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: Duas maiores economias do Brics pretendem, com o acordo firmado nesta terça-feira 26, em Durban, mudar o fluxo do comércio internacional, que é hoje dominado pelo dólar americano e pelo euro, e facilitar negociações bilaterais

 

Da BBC Brasil

Brasília – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, anunciaram hoje (26) um acordo de swap cambial (troca de moedas) no valor de US$ 30 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões) com o Banco Central chinês que vai garantir a continuidade do comércio bilateral em caso de crises.

“Esse é um passo importante no estreitamento das relações Brasil–China”, disse Tombini. “O objetivo é facilitar o comércio entre os dois países independentemente da situação econômica internacional.”

Os dois países se comprometeram a reservar o montante definido para eventualmente usá-lo em operações de troca de moeda. O acordo visa a proteger os dois países das flutuações na cotação do dólar, moeda na qual é feito atualmente o comércio bilateral. Os US$ 30 bilhões seriam usados em situações de instabilidade da cotação da moeda americana.

O acordo foi anunciado em entrevista coletiva realizada em meio à reunião de cúpula do bloco na cidade sul-africana de Durban, e será válido inicialmente por três anos com a possibilidade de renovação caso Brasília e Pequim manifestem essa intenção.

Os termos do acordo começaram a ser negociados em julho de 2012, mas Mantega negou que o processo tenha sido apressado pelo acirramento da crise econômica global. “Se fosse por causa da crise teríamos de ter fechado isso antes”, declarou o ministro.

O montante que os países prometeram reservar para o swap cambial é o equivalente a oito meses de exportações do Brasil para a China. Durante a entrevista coletiva, Mantega também falou sobre o acordo que está sendo negociado entre os cinco membros do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para a criação de um fundo de reserva que seria utilizado para ajudar países em apuros financeiros.

Segundo informações de integrantes da delegação brasileira, esse ‘fundo emergencial’ (acordo para reservas de contingência), seria de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 201 bilhões). O ministro, no entanto, não falou em valores e indicou que o projeto será levado aos chefes de Estado e governo que se reúnem nesta quarta-feira em Durban.

No mesmo dia, líderes do Brics devem anunciar como será feita a implementação de um banco para o desenvolvimento do bloco. A proposta de criação do banco foi feita no último encontro do grupo, mas ainda não foi definido como ele deve atuar, onde será sua sede e os valores de capital inicial.

Edição: Denise Griesinger

O Ministro de Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, apresentou na manhã desta quarta-feria em Nova Delhi, Índia, um satélite capaz de levar o acesso à internet banda larga para todo o território brasileiro. Isso iria acelerar a democratização do acesso a internet, devido à abrangência que o satélite atinge.

O satélite dará opção para que todos os municípios brasileiros possam acessar os serviços de internet e telefonia via 3G. Daí, percebe-se que a tecnologia de acesso pelo cliente não será exatamente via satélite: o usuário se conecta por meio de alguma rede (seja física ou móvel) de sua cidade, que por fim possui conexão via satélite.

De certo modo, é uma maneira mais inteligente de prover esse tipo de acesso. Se cada cliente precisasse de uma antena parabólica e aparelhos necessários para a conexão, o custo do equipamento para o cliente seria extremamente caro. Intermediando o acesso com outras tecnologias, o custo seria bem menor.

O Brasil busca na Índia ajuda para a construção do satélite, que terá a construção e lançamento de responsabilidade da Embraer e Telebras. O satélite tem um custo avaliado de R$ 720 milhões. O lançamento tem custo estimado de US$ 80 milhões e está previsto ainda para este ano. Em 2014, mais outro satélite será lançado.

É notável que o custo é alto, mas a área de abrangência de um satélite é superior a qualquer rede de fibra óptica montada com o mesmo orçamento disponibilizado pelo governo. Assim como qualquer outra tecnologia, a comunicação de dados também tem sua desvantagem: as taxas de transferências não são altas (sobretudo o upload) e o tempo de resposta é incrivelmente grande.

Posso considerar como uma solução de emergência. Uma hora ou outra, redes de fibras ópticas serão necessárias para suprir a necessidade da população, que aumenta a cada dia que passa.

