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Um relatório divulgado nesta quarta-feira (14/09) pelo governo cubano revelou que os danos econômicos sofridos pelo país por conta do bloqueio imposto pelos Estados Unidos chegaram a US$ 975 bilhões ao final de 2010.

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Os dados foram apresentados pelo vice-chanceler cubano, Abelardo Moreno. Segundo ele, os danos econômicos “cresceram por conta da depreciação internacional do dólar frente ao ouro entre 1961 e 2010”.

O dirigente aproveitou a oportunidade para pedir o apoio da comunidade internacional ao projeto que será apresentado na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) no próximo dia 25 de outubro. Na ocasião, o país pedirá a suspensão imediata e incondicional do bloqueio norte-americano.

“É fundamental que os países do mundo sejam capazes de resistir às continuas pressões dos Estados Unidos, que buscam que as nações não tenham relações comerciais e financeiras com nosso país”, afirmou.

O embargo

As restrições à Cuba foram impostas pelos Estados Unidos em fevereiro de 1962. Em 1999, o então presidente norte-americano Bill Clinton ampliou o embargo, impedindo que as filiais estrangeiras de empresas do país comercializassem com a ilha em valores superiores a US$ 700 milhões.

Durante a apresentação do relatório, Moreno condenou o bloqueio, o qual considerou “uma política imoral e unilateral”. Ele ainda acusou os norte-americanos de “cancelar licenças que deveriam ajudar Cuba e nada tem a ver com os Estados Unidos”, finalizou.

Este será o vigésimo ano seguido que a Assembleia da ONU trata do bloqueio dos Estados Unidos. Nas 19 oportunidades anteriores, o plenário aprovou resoluções que condenavam as restrições. O bloqueio, no entanto, continuou.

*Com informações da rede multiestatal TeleSur

Os ministros das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, e da China, Yang Jiechi, conversaram na segunda-feira (23/08), por telefone, e disseram que o ideal é que os países que compõem o Brics – grupo formado pelo Brasil, a Rússia, Índia, China e África do Sul – definam uma posição comum em relação às mudanças que ocorrem na Líbia. Também disseram que pretendem ajudar o governo de transição na busca pela estabilidade na região.

As autoridades chinesas informaram que o governo de seu país considera que a paz e a estabilidade deverão ser restauradas para dar início a um processo político livre. Na segunda-feira, em entrevista coletiva, Patriota disse que o Brasil espera salvaguardas do Conselho de Transição Nacional – controlado pela oposição líbia – para definir-se sobre a legitimidade do governo provisório na Líbia.

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Para o chanceler da China, os países do Brics devem desempenhar um  “papel protagonista” no período após o fim dos conflitos na Líbia. Segundo Yang Jiechi, o Brasil deve  “ser o principal aliado da China na reconstrução da Líbia”. De acordo com o ministro chinês, a ONU deve dar prioridade à busca da estabilidade na Líbia como “tarefa mais urgente”.

Yang Jiechi disse ainda que a ONU  deve conduzir o processo de transição na Líbia em parceria com a Liga Árabe, a União Africana e outras organizações regionais.  A Líbia é um dos principais parceiros econômicos da China no Norte da África. Desde fevereiro, cerca de 35 mil trabalhadores chineses foram retirados do território líbio.

Operárias de Mahalla tomaram as fábricas “de mulheres” e recusaram-se a sair de lá até que recebessem “massivo” aumento de salário: de £60 por mês, para £100.
Por Robert Fisk

A cidade de Mahallah, capital do algodão egípcio, esconde muito bem seus saberes políticos.

Local de fábricas stalinistas que trabalhavam 24 horas por dia, casas arruinadas do século 19 enterradas entre blocos de concreto e uma rede de trilhos em cacos, só a aparição de uma barata impressionantemente grande no chão do escritório da prefeitura agita os funcionários e os faz levantar. A barata e outra estranha criatura: esse seu correspondente, encharcado de suor, perguntando sobre uma greve na indústria que começou e acabou há cinco anos.

