Posts Tagged ‘Capitalismo’

Os leitores se recordam dos anúncios patrocinados pelo governo Collor, quando o caçador de marajás iniciava o processo de entrega dos bens nacionais aos estrangeiros, em nome da modernidade. Os que defendiam o patrimônio público eram desdenhosamente identificados como dinossauros.

Mauro Santayana

Os leitores se recordam dos anúncios patrocinados pelo governo federal durante o mandato de Collor, quando o caçador de marajás iniciava o processo de entrega dos bens nacionais aos estrangeiros, em nome da modernidade. Os que defendiam o patrimônio público eram desdenhosamente identificados como dinossauros, ou seja, animais dos tempos jurássicos. Iniciou-se, com o confisco dos haveres bancários, o processo de desnacionalização da economia, sob o comando da senhora Zélia Cardoso de Melo e do economista Eduardo Modiano, nomeado presidente do BNDES com a missão de desmantelar o setor estatal e entregar suas empresas aos empreendedores privados que se associassem às multinacionais.

Naquela época publiquei artigo na Gazeta Mercantil, em que fazia a necessária distinção entre os dinossauros – uma espécie limpa, sólida, quase toda vegetariana – e os murídeos: camundongos, ratos e ratazanas.

É difícil entender como pessoas adultas, detentoras de títulos acadêmicos, alguns deles respeitáveis, puderam fazer análise tão grosseira do processo histórico. Mas eles sabiam o que estavam fazendo. Os economistas, sociólogos e políticos que se alinharam ao movimento neoliberal – excetuados os realmente parvos e inocentes úteis – fizeram das torções lógicas um meio de enriquecimento rápido.

Aproveitando-se dos equívocos e da corrupção ideológica dos quadros dirigentes dos países socialistas – que vinham de muito antes – os líderes euro-norte-americanos quiseram muito mais do que tinham, e resolveram recuperar a posição de seus antecessores durante o período de acumulação acelerada do capitalismo do século 19. Era o retorno ao velho liberalismo da exploração desapiedada dos trabalhadores, que havia provocado a reação dos movimentos operários em quase toda a Europa em 1848 (e animaram Marx e Engels a publicar seu Manifesto Comunista) e, logo depois, a epopéia rebelde da Comuna de Paris, com o martírio de milhares de trabalhadores franceses.

Embora a capitulação do Estado se tenha iniciado com Reagan e Thatcher, no início dos oitenta, o sinal para o assalto em arrastão veio com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989 – coincidindo com a vitória de Collor nas eleições brasileiras. Não se contentaram os vitoriosos em assaltar os cofres públicos e em exercer a prodigalidade em benefício de seus associados do mercado financeiro. A arrogância e a insolência, nas manifestações de desprezo para com os pobres, que, a seu juízo, deviam ser excluídos da sociedade econômica, roçavam a abjeção. Em reunião realizada então na Califórnia, cogitou-se, pura e simplesmente, de se eliminarem quatro quintos da população mundial, sob o argumento de que as máquinas poderiam facilmente substituir os proletários, para que os 20% restantes pudessem usufruir de todos recursos naturais do planeta.

Os intelectuais humanistas – e mesmo os não tão humanistas, mas dotados de pensamento lógico-crítico – alertaram que isso seria impossível e que a moda neoliberal, com a globalização exacerbada da economia, conduziria ao malogro. E as coisas se complicaram, logo nos primeiros anos, com a ascensão descontrolada dos administradores profissionais – os chamados executivos, que, não pertencendo às famílias dos acionistas tradicionais, nem aos velhos quadros das empresas, atuavam com o espírito de assaltantes. Ao mesmo tempo, os bancos passaram a controlar o capital dos grandes conglomerados industriais.

Os “executivos”, dissociados do espírito e da cultura das empresas produtivas, só pensavam em enriquecer-se rapidamente, mediante as fraudes. É de estarrecer ouvir homens como George Soros, Klaus Schwab e outros, outrora defensores ferozes da liberdade do mercado financeiro e dos instrumentos da pirataria, como os paraísos fiscais, pregar a reforma do sistema e denunciar a exacerbada desigualdade social no mundo como uma das causas da crise atual do capitalismo.

Isso sem falar nos falsos repentiti nacionais que, em suas “análises” econômicas e políticas, nos grandes meios de comunicação, começam a identificar a desigualdade excessiva como séria ameaça ao capitalismo, ou seja, aos lucros. Quando se trata de jornalistas econômicos e políticos, a ignorância costuma ser companheira do oportunismo. Da mesma maneira que louvavam as privatizações e a “reengenharia” das empresas que “enxugavam” as folhas de pagamento, colocando os trabalhadores na rua, e aplaudiam os arrochos fiscais, em detrimento dos serviços essenciais do Estado, como a saúde, a educação e a segurança, sem falar na previdência, admitem agora os excessos do capitalismo neoliberal e financeiro, e aceitam a intervenção do Estado, para salvar o sistema.

Disso tudo nós sabíamos, e anunciamos o desastre que viria. Mas foi preciso que dezenas de milhares morressem nas guerras do Oriente Médio, na Eurásia, e na África, e que certos banqueiros fossem para a cadeia, como Madoff, e que o desemprego assolasse os países ricos, para que esses senhores vissem o óbvio. Na Espanha há hoje um milhão e meio de famílias nas quais todos os seus membros estão desempregados.

Não nos enganemos. Eles pretendem apenas ganhar tempo e voltar a impedir que o Estado volte ao seu papel histórico. Mas o momento é importante para que os cidadãos se mobilizem, e aproveitem esse recuo estratégico do sistema, a fim de recuperar para o Estado a direção das sociedades nacionais, e reocupar, com o povo, os parlamentos e o poder executivo, ali onde os banqueiros continuam mandando.

 

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

 

MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra

Para a Via Campesina. as crises alimentares, financeiras e climáticas globais ocasionaram um aperto entre investidores e governos ricos por adquirir e apropriar-se de terras e recursos naturais.

Leia declaração final da conferência dos movimentos da Via Campesina, realizada entre 17 a 19 de novembro de 2011, em Nyeleni.

Declaração da Conferência : Parar a usurpação de terras, Já!

Nós, camponeses e camponesas, pastores, povos indígenas e nossos aliados reunidos em Nyeleni de 17 a 19 de Novembro de 2011, viemos de todos os cantos do mundo para partilhar, pela primeira vez, nossas experiências de luta contra a usurpação de terras.

Há um ano atrás apoiamos o Apelo de Kolongo das organizações camponesas de Mali que foram lideres na organização da resistência local contra apropriação de terras camponesas em África. Viemos agora a Nyeleni em resposta ao Apelo de Dakar, que convoca a criação de uma aliança global contra a usurpação de terras, pois estamos decididos a defender a soberania alimentar, os bens comuns e o direito aos recursos naturais dos/as produtores/as de alimentos em pequena escala.

No Mali, o governo comprometeu- se a entregar 800 mil hectares de terra a investidores empresariais. Trata- se de terras que têm pertencido às comunidades durante gerações, inclusive séculos, enquanto o Estado do Mali existe desde apenas os anos 1960. esta situação se verifica em muitos outros paises onde os direitos consuetudinários não são reconhecidos. Despojar as comunidades de suas terras é uma violação de seus direitos históricos.

O acesso seguro e o controle da terra e os recursos naturais estão estreitamente ligados ao usufruto dos direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos- e em outros tratados regionais e internacionais- tais como o direito à livre-determinação, o direito a um padrão adequado de vida, à moradia, à alimentação, à saúde, à cultura, à propriedade e à participação.

Constatamos com grande preocupação que os Estados não estão cumprindo com as suas obrigações a este respeito e colocam os interesses de negócios por cima dos interesses dos povos.

A usurpação de terras é um fenômeno global promovido pelas elites e os investidores locais, nacionais e transnacionais, bem como pelos governos, com o objetivo de controlar os recursos mais valiosos do planeta. As crises alimentares, financeiras e climáticas globais ocasionaram um aperto entre investidores e governos ricos por adquirir e apropriar- se de terras e recursos naturais já que estes são os únicos portos a salvo que restam para garantir rendimentos financeiros. Os fundos de pensões e outros fundos de investimento transformaram- se em poderosos actores na usurpação de terras, ao mesmo tempo que continua havendo guerras pela apropriação do controle das riquezas naturais.

O Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento estão facilitando a usurpação de terras e da água ao promoverem políticas e leis convenientes às corporações empresariais, ao facilitarem o acesso a capital e garantias para os investidores e ao fomentarem um modelo de desenvolvimento econômico extrativo e destrutivo. O Banco Mundial, o FIDA, a FAO e a Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento propuseram sete princípios que legitimam a usurpação de de terras por parte de empresas comerciais e estados investidores. Dirigida por várias das maiores corporações transnacionais, a Aliança pela Revolução Verde na África visa a transformar a agricultura camponesa em agricultura industrial e a integrar os/as camponeses/as às cadeias globais de valor assim aumentando em grande medida sua vulnerabilidade ao despojo de terras.

A usurpação de terras vai além das estruturas imperialistas tradicionais Norte- Sul; as corporações transnacionais podem ter suas sedes nos Estados Unidos, Europa, Chile, México, Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Tailândia, Malásia e Coréia do Sul, entre outros países.

As terras estão sendo açambarcadas na Ásia, África, Américas e Europa para a agricultura industrial, as plantações de árvores, a mineração, os projetos de infraestruturas, as represas, o turismo, os parques naturais, a indústria, a expansão urbana e as finalidades militares. Povos indígenas e minorias étnicas estão sendo expulsas de seus territórios por forças armadas, aumentando sua vulnerabilidade e em alguns casos inclusive resultando em sua escravização. As falsas soluções de mercado à mudança climática estão criando novas formas de alienar as comunidades locais de suas terras e recursos naturais.

Apesar de as mulheres produzirem a grande maioria dos alimentos no mundo e de serem responsáveis pelo bem- estar familiar e comunitário, as estruturas patriarcais existentes continuam provocando que elas sejam despossuidas das terras que cultivam e de seu direito aos recursos. Levando em consideração que a maioria das camponesas não têm direitos à terra garantidos e legalmente reconhecidos, estão particularmente expostas a sofrer despejos.

A luta contra a usurpação de terras é uma luta contra o capitalismo, o neoliberalismo e contra um modelo econômico destrutivo. Os testemunhos de nossas irmãs e irmãos da África do Sul, Brasil, Burkina Fasó, Colômbia, França, Gana, Guatemala, Guiné Bissau, Honduras, Índia, Indonésia, Mali, Mauritânia, Moçambique, Nepal, Níger, República Democrática do Congo, Senegal, Tailândia e Uganda nos mostraram como a usurpação de terras ameaça a agricultura familiar em pequena escala, a natureza, o meio ambiente e a soberania alimentar. A usurpação de terras desloca e espalha as comunidades, destrói as economias locais e o tecido sócio- cultural e coloca em perigo as identidades das comunidades, sejam de camponeses/as, pastores/as, pescadores/as artesanais, trabalhadores/as, dalits ou povos indígenas.

