Archive for the ‘SIONISMO’ Category

 

O Vaticano, no seu empenho em eliminar o comunismo, fez alianças durante a Segunda Guerra Mundial com diversas sociedades secretas, grupos fascistas e agências de espionagem, e desde aquela época mantém esses contatos.

O vínculo com os fascistas

Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras, depois se internou num manicômio, “fingindo-se de louco”, antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas. Desde então, firmou sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco. “O Opus Dei praticamente se fundiu ao Estado espanhol, ao qual forneceu inúmeros ministros e dirigentes de órgãos governamentais”, afirma Henrique Magalhães.

Há também fortes indícios de que Jose María Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as idéias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis “são belos e inteligentes” e devem olhar aos demais como “inferiores e animais”. Na máxima 643, ensina que a meta “é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial”. Na máxima 311, ele escancara: “A guerra tem uma finalidade sobrenatural… Mas temos, ao final, de amá-la, como o religioso deve amar suas disciplinas”. Em 1992, um ex-membro do Opus Dei revelou o que este havia lhe dito: “Hitler foi maltratado pela opinião pública. Jamais teria matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões”. Outra numerária, Diane DiNicola, garantiu: “Escrivá, com toda certeza, era fascista”.

O poder no Vaticano

Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas o Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo II. Para o teólogo espanhol Juan Acosta, “a relação entre Karol Wojtyla e o Opus Dei atingiu o seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível acessão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio ativamente no processo de reestruturação da Igreja Católica sob o protagonismo do papa e a orientação do cardeal alemão Ratzinger”. Em 1982, a seita foi declarada “prelazia pessoal” – a única existente até hoje -, o que no Direito Canônico significa que ela só presta contas ao papa, que só obedece ao prelado (cargo vitalício hoje ocupado por dom Javier Echevarría) e que seus adeptos não se submetem aos bispos e dioceses, gozando de total autonomia.

Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma “peregrinação” pela América Latina. Ele sempre considerou o continente fundamental para sua seita e para os negócios espanhóis. Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras. No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica.

Em depoimento à Justiça Militar, em 1970, quando tinha 22 anos, Dilma afirmou ter sido ameaçada de novas torturas por dois militares chefiados por Lopes. Ao perguntar-lhes se estavam autorizados pelo Poder Judiciário, recebeu a seguinte resposta: “Você vai ver o que é o juiz lá na Operação Bandeirante” (um dos centros de tortura da ditadura militar).

Maurício Lopes Lima foi apontado pelo Ministério Público Federal (MPF), em ação civil pública ajuizada em novembro de 2010, como um dos responsáveis pela morte ou desaparecimento de seis pessoas e pela tortura de outras 20 nos anos de 1969 e 1970. Segundo o MPF, o militar foi “chefe de equipe de busca e orientador de interrogatórios” da Operação Bandeirante (Oban) e do DOI/Codi.

Em entrevista em 2003 ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, Dilma foi perguntada de quem apanhava quando estava presa e respondeu: “O capitão Maurício sempre aparecia”.

Dilma, que era uma das líderes da VAR-Palmares, foi presa em 16 de janeiro de 1970. Ela foi brutalmente torturada e seviciada, submetida a choques e pau-de-arara durante 22 dias. No depoimento à Justiça Militar, em Juiz de Fora, em 18 de maio, cinco meses depois de ser presa, Dilma deu detalhes da tortura no Dops. “Repete-se que foi torturada física, psíquica e moralmente; que isso de seu durante 22 dias após o dia 16 de janeiro (dia em que foi presa)”, diz trecho do depoimento.

Anúncios

Por Marcos de Vasconcellos e Elton Bezerra

O maior equívoco do Supremo Tribunal Federal no julgamento da Ação Penal 470, o processo do mensalão, foi o entendimento firmado na aplicação da Lei de Lavagem de Dinheiro. A avaliação é do advogado Fabio Tofic Simantob, especialista em Direito Penal.

Sócio-fundador do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) e formado em Direito pela PUC-SP, Tofic, de 33 anos, diz que o Supremo antecipou o cometimento da lavagem para o momento da consumação do crime. “Lavagem é o que se faz com o dinheiro recebido, e não a forma como o dinheiro é recebido”, defende.

Em entrevista à revista Consultor Jurídico, o especialista em Direito Penal também falou sobre outras lições que podem ser tiradas da AP 470. Uma delas refere-se à teoria do domínio do fato. Segundo Tofic, a doutrina surgiu na Alemanha para evitar que o mandante recebesse pena menor do que o autor do crime. Como no Brasil essa brecha não existe, ele diz que por aqui ela passou a ser usada como justificativa para transformar responsabilidade subjetiva em responsabilidade objetiva. “A teoria do domínio do fato foi usada como coringa para falta de prova”, afirma.

Tofic teceu comentários sobre o exercício da advocacia e os desafios que os advogados enfrentam no dia a dia. Segundo ele, o maior acesso da população à Justiça tem provocado nas cortes superiores um endurecimento contra garantias conquistadas. “É um pais que está dizendo o Direito de acordo com o volume de trabalho, e não de acordo com a Constituição”.

Um dos exemplos do problema que está se criando é a restrição ao Habeas Corpus substitutivo de Recurso Ordinário no STF. “Melhor seria que se proibisse qualquer tipo de Habeas Corpus, aí ficaria claro o absurdo que é fazer uma restrição dessas”, afirma.

Leia a entrevista:

ConJur — O que pode ser visto como resultado do julgamento do processo do mensalão?
Fábio Tofic — Uma questão importante é a nova Lei de Lavagem. Apesar de, no tipo penal, ela ter mudado muito pouco, o julgamento do mensalão foi um teste. O tipo é exatamente igual: ocultar ou dissimular a origem, disposição, propriedade ou movimentação financeira oriundos de infração penal. Antes era só oriundos de crime. Já a infração penal comporta também a contravenção penal, e isso pode gerar algumas discussões sobre a proporcionalidade da lei. Faz sentido punir com mais rigor a lavagem do que o próprio crime principal? Isso pode acontecer no caso da contravenção, por exemplo, ou em um crime de menor potencial ofensivo.

ConJur — E qual a sua opinião sobre isso?
Fábio Tofic — É um absurdo e um erro da lei. É como se a lavagem tivesse fim em si mesmo. Primeiro porque a lavagem de dinheiro é uma das coisas mais mal compreendidas do novo Direito Penal.

ConJur — E o que é lavagem de dinheiro?
Fábio Tofic Existe uma definição fenomenológica, razoavelmente aceita por todos, que diz que é o processo destinado a conferir aparência de licitude a bens provenientes de crime ou infração penal, como diz agora a lei. Mas como defino isso na prática? Foi a grande dificuldade do Supremo no julgamento do mensalão e levou a inúmeros equívocos. Aí vem a segunda pergunta: o tipo que está na lei corresponde a essa descrição fenomenológica? Não. O tipo diz: “Ocultar ou dissimular origem”. Então é uma questão que se coloca: o tipo penal dá uma definição diversa da sociológica? É uma incógnita. Ninguém consegue entender o que esse tipo significa. No fundo está todo mundo, o Supremo e a doutrina, entrando em um debate extremamente amplo e complexo, porque, no fundo, o erro é da lei. Ninguém entende esse tipo penal.

ConJur — A lei foi mal redigida?
Fábio Tofic Ela é fruto da Convenção de Viena [1988], que foi quem primeiro definiu o que seria lavagem e, na época, só se falava em tráfico. A Convenção de Viena, que eles chamavam de lavagem da primeira geração, punia só os crimes de lavagem derivados do crime de tráfico. Existem outros países com tipos parecidos.

ConJur — O Brasil fez bem em incorporá-la?
Fábio Tofic Não é porque veio da Convenção ou porque outros países fazem igual que a gente deve fazer. O que quer dizer ocultar ou dissimular? A rigor, o verbo ocultar já é uma conduta ativa comissiva. Ocultar não é só sonegar das autoridades a existência. Ocultar é incrementar de alguma forma com atos efetivos que esconda de uma forma mais sofisticada. É um plus. Não é apenas uma omissão. Não é esconder em uma gaveta. É criar algo mais sofisticado.

ConJur — Com vários critérios, a lei permite à acusação escolher o que lhe convir?
Fábio Tofic Exatamente. Se eu quiser interpretar essa lei de forma que o crime corresponda ao fenômeno social da lavagem, é possível dizer: “Na verdade ocultar a origem é enfiar o bem em um processo em que ele sai com a aparência de licitude”. Até teria como interpretar a norma conforme o fenômeno social, mas, como o tipo é amplo, quem interpreta assim é porque quer interpretar dessa maneira. Se eu não quiser interpretar assim eu não preciso, porque não aplicamos o tipo fenomenológico, nós aplicamos o tipo penal, e o juiz vai trabalhar com o tipo penal.

ConJur — É a verdade dos autos…
Fábio Tofic É a verdade dos autos. Não importa o que o sociólogo fala sobre o homicídio, o que me importa é a descrição da lei. A mesma coisa a lavagem. O tipo se distanciou da sua definição fenomenológica. O crime da lavagem de dinheiro não é mais a conduta de lavar dinheiro, ele é aquilo o que o legislador chama de lavagem de dinheiro. E aí a gente entra na questão: o que o legislador chama de lavagem de dinheiro é relevante do ponto de vista axiológico criminal? É punível do ponto de vista de ofensa a bens jurídicos? Se ele se distanciou do fenômeno social, no que se apegou então? De onde ele extraiu essa abrangência a ponto de legitimar a tese, por exemplo, de que o recebimento de honorários por um serviço pode configurar lavagem? No fundo, qual é o valor? Qual o bem jurídico? Qual a finalidade? O que se quer proteger com a lavagem? Isso se perdeu.