Cada vez que eu perguntava sobre a greve, alguém me perguntava se eu vira Mubarak naquela gaiola no Cairo. Supunham sempre que eu falasse das batalhas na Praça Tahrir, em janeiro passado. Só começaram a entender quando entrou na sala uma das heroínas da Batalha de Mahallah, Widdad Dimirdash, vestida com o véu, super energética, voz alta e atitude de profundo orgulho. Mrs. Dimirdash participou do comando de uma das primeiras grandes greves contra a empresa estatal (quer dizer: pertencia à família Mubarak) Misr Cotton Company, em 2006.

“Não se pode dizer que tenha sido greve realmente política” – diz ela, mas não acredito. “Acho que não tivemos escolha. Nossos salários haviam caído tanto e o preço da comida era tão alto que já ninguém nem comia nem vivia.”

Dos 30 mil operários do algodão em Mahallah – homens e mulheres trabalhavam em fábricas separadas – 6.000 eram mulheres. Elas pararam de trabalhar quando os homens pararam. Tomaram as fábricas “de mulheres” e recusaram-se a sair de lá até que recebessem “massivo” aumento de salário: de £60 por mês, para £100, o que as ainda as mantinha como os trabalhadores de mais baixo salário em todo o Egito. Mas o governo de Mubarak, em três dias, concedeu o aumento que as mulheres pediam.

Não teve escolha. Mahallah, centro do comércio egípcio de exportação, era grande demais para ser desafiada. “Primeira Cidade do Algodão do Delta” – lê-se numa placa enferrujada, quando passo de carro pelas calçadas rebentadas, montes de lixo e muitos carros “toc-tocs”, uma espécie de riquixá movido a petróleo que circula pela velha passagem de nível. A cidade não ostenta a própria história, mas a história parece pairar por ali, entre as ruínas.

Introduzido na região pelos franceses em 1817, o algodão de Mahallah prosperou quando a guerra civil nos EUA cortou as vias transatlânticas das importações europeias, nos anos 1860s. Adeus, Sul Profundo. Bem-vindo, Delta do Nilo.

No dia 6/4/2008, contudo, o povo de Mahallah acrescentou mais uma nota de pé de página à própria história. Dessa vez, marcharam pelas ruas, negociando com um ministro do governo Mubarak, por melhores salários e condições de trabalho, e enfrentaram a violência dos policiais. Mrs. Dimirdash foi uma das duas mulheres que participaram da equipe de negociação de sete trabalhadores. “As pessoas demarcaram campos na rua principal, a ‘Rua do Presidente’ – relembrou o jornalista Adel Dora. – “Os baltagi [mercenários pró-governo, armados com porretes] nos atacaram com terrível violência; e a Polícia usou gás lacrimogêneo, mas muita gente nos defendeu em todo o país, usando o Facebook”.

Só dois canais árabes de televisão por satélite cobriram a batalha de Mahallah. A imprensa egípcia, diz Dora, “simplesmente mentiu sobre nós – publicaram tudo que o governo Mubarak queria que publicassem”. Os homens e mulheres de Mubarak mantiveram o movimento durante uma semana.

Em 2009, tentaram novamente, mas dessa vez – e Dora baixou a cabeça ao dizer – o povo estava com medo. “Com medo da Polícia, de serem mortos, de mais violência, do que o governo pudesse fazer contra eles”. Dora falava com ira, mas, estranhamente, como se não percebesse o precedente que a cidade criara. Essa Mahallah sombria, sem brilho, em 2006 e em 2008, foi versão em miniatura, talvez prematura, da grande revolução que derrubaria o governo egípcio em fevereiro de 2011 e mandou Hosni Mubarak para a gaiola com leito que se viu no Cairo essa semana. A união de homens e mulheres, trabalhadores comuns, o Facebook, as tendas armadas na Praça Tahrir, os mercenários baltagi as bombas de gás lacrimogêneo da Polícia, tudo reapareceu depois, aos olhos do mundo, na Praça Tahrir. E naquela praça descobrimos – embora ninguém entendesse quem eram e o que faziam ali – muitos homens e mulheres de Mahallah. Ah, sim, eles sabiam o que fazer para derrubar ditador.