Aqueles que se erguem para defender seus direitos estão sendo espancados, presos e assassinados. Não há forma de mitigar os impactos deste modelo econômico e as estruturas de poder que o promovem. Nossas terras não estão à venda nem para serem arrendadas.

Mas não estamos vencidos. Através da organização, a mobilização e a unidade em nossas comunidades, fomos capazes de deter a usurpação em muitos lugares. Além disso, nossas sociedades reconhecem cada vez mais que a agricultura familiar e a produção de alimentos em pequena escala é o modelo mais sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental de usar recursos e garantir o direito à alimentação para todos/as.

Lembrando o apelo de Dakar, reiteramos nosso compromisso a resistir ao açambarcamento de terras com todos os meios possíveis, a apoiar a todos aqueles e aquelas que lutam contra as usurpações de terra e a exercer pressão sobre os governos nacionais e as instituições internacionais para que cumpram suas obrigações com os direitos dos povos. Comprometemo-nos especificamente a:

-Organizar as comunidades rurais e urbanas contra todas as formas de usurpação de terras.

-Fortalecer as capacidades de nossas comunidades e movimentos para reclamar e defender nossos direitos, terras e recursos.

-Reclamar e garantir os direitos das mulheres em nossas comunidades à terra e aos recursos naturais.

-Conscientizar a opinião pública sobre como a usurpação de terras está causando uma crise para a sociedade.

-Construir alianças entre diferentes sectores e regiões, e mobilizar nossas sociedades para parar a usurpação de terras.

-Fortalecer nossos movimentos para conseguir e promover a soberania alimentar e uma autêntica reforma agrária.

Para realizar estes compromissos, vamos desenvolver as seguintes acções:

-Quanto à capacitação para organizar a resistência local:

• Informar nossas comunidades das discussões e compromissos desta Conferência.

• Construir nossas próprias fontes de informação sobre a usurpação de terras por meio de documentação de casos, compilação de informação relevante e de provas sobre processos, actores, impactos de açambarcamento de terras.

• Garantir que nossas comunidades recebam a informação que precisam quanto a seus direitos, as leis, as empresas, os contratos, etc., de maneira que possam resistir mais efetivamente aos investidores e os governos que tratem de despossui-las de suas terras.

• Estabelecer sistemas de alerta antecipada para prevenir as comunidades sobre os riscos e ameaças.

• Fortalecer nossas comunidades através da formação política e técnica, e recuperar nosso orgulho de ser produtores/as e fornecedores/as de alimentos especialmente entre os jovens.

• Promover os direitos das mulheres à terra e aos recursos naturais conscientizando nossas comunidades e movimentos sobre a importância de respeitar e proteger os direitos das mulheres à terra especialmente em sistemas consuetudinários de posse.

• Desenvolver e usar os meios de comunicação locais para organizar os membros de nossas comunidades e de outras, e compartir com eles informação sobre a conçentração de terras.

• Fazer que nossos dirigentes cumpram as normas estabelecidas por nossas comunidades e os obrigar a que prestem contas diante de nós, nossas comunidades e organizações.

-Quanto ao utilização da assistência jurídica em nossa defesa:

• Desenvolver nossos próprios sistemas de assistência jurídica e colaborar com expertos jurídicos e em direitos humanos

• Rejeitar todas as formas de violência e criminalização de nossas lutas e mobilizações pela defesa de nosso direitos.

• Trabalhar pela liberação imediata de todas as pessoas presas por causa de suas lutas em defesa das terras e dos territórios; realizar urgentemente campanhas de solidariedade com todas as pessoas vítimas de conflitos.

-Quanto à advocacia e à mobilização:

• Institucionalizar o dia 17 de abril como o dia global da mobilização contra a usurpação de terras; identificar outras datas adicionais de mobilização para defender a terra e os bens comuns.

• Elaborar nossos argumentos políticos para pôr em evidência e desacreditar o modelo econômico que fomenta a usurpação de terras, bem como os diferentes actores e iniciativas que o promovem e o tentam legitimar.

• Estabelecer um Observatório Popular sobre açambarcamento de terras para facilitar a compilação de informações, comunicações, planos de ação, advocacia, pesquisa e análise.

• Promover os direitos das mulheres através de programas de redistribuição específicos para mulheres e outras medidas. Promover leis e políticas que respondam às necessidades das mulheres.

• Construir alianças estratégicas com a imprensa e os meios de comunicação.

• Levar nossas mensagens e reivindicações a nossos deputados, governos e instituições internacionais. Continuar envolvidos no Comitê de Segurança Alimentar Mundial e exigir que seus processos, como o das Diretrizes da FAO sobre governança da terra, a pesca e as florestas contribuam realmente a proteger e promover os direitos à terra e os recursos naturais dos/as fornecedores/as de alimentos em pequena escala.

• Identificar e enfatizar em nível local, nacional e internacional os espaços para a acção, a mobilização e a construção de uma ampla resistência social á usurpação de terras.

• Planear acções de protesto contra corporações (incluindo corporações financeiras), o Banco Mundial e outros bancos multilaterais de desenvolvimento que se beneficiam e incentivam a usurpação de terras e recursos naturais. Manter oposição aos esquemas de auto-regulação do sector privado tais como os princípios RAI do Banco Mundial.

• Expandir e fortalecer nossas ações para conseguir e promover a soberania alimentar e uma autêntica reforma agrária, o reconhecimento dos sistemas consuetudinários sempre que salvaguardem os direitos das mulheres e a realização dos direitos dos/as jovens à terra e aos recursos naturais.

• Apoiar o controle dos povos de seus recursos naturais através de ocupações de terras, ocupações das empresas e corporações investidoras, protestos e outras acções de mobilização de massas para reclamar seus bens comuns.

• Exigir a nossos governos que cumpram com suas obrigações de direitos humanos, que cessem imediatamente a transferência de terras e recursos naturais a investidores empresariais, que cancele os contratos realizados, restituam as terras saqueadas e protejam as comunidades rurais e urbanas da usurpação actual e qualquer açambarcamento que vier a ocorrer.

-Quanto à construção de alianças:

• Construir redes e alianças fortes de organizações em todos os níveis- local, regional e internacional- com base no Apelo de Dakar e colocando os/as produtores/as e fornecedores/as de alimentos no centro das alianças.

• Forjar alianças com membros dos fundos de pensões para evitar que estes fundos invistam em projetos que resultem em usurpação de terras.

• Estabelecer alianças estratégicas com a imprensa e os meios para que transmitam fielmente nossas mensagens e realidades. Refutar os preconceitos difundidos pela imprensa dominante a respeito da luta pela terra e a reforma agrária em Zimbabwe.

Fazemos um apelo a todas aquelas organizações comprometidas com estes princípios e acções para que se unam a nossa Aliança Global contra a Usurpação de Terras que hoje de forma solene lançamos aqui em Nyeleni.

Globalizemos a luta! Globalizemos a esperança!

Nyeleni, 19 de Novembro de 2011
Publicado originalmente em  ronaldo – livreiro

Nota de Falecimento

por Joao Carlos Caribe, sexta, 22 de julho de 2011 às 10:59

Acaba de falecer o CAPITALISMO!

 

Rituais de magia branca de olhos azuis e amarela de olhos puxados ainda tentarão dar sobrevida ao defunto inutllmente. Seus comparsas da mídia golpista tentarão ocultar o cadáver, mas a sociedade conectada, o quinto poder, irá mostrar a todos onde esta o corpo fétido.

O establishment irá negar enfáticamente sua culpa no assassinato:

– Foram os emergentes!

– Foram os emergentes!

Eles dirão na mais manjada estratégia Maquiavélica, afinal o Inferno são os outros, ja dizia Sartre.

Seus orfãos, os Bancos e Mega Corporações, irão tentar, através do legado da privataria promovida pelo neoliberalismo, instalar o “neocolonialismo“, tentando extrair vorazmente da “turma de baixo” suas riquezas. Entretanto o povo de baixo já não é mais tão subserviente ao império e a queda 2.0 da nobreza colocará o mundo de cabeça para baixo.

O capitalismo cognitivo, onde as pessoas(e não o dinheiro) são o centro, vazará de baixo para cima, trocando o “sistema operacional” da sociedade como profetizou Rushkoff e veremos uma profunda e gratificante mudança na sociedade, onde o pensar e agir coletivo é a normalidade como bem diz Shirky.

A nota acima foi inspirada pelo infográfico da divida americana, que mostra a divida total de 114,5 trilhões de dolares. Segundo o infográfico, um cidadão médio levaria 92 anos para acumular U$ 1 milhão, logo seriam necessário que 114.500.000 de americanos trabalhem a vida toda para pagar a dívida. Como a estimativa de vida do Americano está em 78 anos, uma regra de três simples nos leva ao número de 135.051.282 cidadãos, o que equivale a quase 44% da população Americana. Some-se a isto a crise que assola a Europa, onde a dívida impagável da Grécia é apenas a ponta do Iceberg e veremos um quadro dantesco.

 

Thomas Greco em seu livro “The End of Money and the Future of Civillization” já preconizava isto, afinal o capitalismo vive de endividamento, somos todos endividados e não prósperos, estamos sempre trocando de dívidas e isto leva a um ponto onde o endividamento se torna uma escala logarítmica que tende ao infinito, promovendo uma verdadeiro “stall”.

Então prepare-se vamos entrar em uma grande turbulência, a aeronave vai cair, mas muitos sobreviverão…

https://www.facebook.com/notes/joao-carlos-caribe/nota-de-falecimento/10150320520172386?notif_t=note_reply

Texto publicado originalmente em italiano, cuja tradução é fruto da nossa vontade de propiciar aos que nos visitam neste blog o acesso ao pensar, ao refletir sobre as verdades prontas, tantas vezes repetidas, e por tantas pessoas e meios de comunicação, que as naturalizamos. Tantos quantos encontramos nas festas, nos barzinhos, nas casas, colégios, rádios, TV’s e igrejas dizem: é assim.

Será mesmo que estamos condenados e engolir verdades prontas, produzidas por quem tem o controle da sociedade, do Poder, naturalizadas como única versão dos fatos? Eu quero pensar, formar minhas prórpia opinião e convido você à fazer o mesmo. Se quizer…

Boa leitura!

Ah! Publicamos tambem o texto original, em italiano, logo abaixo. Aceitaremos felizes correções que melhorem a nossa tradução. Muito obrigado.

 

 

Em um belo artigo de Carlos Didier e Lebert Vercellone [1] corretamente afirmam que “o capitalismo cognitivo e do capitalismo mafioso” estão intimamente ligados. No mesmo artigo, há uma distinção entre “capitalismo mafioso” e “formas tradicionais de crime”, enquanto os últimos são destinados ao “consumo” (MAM), o capitalismo máfia é caracterizada pela lógica da circulação do dinheiro como capital.

O capitalismo é sempre um pouco mafioso “. Seus modos diferentes (curto-circuito do capital financeiro, a rede de longa do capital mercantil e capital produtivo), na verdade ocultam a natureza estrutural do capitalismo, cujos mecanismos de acumulação sempre contem os métodos de acumulação “primitiva”.