ConJur — Que outras implicações ela traz?
Fábio Tofic O problema é o que mais é punido. Receber dinheiro sem praticar fraude nenhuma ou dispor do dinheiro, por exemplo. Se o criminoso tiver esse dinheiro em uma conta bancária, é lavagem? “Ah, claro que é. Porque está na fase da colocação.” É o que hoje todo mundo tem dito.

ConJur — No caso do mensalão houve até a discussão do caso em que o deputado mandava a esposa pegar o dinheiro no banco. Pelo julgamento, isso seria uma prova de que estaria tentando ocultar.
Fábio Tofic O que para mim é um absurdo. Havia uma discussão, inclusive no Supremo, sobre o momento em que a lavagem acontecia, se ela podia se confundir com o exaurimento do crime. É a tal história: o cara recebeu dinheiro do tráfico ou da corrupção e usa esse dinheiro para comprar carros ou outras coisas. Em um julgado do Supremo, o ministro Sepúlveda Pertence disse: “Isso é lavagem.” Mas tem um texto do Celso Vilardi analisando esse julgado e dizendo: “Não é lavagem. Porque gastar o dinheiro do crime está na linha de previsibilidade disso.”

ConJur — E agora, no Supremo?
Fábio Tofic A discussão agora no julgamento do mensalão é pior, porque eles anteciparam o cometimento da lavagem para o momento da consumação do crime. Independente de consumação ou não, lavagem é o que fazer com o dinheiro recebido, e não a forma como o dinheiro é recebido. E não é só no caso do João Paulo Cunha. Numa das sessões, a ministra Rosa Weber, que é assessorada pelo Sergio Moro (especialista em lavagem de dinheiro e considerado um juiz rigoroso), divergiu. Ela falou: “Gente, não podemos confundir a lavagem com o cometimento do crime. Os estratagemas que o cara usa para receber a propina não têm nada a ver com a lavagem”. Esse é o grande equivoco do julgamento.

ConJur — E sobre a questão do crime antecedente?
Fábio Tofic Daqui a pouco vão falar que é lavagem ocultar ou dissimular produtos que não se conhece a procedência. É mais ou menos como a ideia do ministro Gilson Dipp de criminalizar o enriquecimento ilícito. Quando o cara não consegue justificar de onde vem o dinheiro, ele comete o crime. É como se dissesse “eu quero te acusar de corrupção, mas não posso, porque existe uma dúvida e prevalece a presunção de inocência. Só que, como você também não me prova o contrário, eu vou punir o mero estado anterior, que é a manutenção do dinheiro, ou seja, você ter o dinheiro”.

ConJur — Há uma inversão do ônus da prova?
Fábio Tofic Exatamente. É uma forma de burlar a presunção de inocência. Você não consegue, pela dúvida, punir por um crime, mas pune por outro.

ConJur — O que pode ser extraído da maneira como o STF aplicou a teoria do domínio do fato?
Fábio Tofic A teoria do domínio do fato nasceu porque na Alemanha havia penas diferentes para o autor e para o partícipe. Então o cúmplice ou até o mandante tinha pena menor do que a do autor. Aqui no Brasil, o Código Penal, no artigo 29, não distingue a pena do autor e do partícipe. Elas são iguais. A teoria do domínio do fato foi criada para igualar o mandante ao autor e evitar que se aplicasse ao mandante uma pena menor. Entender isso é de fundamental importância. A teoria surgiu principalmente por conta dos julgamentos dos crimes do nacional socialismo [nazismo]. Senão, pelo simples fato de o cara ter sido o mentor, ele recebia uma pena mais leve do que a do outro, porque o Código alemão assim dispunha.

ConJur — Não é por uma questão de provas?
Fábio Tofic Ela não criou a possibilidade de condenar alguém por algo que não fez, de que não participou. Era uma questão de tentar equiparar juridicamente pessoas que estão em situações injustas. Porque a participação do mentor é muito mais relevante do que a do cara que puxou o gatilho. O cara que atirou poderia ser substituído por outros 10 mil.

ConJur — Ele foi um mero instrumento?
Fábio Tofic Foi um mero instrumento. Mas aqui no Brasil não existe essa distinção de pena, que é a mesma para o autor, para o mandante e para o partícipe. O que importa saber aqui é se foi mandante, se foi partícipe, se ordenou, se praticou. Há um pouco de fetiche demais, para enfeitar. Quem surgiu com isso [a teoria do domínio do fato] no processo foi o Procurador Regional da República. É para mostrar vanguarda internacional na tese que está sustentando, que, no fundo, é uma questão de prova. O cara participou? Ordenou? Deu a ordem? Sabia e não fez nada para impedir? É isso.

ConJur — Então criaram essa discussão por uma coisa desnecessária?
Fábio Tofic É. Tem gente que passou a adotar a teoria do domínio do fato para justificar a responsabilidade objetiva. Essa é a questão. Não é que pela teoria do domínio do fato não precisa provar a participação do mandante. Nunca ninguém disse isso, muito menos Claus Roxin. A teoria do domínio do fato permite que se equipare o mandante ao autor do crime. O que no Brasil não faz diferença nenhuma.

ConJur — Se aqui no Brasil eles já estavam equiparados, ao aplicar essa teoria, o mandante acaba sendo mais apenado que o executor?
Fábio Tofic Não. Porque a teoria do domínio do fato foi usada como se fosse um coringa para falta de prova.

ConJur — Isso ocorreu no processo do mensalão?
Fábio Tofic Nas alegações finais da Procuradoria-Geral da República. Não sei se tem prova ou não tem, porque não conheço o processo. Mas o que deu a entender foi que, pela teoria do domínio do fato, o José Dirceu tem de ser [condenado], porque ele tinha o domínio do fato, ele era o homem mais poderoso do governo. Isso não é suficiente. Tem de ter prova que ele participou do fato.

ConJur — Ouviu-se muito a seguinte frase: “Não é possível que fulano não sabia que acontecia tais e tais coisas”.
Fábio Tofic Se isso é um argumento válido, aí eu estou com as defesas: era caso de quebra de individualização da Ação Penal, porque deixaram de denunciar um dos réus. Se fosse por esse raciocínio você presume que até o mais alto degrau da hierarquia tinha de saber. Enfim, é presumir.

ConJur — O Márcio Thomas Bastos disse que aqui no Brasil há aqueles que a população julga como os indignos de defesa. O senhor concorda com isso?
Fábio Tofic Concordo 100% com ele. Ele sentiu isso na pele. O que não pode acontecer, e é essa a moda, é o advogado se render ao politicamente correto. É o que está acontecendo, por exemplo, na Lei de Lavagem. É o advogado achar que tem algum problema ele receber um dinheiro sem saber de onde vem. O advogado que não tem consciência de que ele pode receber honorários desde que pague impostos tem algo errado em sua formação.

ConJur — Mas há também as causas que contam com apoio da população.
Fábio Tofic Se for uma causa simpática à população, ninguém vai questionar da onde vêm os honorários. Esse questionamento sempre acontece quando o acusado é odiado e tem dinheiro. Por que ninguém pergunta quanto ele pagou para o arquiteto fazer a casa em que ele mora? Por que ninguém pergunta quanto o cirurgião cobrou para fazer a cirurgia do cara? Por que ninguém pergunta como ele paga a escola dos filhos dele? O problema é receber o dinheiro ou o problema é quem está recebendo?

ConJur — Há confusão entre Justiça e vingança?
Fábio Tofic Há algumas confusões. A primeira é de que o advogado é cúmplice do cliente. E o Márcio foi vitima disso. O advogado não é visto como um ser honesto, decente, com princípios, um homem íntegro e que aceita a incumbência cristã de ajudar o próximo em uma situação difícil. Já vi gente em programa de televisão, de jornal, já vi professora de Direito da USP dizendo que é um absurdo o advogado receber de criminosos. Na eleição da OAB-SP, usaram contra o Alberto Toron [candidato a presidente da entidade] o fato de ele ser advogado do João Paulo Cunha. Se isso depõe contra o candidato, estamos numa crise sem fim da advocacia. Perdemos completamente a consciência do que somos, do que temos a fazer.

ConJur — O que podemos esperar do novo Código Penal?
Fábio Tofic Um projeto de Código Penal que a advocacia não gostou, o Ministério Público não gostou e a magistratura não gostou não pode ser bom.

ConJur — Mas isso não provaria o seu equilíbrio, já que não agradou ninguém?
Fábio Tofic Não. Se fosse num ponto especifico, tudo bem. Por exemplo, a definição de lavagem a advocacia achou rigorosa demais, já o MP achou leniente demais. Aí você pode falar que simboliza um equilíbrio. O problema é que não são em questões pontuais. Cada um tem sua crítica. Essa coisa de mudança de lei eu nunca vejo qual é a utilidade. Nunca vi uma lei que entrou em vigor, na área penal pelo menos, que fez as coisas melhorarem. Principalmente na área do Direito material. Você já tinha ouvido falar em lavagem de dinheiro antes de 1998? Não. A lei veio e apareceu o crime. Isso está resolvendo o problema da lavagem de dinheiro?

ConJur — O que poderia ser aplicado no lugar da Lei de Lavagem?
Fabio Tóffic — O crime de favorecimento real está no Código desde 1940, e tinha uma pena razoável. Ele não permitia a condenação do sujeito por esse crime, se ele já era o autor do crime anterior. Ele tinha toda uma sistemática ótima para esse crime. Para que inventaram a lavagem de dinheiro? O que melhorou? O que resolveu? Algumas coisas obviamente precisam ser mudadas, porque são aberrações, e aberrações que geram consequências graves.