O jornalista francês Alain Gresh foi dos primeiros a perceber a plena significação de tudo isso: que aqueles trabalhadores eram “atores esquecidos” da revolução egípcia. Lembrou como um repórter industrial egípcio respondeu às suas perguntas no Cairo, perguntando: “Por que, até agora, as rebeliões na Líbia, no Iêmen e no Bahrain falharam?” Poderia ter acrescentado à lista, a Síria. Mas foi na Tunísia, onde os sindicatos eram fortes, que o sindicado geral dos trabalhadores da Tunísia conseguiu finalmente derrubar a ditadura de Ben Ali. Nos últimos dias, o golpe final foi a greve geral que convocaram. Mas tampouco os homens e mulheres de Mahallah foram os únicos trabalhadores da indústria a conseguir derrotar o poder de Mubarak.

Os operários do complexo de fábricas de cimento em Suez – que também fizeram sua “revolução” miniatura em 2009, pra protestar contra as vendas de cimento a Israel – iniciaram também sua greve política em fevereiro de 2011.

Quanto aos trabalhadores da Síria, Líbia, Iêmen, há muito tempo foram cooptados, Baathizados, hipnotizados pelo Livro Verde ou tribalizados, com o socialismo tomado só como inspiração infeliz para muitos ditadores. Quer dizer então que é preciso que haja movimento de trabalhadores e sindicatos organizados para que as revoluções no Oriente Médio sejam bem-sucedidas? Mahallah é cidade feia, suja, triste – mas seu lugar na história aumenta ano após ano.

Artigo publicado originalmente no The Independent, UK (via REVISTA FORUM)
Robert Fisk: The city and its workers that first took on Mubarak

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Foto: Greve dos trabalhadores em Mahalla, em setembro de 2007/Flickr

Publicado originalmente no blogdocappacete

Jovem Marx

Nesta terça-feira (19), das 10h às 19h35 a versão integral do filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”
O projeto Revoluções exibe nesta terça-feira (19), das 10h às 19h35 a versão integral do filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”, uma produção de 9 horas e meia do cineastra e escritor alemão Alexander Kluge. O filme, inédito em português, será exibido em três partes no Sesc Pinheiros, no Auditório Paulo Autran.
Alexander Kluge é um dos fundadores do Novo Cinema Alemão e pretende com este filme reconstruir o projeto do cineastra Sergei Eisenstein ao filmar o livro “O Capital” de Karl Marx, a partir da estrutura do livro “Ulisses”, de James Joice.

Confira a programação da exibição:

10h às 13h – Parte I: Marx e Eisenstein na mesma casa (Marx und Eisenstein im gleichen Haus, Alemanha, 2008, cor e p&b, 189 min.)
14h às 16h – Parte 2: Todas as coisas são homens enfeitiçados (Alle Dinge sing verzauberte Menschen, Alemanha, 2008, cor e p&b, 120 min.)
16h30 às 19h35 – Parte 3: Paradoxos da sociedade de troca (Paradoxe der Tauschegellschaft, Alemanha, 2008, cor e p&b, 183 min.)
No mesmo dia, a Versátil Home Vídeo lançará uma caixa contendo os DVDs do filme, além do curta “Amor Cego – Conversas com Jean-LucGodard”, no qual Kluge entrevista Godard.
O projeto Revoluções: educação, história, direitos humanos, cinema e fotografia é uma iniciativa de artistas, estudantes, professores, jornalistas, cineastras e militantes com objetivo de refletir o tema das revoluções sociais a partir da política e da estética. A coordenação geral e curadoria é Moara Rosseto Passoni e Henrique P. Xavier.
Serviço:

O quê: Filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”
Quando: 19/07, das  10h às 19h35
Onde: Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195, Pinheiros)
Mais informações: revolucoes@revolucoes.org.br

A direção nacional Articulação de Esquerda (AE), reunida no dia 28 de abril, convocou a Plenária Nacional da AE sobre política agrária e agrícola, que será realizada nos dias 11 e 12 de junho, na sede nacional do PT em Brasília.

A pauta do evento está subdividida em: 1) balanço da reforma agrária e da política agrícola no governo Lula; 2) política agrária e política agrícola no governo Dilma; 3) interface com outras políticas públicas (com destaque para aquicultura e pesca e educação).

