente passava pelo local no momento do tiroteio (outro delegado, um desafeto de Fleury, acabou baleado na virilha). A segunda versão é a dos dois frades dominicanos que a polícia usou como isca para Marighella. Em seu julgamento, os religiosos sustentaram que o guerrilheiro foi executado no meio da rua, longe do fusca em que eles estavam. Por fim, o Grupo Tortura Nunca Mais, em 1996, adotou as conclusões de um laudo em que legistas garantem que Marighella foi morto com um tiro no peito à queima-roupa, que seccionou-lhe a aorta, e alvejado ainda por outros três disparos.

Carlos Marighella era autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, um confuso texto de 50 páginas que jovens esquerdistas de todo o mundo liam como uma bíblia. Figura principal dos cartazes amarelos que a ditadura espalhava com retratos de terroristas, vinha sendo caçado pelo Dops e monitorado pela máquina de informações dos Estados Unidos. Um ano antes de sua morte, o consulado americano em São Paulo já informara seu governo sobre as relações de Marighella com os dominicanos. Agora, o depoimento exclusivo de Sérgio Jorge à ISTOÉ – e que ele se dispõe a prestar também à Comissão da Verdade, instituída pelo governo para esclarecer as mortes ocorridas durante a ditadura – poderá jogar uma nova luz sobre os fatos, embora ainda seja difícil fazer conjecturas sobre as intenções específicas dos policiais que transferiram o corpo de Marighella para o banco de trás do carro.

Sérgio Jorge foi o primeiro fotógrafo do País a ganhar o Prêmio Esso de Jornalismo. Ele conta que, quando chegou à redação da “Manchete” com a foto do cadáver de Marighella, teve o cuidado de relatar a seu chefe a armação que tinha visto. Ouviu como resposta que a versão de Fleury seria a definitiva e, sempre avesso à política, resolveu se calar. “Todo mundo me dizia para não me meter com essas coisas que era muito perigoso”, diz ele. O caso só voltou a perturbá-lo cinco anos atrás, no momento em que começou a selecionar fotografias para um livro em seu arquivo pessoal, com mais de 60 mil imagens. As fotos de Marighella não estão com ele: foram parar num arquivo da revista “Manchete”, recentemente leiloado. “Dos fotógrafos que estavam comigo naquele dia, só eu estou vivo. Cheguei à conclusão de que não posso levar para o túmulo a história verdadeira”, diz Sérgio Jorge. “Sempre tive muito medo, mas com a Comissão da Verdade acho que chegou a hora.”

Nilmário Miranda, um dos representantes da comissão do Ministério da Justiça que, em 1996, responsabilizou o Estado brasileiro pela morte de Marighella, considera importante o depoimento de Sérgio Jorge. “Isso vai ajudar a Comissão da Verdade a regatar os fatos históricos”, diz ele. “Ao invés de suicídios, assassinatos cruéis. Ao invés de fugas da prisão, desaparecimentos forçados. Ao invés de tiroteios simulados, execuções à queima-roupa.” O advogado de presos políticos Mário Simas, que foi a primeira voz a afrontar a versão oficial da morte de Marighella, quando fazia a defesa dos frades dominicanos, espera que o depoimento de Jorge possa, finalmente, contribuir para o esclarecimento do caso. “No processo, lancei dez dúvidas sobre a versão oficial que nunca foram respondidas pelo Estado”, diz ele. Simas, que presidiu a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, não tem dúvidas sobre o modo de ação da polícia: “O delegado Fleury era um caçador sem escrúpulos, que não respeitava nada para chegar a seus objetivos.”

Aos 86 anos, a mulher de Marighella, Clara Charf, se espanta ao saber das revelações de Sérgio Jorge. Ela estranha que seu marido, que não sabia dirigir, estivesse ocupando o banco do motorista do fusca. Mas acredita que este depoimento possa enterrar de vez a versão “mentirosa” da polícia. “É um impulso muito grande para a revisão da história”, diz ela. É uma expectativa idêntica à do ex-militante Otávio Ângelo, certamente um dos últimos companheiros que viram Marighella vivo. Membro do Grupo Tático Armado da ALN, Otávio Ângelo estava no derradeiro “ponto” que Marighella cumpriu no fim da tarde do dia 4 de novembro de 1969, antes de ir para a alameda Casa Branca. Eles se encontraram no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo e, segundo Otávio Ângelo, Marighella se mostrava muito preocupado com a segurança da organização por causa da prisão de vários militantes. “Ele parecia nervoso, apreensivo”, relembra. “Falava que estávamos no cerco e que, se não conseguíssemos sair desse cerco, não sobreviveríamos.” A previsão de Marighella, como se vê, acabaria cumprida em poucas horas.

Publicado originalmente no Outras Palavras

Os leitores se recordam dos anúncios patrocinados pelo governo Collor, quando o caçador de marajás iniciava o processo de entrega dos bens nacionais aos estrangeiros, em nome da modernidade. Os que defendiam o patrimônio público eram desdenhosamente identificados como dinossauros.