O capitalismo em geral é, portanto, estruturalmente relacionados com o capital da máfia criminosa como a economia é apenas a periferia. A força ea ilegalidade não têm lugar no lado da máfia da distribuição, mas no processo de acumulação (primitivo). O capitalismo cognitivo é caracterizado pela sua necessidade de atualizar continuamente a acumulação primitiva: a arbitrariedade da força e da lei que aparecem como duas faces da violência da mesma moeda. Enquanto o capitalismo industrial tenta construir a sua lei “negar” as suas origens “máfia” (isto é, esquecendo-se e fazê-los esquecer a violência da acumulação “primitiva”, relegando-a, de fato, as “origens”), capitalismo cognitivo, como tal, é sempre : mafioso. Ou seja, no capitalismo cognitivo, a tomada violenta do município deve ser continuamente renovado e não aparecem como “primitivo” como um episódio perdido em um “passado remoto” não vale a pena lembrar. Nós gostaríamos de usar o breve ensaio de Lebert e Vercellone para, em primeiro lugar, analisar a evolução e as principais mudanças da guerra “do Rio de Janeiro e, em segundo lugar, voltar a essas suposições do ensaio dinâmico do Brasil.

2. O “violento build-up, que nunca conseguiu ser” primitivo “.

Como Aglietta e Orléan lembre-se, o capitalismo em geral está diretamente ligado ao poder: o dinheiro sempre contém uma certa quantidade – e os fundadores originais – de violência. Quando olhamos para essa relação incestuosa entre a violência e a capital do Brasil, e particularmente da metrópole do Rio de Janeiro, parece possível dizer que a transição do capitalismo industrial Mafia (“desenvolvimento”) para um tipo de “cognitivo” é feita em um situação que nunca foi capaz de separar claramente o acúmulo Máfia do capitalismo “puro”, ou seja, o Brasil nunca conseguiu transformar a apropriação colonial e da máfia de “acumulação primitiva”. Como dissemos, se o mecanismo no capitalismo cognitivo (desenvolvimento) cronológico que faz com que a violência remoto e limitada do capitalismo (industrial) não funciona mais, no Brasil, nunca funcionou: o desenvolvimento nunca foi capaz de redimir o pecado original de “acumulação primitiva. Para isso, podemos dizer que essa transformação é evidente na periferia do mundo, ou seja, a relação entre a acumulação industrial e de acumulação primitiva nunca foi organizada em tempo cronológico do desenvolvimento (capitalista). Ou seja, quando mudamos de perspectiva e nos afastamos do centro (norte do mundo industrializado e cognitiva) para a periferia (o Sul, que se torna cognitiva sem nunca ter sido plenamente desenvolvido) a análise do capitalismo cognitivo e sua máfia alterar as dimensões.

 Primeiro, porque a novidade já não é apenas na relação entre o capitalismo e a máfia capitalismo cognitivo, mas na dimensão temporal dessa relação: não se recusou no passado, mas o futuro. Capitalismo Mafia é renovada hoje, através da modernização e não através da manutenção do arco. Segundo, porque a mudança dinâmica deste deslocamento é o de “déconnexion”, mas que a inclusão em geral e, sim, “forçada”. É uma fronteira nova que realmente estamos falando. A “guerra do Rio e suas transformações (as suas “batalhas “mais recentes) indicam um processo de” conexão “, mesmo que essa” inclusão “é um novo tipo: não mais de homogeneização pela indústria, mas o infinito modulação de fragmentos heterogêneos na circulação da produção, que encontra seu lugar privilegiado na metrópole.

Um aparte: quando falamos de guerra, nós não somos radicais simbolicamente uma situação de violência civil, mas falamos sobre uma dura realidade. Para falar apenas do Rio de Janeiro, segundo dados oficiais, apesar de uma queda acentuada, o número de assassinatos (entre abril 2009 e abril de 2010) foi de 3,615 (no período anterior, 4252). Esta é uma das maiores taxas de homicídio do mundo. Aproximadamente um terço destas mortes está diretamente ligada à polícia: em 2009, diferentes forças policiais do Estado do Rio de Janeiro, mataram 1040 pessoas, ou seja, a polícia do Rio mata cerca de três pessoas por dia [2]!

3. A batalha “do Alemão”.

 Um episódio recente nos dá uma idéia da não-violência (o que é novo), mas a aceleração das mudanças em toda a “guerra do Rio de Janeiro.” [3] Em 25 de novembro de 2010 [4], cerca de 600 homens da polícia do estado do Rio, apoiados por seis carros blindados das tropas de desembarque da Marinha, invadiram a favela Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio de Janeiro (a “dois passos” – é precisamente o caso de dizê-lo – do estádio de futebol Maracanã e uma das principais universidades do Rio de Janeiro, a UERJ), com um pouco ‘menos de 20.000 habitantes. As TVs ao vivo mostraram a fuga desesperada de cerca de 200 jovens narcotraficantes (descalços, de calções e troncos nus e desorganizados, armados com metralhadoras), ao longo de uma estrada de terra que leva a um conjunto conhecido como uma favela do Complexo do Alemão, no outro lado do morro, habitada por cerca de 100.000 pessoas.

Em 28 de novembro, após dois dias de cerco, um contingente de 2.800 homens (incluindo a polícia, exército e marinha), apoiados por 27 veículos blindados e seis helicópteros, lançou seu ataque sobre o “Complexo do Alemão”, onde as estimativas da polícia e a impressão de imagens indicam a presença de 600 narco-traficantes armados e reforçados. Desta vez, os helicópteros de televisão não estão autorizados a voar. Poucas horas depois do ataque, as forças de “libertação” içaram a bandeira nacional no Complexo para simbolizar a “vitória” como (re) conquista de um território. O antropólogo disse: “Para içar a bandeira nacional no topo do morro (favela) simboliza a conquista desta vasta nação ao espaço” [5]. A imprensa fala de ocupação sangrenta: “Ao contrário do que se temia, o derramamento de sangue não ocorreu” [6]. O número de mortes permanece indeterminada (algumas estimativas falam de 50 mortes) [7]. Se contarmos as prisões e fugas (muitos agradecimentos à corrupção) são mais de 400 jovens narco-traficantes que estão faltando: desapareceram por entre os dedos de todos os aparelhos da polícia e do exército.

O jornalista Plínio Fraga, da Folha de São Paulo, escreveu: “(embora muitos traficantes) fugiram, contas sobre aqueles que morreram sem os corpos pareciam ser repetidas” e transcreve a história de Celso de Sousa Campos, disse Binh , líder da favela, “Uma mãe me disse que ela foi buscar o corpo do filho na floresta e viu outros dois corpos, que os porcos comiam.” [8]
4.As novas batalhas da guerra no Rio de Janeiro.

 O “dell’Alemão Battle” é um episódio (e apenas um dos muitos que já tiveram lugar, mesmo durante a ocupação, e que são anunciadas!) Do processo de transformação da “guerra do Rio de Janeiro” no curso de últimos 10 ou 15 anos. Uma transformação e aceleração induzida e dramatizada pelos “mega-eventos” que o prestígio internacional do governo Lula “deu” para a cidade do Rio: as Forças Armadas Olimpíadas (em 2011), a cúpula do clima global (Rio + 20) em 2012, a final da Copa do Mundo (em 2014) e depois dos Jogos Olímpicos em 2016. As batalhas em curso apontam para a transformação da relação entre violência e capitalismo. Na medida em que a visibilidade da relação entre a acumulação de capital, “primitivas” não é novidade no Brasil (e ainda menos no Rio) “novas batalhas” são o teatro de uma outra transformação.

Enquanto a visão tradicional seria capaz de transformar a acumulação primitiva (isto é, consolidá-lo como um evento remotos e esquecidos e espalhá-lo nos processos de acumulação industrial moderno) em uma batalha da legalidade (desenvolvimento) contra o comércio ilegal (em desenvolvimento), hoje nessa luta o horizonte torna-se uma guerra permanente que opõe duas formas – mas específicos espelhos – do capitalismo cognitivo para controle do processo de mobilização das áreas produtivas e as dinâmicas de “inclusão” que o caracterizam. Neste conflito, é a distinção entre “cognitivo” e “máfia” que desaparece à medida que desaparecem as linhas (que no Brasil sempre foram muito instáveis), separação entre a polícia e militares, entre o dentro e o fora, entre o Estado de direito e estado de exceção. [9] As batalhas atuais opoem-se à acumulação do capitalismo cognitivo permanente máfia brasileira, também, trabalha por meio da apropriação da máfia da cidade produzido pela multidão dos pobres na metrópole.

No Brasil, a acumulação capitalista se mistura a máfia de acumulação, incluindo o surgimento do capital da máfia cognitiva e a evolução do capitalismo cognitivo máfia: o território para conquistar é o que a sociologia da eleição “período de Lula” chamada “classe C” (o novo ” “classe média) e é realmente feita a partir do número de mobilizados pobres, democrática e produtiva durante o governo Lula.

5.Periodizzazione: as três grandes guerras do Rio de Janeiro.

Com uma certa dose de simplificação e esquemática, podemos dividir a relação entre capitalismo e criminalidade, bem como entre o capitalismo e o capitalismo Mafia no Brasil após a Segunda Guerra Mundial (tendo a cidade do Rio de Janeiro como referência) em três grandes períodos, todos caracterizados por presença sempre descontada a relação entre a acumulação primitiva e outras formas de cobrança.

1.A primeira fase vai da década de 50 para 70.

“Máfia” O capitalismo é renovado através da ligação para a emergência do capitalismo, da terra urbana e habitação hibridizadas com as formas tradicionais de fazendas de escravos nativos da máfia (o “Coronel” nos romances de Jorge Amado).

2.O segundo período, que é o que diz na década de 80:

As atividades, da máfia, tradicionais se sobrepõem àqueles de uma droga que – militarizando – irá desenvolver suas atividades em detalhe alistar jovens que trabalham com ela como má e armazena os territórios das favelas .

3.O terceiro período começa nos anos 90.

Com a estabilização da globalização neo-liberal em entrar na onda das privatizações brasileiras. O controle do valor económico do território de mudança e emerge como uma nova forma de capitalismo, mafia, ligado ao fenómeno de “milícias” cognitiva.

6.Primeiro período: a acumulação primitiva do campo para a cidade.

Como dissemos, as transferências do êxodo rural – entre os anos 50 e 70 – a violência da escravidão, novas relações sociais do campo para as cidades. Ao mesmo tempo, a violência foi transformada: o conflito agrário pela posse da terra (que de desconto – e continua a fazê-lo – a dimensão da acumulação primitiva colonial continuamente renovada e modernizada) foi passada para a violência da acumulação de terra, principal vetor de expansão da cidade subterrânea. O capitalismo rentista foi organizado e ampliado a partir de processos de gigantesca e caótica de apropriação privada de terras públicas com base na absoluta promiscuidade entre o capital imobiliário público e real.