O regimento interno segue abaixo:

Plenária nacional da AE sobre política agrária e agrícola

A pauta da plenária é a seguinte:

11 de junho

Manhã

Abertura pela direção nacional

Apresentação de texto-base formulado pela direção nacional da AE sobre nossa posição acerca da política agrária e agrícola

Mesa de debate, a partir do nosso texto-base, com militantes de movimentos do campo convidados enquanto representantes destes movimentos

Tarde

Grupos de trabalho para discutir o texto-base

Noite

Reunião da comissão de sistematização

12 de junho

Manhã

Apresentação dos grupos

Comissão de sistematização propõe quais temas deverão ser debatidos na plenária

Plenária de debate

Aprovação de resoluções

Tarde

Regresso dos participantes

Podem participar da plenária:

1) como convidadas/os, militantes da Esquerda Socialista e os militantes de movimentos sociais camponeses e afins;

2) como observadores, todos/as os/as militantes da AE que estejam em dia com sua assinatura do Página 13;

3) como delegados/as, todos/as os/as militantes da AE que estejam em dia com sua assinatura do Página 13, que se declarem atuantes nos temas de política agrária e de política agrícola e que atendam a pelo menos um dos seguintes critérios:

i) ser integrante da direção nacional, estadual ou municipal da AE (inclusive coordenações setoriais);

ii) ser integrante da direção nacional, estadual ou municipal do PT (DN, ética, fiscal, direções setoriais, direção da JPT, macros etc.);

iii) ser parlamentar nacional, estadual ou municipal;

iv) ser dirigente de entidade de movimento social de âmbito nacional, estadual ou municipal, que atue na área da política agrária ou agrícola;

v) ser integrante de governo (em qualquer nível), como eleito, primeiro escalão ou cargo comissionado, e atuante na área da política agrária e/ou agrícola.
Observadores não têm direito a voto. Poderão ter direito a voz, a critério da mesa diretora dos trabalhos, que cuidará de privilegiar a participação de quem tem direito a voto.

Os\As delegadas/os têm direito e voz e voto.

O credenciamento será feito por uma equipe designada pela Dnae. Tomará como base a lista atualizada de assinantes do Página 13. Quem não estiver com a assinatura em dia poderá fazer no ato do credenciamento. Considera-se assinatura em dia assinatura válida até dezembro de 2011.

A mesa diretora dos trabalhos será composta pelos integrantes da Dnae que estiveram participando da plenária.

O texto base será escrito por uma comissão indicada pela Dnae.

As resoluções da plenária, tal como previsto em nosso regimento interno, deverão ser homologadas pela Dnae

Celso Amorim

A Velha Ordem está morrendo. Viva a Nova! Já não será possível que um grupo de potências ocidentais dite a vontade do mundo. Por Celso Amorim. Foto: Ed Jones/AFP

Os líderes (no caso do Brasil, a líder) dos cinco países emergentes que, com a adesão da África do Sul, hoje compõem os BRICS reuniram-se em Sanya, na China, em 14 de abril último. A entrada da África do Sul é bem-vinda por trazer a África para esse grupo, cuja crescente importância no cenário internacional já não é mais contestada. Evidentemente, os pessimistas profissionais continuam a apontar diferenças de interesses entre os membros dos BRICS, traduzindo, em verdade, seu desconforto com a criação desse grande espaço de cooperação entre países até há pouco considerados subdesenvolvidos.

O mundo assiste à ascensão dos BRICS com um misto de esperança (de dividir encargos) e temor (de compartilhar decisões). Com o surgimento dos BRICS, chega ao fim a época em que -duas ou três potências ocidentais, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, podiam reunir-se numa sala e sair de lá falando em nome da “comunidade internacional”.

Tive oportunidade de participar dos primeiros movimentos que deram origem ao nascimento dos BRIC (então sem o “S”). Ou para usar uma terminologia que tomo emprestada da filosofia, da passagem dos BRIC de uma realidade “em si”, identificada pelo analista de mercado Jim O’Neill, para uma realidade “para si”. Foram necessários quatro ou cinco anos para que esses países assumissem sua identidade como grupo. O primeiro passo nesse sentido foi o convite do ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, para que os chanceleres dos quatro países se reunissem à margem da Assembleia Geral da ONU. Foi um encontro pouco estruturado. Interação mesmo, se é que houve, ficou restrita ao ministro russo e a mim.