Com informações: Gizmodo Brasil, Terra

Kadafi resiste: “Vitória ou martírio”


Otan registra mais de 7.500 ataques aéreos para derrubar governo
Sarkozy fez seu anúncio depois de reunir-se com um certo Mahmoud Jibril, um agente notório da CIA, com pós-graduação e longos anos nos EUA. Jibril é o candidato dos EUA a ditador-fantoche na Líbia. Que Sarkozy seja um colaboracionista dos EUA contra os interesses da própria França, faz parte do seu perfil – não fez outra coisa na vida, senão seguir o caminho dos Laval e Pétain. Assim, eles pretendem que o “futuro da Líbia” – isto é, a partilha do petróleo do povo líbio – seja decidido em Paris, referendando o já decidido em Washington, e querem nos tanger a apoiar semelhante lição de democracia.
EUA/Otan lançaram 7.500 ataques aéreos para derrubar governo líbio
O que Sarkozy chama de reunião para discutir o “futuro da Líbia” é só a partilha do petróleo do povo líbio, já decidido em Washington, e que o colaboracionista quer aprovar como farsa em Paris
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou a convocação de uma “conferência” sobre o “futuro da Líbia” no dia 1º de setembro, em Paris – e citou o Brasil, além da Rússia, China e Índia (isto é, o grupo dos BRICs) como “países convidados”.
A França, país de gloriosas tradições, tem também outras que não são assim tão gloriosas: entre as últimas está a de ter presidentes – o general De Gaulle à parte – perfeitamente medíocres, alguns, até mesmo, traidores do seu próprio país.
Sarkozy fez seu anúncio depois de reunir-se com um certo Mahmoud Jibril, um agente notório da CIA, com pós-graduação e longos anos nos EUA, mais conhecido na Líbia pelas privatizações e “desregulamentações” que promoveu durante o tempo em que fez parte do governo – se algo poder-se-ia reprovar a Kadafi e seus companheiros foi a excessiva tolerância com certos elementos.
COLABORACIONISTA
Jibril é o candidato dos EUA a ditador-fantoche na Líbia. Que Sarkozy seja um colaboracionista dos EUA contra os interesses da própria França, faz parte do seu perfil – não fez outra coisa na vida, senão seguir o caminho dos Laval e Pétain.
Assim, eles pretendem que o “futuro da Líbia” – isto é, a partilha do petróleo do povo líbio – seja decidido em Paris, referendando o já decidido em Washington, e querem nos tanger a apoiar semelhante lição de democracia. Houve época em que Paris valia uma missa. Com Sarkozy, vale uma farsa.
Os nazistas pretenderam decidir o destino da Tchecoslováquia em Munique. No entanto, lá não foi decidido apenas o destino – aliás, bem temporário – desse pequeno país eslavo, mas, sobretudo, o da própria França, que pagou muito caro pela colaboração de Daladier com Hitler.
Com a Otan reconhecendo à CNN – nesse caso, insuspeita – que a agressão terrestre a Trípoli é feita por “tropas especiais” do “Reino Unido, França, Jordânia e Catar” (citadas nessa ordem), não é possível ignorar que aqueles marginais que aparecem na TV depois que a aviação dos EUA e satélites destruíram bairros inteiros da cidade são apenas isso mesmo – alguns vagabundos, rufiões, ladrões e assassinos, contratados para a figuração de que existiria algo “líbio” nessa agressão a um governo legítimo, eleito e constituído de acordo com leis nacionais. Essa é a “base” – a única – de Jibril, dos EUA e de Sarkozy na Líbia.
Dificilmente houve uma malta de desclassificados como esta, que assassinou até o seu suposto comandante, Younis, que tortura nas ruas de Misrata, desfigura cadáveres que são jogados nas praças, saqueia a casa da filha de Kadafi – e tira fotos exibindo o roubo -, invade, pilha e ateia fogo às embaixadas da Argélia, Bulgária, Coreia, e ataca as casas dos embaixadores da Venezuela e da China.