A propriedade passou do campo para a cidade e a renovar a acumulação primitiva. A fronteira entre o arcaico eo moderno, legal e ilegal de dinheiro, e a violência se nunca disse. O modelo arcaico de soberania (o poder de “matar e deixar viver”) e do setor industrial da disciplina dos corpos, como Foucault, disse, sem se substituir sobrepõem e formam um híbrido em que o moderno não é dominado pelo arcaico e antecipa a pós-moderna . A mistura de legalidade e ilegalidade é constitutiva de uma moeda que é mantida coberta de sangue. A acumulação primitiva é atualizada continuamente. Essas dimensões “arcaico” e neo-escravidão que o desenvolvimento econômico eram para empurrar sua “franja” movimento social e político, em vez maciçamente para as cidades, ou seja, em direção a um “centro” na periferização ao mesmo tempo. Deslocalização das zonas rurais para urbanas, a acumulação primitiva é modernizada, mas continua o seu curso: legais e ilegais, formais e informais, contratos de Guerra e formam um casal sólido e leal.

Na medida em que o contrato social parece ser o direito interno de cada sociedade, em ambos os seus legítimos ou ilegítimos, Althusser foi perguntado: “Como é que é uma forma ilegítima (normal) é reconstruída de forma legítima” [10]. Não por acaso, Althusser desenvolve essas reflexões através de uma revisão da teoria marxista da acumulação primitiva e afirma que “encontros casuais” entre o homem do dinheiro e da classe operária “não se limitam ao século XIV Inglês”. A acumulação primitiva ocorre todos os dias e “não só nos países do terceiro mundo que são o melhor exemplo.” Para Althusser, é um processo “contínuo, que inscreve o acaso no coração da sobrevivência e do reforço do” modo de produção “capitalista” (ibid. 587). No Brasil, a mobilização das massas (o êxodo rural) ea sua inclusão na relação dos salários não coincidem. Nas palavras de Althusser, “a produção do proletariado” não coincide necessariamente com a sua “reprodução ampliada por parte do capitalismo industrial” (ibid.). A revolução das massas, e não necessariamente a função de acumulação industrial burguesa. O êxodo rural no Brasil é uma linha de voo, quer seja pessoal, biopolítica, dos pobres. Somente através da sua hibridação, o bloqueio de biopoder foi capaz de controlá-lo.

A gestão da máfia da terra, das propriedades agrícolas a especulação da terra urbana, era, portanto, mantida firmemente nas mãos do aparelho repressivo do Estado e do seu funcionamento por meio de “outsourcing” de neoschiavistico tipo: a polícia continuará a operar da mesma forma que o caçador de escravos fugitivos, o “Capitão do Mato”. [11] Por último, acumulando toda a dinâmica de imóveis neste período, a estrutura de controle territorial de tipo mafioso também é organizado em torno do jogo de azar ilegal conhecida como Jogo do Bicho.

Os vários clãs (os “banqueiros” do “Bicho”) compartilham a área metropolitana e algumas vezes conflitantes entre si, com base em tentativas ou “vácuo de poder” hegemônico para abrir as fases de sucessão. Neste caso, a corrupção é “clássico” direta “notáveis”, quer de dentro do aparelho estatal ou não. Nesta fase, a economia ilegal (e do crime) é desenvolvido à margem da sociedade (os pobres) e a cidade (a apropriação e controle de suas terras  e expansão violenta). A estrutura territorial da Máfia e “clã” do “Jogo do Bicho” aparece explicitamente no relatório, “caridade” que estabelecem e controlam o carnaval. Por um lado, o Carnaval é oficialmente organizada e ao estilo de um campeonato de futebol, por outro lado, o desfile das escolas de samba, torna-se o momento – até hoje – o estado e o Clã de “Bicho” literalmente  a andar de mãos dadas em Sambódromo.

7.Segundo tempo: a acumulação primitiva de uma biopolítica em nova fronteira.

Nos anos 80, o êxodo rural já teve lugar, a economia ficou estagnada a renda e a expansão urbana têm construído a sua dinâmica, mas a acumulação primitiva é estável e  parte para uma nova direção fronteira, a biopolítica. A exclusão de um grande número de pobres (que vivem nas favelas e “muitos” dos subúrbios de maneira  ilegal informal) perder o horizonte da inclusão (que era para gerar crescimento através da integração em relação salarial). A pressão social é enorme. Este é o período das grandes greves do ABC Paulista, os distúrbios no centro do Rio, os saques de supermercados. Aqui começam a crescer e desenvolver as vendas no varejo das drogas, será a reorganização do bloco de terra do biopoder. Suas iniciais são de três mecanismos: (i) acesso fácil ao atacado (grande quantidade de droga em trânsito da América Andes, na direção da Europa e os EUA), (ii) reservatório infinito de mão de obra para os jovens ( não incluído) fácil de recrutar para a organização de varejo, (iii) a transformação das favelas em “pontos de venda” guarnições militares.

Em relação a estes três mecanismos, eles se envolveram com os outros três: (a) Todas as vendas a retalho passam por um processo de concentração que conduziu à criação de organizações de tráfico de droga principais (Comandos) que compartilham (e também o espaço raia), a cidade, ou através de negociação para as operações reais da guerra [12], (b) As receitas provenientes da venda de drogas são divididas – dependendo dos pontos centrais de venda (o controle de um território: uma ou mais favelas) – diretamente com o tráfego cada vez mais pesadas e numerosas armas, (c) a polícia (com seus dois órgãos de segurança pública no estado  – Policia Militar, Policia Civil e – agindo livremente, ou seja, com plenos direitos sobre a vida e a propriedade dos pobres: a polícia do Rio “mata” oficialmente ao menos três pessoas por dia) controla o tráfico de drogas de fora, mas ao mesmo tempo, determina o ritmo e a diversificação das atividades. Portanto, assistimos a um processo de desterritorialização e reterritorialização do narcotráfico através de quatro planos principais: (i) a necessidade de acumulação de capital inicial, para permitir a compra de grandes quantidades de droga articular atividades de seqüestros, roubos e pontos emprego Commandos venda de “concorrentes” (II) determinada por tirar a pressão por parte da polícia (o que ocorre com a pressão de base em seqüestros, assassinatos, invasões), da grande parte das receitas do ponto de venda (“Boca de fumo de”) implica uma vez mais a diversificação das actividades ilegais e criminosas (seqüestro, furto, roubo, etc.) fora do ponto de venda, (iii) o tráfego de armas pesadas, alimentado pela corrupção policial, tanto como fonte de lucro, seja direto interesse ou apoio indireto de um comando contra outro ou para lhe permitir mais geral de actividades criminosas, (iv) o desenvolvimento progressivo do uso de drogas pela população pobre da favela acaba de determinar a proliferação de atividades criminosas desorganizada (mas ligada) para para garantir a solvência dos consumidores pobres (sabendo que o custo da dívida insolvente de vida). Nesta fase, o capital da máfia é dividido ao longo da economia do crime, por um lado, o narcotráfico e o aparato repressivo e diferentes atacadistas internacionais do Estado, com as vendas no varejo contratados para os pobres: o ciclo D é a droga D-?????¢- Armas-D ¢.

8. O fordismo narco-tráfico, sem Ford.

Nossa tese é que o período de venda a retalho do narcotráfico (o que você está a esgotar-se diante de nossos olhos, a batalha um outro entre um novo tipo de guerra), no Rio de Janeiro foi a massa fordista. Para colocá-lo melhor, era a expressão de uma relação com o tipo de Ford, mas sem fordismo. Claro, era um fordismo inexistente, mas ainda assim um fordismo que trabalhou para a sua própria ausência. Por um lado, a difusão do tráfico de drogas nas favelas permitiu que quase todos tipos de biopoder para bloquear o exercício do poder soberano do tipo arcaico, um poder de morte sobre a vida dos pobres, que já trabalhou (e ainda faz) como um controle biopolítico caro e terrível, que transforma os jovens pobres de cor em Homo Sacer: matá-los, mas não dispensáveis (como lembra o Pasolini). Em segundo lugar, o narcotráfico, embora não constitua um contador, mas nunca por causa das características permanentes de seu trabalho nas favelas, participou – ainda que muito indirectamente – com o tipo (mínimo, mas importante) do bem-estar que os pobres ganharam nos anos 80: em alguns casos, com os primeiros governos democráticos estavam chegando perto da água e da electricidade (e um telefone da cabine) e os habitantes são amarrados precariamente por conta própria, mas de graça ou a preços de barganha “, graças para comandar a maioria dos crimes não pagar electricidade, água ou impostos sobre a propriedade “[13]. Independentemente dos seus objectivos, os varejos do tráfico de drogas passaram a atuar como um substituto do “estado” com poder de fornecer os serviços básicos de massa fordista (na ausência do fordismo!). Da mesma forma, os poucos investimentos sociais realizados nas favelas – muitas vezes com os objectivos da máfia de controle do processo eleitoral – sempre teve de negociar com o tráfico de drogas na favela.

O tamanho do fordismo fordista sem drogas, de forma crua, apareceu nos anos 90, durante as operações de privatização de grande porte, particularmente nos serviços públicos. O capitalismo pós-fordista e cognitivas correndo para as áreas: televisão por cabo de telefonia, eletricidade, rodovias (incluindo metrô) foram privatizados. Mas as concessionárias privadas de serviços públicos – tais como a distribuição de electricidade pela francesa EDF estatal – não conseguiram “tomar conta” das conexões informais e ilegais na favela. Esta incapacidade de confirmar que a falta de um “ponto de venda” militar detalhe pelos comandos da droga permite a operação, sui generis e, indiretamente, para um bem-estar sem o bem-estar. Até a transição – a abertura e a crise democrática – anos 80, o “bem estar” tomou o lugar do bem-estar que estava faltando era desenvolvido e a massa ambiguamente, à margem da exclusão social, sem qualquer perspectiva de mobilização (inclusão) na relação salarial ( por causa da crise do paradigma de crescimento e industrial).

9.O capitalismo cognitivo e a inclusão dos pobres como pobres.

Como dissemos, na década de 90, a estabilização monetária e a integração na globalização anunciaram um deslocamento que a privatização dos serviços é uma prioridade estratégica da “inclusão” dos pobres como pobres, no sentido da produção de mobilização que ocorre diretamente na áreas metropolitanas. A coleção “cognitivo” precisa verificar as redes técnicas e sociais.

O caso  emblemático é o telefone. Até meados dos anos 90, em função da extrema desigualdade do desenvolvimento e de sua crise (com a falência virtual do Estado nos anos 80), a telefonia fixa foi de infra-estruturas produtivas (indústria de grande escala nesse estado ou multinacionais: em fábricas e lares dos estratos sociais envolvidos em atividades intelectuais ou de gestão ou de serviços) ou um luxo para a elite. Sem planos de expansão adequados (devido à prolongada crise fiscal do Estado e a estagnação económica) de linhas de telefonia fixa foi governado por um mercado paralelo particularmente perverso (até 1997) o custo da linha telefônica, tanto quanto um PC “os bairros ricos e muito mais em bairros pobres. Havia toda uma indústria de pequenas empresas (formais ou informais) que vivia com o aluguel de linhas telefônicas: uma dúzia de linhas foi suficiente para gerar renda suficiente para manter a faixa de renda de “classe média”. Quando o telefone for privatizada, torna-se móvel e democratização: todos – cada bit social – tenham acesso, sem ter que primeiro passar por um processo de homogeneização social (por exemplo, a inclusão na relação salarial). A rede envolve a todos, independentemente da heterogeneidade social que os caracteriza: os trabalhadores pobres e ricos, formais e informais, moradores de bairros ricos e favelas do centro da cidade e subúrbios, policiais e traficantes de drogas. Tudo incluído com o telefone no bolso. Agora, nós sabemos que modula o movimento em que produz e reproduz a fragmentação social: todo mundo tem um telefone, mas nem todos podem pagar para usar, praticamente todos podem se comunicar, mas as condições de uma verdadeira mobilidade na metrópole são profundamente desiguais. A desigualdade e a exclusão não são eliminadas, mas modulada, na localização geral de um mesmo processo de acumulação.
 