No ano seguinte, tomei a iniciativa de convidar meus colegas para um almoço de trabalho na residência oficial da nossa representante permanente junto à ONU, Maria Luiza Viotti. Foi durante esse encontro que se tomou a decisão, inicialmente vista com certa reserva pela China, de convocar reunião a ser realizada em um dos países – e não como mero apêndice da pesada agenda dos ministros durante a Assembleia Geral. Assim, em maio de 2008, realizou-se a primeira reunião formal dos BRIC, na fria cidade russa de Ekaterinbrugo, no limite da Europa com a Ásia, com direito a declaração final e tudo o mais, ainda em nível de ministros. No ano seguinte, teve lugar, também na Rússia, a primeira cúpula de líderes. Antes disso, houve a tentativa, que acabou limitada a uma foto, de um encontro dos quatro, à margem da reunião do G-8 com alguns países em desenvolvimento, no Japão. Em 2010, ocorreu a Cúpula de Brasília, que quase não mereceu -atenção da mídia -brasileira, mas que motivou um documentário da tevê franco-alemã, a ARTE. E agora tivemos a Cúpula de Sanya, na China

E o que se nota ao longo desse processo? Primeiro, obviamente, a consolidação do grupo. Quando o Brasil propôs sediar a reunião do ano passado, a oferta foi aceita quase como um gesto de cortesia para com o presidente Lula, já que se tratava do final do seu mandato. Agora, sem que nada equivalente esteja ocorrendo, já se fixou a próxima cúpula para o ano que vem na Índia. Em suma, os líderes dos BRICS já não têm dúvidas sobre a importância de se reunir para discutir a cooperação entre eles e temas de interesse global, das finanças ao comércio, da energia à mudança do clima. Mais significativo, vencendo uma inibição que se fazia notar, sobretudo da parte da China, não hesitaram em tratar de questões relativas à paz e segurança internacionais. Em relação à Líbia, reafirmaram o desejo de encontrar uma solução “por meios pacíficos e pelo diálogo”. De forma mais geral, referindo-se ao Oriente Médio e à África, reafirmaram que o uso da força deve ser evitado. Como assinalou o comentarista do Financial Times, Gideon Rachman (embora eu discorde de sua análise das motivações), a intervenção anglo-franco-norte-americana na Líbia talvez seja o último hurrah! do que ele chama de intervencionismo liberal. Lembrando que Brasil, Índia, Rússia e China se abstiveram da resolução que autorizou “todas as medidas necessárias” para o estabelecimento da zona de exclusão aérea e a proteção da população civil, Rachman afirma que esses países, “as potências econômicas em ascensão”, são céticas sobre tal conceito. Aliás, se o Conselho voltar a reunir-se sobre o tema, é muito provável que a África do Sul, recém-ingressada nos BRICS e tendo de levar em conta posições mais recentes da União Africana, acompanhe seus novos companheiros de grupo. Isso deixaria a coalizão que apoiou o uso da força dependente de um único voto para qualquer nova ação que deseje tomar.

Bem… quais as consequências disso tudo? É que, com reforma ou sem reforma do Conselho de Segurança, já não será mais possível, por muito tempo, que um grupo de potências ocidentais decrete qual é a vontade da comunidade internacional. Da mesma forma que já não é possível para o G-7 (o G-8, do ponto de vista econômico, é uma ficção) ditar as regras que depois restaria ao FMI, ao Banco Mundial ou à OMC implementar. É evidente que, enquanto o Conselho da ONU não for efetivamente reformado, tudo será mais complicado e as grandes potências que emergiram vitoriosas da Segunda Guerra Mundial, especialmente os Estados Unidos, continuarão a barganhar apoios de Rússia e China, mediante concessões casuísticas, como fizeram por ocasião da adoção de sanções contra o Irã. Mas a tarefa será cada vez mais difícil. O surgimento dos BRICS no formato atual constitui uma verdadeira revolução no equilíbrio mundial, que se torna mais multipolar e mais democrático. Às vezes, as revoluções (refiro-me às verdadeiras, é claro) exigem tempo para se institucionalizarem. Mas isso acaba, inevitavelmente, ocorrendo.

Celso Amorim

Celso Amorim é ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula. Formado em 1965 pelo Instituto Rio Branco, fez pós-graduação em Relações Internacionais na Academia Diplomática de Viena, em 1967. Entre inúmeros outros cargos públicos, Amorim foi ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco entre 1993 e 1995. Depois, no governo Fernando Henrique, assumiu a Chefia da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e em seguida foi o chefe da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio. Em 2001, foi embaixador em Londres.