Mauro Santayana

Os leitores se recordam dos anúncios patrocinados pelo governo federal durante o mandato de Collor, quando o caçador de marajás iniciava o processo de entrega dos bens nacionais aos estrangeiros, em nome da modernidade. Os que defendiam o patrimônio público eram desdenhosamente identificados como dinossauros, ou seja, animais dos tempos jurássicos. Iniciou-se, com o confisco dos haveres bancários, o processo de desnacionalização da economia, sob o comando da senhora Zélia Cardoso de Melo e do economista Eduardo Modiano, nomeado presidente do BNDES com a missão de desmantelar o setor estatal e entregar suas empresas aos empreendedores privados que se associassem às multinacionais.

Naquela época publiquei artigo na Gazeta Mercantil, em que fazia a necessária distinção entre os dinossauros – uma espécie limpa, sólida, quase toda vegetariana – e os murídeos: camundongos, ratos e ratazanas.

É difícil entender como pessoas adultas, detentoras de títulos acadêmicos, alguns deles respeitáveis, puderam fazer análise tão grosseira do processo histórico. Mas eles sabiam o que estavam fazendo. Os economistas, sociólogos e políticos que se alinharam ao movimento neoliberal – excetuados os realmente parvos e inocentes úteis – fizeram das torções lógicas um meio de enriquecimento rápido.

Aproveitando-se dos equívocos e da corrupção ideológica dos quadros dirigentes dos países socialistas – que vinham de muito antes – os líderes euro-norte-americanos quiseram muito mais do que tinham, e resolveram recuperar a posição de seus antecessores durante o período de acumulação acelerada do capitalismo do século 19. Era o retorno ao velho liberalismo da exploração desapiedada dos trabalhadores, que havia provocado a reação dos movimentos operários em quase toda a Europa em 1848 (e animaram Marx e Engels a publicar seu Manifesto Comunista) e, logo depois, a epopéia rebelde da Comuna de Paris, com o martírio de milhares de trabalhadores franceses.

Embora a capitulação do Estado se tenha iniciado com Reagan e Thatcher, no início dos oitenta, o sinal para o assalto em arrastão veio com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989 – coincidindo com a vitória de Collor nas eleições brasileiras. Não se contentaram os vitoriosos em assaltar os cofres públicos e em exercer a prodigalidade em benefício de seus associados do mercado financeiro. A arrogância e a insolência, nas manifestações de desprezo para com os pobres, que, a seu juízo, deviam ser excluídos da sociedade econômica, roçavam a abjeção. Em reunião realizada então na Califórnia, cogitou-se, pura e simplesmente, de se eliminarem quatro quintos da população mundial, sob o argumento de que as máquinas poderiam facilmente substituir os proletários, para que os 20% restantes pudessem usufruir de todos recursos naturais do planeta.

Os intelectuais humanistas – e mesmo os não tão humanistas, mas dotados de pensamento lógico-crítico – alertaram que isso seria impossível e que a moda neoliberal, com a globalização exacerbada da economia, conduziria ao malogro. E as coisas se complicaram, logo nos primeiros anos, com a ascensão descontrolada dos administradores profissionais – os chamados executivos, que, não pertencendo às famílias dos acionistas tradicionais, nem aos velhos quadros das empresas, atuavam com o espírito de assaltantes. Ao mesmo tempo, os bancos passaram a controlar o capital dos grandes conglomerados industriais.

Os “executivos”, dissociados do espírito e da cultura das empresas produtivas, só pensavam em enriquecer-se rapidamente, mediante as fraudes. É de estarrecer ouvir homens como George Soros, Klaus Schwab e outros, outrora defensores ferozes da liberdade do mercado financeiro e dos instrumentos da pirataria, como os paraísos fiscais, pregar a reforma do sistema e denunciar a exacerbada desigualdade social no mundo como uma das causas da crise atual do capitalismo.

Isso sem falar nos falsos repentiti nacionais que, em suas “análises” econômicas e políticas, nos grandes meios de comunicação, começam a identificar a desigualdade excessiva como séria ameaça ao capitalismo, ou seja, aos lucros. Quando se trata de jornalistas econômicos e políticos, a ignorância costuma ser companheira do oportunismo. Da mesma maneira que louvavam as privatizações e a “reengenharia” das empresas que “enxugavam” as folhas de pagamento, colocando os trabalhadores na rua, e aplaudiam os arrochos fiscais, em detrimento dos serviços essenciais do Estado, como a saúde, a educação e a segurança, sem falar na previdência, admitem agora os excessos do capitalismo neoliberal e financeiro, e aceitam a intervenção do Estado, para salvar o sistema.

Disso tudo nós sabíamos, e anunciamos o desastre que viria. Mas foi preciso que dezenas de milhares morressem nas guerras do Oriente Médio, na Eurásia, e na África, e que certos banqueiros fossem para a cadeia, como Madoff, e que o desemprego assolasse os países ricos, para que esses senhores vissem o óbvio. Na Espanha há hoje um milhão e meio de famílias nas quais todos os seus membros estão desempregados.

Não nos enganemos. Eles pretendem apenas ganhar tempo e voltar a impedir que o Estado volte ao seu papel histórico. Mas o momento é importante para que os cidadãos se mobilizem, e aproveitem esse recuo estratégico do sistema, a fim de recuperar para o Estado a direção das sociedades nacionais, e reocupar, com o povo, os parlamentos e o poder executivo, ali onde os banqueiros continuam mandando.

 

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.