ConJur — Poderia citá-las?
Fábio Tofic O artigo 273 do Código Penal. Esse crime é punido com uma pena mínima com dez anos de prisão. Nesse artigo, comprar um equipamento ou qualquer coisa sem autorização da Anvisa é o mesmo crime da falsificação de medicamentos. É um crime que ganhou uma ampliação tão grande que tem gente que, por uma questão ridícula, está condenada a dez anos de prisão. É uma excrescência, precisa mudar e é grave. Isso coloca gente de bem na cadeia para cumprir pena de homicídio qualificado.

ConJur — Há quem defenda que o Código Penal precisa de atualização.
Fabio Tófic — Acho ridículo. Nosso Código Penal é muito bom. A parte geral é muito boa. É claro que há várias coisas que podem ser melhoradas, mas já se criou uma doutrina, uma jurisprudência em cima do Código. A reforma de 1984 trouxe inúmeras atualizações importantes. Não entendo por que mudar.

ConJur — E os crimes cibernéticos?
Fábio Tofic Talvez na informática um ou dois crimes precisem passar a existir. Não existe no Código o dano digital. Entrar no sistema de alguém e destruí-lo é gravíssimo. É como, há 100 anos, tocar fogo e incendiar a loja de uma pessoa. Agora, fraude via internet é fraude, é furto, é estelionato. A jurisprudência arrumou uma forma de acomodar isso. Só muda o meio. O crime é o mesmo.

ConJur — Recentemente foi aprovada uma tese na USP defendendo que o negacionismo não poderia ser criminalizado. A tese fala de negacionismo histórico, sem citar o Holocausto. Qual sua opinião sobre isso?
Fábio Tofic Quando se fala negacionismo, está muito ligado ao Holocausto. Ao revisionismo. O cara que nega o Holocausto é um estúpido. Mas se formos prender todo mundo que a gente acha estúpido, vai sobrar meia dúzia. Estupidez é estupidez, não é crime.

ConJur — É uma idéia boa ou ruim tirar do Ministério Público o poder de investigação, como prevê a Proposta de Emenda Constitucional 37?
Fábio Tofic Não sei se sou ovelha negra ou se não entendi algum capitulo da história, mas nunca fui contra o poder de investigação do Ministério Público.

ConJur — Por quê?
Fábio Tofic Prefiro levar meu cliente ao Ministério Público do que numa delegacia de polícia. O problema é que temos um órgão incumbido da investigação penal, que é a polícia, e um outro órgão que também pode investigar. Na verdade, “pode” significa “faz quando quer”. Se o Ministério Público souber de um crime e não quiser investigar ele não responde por prevaricação, porque é uma opção, não um dever. Isso coloca o MP em uma posição confortável demais para uma instituição. Cria-se o arbítrio. Hoje não, porque temos um Ministério Público muito sério. Respeito muito seus membros. Temos de pensar na instituição, e nos homens que um dia podem estar lá daqui 20 ou 30 anos.

ConJur — O que deve ser feito?
Fábio Tofic É razoável o que o Supremo começou a definir há alguns meses: tentar definir em que casos o Ministério Público pode e não pode investigar. É evidente que em um caso de tortura ou corrupção policial, não vai ter ninguém para apurar se o MP não puder investigar.

ConJur — Isso implicaria em que tipo de mudanças nos inquéritos e processos?
Fábio Tofic No momento em que você permite o MP investigar, algumas coisas precisam ser observadas. Por exemplo, eu tenho direito, como advogado, de arrolar o promotor que capitaneou as investigações como testemunha do processo. Assim como o promotor, eu normalmente intimo o delegado do flagrante. Se o promotor investiga, oferece a denuncia e atua no processo, os papeis dele ficam confusos,  como testemunha, como pessoa que atuou na fase pré-processual e como a parte contrária. Aí é complicado.

ConJur — O que o MP deveria fazer nesse caso?
Fábio Tofic O Ministério Público precisa se organizar para definir melhor os papeis. Já trabalhei em caso que o MP investigou e deu depoimento pessoal: “O que essa testemunha falou é verdade mesmo, porque fui eu que colhi o depoimento dela”. Aí é importante que se dê também a chance de o advogado colher o depoimento no seu escritório, para ter paridade de armas. É muito comum nos Estados Unidos. Lá audiência é feita nos escritórios.

ConJur — Mas com a presença do juiz, não?
Fábio Tofic — Não necessariamente. Vai um oficial com um cartorário, para registrar.

ConJur — Isso poderia ser feito aqui?
Fábio Tofic Deveria ser feito. No momento em que você dá o poder de o Ministério Público investigar, tem de dar o poder da defesa. É a mesma coisa no casão de cooperação jurídica internacional. O Estado vai lá no além-mar, busca provas, trás para cá e processa o seu cliente. Aí, se você quiser produzir uma contraprova arrolando alguém lá do além-mar, é preciso pagar uma rogatória que custa R$ 50 mil. Se o acusador tem isso financiado pelo Estado, a defesa tem de ter também.

ConJur — Isso é cerceamento de defesa?
Fábio Tofic Total. Estamos caminhando cada vez mais para um Direito Processual Penal que valida qualquer coisa que o Estado acusador queira fazer e coloca todos os obstáculos possíveis ao exercício da defesa, principalmente por conta dessa questão da cooperação internacional. Sempre com argumentos de ordem administrativa. Como vou me defender de uma acusação cuja prova foi colhida na Holanda se eu não puder ir colhê-la na Holanda?

ConJur — Mas pagar por isso não oneraria a sociedade para favorecer um particular?
Fábio Tofic Você vai me negar o direito de ouvir o cara que prendeu o meu cliente na fase policial? É a contraprova.

ConJur — Hoje pode-se colher depoimentos no escritório?
Fábio Tofic Não. O que dá pra fazer, e se assemelha um pouco a isso, é a declaração pública no cartório. Você leva uma testemunha no cartório, pede para ela fazer uma declaração, e junta ao processo. Isso tem força de fé pública, quer dizer, prova que aquela pessoa realmente prestou esse depoimento.

ConJur — E isso hoje em dia é usado normalmente?
Fábio Tofic Razoavelmente comum. Quando a testemunha está hospitalizada, leva-se o tabelião ao local e colhe-se o depoimento dela.

ConJur — Qual sua opinião sobre essa mudança implantada pelo STF quanto a Habeas Corpus?
Fábio Tofic Com a redemocratização de 1988, houve uma constitucionalização do Direito Penal e do Direito Processual Penal. Surgiram inúmeras garantias. Evidentemente as cortes superiores passaram a exercer um papel muito importante de moldar a Justiça aos novos tempos. Isso passou a ser feito na maioria das vezes por réus com advogados contratados e o Superior Tribunal de Justiça e o STF acabaram se tornando os grandes porta-vozes de um Direito Penal mais garantista. Isso é inegável. Eles podem ter passado por momentos mais duros, menos duros, mas, sem dúvida nenhuma, eles foram responsáveis por criar uma jurisprudência garantista, que impede abusos.

ConJur — E atualmente?
Fábio Tofic De alguns anos para cá, duas coisas importantes aconteceram. A primeira foi a ascensão da classe C, D e E, e, junto a isso, a possibilidade de contratar um advogado. Ao lado disso criação da Defensoria Pública do Estado de São Paulo [2006], que responde por uma parcela enorme de Habeas Corpus nos tribunais.

ConJur — E como as cortes superiores reagiram?
Fábio Tofic O STJ passou nos últimos dois anos por um movimento de endurecimento absurdo. Teses que antes eram aceitas hoje não são aceitas. Existe uma argumentação jurídica, mas a razão é de ordem administrativa. É aquele pensamento: “Eu vou negar, porque, se eu der, vai chover Habeas Corpus.”

ConJur — Há exemplos desse endurecimento?
Fábio Tofic Em São Paulo, o defensor público precisa ser intimado pessoalmente para o julgamento do recurso no Tribunal de Justiça. Não basta sair uma intimação na Imprensa Oficial, tem que ir um oficial e intimá-lo pessoalmente. A jurisprudência do STJ até dois anos atrás era praticamente pacifica: se ficou constatado que em algum momento lá atrás houve um julgamento no tribunal e o defensor dativo ou o defensor público não foi intimado pessoalmente para o julgamento, anula-se todo o processo.

ConJur — E agora?
Fábio Tofic De uns tempos para cá, no STJ, há casos flexibilizando esse etendimento, dizendo: “Ele não reclamou logo em seguida. Tinha que ter sido feito assim”. As questões de Processo Penal e Direito Penal já não são consideradas pouco graves ou muito graves pelo caso em si, mas pela repercussão que ele terá no movimento da máquina judiciária, caso seja deferido ou não. Isso é muito grave. É um pais que está dizendo o Direito de acordo com o volume de trabalho, e não de acordo com a Constituição.

ConJur — É o caso da restrição a Habeas Corpus substitutivo de Recurso Ordinário?
Fábio Tofic  Foi o tiro de misericórdia, quando o Supremo disse que não cabe mais Habeas Corpus substitutivos de Recurso Ordinário. Eu entrei com HC e perdi. Assim que saiu acórdão, eu junto o acórdão no novo HC, amanhã eu estou no STJ, despachando a liminar com o ministro. O que significa dizer que não existe mais esse Habeas Corpus substitutivo de Recurso Ordinário? Significa que você transformou o HC em um recurso. Já temos um monte de recurso, não precisa HC. Agora, primeiro, eu tenho que esperar a publicação do acórdão, coisa que no Tribunal de Justiça de São Paulo não coincide com sua disponibilização. O acórdão é disponibilizado hoje, mas pode ser publicado só daqui a dois meses. Vou entrar nos autos com o recurso, esse recurso vai ser processado e remetido a critério da burocracia do tribunal para o STJ. Eu não poderei mais chegar no dia seguinte no STJ.