Os chamados “jornalistas independentes” cubanos criam constantemente falsas acusações contra o governo do país, que são convertidas em notícias por centenas de mídias ao redor do mundo. O agente Carlos Serpa, que trabalhou dentro dos grupos contrarrevolucionários, demonstra diante de uma câmera como se fabricam notícias falsas sobre Cuba.

Em vídeo divulgado pelo site Cuba Información, Serpa mostra como divulgava notícias falsas sobre Cuba. Em poucos minutos as “informações” eram reproduzidas nos noticiários de sites dos Estados Unidos e nas agências internacionais, como a Europa Press, uma agência espanhola que se pretende “moderada e equilibrada”.

Ele mesmo demonstra, diante das câmeras, por meio de uma chamada para a Rádio Marti de Miami, como qualquer testemunho inventado chegava, sem nenhuma checagem, aos noticiários de Miami que, por sua vez, são fonte habitual para outras mídias internacionais.

A lista de notícias publicadas nas agências e mídias, cuja fonte foi esse suposto “jornalista independente”, nos últimos anos, é enorme. Alto lógico se levarmos em conta que ele se converteu no “jornalista oficial” das tais Damas de Branco, a preferência mercadológica número um em Cuba das mídias corporativas.

No entanto, Carlos Serpa não foi fonte quase exclusiva somente dos raivosos meios de comunicação de Miami. Também agências e mídias de outros países construíram sua política informativa sobre Cuba sobre seus — quase únicos — testemunhos. É o caso, para citar um exemplo dentre milhares, da agência espanhola, Europa Press, empresa que pretende dar uma imagem de “moderação” e “equilíbrio” a seus leitores.

A revelação de Serpa coloca em questão o futuro das conhecidas “Damas de Branco”, já que horas antes era qualificado pelo grupo como porta-voz e “heroico correligionário”. Serpa contou à TV cubana todos os detalhes da dependência econômica e orgânica das “Damas” ao governo dos Estados Unidos e aos terroristas da máfia cubana de Miami e Porto Rico.
Veja o vídeo (em espanhol):

Destapan que cables de Europa Press y otras agencias reproducían mentiras sobre las Damas de Blanco

Fonte: Vermelho

 

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, e a empresa construtora Queiroz Galvão articulam a saída de pelo menos 130 brasileiros da Líbia ainda hoje (22). Um navio deve transportar o grupo da cidade de Benghazi até a costa de um país mais próximo, ainda a ser definido. A direção da construtora negocia com os manifestantes, que dominam a cidade, para que autorizem o navio a atracar na região.

A medida foi tomada, segundo diplomatas, porque o aeroporto da capital da Líbia, Trípoli, está fechado. As pistas do Aeroporto de Benghazi estão sem condições para pousos e decolagens de aeronaves, de acordo com as autoridades. Assim, a única alternativa para os estrangeiros deixarem o país é por meio marítimo.

Desde a semana passada, a Líbia enfrenta uma série de manifestações contrárias ao governo do presidente líbio, Muammar Khadafi, que está no poder há quase 42 anos. Os manifestantes foram contidos de forma violenta por militares e policiais líbios. Há informações de que os enfrentamentos ocorreram em meio a bombardeios intensos e com o uso de violência.

A Organização das Nações Unidas (ONU) condenou o governo líbio e ordenou o fim da violência na região. Para as autoridades das Nações Unidas, há indícios de crimes contra a humanidade e evidências de violação de direitos humanos. As autoridades líbias negam as acusações. Mas a organizações não governamentais afirmam que os mortos podem superar 400.

No caso dos brasileiros, a Embaixada do Brasil na Líbia informou que há cerca de 600 no país. A maioria trabalha para as empresas Queiroz Galvão, Odebrecht e Andrade Gutierrez, além da Petrobras. Grande parte atua em Trípoli, mas os funcionários da Queiroz Galvão estão em Benghazi – cidade que enfrenta as manifestações mais intensas.

Por questão de segurança, a construtora Queiroz Galvão mantém as famílias de 50 brasileiros e também de empregados portugueses na casa do diretor da empresa para o Norte da África, Marcos Jordão. Há várias crianças no grupo. Os funcionários solteiros estão alojados em um hotel próximo à casa de Jordão. De acordo com relatos do grupo, todos passam bem.