É a essa ralé que o porta-voz do Itamaraty, Tovar Nunes, se referiu ao declarar que “com mais democracia, haverá mais diálogo e isso levará a um relacionamento mais aprofundado”. Cada um pode desejar a “democracia” que prefere, assim como os seus parceiros de “diálogo” e, até, com quem ter um “relacionamento mais aprofun-dado”. Mas o Brasil não tem nada a ver com esses desejos pervertidos.
No entanto, o sr. Patriota lembrou-se, finalmente, dos interesses do Brasil na Líbia – não, infelizmente, da autodeterminação dos povos, centro de nossa diplomacia desde Rio Branco, há 109 anos, mas dos interesses mais imediatos, o que já é alguma coisa.
O Brasil tem mais de US$ 5 bilhões na Líbia, com empresas que vão da Petrobrás até a Andrade Gutierrez e Norberto Odebrecht, financiadas inteiramente pelo governo líbio. Nossas exportações para o país de Kadafi, em relação ao ano anterior, aumentaram 77,04% em 2003; 121,47% em 2004; 83,14% em 2005; 56,25% em 2008; e 122,85% em 2010 (cf. MDIC, Secex, “Intercâmbio comercial brasileiro – Líbia”, 04/07/2011).
Evidentemente, nossas relações com a Líbia, estabelecidas pelo presidente Lula no início de seu primeiro mandato, jamais foram do agrado de Washington. Agora, através de seu boy europeu, Sarkozy, claramente nos chantageiam – ou aderimos de mala e cuia aos bandidos que os EUA pagam na Líbia ou nossos interesses econômicos serão, para usar uma palavra suavíssima, prejudicados.
Mas é significativo que, apesar de berrarem vitória pelas suas Tvs e jornais – a tralha mais repugnantemente servil que já houve – queiram nos chantagear para que nós apoiemos os seus esbirros. Se estão vitoriosos, para que precisam do nosso apoio, ou dos outros BRICs?
Antes de tudo, porque essa vitória está na sua mídia, e não na realidade (v. o discurso de Muammar Kadafi nesta página).
O que estão fazendo é destruir o que os líbios construíram durante 42 anos, exatamente porque não conseguem submeter o povo líbio. Os bombardeios sobre civis em Trípoli e outras cidades só se diferenciam dos de Hitler na Holanda, Bélgica, França, Inglaterra e URSS porque são muito maiores, muito mais intensos, muito mais covardes e muito mais criminosos.
ARRUAÇAS
O povo líbio percebe, como disse o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt – repetindo uma frase de Emiliano Zapata – que é melhor morrer de pé do que viver ajoelhado. As “tropas especiais” estrangeiras desembarcaram em cima de escombros, os mesmos em que os marginais promovem sua arruaça.
Segundo a Otan, até o dia 22 de agosto, houve 19.877 operações aéreas sobre a Líbia, com 7.505 bombardeios – sobre hospitais, mercados públicos, TVs, rádios, estradas, aeroportos e, sobretudo, residências. Somente sobre Bab El Azzizia – apelidada pela mídia de “QG de Kadafi” – foram 64 bombardeios.
Diante disso, o norte-americano Stephen Lendman lembrou que em Nuremberg houve quem foi enforcado por menos. Com efeito, Goering era amador, perto dos mandantes e executores dos crimes atuais.
Mussolini assassinou metade da população da Líbia, em revolta contra a invasão fascista, inclusive o herói da resistência, Omar Mukhtar. Nem por isso conseguiu submeter os líbios. Mas é inútil esperar que o imperialismo aprenda alguma coisa com a História. Por isso mesmo, ele está condenado a tentar repeti-la – até o seu próprio fim.
NATHANIEL BRAIA