ConJur — No que isso pode implicar?
Fábio Tofic Se o sujeito estiver condenado à forca e a execução estiver marcada, você não pode entrar com o HC? Podem dizer que em alguns casos vão admitir, mas é ai que mora o maior problema. No próprio julgamento onde a 1ª Turma do STF entendeu que não cabe mais Habeas Corpus substitutivo, ela entendeu dar de oficio aquela ordem de HC. No próprio julgamento onde se decidiu que não cabe mais, coube. E aí eles estão com entendimento de que se for impetrado antes da mudança de entendimento, eles vão conhecer e julgar. E mesmo assim, em alguns casos excepcionais cabe. Como no caso da Súmula 691.

ConJur — O que é essa súmula?
Fábio Tofic Ela diz que não cabe Habeas Corpus contra decisão monocrática de liminar proferida pelo ministro do tribunal inferior. Tem uma súmula que diz que não cabe HC nessa situação, mas tem uma jurisprudência enorme, abundante, que diz que em casos excepcionais é possível. Havia muitos casos em que se entrava com HC no TJ aqui e perdia a liminar. Antes de julgar o HC, você já entrava com outro no STJ, outra liminar. Perdia a liminar, antes de julgar o HC do STJ, você já ia para o Supremo. Você chegava no STF sem ter nenhum HC julgado, só com liminares. E, dependendo do caso, te davam liminares lá no Supremo, porque é situação excepcional. Só que não dá para identificar um critério na jurisprudência para dizer quando cabe ou quando não cabe a flexibilização dessa súmula. É quando o juiz entende que o caso é absurdo. O efeito mais deletério dessa sistemática é criar uma Justiça obscura.

ConJur — O que isso pode implicar para o jurisdicionado?
Fábio Tofic Em um país com a tradição de favorecimento que a gente tem aqui, não é a coisa mais desejada ter um instrumento cuja concessão ou denegação depende da decisão daquele juiz naquele caso. Não tem mais parâmetro. Isso é o mais grave de tudo.

ConJur — Há um recurso extraordinário com Repercussão Geral Supremo que discute considerar ou não os processos criminais em andamento como maus antecedentes no cálculo da pena base. E tem uma súmula no STJ, a 444, que veda a utilização de inquéritos policiais e ações penais em curso para agravar a pena base. Como o senhor vê essa discussão?
Fabio Tofic — É um absurdo agravar a pena base com base em inquérito ou processo em andamento. Você está considerando de alguma forma o sujeito culpado por aquele crime que ainda não foi julgado, e será julgado por outro juiz. Não tem nada que fira mais a presunção de inocência, e o princípio do juiz natural da causa. O sujeito não julgou o caso, ele não sabe o que tem no bojo do processo, ele não acompanhou as audiências, ele não ouviu os argumentos. Como ele pode considerar que aquele fato é capaz de levar alguém por mais três meses para a prisão?

 

Marcos de Vasconcellos é editor da revista Consultor Jurídico.

Elton Bezerra é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 16 de dezembro de 2012

via ronaldo – livreiro

Mauro Santayana

(JB) – Os Estados Unidos advertiram o governo de Israel contra seu projeto de ataque preventivo às instalações nucleares do Irã, conforme noticiou The Guardian, em sua edição de 4ª feira. O aviso não foi das autoridades civis de Washington, e, sim, dos comandantes das tropas militares norte-americanas em operação na região do Golfo – o que, ao contrário do que se pode pensar, é ainda mais sério. O argumento dos militares é o de que esse ataque, além de não produzir os efeitos desejados – porque o Irã teria como retomar o seu programa nuclear – traria dificuldades políticas graves aos aliados ocidentais na região, sobretudo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes – de cujo abastecimento direto depende a 5ª. Frota e as bases das forças terrestres e aéreas que ali operam.

Embora as dinastias árabes pró-ocidentais temam o poderio militar do Irã, temem mais a insurreição de seus súditos, no caso de que se façam cúmplices de novo ataque a outro país muçulmano. Nunca é demais lembrar que os Estados Unidos e a Europa dependem também do petróleo que passa pelo golfo e atravessa o Canal de Suez, controlado pelo Egito.

Há, nos Estados Unidos – e, entre eles, alguns estrategistas do Pentágono – os que pensam ser hora de ver em Israel um país como os outros, sem a aura mitológica que o envolve, pelo fato de servir como lar a um povo milenarmente perseguido e trucidado pela brutalidade do nacional-socialismo. Uma coisa é o povo – e todos os povos têm, em sua história, tempos de sacrifício e de heroísmo, embora poucos com tanta intensidade quanto o judeu e, hoje, o palestino – e outra o Estado, com as elites e os interesses que o controlam.

Nenhum outro governo – nem mesmo o dos Estados Unidos – são tão dominados pelos seus militares quanto o de Israel. Eminente pensador judeu resumiu o problema com a frase forte: todos os estados têm um exército; em Israel é o exército que tem um Estado.

O Pentágono acredita que uma guerra total contra o Irã seria apoiada pelos seus aliados da região, mas os observadores europeus mais sensatos não compartilham o mesmo otimismo. A ofensiva diplomática de Israel na Europa, em busca de apoio para – em seguida às eleições norte-americanas – uma ação imediata contra Teerã, não tem surtido efeito. Londres avisou que não só é contrária a qualquer ação armada, mas, também, se nega a permitir o uso das ilhas de Diego Garcia e Ascenção (cedidas pela Inglaterra para as bases ianques no Oceano Índico), como plataforma para qualquer hostilidade contra o país muçulmano.

Negativa da mesma natureza foi feita pela França, que, conforme disse François Hollande a Netanyahu, não participará, nem apoiará, qualquer iniciativa nesse sentido. É possível, embora não muito provável, que Israel conte com Ângela Merkel. Israel tem esperança na vitória de Romney, e a comunidade israelita dos Estados Unidos se encontra dividida. Os banqueiros e grandes industriais de armamento, de origem judaica, trabalham com afã para a derrota de Obama. E há o temor de que, no caso da vitória republicana, os israelitas venham a aproveitar o esvaziamento do poder democrata para o ataque planejado.

Além disso, Netanyahu não tem o apoio unânime entre os militares de seu país para esse projeto. Amy Ayalon, antigo comandante da Marinha, e dos serviços internos de segurança, o Shin Bet, disse que Israel não pode negar a nova realidade nos países islâmicos: “Nós vivemos – avisa – em novo Meio Oriente, onde as ruas se fortalecem e os governantes se debilitam”. E vai ao problema fundamental: se Israel quer a ajuda dos governos pragmáticos da região, terá que encontrar uma saída para a questão palestina. É esta também a opinião, embora não manifestada com clareza, do governo de Obama, de altos chefes militares americanos, e dos círculos mais sensatos da comunidade judaica naquele país.

O fato é que os Estados Unidos se encontram em uma situação complicada. Eles não têm condições militares objetivas para entrar em nova guerra na região, sem resolver antes o problema do Iraque e do Afeganistão. Seus pensadores mais lúcidos sabem que invadir o Irã poderá significar a Terceira Guerra Mundial, com o envolvimento do Paquistão no conflito e, em movimento posterior, da China e da Rússia. Washington, na defesa de seus interesses geopolíticos, deu autonomia demasiada a Israel, armando seu exército e o ajudando a desenvolver armas atômicas. Já não conseguem controlar Tel-Avive.

Estarão dispostos, mesmo com o insensato Romney, a partir para uma terceira guerra mundial? No tabuleiro de xadrez, se trata de “xeque ao Rei”; na mesa de bilhar, de sinuca de bico.

 

O Supremo Tribunal e o parlamento israelenses sufragaram, na semana passada, duas leis cujo objetivo é consolidar o Estado racista antidemocrático. Comunistas e democratas estão na primeira linha da luta.

 

 protesto em israelCentenas de pessoas juntaram-se no centro da capital para protestar

A norma que proíbe o reagrupamento familiar dos palestinos casados com árabes israelenses foi ratificada pelo Supremo Tribunal, quarta-feira (11). O órgão judicial rejeitou um apelo subscrito por organizações de defesa dos direitos humanos para que a instância impedisse a renovação da referida lei, aprovada em 2003.

“Israel define-se como um Estado judaico e democrático. Pela primeira vez o Supremo Tribunal privilegiou o caráter judaico em detrimento do caráter democrático”, considerou o comentarista jurídico da rádio pública, Moshé Negbi, citado pela Lusa.

No mesmo sentido, uma das subscritoras da proposta, a deputada Zeava Galon, qualificou o texto como “discriminatório” que “diz aos árabes israelenses que querem casar com um ou uma palestina, que apenas têm de partir”.

“O Supremo Tribunal falhou no dever de defesa do princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei e de luta contra o racismo, cedeu às pressões da maioria de direita no parlamento”, acrescentou.

Em Israel, 20 por cento da população é de origem árabe, por isso, para a Associação Judicial Árabe-Israelita a lei “priva os cidadãos de uma vida familiar em Israel apenas com base na etnia ou nacionalidade do cônjuge”.

“O Supremo Tribunal aprovou uma lei sem equivalente em qualquer Estado democrático no mundo”, concluiu a organização.

O próprio ministro do Interior israelense admitiu o caráter abertamente racista da norma, quando, ao reagir à decisão do Supremo, disse que para além da “segurança” estava em causa a questão demográfica de “não pôr em risco a maioria judaica no Estado de Israel”.

Comunistas na luta

Da parte da coligação política Hadash, o seu secretário-geral e membro do Partido Comunista de Israel (PC de Israel), Muhammad Barakeh, considerou o caso um episódio negro na história de Israel e na defesa dos direitos humanos.