Edição: Talita Cavalcante

 

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de negar a extradição para a Itália do ex-militante do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo) Cesare Battisti é uma medida difícil e talvez impopular, mas que, em sua essência, está correta.
 
Num julgamento à revelia, Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália, em 1993, acusado de quatro assassinatos durante os anos 1970. Exilado, viveu na França e no México antes de fugir para o Brasil, onde foi preso em 2007. Em janeiro de 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu refúgio político a ele, após uma decisão contrária, mas apertada (3 votos contra 2) do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados).
 
Houve, a partir de então, um intenso debate no país, uma enorme pressão do governo italiano, um julgamento em que o Supremo Tribunal Federal questionou o status de refugiado e recomendou uma conduta (a extradição), mas reconheceu que a decisão final ficava a cargo do presidente da República.

Leia mais:

Leia na íntegra a nota da Presidência sobre a concessão de refúgio à Battisti
Lula nega extradição de Cesare Battisti
AGU apresenta a Lula parecer contrário à extradição de Battisti
Para senador italiano, liberdade condicional permite ‘outra fuga’ de Battisti
Após reunião com Berlusconi, Lula diz que caso Battisti é questão “jurídica” 

A Itália afirma que Battisti não cometeu crimes políticos, mas crimes comuns. Argumenta que as supostas vítimas das ações armadas do PAC eram pessoas distantes do poder, policiais e pequenos empresários que não estavam ligados às disputas políticas da conturbada década de 1970.
 
Esse argumento, no entanto, desconsidera alguns dados importantes. O caráter político de um caso assim não pode ser compreendido apenas a partir da vítima. É preciso também levar em conta o sentido que o autor da ação armada dá a ele e, principalmente, o contexto histórico.
 
A morte brutal de um comerciante, um dos crimes mais lembrados nas acusações contra Battisti, pode ter, sim, um sentido político, e certamente na conflagrada Itália das Brigadas Vermelhas ele foi assim compreendido. Embora houvesse um alto nível de consenso na condenação das ações armadas, as brigadas eram grupos políticos, que visavam a desestabilizar o governo italiano, e, nesse sentido, pouca diferença faz se ele era democrático ou ditatorial, conservador ou progressista.
 
Se os brigadistas não obtiveram sucesso, é uma outra questão. Também não obtiveram sucesso na década de 1960 e 1970 os latino-americanos que pegaram em armas contra as violentas ditaduras. Parece evidente, no entanto, que a opção pelas armas da extrema esquerda italiana foi um erro, à semelhança da opção das guerrilhas da extrema esquerda da América Latina no período – mas nem por isso as duas opções deixam de ser políticas.
 
A acusação de que o crime era comum, e não político, vem sempre a acompanhada da definição de Battisti como um terrorista, o que é paradoxal: os governos não chamam o Maníaco do Parque, o Bandido da Luz Vermelha e outros assassinos em série de terroristas – a rigor, só “recebe” a designação de terrorista quem enfrenta o poder de governos, e não quem tem como alvo apenas pessoas comuns.
 
Classificar os crimes de Battisti como crime comum é mudar a história, aceitar uma ficção que a Itália incorporou ao discurso político dominante e a suas leis. Mas esse consenso à italiana não pode ser imposto aos outros países, mesmo aqueles com quem o país europeu mantém tratados de extradição, sob o risco de desrespeito à soberania destes países. Mesmos os Estados Unidos, depois do 11 de Setembro, não impuseram ao mundo o reconhecimento de todas regras abrangentes que usam para classificar, no seu território, as “ações terroristas”.
 
A decisão do governo brasileiro é, assim, bem vinda. Não se trata de um estímulo à impunidade, como podem alguns acreditar. Battisti, preso no Brasil há quase 4 anos, em boa medida já pagou pelos crimes que nem temos tanta certeza assim de que cometeu. Lembremos que a Justiça italiana também levou à prisão um teórico das Brigadas, o filósofo Toni Negri (autor, com Michael Hardt, de “Império”, publicado no Brasil pela Record), com acusações no mínimo questionáveis.
 