Os ministros das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, e da China, Yang Jiechi, conversaram na segunda-feira (23/08), por telefone, e disseram que o ideal é que os países que compõem o Brics – grupo formado pelo Brasil, a Rússia, Índia, China e África do Sul – definam uma posição comum em relação às mudanças que ocorrem na Líbia. Também disseram que pretendem ajudar o governo de transição na busca pela estabilidade na região.

As autoridades chinesas informaram que o governo de seu país considera que a paz e a estabilidade deverão ser restauradas para dar início a um processo político livre. Na segunda-feira, em entrevista coletiva, Patriota disse que o Brasil espera salvaguardas do Conselho de Transição Nacional – controlado pela oposição líbia – para definir-se sobre a legitimidade do governo provisório na Líbia.

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Para o chanceler da China, os países do Brics devem desempenhar um  “papel protagonista” no período após o fim dos conflitos na Líbia. Segundo Yang Jiechi, o Brasil deve  “ser o principal aliado da China na reconstrução da Líbia”. De acordo com o ministro chinês, a ONU deve dar prioridade à busca da estabilidade na Líbia como “tarefa mais urgente”.

Yang Jiechi disse ainda que a ONU  deve conduzir o processo de transição na Líbia em parceria com a Liga Árabe, a União Africana e outras organizações regionais.  A Líbia é um dos principais parceiros econômicos da China no Norte da África. Desde fevereiro, cerca de 35 mil trabalhadores chineses foram retirados do território líbio.

As economias do Brasil, da Rússia, da Índia,  da China e Africa do Sul devem ganhar espaço
Em poucos anos, as economias do Brasil, da Rússia, da Índia e da China devem superar as dos Estados Unidos e dos 27 países que integram a União Europeia (UE). A conclusão é do Instituto de Negócios Alemão (cuja sigla em alemão é IW). Segundo especialistas, a economia global gerou “mudanças tectônicas” nas economias emergentes.
Para o instituto alemão, a pressão da crise financeira internacional sobre as economias mundiais e os mercados financeiros enfraque os Estados Unidos e fortalece os países em desenvolvimento. O estudo destacou o comércio entre a Alemanha e o Brics (acrônimo que representam os emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

De acordo com o relatório, as negociações na Alemanha com os Brics envolvem, em geral, engenharia mecânica, indústria automotiva, indústria de bens eletrônicos e de indústria química. Pela análise do instituto, a economia dos Brics, nos últimos anos, registrou aceleração econômica, enquanto a participação na economia global tem sido claramente superior à dos países da chamada zona do euro.
Pelos dados compilados pelo instituto, no período de 2002 a 2010, houve crescimento de 12% para 21% das exportações da Alemanha para Brasil, Rússia, Índia e China. O relatório informa que há “ um grande futuro para os Brics”. Segundo o texto, o grupo reúne elementos para se tornar um “gigante no futuro”.
O estudo IW indicou ainda que, lentamente, os Estados Unidos perdem espaço no cenário econômico, embora se mantenha como segundo colocado para produtos alemães em 2010, apesar da queda de 5% das importações alemãs em relação a 2005″, disse ele.
O Instituto de Negócios Alemão é uma entidade independente que atua no setor de negócios privados desde 1951. A sede do órgão está localizada na cidade alemã de Colônia. As informações são da Agência Brasil.

Celso Amorim

A Velha Ordem está morrendo. Viva a Nova! Já não será possível que um grupo de potências ocidentais dite a vontade do mundo. Por Celso Amorim. Foto: Ed Jones/AFP

Os líderes (no caso do Brasil, a líder) dos cinco países emergentes que, com a adesão da África do Sul, hoje compõem os BRICS reuniram-se em Sanya, na China, em 14 de abril último. A entrada da África do Sul é bem-vinda por trazer a África para esse grupo, cuja crescente importância no cenário internacional já não é mais contestada. Evidentemente, os pessimistas profissionais continuam a apontar diferenças de interesses entre os membros dos BRICS, traduzindo, em verdade, seu desconforto com a criação desse grande espaço de cooperação entre países até há pouco considerados subdesenvolvidos.

O mundo assiste à ascensão dos BRICS com um misto de esperança (de dividir encargos) e temor (de compartilhar decisões). Com o surgimento dos BRICS, chega ao fim a época em que -duas ou três potências ocidentais, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, podiam reunir-se numa sala e sair de lá falando em nome da “comunidade internacional”.

Tive oportunidade de participar dos primeiros movimentos que deram origem ao nascimento dos BRIC (então sem o “S”). Ou para usar uma terminologia que tomo emprestada da filosofia, da passagem dos BRIC de uma realidade “em si”, identificada pelo analista de mercado Jim O’Neill, para uma realidade “para si”. Foram necessários quatro ou cinco anos para que esses países assumissem sua identidade como grupo. O primeiro passo nesse sentido foi o convite do ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov, para que os chanceleres dos quatro países se reunissem à margem da Assembleia Geral da ONU. Foi um encontro pouco estruturado. Interação mesmo, se é que houve, ficou restrita ao ministro russo e a mim.