Anteriormente, o parlamento israelense (knesset) aprovou outra lei cujo conteúdo traduz igualmente a consolidação de um Estado racista antidemocrático. A chamada “lei do infiltrado” permite a detenção, sem qualquer acusação formal, de trabalhadores e candidatos a asilo político que passem ilegalmente as fronteiras de Israel, explica o PC de Israel numa nota publicada no seu site.

Para além disso, agrava as penas por crimes menores, as quais podem ir de três anos de cadeia efetiva até a prisão perpétua.

Também os cidadãos que ajudem qualquer trabalhador ilegal ou exilado enfrentam sanções entre os cinco e os 15 anos.

Mal o knesset aprovou a lei, centenas de pessoas juntaram-se no centro da capital, Tel Aviv, para protestar contra esta nova emenda a uma norma de 1954, cujo objetivo era impedir que os refugiados palestinos entrassem em Israel.

Na iniciativa promovida pelo Hadash, pelo PC de Israel e por organizações de defesa da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, pelo menos cinco pessoas acabaram detidas.

Fonte: Avante! via Portal Vermelho

Eles não são fortões, não lutam artes marciais, não usam tatuagens com suásticas e preferem os livros e computadores às facas e socos ingleses. Em vez de estações de metrô e shows de punk rock, seu habitat natural são as quitinetes apertadas do Crusp ou os vastos gramados da USP (Universidade de São Paulo). Eles são os neoconservadores, jovens universitários que defendem valores como o direito à propriedade e a fidelidade matrimonial.

À primeira vista, parecem mais universitários comuns, magricelas, com suas calças largas, camisetas amarrotadas e a barba por fazer. Mas apesar de estarem longe do estereotipo do jovem arruaceiro, cerraram fileiras ao lado de skinheads musculosos nas marchas em defesa do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e na anti-Marcha da Maconha.

“Estamos aqui para batalhar tanto intelectualmente quanto fisicamente”, apregoa Celso Zanaro, 22 anos, estudante de Geografia da USP. “O que precisamos é de homens dispostos a morrer por seus valores”, completou.

 

Foto: ReproduçãoAmpliar

Folheto faz propaganda da UCC na USP

Zanaro é um dos quatro integrantes do núcleo duro da União Conservadora Cristã (UCC), organização criada em julho do ano passado nos corredores da USP com os objetivos declarados de defender valores como o casamento, a fidelidade conjugal, direito à propriedade e combater o predomínio do pensamento marxista no meio acadêmico e político.

Pouco mais de um ano depois da criação, a UCC conta com 16 membros, 14 da USP e dois da Unicamp. Parece pouco mas nas eleições para o diretório central da USP, os neoconservadores ficaram em 5º lugar entre as dez chapas concorrentes.

“Na época da campanha fomos procurados pela juventude do PSDB mas não dá para fazer aliança aqui dentro”, disse Zanaro.

Em mais de duas horas de conversa, entre um cigarro e outro, o estudante citou pelo menos 15 autores conservadores, muitos deles nunca traduzidos para o português. Mas as principais referências do grupo são o jornalista Olavo de Carvalho (que defende a pena de morte para os comunistas), o integralismo (versão brasileira do nazismo) de Plínio Salgado e o ultra-conservadorismo de Plínio Correia de Oliveira, fundador da extinta TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade).

Sobre a ditadura militar, Zanaro diz: “Se negarmos com veemência a ditadura não estaremos fazendo nada a mais do que reforçar o discurso comunista. A ditadura foi necessária num contexto”.

Na verdade, ele lamenta a falta de pulso do comando atual das Forças Armadas por não intervir no governo Luiz Inácio Lula da Silva durante o escândalo do mensalão.

“A função das Forças Armadas é respaldar as instituições democráticas. O Legislativo é uma delas. A partir do momento em que existiu um esquema para comprar o Legislativo e as Forças Armadas não depuseram o presidente, elas não cumpriram seu papel”.

Para os jovens da UCC, a USP é um antro comunista, nenhum partido político é suficientemente conservador, a pedofilia na Igreja é fruto da infiltração de agentes da KGB, o sexo é uma forma de idiotização da juventude, Geraldo Alckmin colocou uma mordaça gay na sociedade paulista, Fernando Henrique Cardoso foi o criador de Lula e Lula é o próprio anticristo.

Embora tenha resistido à abordagem da juventude tucana, a UCC votou em massa em José Serra nas eleições presidenciais do ano passado, mas com ressalvas. “Serra é um sujeito que, embora tenha se aliado a setores conservadores e renegado uma postura mais virulenta de esquerda, não abandonou totalmente estes ideais”, justificou.

Os integrantes da UCC dizem ser contra qualquer tipo de violência mas não escondem a admiração pelos skinheads, aliados de ocasião. “Essa postura de combate me inspira muito. Uma inteligência que não está disposta ao combate é uma inteligência vazia”, disse Zanaro que, no entanto, faz questão de demarcar o território. “Eles se dizem de extrema-direita mas o líder deles é vegetariano”.

A aproximação tem base na argumentação ideológica dos neoconservadores, segundo a qual é necessária uma elite intelectual que sirva de referência para a massa. “Uma massa conservadora sem uma elite é uma massa de manobra. Não existe educação para as massas. Precisamos de uma alta cultura que sirva de referência para estas massas”, disse Zanaro.

Apesar da aproximação com grupos que, no limite, praticam a intolerância contra minorias, o líder da UCC esclarece que o movimento não tem ligações como nazismo. “Não somos neonazistas. Ao contrário. Defendemos o estado de Israel”.

iG entrevistou skinheads de diferentes gangues sobre política, ideologia e polarização das facções em São Paulo e outras capitais

Nara Alves e Ricardo Galhardo, iG São Paulo | 26/09/2011 07:00

Na madrugada do dia 4 de setembro o estudante Johni Raoni Falcão Galanciak, de 25 anos, morreu esfaqueado durante um tumulto envolvendo 200 pessoas, entre punks e skinheads, na frente de uma boate de São Paulo. O caso foi tratado pela mídia e pelas autoridades como mais uma briga entre gangues de arruaceiros. Por trás dessa e de outras barbáries recentes, no entanto, há uma disputa violenta de origem político-ideológica que envolve temas polêmicos – como aborto, união homossexual e legalização de drogas – que influenciaram até no resultado das eleições presidenciais de 2010.

De um lado estão os carecas de extrema direita, cuja orientação deológica vai desde o nacionalismo até o neonazismo. Alguns deles, segundo a Polícia Civil, são responsáveis por agressões recentes a homossexuais, negros, nordestinos. Os mais conhecidos são a Resistência Nacionalista, Ultradefesa, White Power, Carecas do Brasil e Kombat RAC (Red Anarchist Skinheads – carecas vermelhos e anarquistas, em português).

Foto: Reprodução

Grupo de extrema-direita Resistência Nacionalista, em foto divulgada no site

Do outro estão grupos também skinheads de esquerda, comunistas e anarquistas, que se uniram nos últimos meses aos punks anarquistas, para enfrentar nas ruas, com os mesmos métodos violentos, as organizações rivais sob a bandeira da Ação Antifacista. São os antifas, cujos grupos mais conhecidos são RASH (carecas vermelhos e anarquistas) e SHARP (carecas contra o preconceito racial).

“Há motivação política e ideológica na atuação de alguns destes grupos”, disse ao iG a delegada Margarete Barreto, da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). Em lados opostos, estas organizações tiveram papel central em manifestações políticas como a passeata em defesa do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), a Marcha da Maconha e a Parada Gay.

Doutrina

Nas últimas semanas o iG conversou com skinheads – inclusive aqueles que tumultuaram a Marcha da Maconha e a Parada Gay – sobre suas preferências políticas e suas crenças ideológicas. Embora considerem que, de maneira geral, o sistema político-partidário seja ineficaz, os jovens da extrema direita ouvidos pela reportagem disseram apoiar parlamentares que estão minimamente de acordo com o que pregam, a exemplo de Bolsonaro e dos senadores Kátia Abreu e Demóstenes Torres, ambos do DEM.

Foto: Reprodução Ampliar

Grupo RAC em defesa de Bolsonaro

Estes jovens recebem orientação teórica. As bases são os seminários promovidos pelo Instituto Plínio Correia de Oliveira (criador da extinta TFP, que defendia a Tradição, a Família e a Propriedade) e o jornalista Olavo de Carvalho. Em um áudio publicado no blog da Resistência Nacionalista, Carvalho defende a pena de morte para comunistas, a começar pelo arquiteto Oscar Niemeyer. “Para o Niemeyer uma pena de morte só é pouco. Deveria ter umas três ou quatro”, diz Carvalho.

Já os antifas muitas vezes são filiados a partidos de raízes comunistas, como PCO, PC do B, ou organizações como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), e tem articulações com grupos que defendem os direitos dos gays e a legalização das drogas. A reportagem entrou em contato com membros da facção, mas nenhuma liderança concordou em dar entrevista.

Polarização

A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) registra em São Paulo a existência de 25 gangues, mas segundo o iG apurou, há um movimento recente de recrutamento, reagrupamento e polarização dessas gangues. Este movimento começou logo após a passeata em defesa de Bolsonaro, em abril, como uma forma de reação aos grupos de intolerância.

Organizações como RASH e SHARP passaram a arregimentar seguidores e se aliaram a punks com os quais tinham afinidade ideológica. Um destes punks é Johni Raoni. Com a nova configuração, os antifas se tornaram maioria e os extremistas de direita passaram de caçadores de gays, nordestinos e maconheiros a presas dos antifas.

“Estamos sendo caçados. Hoje não podemos mais nos reunir em uma estação de metrô”, disse Antonio Silva, o Vulto, líder da Resistência Nacionalista, grupo que participou da passeata pró-Bolsonaro, da anti-Marcha da Maconha e tinha quatro integrantes envolvidos na briga que levou à morte de Johni.
Em seu blog, os RASH-SP negam enfaticamente responsabilidade pela briga.