10. As “milícias cognitivas” e a “guerra do Rio”.

 A privatização segue a criação de agências reguladoras. O mercado não pode – sozinho – decidir o valor das tarifas, porque as tarifas telefónicas quantificar o que é, por definição social incomensurável a cooperação em si. De fato, as taxas são as políticas e agir como um imposto. A transição para o capitalismo, a privatização envolve não apenas cognitiva, e não tanto das empresas de mineração, mas o valor que a cooperação social produz: a ideologia do neoliberalismo inclui uma redefinição da política como um campo de apropriação – novas primitivas – da cidade (a metrópole e suas redes), que produz e é produzido pela cooperação social em espiral. É aqui que encontramos ao mesmo tempo, o tamanho da capital do estado e do tamanho do capitalismo Mafia como formas específicas de capitalismo cognitivo. Isso é o que vemos na transformação da “guerra do Rio de Janeiro” em 90 estados, apenas como um novo modelo de capitalismo, o fenômeno mafioso que a imprensa local chama de “milícias.

 A milícia é composta por policiais e outros membros do corpo do Estado. Esta composição do “exército” é reconhecida publicamente pelos agentes da polícia e superiores do estado. Em entrevista ao canal de TV CNT 2 de janeiro de 2011, o Chefe de Polícia Militar do Rio, disse: “O narcotráfico é a camada inferior do proletariado, mas as milícias são a camada mais baixa do Estado”. Agora, é importante notar que a “milícia” (que controlam territórios cada vez maiores e não se limitam às “favelas”, mas afetam bairros inteiros, incluindo os dos “ricos”) têm um modus operandi que é completamente diferente dos “comandos” do tráfico de drogas . No território das “milícias”, a principal fonte de remuneração é a segurança da máfia, que é a paz do “medo” significa que a droga é expulsa e “milícias” exerce a sua “justiça”.

Dos habitantes de uma determinada área é cobrada uma taxa em troca de “proteção” (quando não pagam directamente os comerciantes locais ou através das “propriedades” que gerem os edifícios e / ou cidades gated). A primeira dimensão da “milícia” é precisamente o da gestão explícita (embora não formal) do contrato que o bloqueio do biopoder é feito para ajustar o “pobre”. Mais tarde, a milícia “completa” o seu estado de ser baseando a sua operação no recolhimento de impostos. O direito à vida dos pobres torna-se o primeiro mecanismo de associação (é claro que aqueles que se recusam a pagar devem entrar em acordo com essa realidade, bem como atividades ilegais “desorganizadas” delitos como roubo, tráfico de drogas e até mesmo o não-pagamento de passagens de ônibus são punidos com a morte). Nesta base, opera uma verdadeira inovação. As milícias não estão limitadas a explicitamente seus quadros “Estado”, mas também (de “rentistas”) típicos do capitalismo cognitivo, controlando todos os movimentos da produção em seus territórios, a distribuição clandestina de TV a cabo, o movimento de micro ônibus informal (ou formal), a distribuição de garrafas de gás, as conexões ilegais de eletricidade, a produção ea venda do DVD “pirata” e “articulação”, alguns com as últimas atividades do Jogo do Bicho, ou seja, redes de casas de jogo ilegal (com ranhuras).

Em alguns casos, também corre o comércio de drogas, onde “alugando” alguns pontos de venda de um “comando” ou outro tráfico de drogas. Nós vemos a descrição do funcionamento das milícias através de alguns episódios de repressão de suas atividades: em agosto de 2010, a Polícia Federal realizou uma operação. Dos 12 militantes presos, quatro eram policiais. Até 7 de empresas, geriam a distribuição da Internet e TV a cabo em cada bairro [14]. Em junho de 2010, desde que a Polícia Federal, fechou um centro de distribuição de TV a cabo clandestino, que tinha 30 mil assinantes (que pagavam US $ 30 a R 50 por mês, com um faturamento mensal de um milhão de reais) entre cinco presos, um policial e um outro um ex-oficial da prisão [15].

Finalmente, o controle político do território pelas milícias em muitos casos, os resultados na capacidade de jogar o jogo da representação política, elegendo os seus representantes a nível local.

11. O duplo papel das milícias.

As “milícias” desempenham um duplo papel: primeiro, fazer dimensão máfia clara e transparente do capitalismo cognitivo como um todo, por outro – em termos de sua relação com o acúmulo de “velho” primitivos – são uma “ameaça” ( concorrência, por exemplo) no capitalismo cognitivo (ou seja, o acúmulo de “novo” primitivo, que, graças à privatização, já controla essas atividades). Em ambos os casos, temos a ver com a máfia tamanho (parasitas) do capitalismo cognitivo, ou seja, com o tamanho do governo (política) com o tamanho da máfia e do regime de acumulação máfia acumulação primitiva cognitiva é estável e nunca aparece sempre se recusou a tempo presente.

 A taxa de uso de telefones celulares, o metrô,  de pedágios das estradas privatizadas ou uma passagem de ônibus é tanto político quanto os impostos “imposta” por “milícias” em troca da paz (que se ameaçam!). “Pirataria” (ou seja, “milícias”, os DVDs piratas, etc.) Aparece claramente como o outro lado da privatização: é o mesmo mecanismo de acumulação primitiva, baseada na força do Estado despótico despóticos e da lei da força.

Quando o Estado, como é o caso do Brasil e do Rio de Janeiro, no trabalho de sub-contratação usa abertamente a força para o seu próprio sistema de repressão (que tem o direito à vida e morte sobre a população de pobres), o capitalismo cognitivo mostra abertamente seu tamanho como uma máfia que é parasita, “Rent”. Capitalismo cognitivo milícias do Rio não é diferente daquela da milícia de “Black Water”. Só no Brasil não se precisa sair da fronteira com o Iraque para encontrar ol’Afganistan. Acabamos de passar para os subúrbios e favelas do Rio de Janeiro. O Império “não sai do lugar sem” – como disseram Hardt e Negri – reuniu-se no Brasil um terreno poderoso e impressionante de antecipação e de radicalização: as operações policiais são sempre aquelas operações militares e operações policiais militares.

12. As batalhas no Rio e o tumulto da Piazza del Popolo.

Então, por que a “guerra do Rio” é atravessada por um novo tipo de batalha? O que realmente está em jogo entre os contendores, por trás dos efeitos retóricos? A máfia duas configurações do capitalismo cognitivo, as “milícias” e as concessionárias privadas de serviços públicos estão sendo travadas para a conquista dos territórios da pobreza, que é controlar os processos de inclusão (e não de exclusão, muito menos “déconnexion” ) que caracterizam o capitalismo cognitivo e seu tremendo crescimento durante os oito anos dos dois mandatos do presidente Lula.

 Esta é uma ótima notícia: enquanto os pobres estavam em processo de privatização dos anos 90, incluindo (ou seja, as “milícias” – o seu fraco poder de compra tornaram atraentes para os rentistas do capitalismo cognitivo), o governo Lula se reuniu a inclusão uma nova base. A política social de distribuição de renda, o acesso dos pobres à universidade, a urbanização de favelas e valorização do salário mínimo, a criação de postos de trabalho que revolucionou o Brasil nos últimos oito anos acabam deslocando a especialização, que era competitiva estabelecida entre o capitalismo cognitivo da máfia, por um lado, e cognitivos e outros mafiosos capitalistas.

No Rio, a agenda dos mega-eventos ( Copa do Mundo, Olimpíadas, etc) dramatiza e acelera a transição: o primeiro a fazer “despesas” e do tráfico de drogas em seu fordismo, sem a Ford, a guarnição militar do território ” (…) que estamos acertando o centro nervoso do tráfego, a sua economia “, disse um executivo da Polícia do Rio [16]. As batalhas atuais não têm nada a ver com o desmantelamento de tráfego. Em vez disso, é desarmar a evitar que continue a dominar determinados territórios substancialmente: uma operação realizada pelo Estado (as Forças Armadas e Forças Policiais juntos) e as milícias. A área é reconhecida como um movimento de produção e a cidade se tornou uma empresa: não é uma cidade global para atrair investimentos multinacionais, mas uma empresa da cidade-base cujas fábricas são universidades, museus, estádios, praias e bairros … e as favelas. Antes de a polícia e do exército, são os investimentos do governo federal que chegaram, os primeiros elementos de uma nova política de segurança (com as Unidades de Polícia Pacificadora – UPP) e do capitalismo cognitivo, a bordo da legitimidade com a publicidade desempenhada pelos dirigentes da ONG cultural de grande porte.

Não é apenas uma coincidência que a 30 novembro de 2010, quando, logo após a ocupação do Complexo do Alemão, a Moody’s atribuiu um novo investimento e maior qualidade para a cidade do Rio de Janeiro [17]. Seis meses antes da invasão militar do Complexo do Alemão, o Banco Santander abriu a primeira agência bancária: os usuários são 10.000 por mês e 2.000 novas contas correntes em apenas 6 meses! Uma fronteira real! Ricardo Henriques, “ministro” do bem-estar social local, disse que dois meses antes da ocupação, “(a nossa) análise mostrou que há no ‘Alemão – cerca de 7.000 empresas comerciais, dos quais 90% são informais [18]. Após a invasão, a fronteira se expande: TV Sky, em apenas três dias, vendeu 300 ingressos ao preço de R $ 49,90 por mês (antes dos custos de ligação clandestina de R $ 30). Um vendedor disse a um jornal: “A droga tem nos ajudado com TV a cabo clandestina, agora as pessoas já não querem apenas a TV aberta [19]. É uma verdadeira corrida para a acumulação da fronteira criada pela mobilização dos pobres no governo Lula, com sua política de distribuição de renda.

Ricardo Henriques, explicando o projeto social do Estado do Rio de Janeiro, disse: “é essencial para formalizar, mas precisamos de regras de transição.” A transição é precisamente o da transição da acumulação primitiva a outro, onde a dificuldade não reside apenas na resistência às drogas, especialmente entre os pobres resistência biopolítica. O “ministro” do Estado social do Rio é claro: por um lado, explica que é “(…) a discutir uma proposta de luz com taxas bonificadas (ou seja, “preço popular”), sendo todos os solventes muitos se tornam “o outro, ele aponta para a dificuldade”, já que havia o gato (ligação subterrânea) a percepção é de que os valores, mesmo que sejam subsidiados (tarifa reduzida), são muito altos “(ibid.).