Numa entrevista ao portal UOL, Negri classificou de “insultante” a postura do governo italiano em relação ao Brasil, e lembrou que a França se negou a extraditar uma outra militante em situação semelhante à de Battisti.
 
Negri também lembra que, de 1979 a 1983, foi mantido em prisão preventiva, sem processo. “Em 1983, houve um eleição parlamentar e eu saí da cadeia porque fui eleito deputado, porque não era ainda condenado. Fiquei preso quatro anos e meio – e poderia ter ficado até 12. Ou seja, quando os italianos dizem que nos anos 70 foi mantido o Estado de Direito, eles mentem. E isso eu digo com absoluta precisão, com base no meu próprio exemplo: fiquei quatro anos e meio em uma prisão de alta segurança, prisão especial, fui massacrado e torturado. Pude deixar a prisão apenas porque fui eleito deputado – do contrário, eu poderia ter ficado na prisão por 12 anos, sem processo. Durante os anos que fiquei na França, exilado, eu fui processado e condenado a 17 anos de prisão, mas que foram reduzidos porque havia uma pressão pública forte em meu favor. Quando voltei para a Itália, fiquei outros seis anos presos e encerrei a questão.”
 
A Itália de Berlusconi resgatou fantasmas dos anos 1970. Não caberia ao Brasil embarcar nesta onda hiperpunitiva contra a esquerda, patrocinada justamente por aqueles que defendem, no Brasil, a anistia sem limites para os agentes de um Estado inquestionavelmente ditatorial.

*Haroldo Ceravolo Sereza é diretor de redação dos sites Opera Mundi e Última Instância

Para a esquerda, segundo ele, “repressão” é melhor do que “cooptação”

Por: Redação da Rede Brasil Atual

Publicado em 03/11/2010, 17:00

Última atualização às 18:59

Plínio afirma que preferiria governo Serra ao de Dilma Plínio vê PSOL fortalecido após pleito (Foto: Divulgação)

São Paulo – O quarto colocado na disputa presidencial, Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) declarou preferir um governo de repressão a um de cooptação. Os termos foram usados por ele para definir, respectivamente, o que seria um governo comandado por José Serra (PSDB), candidato derrotado no segundo turno, e o que foi o governo Lula. As declarações constam de entrevista concedida à edição digital do Jornal do Brasil.

Plínio deixa claro que considera que um eventual novo governo encabeçado pelo PSDB “seria ruim também”. Ele avalia que a gestão de Dilma Rousseff, eleita no dia 31, é “um horror”, e que ocorrerá uma nova forma de mensalão. “No (eventual governo) Serra, temos a repressão, em Lula a cooptação”, qualificou. “Acho mais favorável (para a esquerda) a repressão, que aliás já enfrentei. Mas é melhor porque a repressão unifica, as pessoas se unem, vão para as ruas”, especulou.

O candidato Plínio avalia que seu partido sai fortalecido do pleito, por ter aumentado as bancadas federal e estaduais, conquistando a “hegemonia da esquerda”. “O PSOL saiu unido, um partido de opinião pública. Ninguém duvida que o partido que faz oposição real é o PSOL, lugar que o PT já ocupou e que deixou vago”, analisou.

O melhor momento da campanha eleitoral, na avaliação do promotor de Justiça aposentado, foram os debates. “Furei uma barreira de omissão, porque a estratégia da direita não se dirigia contra mim, mas contra o que eu falava, porque a burguesia, apesar da hegemonia em que se encontra, tem medo do povo. É um traço sociológico conhecido”, criticou.

Ainda na entrevista, Plínio defende uma reforma tributária com taxação sobre grandes fortunas para garantir recursos suficientes para arcar com um salário mínimo de R$ 2 mil. O valor foi defendido na campanha eleitoral a partir do valor calculado mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) como necessário para assegurar o preceito constitucional que estabelece o piso salarial nacional.

Plínio defendeu ainda o não pagamento da dívida pública. “Só aí, seria R$ 280 bilhões para isso (bancar o aumento do salário mínimo)”. Ele promete nem passar perto do Palácio do Planalto, quando questionado se aceitaria algum cargo no governo Dilma. E ainda afirmou que o PSOL representa uma opção contra o regime capitalista, cuja “lógica interna é perversa, excludente por natureza e perpetuadora da desigualdade”.

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