No entanto, comentários de integrantes do grupo na página da Resistência Nacionalista mostram a predisposição para a violência. “Na verdade é isso mesmo, fascismo não se discute, se combate com as armas que tem na mão, e espero que eu tenha algo bem pesado nas minhas”, diz um jovem que assina como Antifa Pride (orgulho antifascista).

A briga da madrugada do dia 4 foi o episódio mais visível desta guerra. Antes disso, foram registrados pelo menos quatro episódios de agressões com motivação político-ideológica entre skinheads de facções rivais. Segundo os jovens ouvidos pelo iG, essa combinação de briga político-ideológica e predisposição à violência é uma bomba que pode estourar em qualquer esquina. E tudo indica que bombas cada vez maiores estão por vir.

Foto: Reprodução

Movimento começou com o ska

Origem proletária

Mas nem sempre foi assim. O movimento skinhead nasceu nos anos 60 entre jovens pobres da Jamaica que migraram para a Inglaterra e, lá, se uniram aos trabalhadores operários britânicos. Curtiam reagge, ska e não tinham posições racistas ou políticas, tampouco violentas. Diz-se que raspavam a cabeça para evitar piolhos. A associação entre skinheads e violência teve início nas décadas seguintes, com o envolvimento do partido nazista inglês nesse movimento.

No Brasil, os skinheads surgiram a partir da década de 80, especialmente entre operários do ABC Paulista, chamados de Carecas do ABC. Eles apoiavam políticas conservadoras, em contraposição ao movimento que se iniciava sob liderança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os skinheads brasileiros de esquerda, ou antifas, são um fenômeno mais recente, criado no início dos anos 2000 por dissidentes dos Carecas do Subúrbio, e tem como objetivo resgatar os valores originais do movimento.

Robert Fisk: Um presidente que é incapaz de enfrentar a realidade do Oriente Médio

O discurso de Obama nas Nações Unidas insiste que israelenses e palestinos são parceiros iguais no conflito

Friday, 23 September 2011, no Independent

Hoje Mahmoud Abbas deveria viver seus melhores momentos. Mesmo o New York Times descobriu que “um homem cinza em ternos cinzas e sapatos sensíveis, pode estar lentamente emergindo de sua própria sombra”.

Mas isso é nonsense. O líder incolor da Autoridade Palestina, que escreveu um livro de 600 páginas sobre o conflito de seu povo com Israel sem mencionar uma só vez a palavra “ocupação”, não deveria ter dificuldades esta noite para fazer melhor que o discurso patético e humilhante de Barack Hussein Obama nas Nações Unidas, na quarta-feira, no qual ele entregou a política dos Estados Unidos no Oriente Médio ao governo engenhoso de Israel.

Para o presidente norte-americano que já pediu o fim da ocupação israelense de terras árabes, o fim do roubo de terras árabes na Cisjordânia — “assentamentos” israelenses é o que ele usava — e um estado palestino até 2011, a performance de Obama foi patética.

Como sempre, Hanan Ashrawi, a única voz palestina eloquente em Nova York esta semana, acertou. “Não pude acreditar no que ouvi”, ela disse ao Haaretz, o melhor dos jornais israelenses. “Soou como se os palestinos estivessem ocupando Israel. Não houve uma palavra de empatia com os palestinos. Ele falou apenas das dificuldades dos israelenses…” É bem verdade. E, como sempre, os mais sãos dos jornalistas israelenses, em sua condenação aberta de Obama, provaram que os príncipes do jornalismo norte-americano foram covardes. ” O claudicante, pouco imaginativo discurso que o presidente dos Estados Unidos fez nas Nações Unidas… reflete quanto o presidente norte-americano é incapaz de enfrentar a realidade do Oriente Médio”, escreveu Yael Sternhell.

E assim como os dias vão e vem, descobriremos se os palestinos vão responder à performance tíbia de Obama com uma terceira intifada ou com um dar de ombros de quem reconhece que sempre foi assim, que os fatos continuam a provar que o governo dos Estados Unidos permanece uma ferramenta de Israel, quando se trata da recusa de Israel em dar aos palestinos um estado.

Como é, perguntamos, que o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Dan Shapiro, voou de Tel Aviv a Nova York para o debate sobre o estado palestino no mesmo avião que o primeiro-ministro israelense Netanyahu? Como é que Netanyahu estava muito ocupado batendo papo com o presidente colombiano em vez de ouvir o discurso de Obama? Ele apenas olhou de relance na parte do texto que mencionava os palestinos, quando estava ao vivo, face a face, com o presidente norte-americano. Isso não foi “chutzpah”. Foi insulto, puro e simples.

E Obama mereceu. Depois de elogiar a primavera/verão/outono árabe, seja lá o que for — mencionando os atos de coragem individual de tunisianos árabes e egípcios como se ele, Obama, tivesse estado por trás do Acordar Árabe o tempo todo, o homem se dignou a dar 10 minutos de seu tempo aos palestinos, esbofeteando-os por ousar pedir um estado nas Nações Unidas. Obama até sugeriu — e esta foi a parte mais engraçada de seu disparatado discurso nas Nações Unidas — que os palestinos e os israelenses eram dois “partidos” iguais no conflito.

Um marciano que ouvisse o discurso pensaria que, como sugeriu a srta. Ashrawi, os palestinos estão ocupando Israel em vez do contrário. Nenhuma menção da ocupação israelense, nenhuma menção de refugiados, do direito de retorno ou do roubo de terra árabe-palestina pelo governo israelense violando todas as leis internacionais. Mas Obama lamentou pelo povo cercado de Israel, pelos foguetes atirados contra suas casas, pelas bombas suicidas — pecados palestinos, naturalmente, mas nenhuma referência à carnificina de Gaza, às mortes massivas de palestinos — e mesmo pela perseguição histórica do povo judeu e pelo Holocauto.

A perseguição é um fato histórico. Assim é o maligno Holocausto. Mas OS PALESTINOS NÃO COMETERAM ESTES ATOS. Foram os europeus — cuja ajuda Obama agora busca para negar o estado aos palestinos — que cometerem esse crime dos crimes. E então voltamos ao trecho dos “partidos iguais”, como se os israelenses ocupantes e os palestinos ocupados estivessem em um mesmo campo.

Madeleine Albright adotava esta mentira abominável. “Cabe aos próprios partidos”, ela dizia, lavando as mãos, como Pilatos, das negociações, assim que Israel ameaçava chamar seus apoiadores nos Estados Unidos. Ninguém sabe se Mahmoud Abbas conseguirá produzir um discurso de 1940 nas Nações Unidas, hoje. Mas pelo menos já sabemos quem é o apaziguador.

Tradução: Luiz Carlos Azenha

PS do Viomundo: Obama quer se reeleger. Para isso, precisa vencer em Ohio e na Flórida. Qualquer palavra de desafio às posições de Israel coloca em risco a vitória de Obama nos dois estados. Ou seja, é o instinto de sobrevivência…

Desde quinta-feira, os bombardeamentos israelitas sobre Gaza fizeram pelo menos sete mortos e dezenas de feridos. O ministro da defesa de Israel já pediu desculpa pela morte de cinco militares egípcios junto à fronteira, mas a tensão está a aumentar entre os dois países.
Artigo | 20 Agosto, 2011 – 20:01
Funeral de três das vítimas dos bombardeamentos israelitas de sexta. Entre elas está uma criança de cinco anos.

Funeral de três das vítimas dos bombardeamentos israelitas de sexta. Entre elas está uma criança de cinco anos. Foto Mohamed Saber

A mais recente vaga de bombardeamentos teve origem na quinta-feira, quando Israel responsabilizou um grupo armado palestiniano – Comité de Resistência Popular, que negou a autoria do ataque – de ter entrado em Israel a partir do Egipto para raptar soldados e matar civis.

Neste ataque morreram seis civis e dois soldados israelitas e outras sete pessoas foram mortas nas perseguições que se seguiram por via terrestre e aérea. Mas cinco delas eram do exército egípcio e foram atingidas por helicópteros militares israelitas, o que causou uma onda de indignação que levou o Egipto a entregar um protesto formal e ameaçar retirar o seu embaixador em Israel.

Ehud Barak, ministro da defesa israelita, apressou-se a lamentar a morte dos soldados egípcios, numa altura em que o país atravessa uma fase crítica e se prepara para escolher o novo presidente após a revolução que fez cair Mubarak. Mas do lado do governo em funções no Cairo, a resposta israelita não pareceu suficiente e este sábado um comunicado veio sublinhar que “o Egipto denuncia o uso da força contra civis em qualquer circunstância e aconselha fortemente Israel a por fim imediato às suas operações militares contra Gaza”.

A acção militar israelita contra a faixa de Gaza, com bombardeamentos aéreos nas últimas noites que já fizeram pelo menos sete mortos e dezenas de feridos, levou o governo palestiniano a solicitar uma reunião de urgência da Liga Árabe este domingo para tentar travar a escalada de violência. Mahmoud Abbas enviou o mesmo pedido ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, classificando os ataques aéreos como “crimes de guerra”.

Do lado israelita, repetem-se as acusações contra os palestinianos por causa do lançamento a partir de Gaza de dezenas de rockets sobre as zonas junto à fronteira, em resposta aos bombardeamentos. A esmagadora maioria caiu em campo aberto sem provocar estragos, tendo um deles ferido seis pessoas num parque industrial e outro, lançado este sábado, fez um morto e sete feridos em Bersheeba.

Publicado originalmente no ESQUERDA.NET

Posted by eduguim on 14/05/11

Puta que pariu / é a elite/ mais tosca do Brasil !!