A verdadeira batalha, como dissemos, é o que acontece na política de fronteiras abertas da distribuição primitiva de renda. Por um lado, eles são a base do reconhecimento (embrião) a dimensão biopolítica da luta da multidão de pobres urbanos. Em segundo lugar, eles são o instrumento de expansão capitalista que quer “reduzir” os pobres à classe média de consumidores a quem não reconhecem as qualidades produtivas, exceto quando eles aparecem em forma, o trabalho assalariado frágil e flexível.

 Troca de pontos de vista e perspectivas e, em seguida, de Norte a Sul e de Sul para Norte, podemos ver que a batalha do Complexo do Alemão é apenas um episódio de uma guerra mundial em que encontramos o grande tumulto de 14 de dezembro na Praça Popolo, em Roma. Por um lado, novas e velhas formas de acumulação primitiva dominadas pela crise e à expansão do capitalismo cognitivo. Então olhar para a multidão que quer  lutar e produzir. No Norte, a média das classes de “classe trabalhadora encontra-se: não deixa de ser atravessada pela longa crise que marca a zona da morte como intermediária e a afirmação da hierarquia social como um novo proletariado do trabalho imaterial, universidades e” Fiat “. No Sul, a “classe média” emergente parecem desenhar uma nova fronteira para o capitalismo cognitivo e, ao mesmo tempo mostrar o plano de uma eventual consolidação da composição da nova classe: a multidão dos pobres.

Rio de Janeiro, janeiro 2011

————————————————– ——————————
[1] Quels rapports entre-vous établissez capitalisme capitalisme cognitif e mafieux?

[2] Para se ter uma idéia do peso relativo desses números, consideramos que, em 2007, a polícia do Rio matou 1.330 pessoas, em Los Angeles (EUA) 5!

[3] A violência civil e da polícia no Brasil não é um fenômeno limitado ao Rio de Janeiro. Na verdade, não são estatisticamente as cidades mais violentas. Mas a violência no Rio de Janeiro é simbólico, como as mudanças paradigmáticas que se cruzam.

[4] De acordo com declarações oficiais, foi uma resposta a uma onda de ataques (carros e ônibus queimados) orquestrada por líderes de uma facção do tráfico de drogas.

[5] Alba Zaluar, “Festejo sim, DEPOIS, O Globo – Caderno Especial A Guerra do Rio, 29 de novembro de 2010, p. 16.

[6] “A Senhora abriu como Asas da Liberdade”, O Globo – Caderno Especial A Guerra do Rio cit, p. 1..

[7] Folha de São Paulo, 30 de novembro de 2010, p. C5.

[8] Plínio Fraga, “Isto É Tudo é complexo,” Folha de São Paulo, 1 dez 2010, p. C4.

[9] No Rio de Janeiro produz uma incrível transparência da nova condição “imperial”. No principal jornal local (segundo nacionalmente) diz: “As autoridades públicas têm mostrado uma estratégia militar que consiste na progressão gradual e segura da área, semelhante ao utilizado pelas tropas aliadas na Normandia, quando eles ocuparam durante a Segunda Guerra Mundial” , O Globo, do Rio Caderno Especial Guerra A, cit .. Wikileaks tem mostrado que, mais sóbria, o cônsul geral dos Estados Unidos, Hearne, no Rio de Janeiro já desenvolveu 30 de abril de 2009, um ano antes da Batalha do Alemão, a análise do mesmo tipo: “Algumas das características do programa de pacificação da Favelas – escreve Hearne – abordagem da doutrina e da estratégia de contra-insurgência conduta no Afeganistão e do Iraque, os EUA. O sucesso dependerá (…) pela percepção dos moradores das favelas da legitimidade do Estado. “” Quando a guerra do Rio, quando comparado ao Afeganistão “, O Globo, 7 de dezembro de 2010.

[10] “O Materialismo Souterrain du Courant” (1982), de Louis Althusser, philosophiques Écrits et politiques, Tomo I, volume e organizada Apresentado Por François Matheron, Banco / IMEC, Paris, 1994, p. 574.

[11] Para entender melhor o que estávamos, duas breves referências, uma histórica e atual. Historicamente, a polícia do Rio, desde a sua fundação, teve como principal objetivo o controle e a repressão da população escrava (40% do total). O “direito” de matar e punir (a tortura) e expulsar os pobres e os de cor faz parte de sua “tradição” (cf. Thomas Holloway, “A Missão violencia Como UMA histórica: O Globo, 13 de julho de 1997, p. 24). Nos relatórios, o chefe de segurança do Rio de Janeiro acaba de lançar um programa de recompensas para pagar os policiais que funciona como um “pedaço” em sentido inverso. O prémio depende da redução da taxa de assassinatos por policiais (cf. “Um prémio Pela Vida: Secretaria exigirà redução de Mortes in confrontos com um policia parágrafo Pagar gratificações”, O Globo, 28 de dezembro de 2010, p. 14).

[12] Os “comandos” do tráfico de drogas no Rio 3: Comando Vermelho (CV), Terceira Comando (TC) e Amigos dos Amigos (ADA).

[13] Arthur Guimarães, “Prefeito aumento Calcule informal ou fazer Custo da Vida Alemão do Poder Público, http://www.noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/12/01/prefeito-informa …, 1 de dezembro de 2010, acessado às 7:00.

[14] PF leva 12 Por vender a TV Cabo “, O Globo, 6 de agosto de 2010, Rio de Janeiro.

Que ‘gatonet’ [15] Tinha Polícia fecha 30 mil Clientes “, O Globo, 15 de Junho de 2010, Rio de Janeiro.

[16] novembro O Globo, 30, 2010, p. 18. O comandante geral da Polícia Militar estima 100 milhões de reais em perdas de tráfico de drogas após a ocupação do Complexo do Alemão. Folha de São Paulo, 1 de dezembro de 2010.

[17] Note-se que a condição da Moody’s para a obtenção de uma melhor de “votar” com a capacidade que a cidade terá mais flexíveis as “pressões para os serviços sociais e investimentos em infra-estrutura.” “Cidade do Rio de Grau de investimento Recebo”, O Globo, 30 de novembro de 2010, p. 30.

[18] “Esses Lugares SEM ESTA República”, entrevista com Ricardo Henriques, O Globo, 17 outubro de 2010, p. 19.