No ano seguinte, tomei a iniciativa de convidar meus colegas para um almoço de trabalho na residência oficial da nossa representante permanente junto à ONU, Maria Luiza Viotti. Foi durante esse encontro que se tomou a decisão, inicialmente vista com certa reserva pela China, de convocar reunião a ser realizada em um dos países – e não como mero apêndice da pesada agenda dos ministros durante a Assembleia Geral. Assim, em maio de 2008, realizou-se a primeira reunião formal dos BRIC, na fria cidade russa de Ekaterinbrugo, no limite da Europa com a Ásia, com direito a declaração final e tudo o mais, ainda em nível de ministros. No ano seguinte, teve lugar, também na Rússia, a primeira cúpula de líderes. Antes disso, houve a tentativa, que acabou limitada a uma foto, de um encontro dos quatro, à margem da reunião do G-8 com alguns países em desenvolvimento, no Japão. Em 2010, ocorreu a Cúpula de Brasília, que quase não mereceu -atenção da mídia -brasileira, mas que motivou um documentário da tevê franco-alemã, a ARTE. E agora tivemos a Cúpula de Sanya, na China

E o que se nota ao longo desse processo? Primeiro, obviamente, a consolidação do grupo. Quando o Brasil propôs sediar a reunião do ano passado, a oferta foi aceita quase como um gesto de cortesia para com o presidente Lula, já que se tratava do final do seu mandato. Agora, sem que nada equivalente esteja ocorrendo, já se fixou a próxima cúpula para o ano que vem na Índia. Em suma, os líderes dos BRICS já não têm dúvidas sobre a importância de se reunir para discutir a cooperação entre eles e temas de interesse global, das finanças ao comércio, da energia à mudança do clima. Mais significativo, vencendo uma inibição que se fazia notar, sobretudo da parte da China, não hesitaram em tratar de questões relativas à paz e segurança internacionais. Em relação à Líbia, reafirmaram o desejo de encontrar uma solução “por meios pacíficos e pelo diálogo”. De forma mais geral, referindo-se ao Oriente Médio e à África, reafirmaram que o uso da força deve ser evitado. Como assinalou o comentarista do Financial Times, Gideon Rachman (embora eu discorde de sua análise das motivações), a intervenção anglo-franco-norte-americana na Líbia talvez seja o último hurrah! do que ele chama de intervencionismo liberal. Lembrando que Brasil, Índia, Rússia e China se abstiveram da resolução que autorizou “todas as medidas necessárias” para o estabelecimento da zona de exclusão aérea e a proteção da população civil, Rachman afirma que esses países, “as potências econômicas em ascensão”, são céticas sobre tal conceito. Aliás, se o Conselho voltar a reunir-se sobre o tema, é muito provável que a África do Sul, recém-ingressada nos BRICS e tendo de levar em conta posições mais recentes da União Africana, acompanhe seus novos companheiros de grupo. Isso deixaria a coalizão que apoiou o uso da força dependente de um único voto para qualquer nova ação que deseje tomar.

Bem… quais as consequências disso tudo? É que, com reforma ou sem reforma do Conselho de Segurança, já não será mais possível, por muito tempo, que um grupo de potências ocidentais decrete qual é a vontade da comunidade internacional. Da mesma forma que já não é possível para o G-7 (o G-8, do ponto de vista econômico, é uma ficção) ditar as regras que depois restaria ao FMI, ao Banco Mundial ou à OMC implementar. É evidente que, enquanto o Conselho da ONU não for efetivamente reformado, tudo será mais complicado e as grandes potências que emergiram vitoriosas da Segunda Guerra Mundial, especialmente os Estados Unidos, continuarão a barganhar apoios de Rússia e China, mediante concessões casuísticas, como fizeram por ocasião da adoção de sanções contra o Irã. Mas a tarefa será cada vez mais difícil. O surgimento dos BRICS no formato atual constitui uma verdadeira revolução no equilíbrio mundial, que se torna mais multipolar e mais democrático. Às vezes, as revoluções (refiro-me às verdadeiras, é claro) exigem tempo para se institucionalizarem. Mas isso acaba, inevitavelmente, ocorrendo.

Celso Amorim

Celso Amorim é ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula. Formado em 1965 pelo Instituto Rio Branco, fez pós-graduação em Relações Internacionais na Academia Diplomática de Viena, em 1967. Entre inúmeros outros cargos públicos, Amorim foi ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco entre 1993 e 1995. Depois, no governo Fernando Henrique, assumiu a Chefia da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e em seguida foi o chefe da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio. Em 2001, foi embaixador em Londres.