O verso acima era declamado por mais de mil pessoas que se espremiam diante do shopping  no meio da tarde de um sábado nublado – e esfriando – depois do sol que dera palhinha por volta das 12 horas, quando cheguei ao local do Churrascão da Gente Diferenciada e não encontrei ninguém que me parecesse que participaria de algo assim tão “popular”.

No boulevard que precede os corredores tomados por brilhos, luzes, cheiros e sons que embriagam o endinheirado consumidor do asséptico e verdejante bairro paulistano de Higienópolis para depois depená-lo, senhores maduros, gordos e engravatados riem em duas, três mesas, fazendo-me pensar por que estariam vestidos assim num sábado. Outras mesas eram ocupadas por casais, senhoras e até crianças e adolescentes, mas os maduros predominavam.

Olho para um lado, para o outro, e nada. Ninguém diferenciado. Eram todos iguais na cor da pele, nos perfumes fortes, na aparência bem-nutrida, enfim. Não posso negar que, por alguns momentos, senti-me em Paris. Lembrei-me de um café em Saint Germains des Pres…

Pensei na internet. Deve ter informação. Só que não uso esses telefones que, além de tudo, fazem até chamadas e nos quais se pode navegar na rede. Mas estava em um shopping e todo shopping tem lan-houses… Certo? Errado. Nesse não tem. E por que teria, ora, se todos, ali, andam pelos corredores do shopping e nas ruas olhando seus aparelhinhos mágicos?

Contudo, estava na República de Higienópolis e, ali, até os balcões de informações são… diferenciados – ou seriam iguais aos dos países que aquele bairro-estado emula? Enfim, sei que a garota me disse que NÃO havia lan-houses no shopping ou naquela região (?!), mas que a uns MIL metros dali, na rua Maria Antonia, encontraria. E imprimiu o mapa para mim (!).

É um bairro mais igual, entendem? É o contrário do conceito de “diferenciado”.

Fui até lá e, assim que entro no Twitter, o Luis Nassif me manda uma mensagem dizendo que estava ali “com as menininhas” e doido pra comer churrasco, mas não tinha nada. Deixo-lhe uma mensagem pedindo que me ligue. Ele liga e diz que tem compromisso, lamentando não ter encontrado o churrasco.

Penso que está na hora de voltar. Ficarei até duas e meia e, se não aparecer ninguém, vou ao Sujinho comer bisteca de boi e tomar uma cachacinha Seleta, que as mais famosas não cabem no meu bolso. Saio a passos largos, já suando e maldizendo o blazer que vesti no começo da manhã, quando fazia frio e saí de casa para ir ao Churrascão.

Alvíssaras!, tem gente lá na frente falando com a imprensa. Estão ao lado de um carro da RedeTV! Aproximo-me e algumas pessoas vêm falar comigo. Alguns membros do Movimento dos Sem Mídia, leitores que conheço e várias pessoas simpáticas que não conhecia. A maioria, porém, não conheço. Todos ainda muito tímidos. Eu, inclusive.

Fiquei pensando, naquele momento: como faremos isso aqui? Esse pessoal tão… civilizado e fleumático vai se “horrorizar”.

Ando entre os grupos de pessoas conversando. Vai chegando cada vez mais gente. Uma rede de tevê me pára e pede para dar entrevista, como fazia sem parar. Não guardei o nome porque o afluxo crescente de pessoas começou a surpreender. Daqui a pouco chegam a Band e o SBT. Já havia quase umas duzentas pessoas, no local.

Aí a polícia apareceu, bem como o CET. Chegam manifestantes, chega polícia, chega imprensa… E vão chegando.

Mas os grupos de pessoas só dão entrevista e mais entrevista. Ouço um engraçadinho que não quis se misturar dizer que tinha mais jornalista que manifestante. O sangue sobe. Vou ao centro dos manifestantes e grito: Quem quer metrô, aqui?! Aquela massa crescente acorda e brada: Nós! E ficaram esperando eu dizer mais.

As câmeras se voltam e começo a discursar, com as mãos ao lado da boca numa tentativa de amplificar a voz. Surpreendentemente, ecoou forte. A repórter enfia o microfone na cara e começa a fazer perguntas que respondo não para ela, mas para as pessoas, que assoviam, gritam frases bem-humoradas.

Paro de falar e a manifestação amaina. Em alguns segundos, porém, mais alguém começa a falar. Daí chega o humorista Celso Mim com um capacete de obras “reprimindo” a manifestação como se fosse um funcionário do metrô, dando bronca nos manifestantes. Alguns parecem acreditar, de início.

Quando os discursos e palavras de ordem já proliferavam, ouve-se a batucada lá longe, mas avançando pela avenida Higienópolis. Parecia que jogavam confete. Sambavam, cantavam. Um dos cânticos era mais ou menos assim, se me lembro:

Se esta rua fosse minha / Eu mandava ladrilhar / Com Pedrinhas de Brilhante / Para o meu metrô passar

Alguém aparece com churrasco. Agora está cheio de jovens bem humorados. Maduros, idosos e até crianças diferenciados. Somos muitos. A avenida Higienópolis está tomada. Não passam mais carros. Das imensas sacadas dos prédios, moradores do bairro imóveis e aparentemente em silêncio observam a tudo.

Passo a me esgueirar entre a multidão. Encontro gente que conheço e que não conheço e me conhece e eis que, de repente, vejo, diante de mim, dois colunistas da Folha de São Paulo.

São Fernando de Barros e Silva e Sergio Malbergier, aquele que andou escrevendo sobre o direito dos ricos de não quererem metrô na porta deles. Abro-lhes um sorriso como se fossem velhos amigos e, para minha surpresa, percebo que me reconhecem, apesar de jamais termos nos visto pessoalmente.

– Eu conheeeço você – digo a Barros e Silva, em tom jocoso –, e você também – estendo o cumprimento a Malbergier.

Digo que li o texto de Malbergier e que estava “um primor”. Ele sorri, simpático, como se não ligasse para a ironia. Barros e Silva, porém, fecha a cara, aproxima-se e diz:

– Olha, eu respeito você, Eduardo, mas as suas posições são primárias…

Respondo:

– Eu acredito que você pensa assim, mas não são as minhas posições que são primárias, são as suas que são muito avançadas, próprias para Londres, Paris, Amsterdam…

Barros e Silva franze ainda mais o cenho, percebo os dentes trincando, dá-me as costas, empina o queixo e diz, sem se voltar: “Está vendo como você é primário?”. E sai andando.

Comento com Malbergier: “Ele está zangado, né?”. E ele, sorridente: “Está zangado”.

Bato no braço dele, despedindo-me, e dizendo que acho positivo que tenham ido até lá. E caio no meio da galera.

Dali, a manifestação começa a se mover com batucadas e jovens à frente. Avançam em direção à avenida Angélica. Dobram à direita e começam a subi-la. Ocupam as duas pistas. Olho para a avenida e, diante de nós, está vazia de veículos até onde a vista enxerga. Nos prédios em volta as pessoas se debruçam nas janelas e sacadas. Policiais e agentes da CET parecem nervosos…

Peço ao comandante da operação que me diga o número estimado de manifestantes. Ele tasca 600. Digo que ele só pode estar brincando. Havia mais de mil pessoas fácil, ali. Saio meio zangado, batendo o pé, e nem agradeço. Depois reflito que o oficial não teve culpa. Estava cumprindo ordens.

Vejam o que acham

Enfim, foi mágico para este coração cinqüentão de um homem que cresceu em um país em que fazer um ato daquele significava ser espancado e até preso e torturado, quando não assassinado. E o mais lindo foi ver os jovens exigindo direitos, pregando igualdade com calma, bom humor, pacificamente.

Pena que a grande imprensa não contará direito o que aconteceu em São Paulo nesta tarde fria de maio, mas a internet contará a verdade. Fotos, vídeos e relatos, não faltarão. Não carecia, portanto, que me prendesse a isso. Queria passar ao meu leitor as “primárias” impressões deste “primário” blogueiro sobre essa incrível festa da democracia

Por Uri Avnery

Não se passa um dia sequer – literalmente – sem que um grupo de membros do Knesset apresente uma nova lei racista

Em Berlim, acaba de ser inaugurada uma exposição intitulada “Hitler e os Alemães”. A exposição examina os fatores que levaram o povo alemão a levar Adolf  Hitler ao poder e segui-lo até ao fim.

Estou demasiado ocupado com os problemas da democracia israelita para voar para Berlim. É pena. Porque, desde a infância, essa questão em especial tem me incomodado. Como é que aconteceu que uma nação civilizada, que se via a si mesma como o “povo de poetas e pensadores”, tenha seguido este homem, como as crianças de Hamelin seguiram o flautista para a sua perdição?

Isto me incomoda, não apenas como um fenómeno histórico, mas como um alerta para o futuro. Se isso aconteceu com os alemães, pode acontecer com qualquer povo? Pode acontecer aqui?

Como criança de 9 anos, fui testemunha ocular do colapso da democracia alemã e da ascensão dos nazis ao poder. As imagens estão gravadas na minha memória – as campanhas eleitorais sucedendo-se umas às outras, os uniformes na rua, os debates em torno da mesa, o professor que nos saudou pela primeira vez com “Heil Hitler”. Ressuscitei essas memórias num livro que escrevi (em hebraico) durante o julgamento de Eichmann, e que terminaram com um capítulo intitulado: “Pode acontecer aqui?”, Nestes dias, enquanto escrevo as minhas memórias, volto a essas lembranças.

Não sei se a exposição de Berlim tenta responder a estas questões. Talvez não. Mesmo agora, 77 anos depois, não há uma resposta definitiva à questão: Porque é que a república alemã entrou em colapso?

Esta é uma questão muito importante, pois extamente neste moimento as pessoas em Israel estão se perguntam, com uma preocupação crescente: estaria a república israelita prestes a entrar em colapso?