[19] “Depois de Serviços AO Alemão e à Penha” Novembro, Extra 30, 2010, p. 6

Fonte: http://uninomade.org

La guerra di Rio de Janeiro: l’offensiva del capitalismo cognitivo
 

di GIUSEPPE COCCO
1.Il capitalismo cognitivo e il capitalismo mafioso. In un bell’articolo Didier Lebert e Carlo Vercellone[1] affermano correttamente che “capitalismo cognitivo e capitalismo mafioso” sono strettamente legati tra di loro. Nello stesso articolo, troviamo una distinzione tra “capitalismo mafioso” e le “forme tradizionali di criminalità”: mentre queste ultime hanno come obiettivo il “consumo” (M-A-M), il capitalismo mafioso è caratterizzato dalla logica della circolazione del denaro come capitale. Il capitalismo è sempre un po’ mafioso. Le sue diverse modalità (circuito corto del capitale finanziario, circuito lungo del capitale mercantile o del capitale produttivo) nascondono in effetti il carattere strutturale di un capitalismo i cui meccanismi di accumulazione contengono sempre i metodi dell’accumulazione “primitiva”. Il capitalismo in generale è quindi strutturalmente legato al capitalismo mafioso mentre l’economia criminale ne costituisce solo le frange. La forza e l’illegalità mafiose non hanno luogo sul versante della distribuzione, ma nel processo di accumulazione (primitiva). Il capitalismo cognitivo si caratterizza per la sua necessità di attualizzare continuamente l’accumulazione primitiva: l’arbitrio della forza e quello della legge appaiono come le due facce della violenza della stessa moneta. Mentre il capitalismo industriale tenta di costruire la sua legalità “negando” le sue origini “mafiose” (cioè dimenticando e facendo dimenticare la violenza dell’accumulazione “primitiva”, relegandola, appunto, alle “origini”) il capitalismo cognitivo appare sempre come tale: mafioso. Cioè, nel capitalismo cognitivo, l’appropriazione violenta del comune deve essere continuamente rinnovata e non riesce ad apparire come “primitiva”, come un episodio perso in un “passato remoto” che non vale più la pena di ricordare. Noi vorremmo usare il breve saggio di Lebert e Vercellone per, da un lato, analizzare l’evoluzione e le radicali trasformazioni della “guerra di Rio de Janeiro” e, dall’altro, sottoporre in ritorno queste ipotesi alla verifica della dinamica brasiliana.
2.Un’accumulazione violenta che non è mai riuscita a diventare “primitiva”. Come ricordano Aglietta e Orléan, il capitalismo in generale è direttamente legato alla forza: la moneta contiene sempre una certa dose – originaria e fondatrice – di violenza. Quando osserviamo questo rapporto incestuoso tra violenza e capitale dal Brasile e particolarmente dalla metropoli di Rio de Janeiro, ci sembra possibile affermare che il passaggio da un capitalismo mafioso di tipo industriale (“sviluppista”) ad uno di tipo “cognitivo” si fa dentro una situazione che non è mai riuscita a separare con chiarezza  l’accumulazione mafiosa da quella “puramente” capitalista: cioè, in Brasile non si è mai riusciti a trasformare l’appropriazione coloniale e mafiosa in “accumulazione primitiva”. Come dicevamo, se nel capitalismo cognitivo il meccanismo cronologico (lo sviluppo) che rende remota e limitata la violenza del capitalismo (industriale) non funziona più, in Brasile esso non ha mai funzionato: lo sviluppo non è mai riuscito a redimere il peccato originale dell’accumulazione primitiva. Per questo, possiamo dire che questa trasformazione appare chiaramente nella periferia del mondo, cioè laddove il rapporto tra accumulazione primitiva e accumulazione industriale non si è mai organizzato nel tempo cronologico dello sviluppo (capitalistico). Cioè, quando cambiamo di prospettiva e passiamo dal Centro (il Nord del mondo industrializzato e poi cognitivo) alla Periferia (il Sud che diventa cognitivo senza essere mai stato completamente industrializzato) l’analisi del capitalismo cognitivo e delle sue dimensioni mafiose cambia. In primo luogo perché la novità non sta più solo nel rapporto tra capitalismo mafioso e capitalismo cognitivo, ma nelle dimensioni temporali di questa relazione: essa non è più declinata al passato, ma al futuro. Il capitalismo mafioso si rinnova oggi attraverso la modernizzazione e non più per mezzo del mantenimento dell’arcaico. In secondo luogo, cambia perché la dinamica di questo dislocamento non è quella della “déconnexion” ma quella dell’inclusione generalizzata e, questa sì, “forzosa”. È di una vera e propria nuova frontiera che stiamo parlando. La “guerra di Rio” e le sue trasformazioni (le sue “battaglie” più recenti) indicano un processo di “connexion”, anche se questa “inclusione” è di nuovo tipo: non più per mezzo dell’omogeneizzazione industriale, ma della infinita modulazione dei frammenti eterogenei nella circolazione produttiva che trova nelle metropoli il suo spazio privilegiato. Un inciso: quando parliamo di guerra non stiamo radicalizzando simbolicamente una situazione di violenza civile, ma parlando di una dura realtà. Per parlare solo di Rio de Janeiro, secondo dati ufficiali e nonostante una forte diminuzione, il numero di omicidi (tra aprile 2009 e aprile 2010) è stato di 3.615 (nel periodo anteriore, 4.252). Si tratta di uno dei tassi di omicidio più alti del mondo. Circa un terzo di queste morti è direttamente legato alle forze di polizia: nel 2009, le varie polizie dello Stato di Rio de Janeiro, hanno ucciso 1.040 persone, cioè la polizia di Rio ammazza circa 3 persone al giorno![2]
3.La battaglia “do Alemão”. Un episodio recentissimo ci può dare un’idea non della violenza (che non è la novità) ma dell’accelerazione dei cambiamenti che attraversano la “guerra di Rio de Janeiro”.[3] Il 25 novembre 2010[4], circa 600 uomini delle polizie dello Stato di Rio, appoggiati da 6 carri blindati delle truppe da sbarco della Marina, invadono la favela Vila Cruzeiro, nella zona nord di Rio (a un “tiro di schioppo” – é proprio il caso di dirlo – dallo stadio di calcio del Maracanã e di una delle più importanti università di Rio, la UERJ), di un po’ meno di 20.000 abitanti. In diretta, le televisioni mostrano la fuga disperata di circa 200 giovani narco-trafficanti (scalzi, in bermuda e a torso nudo, disorganizzati e armati con fucili mitragliatori), lungo una strada di terra che li porta a un insieme di 20 favela conosciuto come Complexo do Alemão, dall’altra parte della collina, dove abitano circa 100.000 persone. Il 28 novembre, dopo due giorni di assedio, un contingente di 2.800 uomini (tra polizia, esercito e marina), appoggiato da 27 mezzi blindati e 6 elicotteri, sferra l’attacco al “Complexo do Alemão” dove le stime di polizia e le immagini della stampa indicano la presenza di circa 600 narco-trafficanti armati e fortificati. Questa volta, gli elicotteri della televisione non hanno il permesso di volo. Poche ore dopo l’attacco, le forze di “liberazione” issano la bandiera  nazionale dentro il Complexo a simboleggiare la “vittoria” come (ri)conquista di un territorio. Un’antropologa commenta: “Issare la bandiera nazionale in cima alla collina (della Favela) simbolizza la riconquista per la nazione di questo vasto spazio”[5]. La stampa parla di occupazione incruenta: “Al contrario di quel che si temeva, il bagno di sangue non ha avuto luogo”[6]. Il numero di morti resta indeterminato (alcune stime parlano di 50 decessi) [7]. Se contiamo gli arresti e le eventuali fughe (molte grazie alla corruzione) sono più di 400 giovani narco-trafficanti che mancano all’appello: dileguati tra le dita di tutto quell’apparato di polizia ed esercito. Il giornalista Plinio Fraga, della Folha de São Paulo, scrive: “(Nonostante molti trafficanti) siano fuggiti, i racconti su quelli che sono morti senza che i corpi siano apparsi si ripetono” e trascrive il racconto di Celso de Sousa Campos, detto Binha, leader della favela: “Una madre mi ha raccontato che è andata a raccogliere il corpo del figlio nel bosco e ha visto altri due corpi che i maiali stavano divorando”.[8]
4.Le nuove battaglie della guerra di Rio. La “battaglia dell’Alemão” è un episodio (e solo uno tra i molti che hanno già avuto luogo, anche durante l’occupazione, e che si annunciano!) del processo di trasformazione della “guerra di Rio de Janeiro” nel corso degli ultimi 10 o 15 anni. Una trasformazione e accelerazione indotta e drammatizzata dall’agenda di “mega-eventi” che il prestigio internazionale del governo Lula ha “regalato” alla città di Rio: le Olimpiadi Militari (nel 2011), il vertice globale sul clima (Rio + 20) nel 2012, la finale del Mondiale di calcio (nel 2014) e infine le Olimpiadi nel 2016. Le battaglie in corso indicano una trasformazione del rapporto tra violenza e capitalismo. Nella misura in cui la visibilità totale del rapporto che lega il capitale all’accumulazione “primitiva” non costituisce nessuna novità in Brasile (e ancor meno a Rio) le “nuove battaglie” sono il teatro di un’altra trasformazione. Mentre la prospettiva tradizionale era quella di riuscire a trasformare l’accumulazione primitiva (cioè consolidarla come un evento remoto e dimenticato e spalmarla nei processi moderni di accumulazione industriale) in una lotta della legalità (sviluppo) contro l’illegalità (sottosviluppo) oggi questa lotta diventa l’orizzonte permanente di una guerra che oppone due forme – specifiche ma speculari – di capitalismo cognitivo per il controllo dei processi di mobilitazione produttiva dei territori e delle dinamiche di “inclusione” che la caratterizzano. In questo conflitto, è la distinzione tra “cognitivo” e “mafioso” che scompare, così come scompaiono le linee (che in Brasile sono sempre state molto labili) di separazione tra polizia ed esercito, tra dentro e fuori, tra Stato di diritto e Stato di eccezione.[9] Le battaglie attuali oppongono la permanente mafiosità del capitalismo brasiliano a un’accumulazione cognitiva che, anch’essa, funziona per mezzo dell’appropriazione mafiosa del comune prodotto dalla moltitudine dei poveri nella metropoli. In Brasile, accumulazione capitalista e accumulazione mafiosa si mescolano, tra emergenza della mafiosità del capitale cognitivo e l’evoluzione cognitiva del capitalismo mafioso: il territorio da conquistare è quello che la sociologia elettorale del “periodo Lula” chiama “classe C” (la “nuova” classe media) ed è in realtà costituita dalla moltitudine dei poveri mobilitati, democraticamente e produttivamente, durante il governo Lula.
5.Periodizzazione: le tre grandi guerre di Rio. Con una certa dose di semplificazione e schematismo, possiamo dividere il rapporto tra capitalismo e criminalità così come tra capitalismo mafioso e mafiosità del capitalismo nel Brasile del secondo dopoguerra (tenendo la città di Rio de Janeiro come riferimento) in tre grandi periodi, tutti caratterizzati dalla presenza sempre attualizzata del rapporto tra accumulazione primitiva e altre forme di accumulazione:
1.La prima fase va dagli anni ’50 ai ’70. Il capitalismo “mafioso” si rinnova legandosi all’emergenza di un capitalismo fondiario e immobiliare urbano ibridato con le tradizionali forme mafiose oriunde dal latifondo schiavistico (il “coronelismo” dei romanzi di Jorge Amado).
2.Il secondo periodo, è quello che si afferma negli anni ’80: alle attività mafiose tradizionali si sovrappongono quelle di un narcotraffico che – militarizzandosi – svilupperà le sue attività di dettaglio arruolando i giovani poveri e occupando come punti di vendita i territori delle favelas.
3.Il terzo periodo è quello che comincia negli anni ’90, con la stabilizzazione neoliberale, l’inserimento brasiliano nella globalizzazione e l’onda di privatizzazioni. Il controllo del territorio cambia di valenza economica ed emerge una nuova forma di capitalismo mafioso, legata al fenomeno delle “milizie” cognitive.