Pela primeira vez, esta pergunta está a sendo feita com toda seriedade. Ao longo dos anos, tivemos o cuidado de não mencionar a palavra fascismo no discurso público. Ela levanta memórias que são demasiado monstruosas. Agora, esse tabu foi quebrado.

Yitzhak Herzog, o ministro da Previdência no governo de Netanyahu, membro do Partido Trabalhista, neto de um rabino e filho de um Presidente, disse há poucos dias que «o fascismo está próximo das margens da nossa sociedade». Ele estava errado: o fascismo não só está próximo as margens, ele está próximo do governo do qual ele ele faz parte, e do Knesset, do qual ele é membro.

Não se passa um dia sequer – literalmente – sem que um grupo de membros do Knesset apresente uma nova lei racista. O país ainda está dividido pela alteração da lei da cidadania, que vai obrigar os candidatos a jurar lealdade a «Israel como um Estado judeu e democrático». Agora, os ministros estão discutindo se isso será exigido apenas aos não-judeus (o que não soa bem) ou aos judeus também – como se isso alterasse alguma coisa seu conteúdo racista.

Esta semana, um novo projeto de lei foi entregue. O projeto proibe não-cidadãos de atuarem como guias turísticos em Jerusalém Oriental. Não-cidadãos, neste caso, quer dizer árabes. Isso porque, quando Jerusalém Oriental foi anexada pela força à Israel depois da guerra de 1967, não foi concedida a cidadania aos seus habitantes árabes. Foi-lhes concedido apenas o estatuto de “residentes permanentes”, como se fossem novos recém-chegados e não descendentes de famílias que viveram na cidade durante séculos.

O projeto de lei pretende privar os habitantes árabes de Jerusalém do direito de servirem como guias turísticos nos seus lugares sagrados na sua cidade, já que eles são capazes de se desviar da linha da propaganda oficial. Chocante? Incrível? Não aos olhos dos proponentes, que incluem membros do partido Kadima. Um membro do Knesset do partido Meretz também assinou, mas de forma envergonhada, alegando que estava confuso.

Esta proposta vem após dezenas de projetos de lei deste tipo terem sido apresentados recentemente, e antes de dezenas de outros que já estão à caminho. Os membros do Knesset agem como tubarões num festim frenético. Há uma competição selvagem entre eles para ver quem consegue conceber o projecto de lei mais racista.

Vale a pena. Depois de cada projecto de lei, os proponente são convidados para estúdios de TV para “explicar” os seus objetivos, eqnuanto os jornais estampam suas fotos. Para parlamentares obscuros, cujos nomes nunca ouvimos falar, isso representa uma tentação irresistível. Isso tudo com a colaboração dos meios de comunicação.

Este não é um fenómeno exclusivamente israelita. Em toda a Europa e na América, fascistas ostensivos estão levantando as suas cabeças. Os disseminadores do ódio, que até agora vinham espalhando o seu veneno apenas nas margens do sistema político, estão agora chegando no centro desse sistema.

Em quase todos os países existem demagogos que constroem as suas carreiras com base no incitamento contra os fracos e desamparados, que defendem a expulsão dos “estrangeiros” e a perseguição das minorias. No passado, eles eram fáceis de ignorar, como foi Hitler no início da sua carreira. Agora, eles devem ser levados a sério.

Há apenas alguns anos, o mundo ficou chocado quando foi permitido ao partido de Jörg Haider entrar na coligação do governo austríaco. Haider elogiou os feitos de Hitler. O governo israelita chamou furiosamente de volta o seu embaixador em Viena. Agora, o novo governo holandês depende do apoio de um racista declarado, e partidos fascistas obtêm ganhos eleitorais expressivos em muitos países. O movimento “Tea Party”, que floresce nos EUA, tem alguns aspectos claramente fascistas. Um dos seus candidatos gosta de passear vestindo o uniforme da assassina Waffen-SS nazi.

Por isso, estamos em boa companhia. Não somos piores do que os outros. Se eles podem fazê-lo, porque nós não?

Mas há uma grande diferença: Israel não está na mesma situação que a Holanda ou a Suécia. Ao contrário desses países, a própria existência de Israel é ameaçada pelo fascismo. Pode levar o nosso estado à destruição.

Anos atrás, eu acreditava que dois milagres tinham ocorrido em Israel: o renascimento do idioma hebraico e da democracia israelita.

A ressurreição de uma língua “morta” nunca foi bem sucedida em qualquer outro lugar. Theodor Herzl, o fundador do sionismo, uma vez perguntou com desprezo: «Será que as pessoas pedirão um bilhete de transporte em hebraico?» (Ele queria que falássemos alemão.) Hoje, o idioma hebraico está bem melhor do que o transporte ferroviário israelita.

Mas a democracia israelita é um milagre ainda maior. Não cresceu a partir de baixo, como na Europa. O povo judeu nunca teve uma democracia. A religião judaica, como quase todas as religiões, é totalitária. Os imigrantes que fluíram para o país também nunca tinham experimentado a democracia antes. Eles vieram da Rússia czarista ou bolchevique, da Polónia autoritária de Josef Pilsudski, dos tirânicos Marrocos e Iraque. Só uma ínfima parte veio de países democráticos. E contudo: desde os seus primórdios, o movimento sionista promoveu uma democracia exemplar nas suas fileiras, e o Estado de Israel continuou esta tradição (com uma limitação: uma democracia plena para os judeus, uma democracia limitada para os cidadãos árabes.)

Sempre me preocupou que esta democracia estivesse pendurada por um fio, que devêssemos manter a guarda a cada hora, a cada minuto. Agora enfrenta um teste sem precedentes.

A república Alemã levou o nome de Weimar, a cidade onde a Assembleia Constituinte aprovou a sua Constituição após a Primeira Guerra Mundial. A Weimar de Bach e Goethe foi um dos berços da cultura alemã.

Foi uma Constituição democrática brilhante. Sob as suas asas, a Alemanha viu um florescimento intelectual e artístico inédito. Então, porque é que a república entrou em colapso?

Geralmente, são identificadas duas causas: a humilhação e o desemprego. Quando a república estava ainda na sua infância, foi forçada a assinar o tratado de paz de Versalhes com os vencedores da Primeira Guerra Mundial, um tratado que não foi mais do que um ato humilhante de rendição. Quando a república ficou para trás com o pagamento das enormes indenizações que pesavam sobre ela, o exército francês invadiu, em 1923, o coração industrial da Alemanha, precipitando uma inflação galopante – um trauma do qual a Alemanha não recuperou até hoje.

Quando a crise económica mundial estourou em 1929, a economia alemã entrou em colapso. Milhões de desempregados desesperados caíram em pobreza abjeta e gritaram por salvação. Hitler prometeu acabar tanto com a humilhação da derrota como com o desemprego, e cumpriu as duas promessas: deu trabalho aos desempregados na nova indústria de armas e em obras públicas, como as novas rodovias, já em preparação para a guerra.

E houve uma terceira razão para o colapso da república: a apatia crescente da opinião pública democrática. O sistema político da república tornou-se simplesmente repugnante. Enquanto as pessoas se afundavam na miséria, os políticos continuaram jogando os seus jogos. O público ansiava por um líder forte, para impor a ordem. Os nazis não derrubaram a república. A República implodiu, os nazis só preencheram o vazio.

Em Israel, não existe crise económica. Pelo contrário, a economia é florescente. Israel não assinou qualquer acordo humilhante, como o Tratado de Versalhes. Pelo contrário, venceu todas as suas guerras. É verdade que os nossos fascistas falam sobre os “criminosos de Oslo”, tal como Hitler vociferava contra os “criminosos de Novembro”, mas o acordo de Oslo foi o oposto do tratado de Versalhes, assinado em Novembro de 1919.

Se é assim, de onde vem a profunda crise da sociedade israelita? O que leva milhões de cidadãos a encarar com completa apatia as ações dos seus líderes, contentando-se em abanar as suas cabeças à frente da TV? O que os leva a ignorar o que está acontecendo nos territórios ocupados, a meia hora de carro da suas casas? Por que tantos declaram que já não ouvem as notícias ou lêem os jornais? Qual é a origem da depressão e do desespero, que deixam o caminho aberto para o fascismo?

O estado chegou a uma encruzilhada: a paz ou a guerra eterna. Paz significa a fundação do Estado palestino e a evacuação das colonias. Mas o código genético do movimento sionista está empurrando no sentido da anexação de todo país histórico até ao rio Jordão, e com a transferência – direta ou indiretamente – da população árabe. A maioria das pessoas foge de uma decisão, alegando que de qualquer maneira “não temos parceiro para a paz”. Estamos condenados à guerra eterna.

A democracia sofre de uma paralisia crescente, porque os diferentes setores da população vivem em mundos diferentes. O secular, o nacional-religioso e o ortodoxo recebem educações totalmente diferentes. O terreno comum entre eles diminui. Outros fossos se abrem entre a velha comunidade asquenaze, os judeus orientais, os imigrantes da antiga União Soviética e da Etiópia, e os cidadãos árabes, cuja separação do resto está sempre aumentando.

Pela segunda vez na minha vida, posso ter de presenciar o colapso de uma república. Mas isso não está predestinado. Israel não é a Alemanha em passo de ganso daqueles dias, 2010 não é 1933. A sociedade israelita ainda pode ficar sóbria a tempo e mobilizar as forças democráticas dentro de si.

Mas para que isso aconteça, deve acordar do coma, entender o que está acontecendo e para onde isso pode nos levar, protestar e lutar através de todos os meios disponíveis (enquanto isso ainda é possível) para conter a onda fascista que ameaça nos devorar.

Artigo publicado em Gush Shalom