6.Primo periodo: l’accumulazione primitiva dal campo alla città. Come dicevamo, l’esodo rurale trasferisce – tra gli anni ’50 e ’70 – la violenza dei rapporti sociali neo-schiavistici dalla campagna alle città. Allo stesso tempo, la violenza si è trasformata: dal conflitto agrario sulla proprietà della terra (che attualizzava – e continua a farlo – le dimensioni coloniali di un’accumulazione primitiva continuamente rinnovata e modernizzata) si è passati alla violenza dell’accumulazione fondiaria come principale vettore dell’espansione metropolitana delle città. Il capitalismo dei rentiers si è organizzato ed espanso a partire da giganteschi e caotici processi di appropriazione privata di suolo pubblico basati sulla più assoluta promiscuità tra  potere pubblico e capitale immobiliare. Il latifondo passa dalla campagna alla città e rinnova l’accumulazione primitiva. La frontiera tra arcaico e moderno, legale e illegale, moneta e violenza non si afferma mai. Il modello arcaico di sovranità (il potere di “far morire e lasciar vivere”) e quello industriale della disciplina dei corpi, come diceva Foucault, si sovrappongono senza sostituirsi e formano un ibrido nel quale il moderno non domina l’arcaico e anticipa il postmoderno. Il mix di legalità e illegalità è costitutivo di una moneta che si mantiene sporca di sangue. L’accumulazione primitiva è continuamente attualizzata. Quelle dimensioni “arcaiche” e neo-schiavistiche che lo sviluppo economico doveva spingere sulle sue “frange” sociali e politiche si trasferiscono invece, massicciamente verso le città, cioè verso un “centro” che allo stesso tempo si periferizza. Dislocandosi dalle campagne alle città, l’accumulazione primitiva si modernizza ma continua il suo corso: legale e illegale, formale e informale. Contratto e guerra formano una solida e fedele coppia. Nella misura in cui il contratto sociale appare come legge interna ad ogni società, sia nella sua forma legittima o illegittima, Althusser si chiedeva: “Come mai una forma illegittima (quella normale) si ricostruisce in forma legittima?”[10]. Non per caso Althusser sviluppa queste riflessioni attraverso una revisione della teoria marxiana dell’accumulazione primitiva e afferma che “gli incontri aleatori” tra l’uomo del denaro e i proletari “non si limitano al XIV secolo inglese”. L’accumulazione primitiva ha luogo tutti i giorni e “non solo nei paesi del terzo mondo che ne sono l’esempio più eclatante”. Per Althusser, si tratta di un “processo costante che inscrive l’aleatorio nel cuore della sopravvivenza e del rafforzamento del ‘modo di produzione’ capitalista” (ibid. 587). In Brasile, la mobilitazione delle masse (l’esodo rurale) e la loro inclusione nel rapporto salariale non hanno coinciso. Come diceva Althusser, la “produzione del proletariato” non coincide necessariamente con la sua “riproduzione allargata da parte del capitalismo industriale“ (ibid.). La rivoluzione può essere delle masse e non necessariamente funzione borghese dell’accumulazione industriale. L’esodo rurale in Brasile è una linea di fuga, di costituzione autonoma, biopolitica, dei poveri. Solo attraverso la sua ibridazione, il blocco del biopotere è riuscito a controllarla. La gestione mafiosa del territorio, passando dal latifondo agrario alla speculazione fondiaria urbana, si è così mantenuta saldamente nelle mani dell’apparato repressivo dello Stato e nel suo funzionamento per mezzo di “subappalti” di tipo neoschiavistico: la polizia continua a operare secondo i modi del “cacciatore” di schiavi fuggiaschi, il “capitão do mato”.[11] Infine, trasversalmente alle dinamiche della accumulazione immobiliare, in questo periodo, la struttura di controllo territoriale di tipo mafioso si organizza anche attorno al gioco illegale di scommesse conosciuto come Jogo do Bicho. I vari clan (i “banchieri” del “Bicho”) si spartiscono il territorio metropolitano e a volte entrano in conflitto tra di loro in funzione di tentativi egemonici o di “vuoti di potere” aperti da fasi di successione.  In questo caso, la corruzione è “classica”, diretta ai “notabili”, siano essi interni all’apparato dello Stato o no. In questa fase, l’economia illegale (e criminale) si sviluppa sui margini della società (i poveri) e della città (nell’appropriazione e controllo violento della sua espansione fondiaria). La struttura territoriale e mafiosa dei “clan” del “Jogo do Bicho” appare esplicitamente nel rapporto di “beneficienza” e controllo che stabiliscono con il Carnevale. Da un lato il Carnevale è ufficializzato e organizzato sullo stile di un campionato di calcio, dall’altro, la sfilata delle scuole di Samba, diventa il momento in cui – ancora oggi – lo Stato e i Clan del “Bicho” vanno letteralmente a braccetto nel Sambodromo.
7.Secondo momento: l’accumulazione primitiva verso una nuova frontiera biopolitica. Negli anni ’80, l’esodo rurale ha già avuto luogo, l’economia è entrata in stagnazione e le rendite costruite sull’espansione urbana hanno esaurito la loro dinamica, ma l’accumulazione primitiva non si stabilizza e parte in direzione a una nuova frontiera, biopolitica. L’esclusione delle grandi masse di poveri (che abitano le favelas e i “lotti” informali e illegali delle periferie) perde l’orizzonte dell’inclusione (che la crescita doveva fornire attraverso l’inserimento nel rapporto salariale). La pressione sociale è gigantesca. È il periodo dei grandi scioperi dell’ABC paulista, delle sommosse nel centro di Rio, dei saccheggi dei supermercati. Ecco che comincia a crescere e svilupparsi la vendita al dettaglio di droghe: sarà il terreno di riorganizzazione del blocco del biopotere. I suoi meccanismi iniziali sono tre: (i) facile accesso all’ingrosso (grandi quantità di droghe in transito: provenienti dall’America andina, in direzione a Europa e Stati Uniti); (ii) serbatoio infinito di mano d’opera giovanile (esclusa) di facile reclutamento per l’organizzazione della vendita al dettaglio; (iii) trasformazione delle favelas in “punti di vendita” presidiati militarmente. Su questi tre meccanismi, se ne innestano altri tre: (a) i punti di vendita al dettaglio passano per un processo di concentrazione che porta alla costituzione di grandi organizzazioni del narcotraffico (Comandos) che si spartiscono (e così ne striano lo spazio) la città, in modo negoziale o per mezzo di vere e proprie operazioni di guerra[12]; (b) i ricavi delle vendite di droga si articolano – in funzione della centralità dei punti di vendita (il controllo di un determinato territorio: una o più favelas) – direttamente con il traffico di armi sempre più pesanti e numerose; (c) la polizia (con i suoi due corpi di repressione a livello dello stato federato –  Polícia Militar e Polícia Civil – che agiscono in piena libertà, cioè con pieni diritti sulla vita e le proprietà dei poveri: la polizia di Rio “ammazza”  ufficialmente poco meno di 3 persone al giorno) controlla il narco-traffico da fuori, ma allo stesso tempo ne determina il ritmo e la diversificazione delle attività. Assistiamo quindi a un processo di deterritorializzazione e riterritorializzazione del narco-traffico lungo quattro grandi piani: (I) le necessità di accumulazione iniziale di capitale che permettano l’acquisto di grandi quantità di droghe articolano attività di sequestri, rapine e di occupazione di punti di vendita dei Comandos “concorrenti”; (II) la pressione determinata dal prelievo da parte della Polizia (pressione che ha luogo con base in sequestri, omicidi, invasioni) di parte consistente dei ricavi del punto di vendita (“Boca de fumo”) implica ancora una volta la diversificazione delle attività illegali e criminali (sequestri, rapine, furti ecc.) fuori dal punto di vendita; (III) il traffico di armi pesanti, alimentato dalla corruzione della Polizia, sia come fonte di lucro, sia per interesse diretto o indiretto di appoggiare un Comando contro un altro o di renderne possibile le attività criminali più generali; (IV) lo sviluppo progressivo del consumo di droghe da parte della popolazione povera della favela finisce per determinare la moltiplicazione di attività criminali disorganizzate (ma connesse) destinate a garantire la solvibilità dei consumatori poveri (sapendo che il debito insolvente costa la vita). In questa fase, il capitalismo mafioso si articola dentro il ciclo lungo dell’economia criminale: da un lato, il narco-traffico internazionale all’ingrosso e i differenti apparati repressivi dello Stato; dall’altro la vendita al dettaglio appaltata ai poveri: il ciclo è D-Droghe-D?????¢ -Armi-D¢¢.
8.Il narco-traffico fordista senza fordismo. La nostra tesi è che il periodo del narco-traffico al dettaglio (quello che si sta esaurendo sotto i nostri occhi, tra una battaglia e l’altra di un nuovo tipo di guerra) a Rio de Janeiro è stato di tipo fordista. Per dirla meglio, si è trattato dell’espressione di un rapporto al territorio di tipo fordista, però senza fordismo. Chiaro, si è trattato di un fordismo inesistente, ma pur sempre di un fordismo che funzionava per la sua stessa assenza. Da un lato, la diffusione capillare del narco-traffico in quasi tutte le favelas ha permesso al blocco del biopotere l’esercizio di un potere sovrano di tipo arcaico, un potere di morte sulla vita dei poveri che ha funzionato (e ancora funziona) come una terribile macchina di regolazione biopolitica che trasforma i giovani poveri di colore in Homo Sacer: uccidibili ma non sacrificabili (come ricordava Pasolini). Dall’altro, il narco-traffico, pur non si costituendo mai in un contropotere ma a causa delle caratteristiche stanziali della sua attività nelle favelas, ha partecipato – anche se molto indirettamente – alle forme (minimali ma importanti) di welfare che i poveri hanno conquistato negli anni ’80: in alcuni casi i primi governi democratici facevano arrivare nelle vicinanze l’acqua e l’elettricità (e qualche cabina telefonica) e gli abitanti si allacciavano in modo precario, per proprio conto, ma gratuitamente o a prezzi stracciati: “grazie al comando del crimine la maggioranza non pagava luce, acqua o tasse sugli immobili”[13]. Indipendentemente dai suoi obiettivi, i punti di vendita al dettaglio del narcotraffico hanno finito per funzionare come surrogato del potere “statale” che garantiva alcuni servizi basici di tipo fordista (in assenza del fordismo!). Allo stesso modo, i pochi investimenti sociali realizzati in favela – molte volte con obiettivi di controllo mafioso del processo elettorale – sempre hanno dovuto negoziare con il narcotraffico nelle favela. La dimensione fordista senza fordismo del narcotraffico è apparsa en creux negli anni ’90, nel corso delle grandi operazioni di privatizzazioni, in particolare dei servizi pubblici. Il capitalismo postfordista e cognitivo si lanciava all’assalto dei territori: telefonia, TV a cavo, elettricità, autostrade (comprese quelle metropolitane) erano privatizzate. Ma i concessionari privati dei servizi pubblici – come per esempio la distribuzione dell’elettricità da parte della statale francese EDF – non sono riescono a “fare pagare” gli allacci informali e illegali nelle favela. Questa incapacità conferma per difetto che il presidio militare dei “punti di vendita” al dettaglio da parte dei Comandos del narcotraffico permette il funzionamento, sui generis e indiretto, di un welfare senza welfare. Fino alla transizione – apertura democratica e crisi – degli anni ’80 questo “welfare” faceva le veci del welfare che mancava e si sviluppava ambiguamente sulle frange massificate di un’esclusione sociale priva di ogni prospettiva di mobilitazione (inclusione) dentro il rapporto salariale (a causa della crisi della crescita e dello stesso paradigma industriale).
9.Il capitalismo cognitivo e l’inclusione dei poveri come poveri. Come abbiamo detto, negli anni ’90, la stabilizzazione monetaria e l’inserimento nella globalizzazione annunciano un dislocamento del quale le privatizzazioni dei servizi sono un asse strategico di “inclusione” dei poveri come poveri, in direzione a una mobilitazione produttiva che ha luogo direttamente sui territori metropolitani. L’accumulazione “cognitiva” ha bisogno di controllare le reti tecniche e sociali. Il caso della telefonia è emblematico. Fino alla metà dei ’90, in funzione dell’estrema disuguaglianza dello sviluppo e della sua crisi (con il virtuale fallimento dello Stato negli anni ‘80), la telefonia fissa era un’infrastruttura produttiva (presente nella grande industria statale o multinazionale: dentro le fabbriche e nelle case degli strati sociali implicati nelle attività intellettuali o comunque di direzione o di servizio) o un bene di lusso per l’elite. Senza piani di espansione adeguati (a causa della prolungata crisi fiscale dello Stato e della stagnazione economica) delle linee, la telefonia fissa era regolata da un mercato parallelo particolarmente perverso: (fino al 1997) una linea telefonica costava come un PC nei quartieri “ricchi” e molto di più nei quartieri poveri. Esisteva un intero settore di piccole aziende (formali o informali) che vivevano con l’affitto di linee telefoniche: una decina di linee era sufficiente a generare un reddito sufficiente a mantenersi nella fascia di reddito della “classe media”. Quando la telefonia viene privatizzata, diventa mobile e si democratizza: tutti – ogni frammento sociale – hanno accesso, senza dover prima passare per un processo de omogeneizzazione sociale (per esempio via inserimento nel rapporto salariale). La rete coinvolge tutti, indipendentemente dall’eterogeneità sociale che li caratterizza: ricchi e poveri, lavoratori formali e informali, abitanti dei quartieri ricchi e delle favela, del centro e della periferia, poliziotti e narcotrafficanti. Tutti inclusi, con il telefonino in tasca. Ora, sappiamo che questo movimento modula, nel senso che produce e riproduce, la frammentazione sociale: tutti hanno il telefono, ma non tutti possono pagarne l’uso; tutti possono virtualmente comunicare, ma le condizioni di mobilità reale nella metropoli sono profondamente disuguali. La disuguaglianza e l’esclusione non sono eliminati, ma modulati, nel dislocamento generale dello stesso processo di accumulazione.
10. Le “milizie cognitive” e la “guerra di Rio”. Alle privatizzazioni segue la creazione delle Agenzie di Regolazione. Il mercato non può – da solo – decidere il valore delle tariffe, poiché quel che le tariffe telefoniche quantificano è per definizione incommensurabile: la cooperazione sociale stessa.  In realtà, le tariffe sono politiche e funzionano come una tassa. Il passaggio al capitalismo cognitivo implica la privatizzazione non solo e non tanto delle imprese ma delle miniere di valore che la cooperazione sociale produce: l’ideologia del neo-liberismo contiene una ridefinizione del politico come terreno di appropriazione – nuovamente primitiva – del comune (la metropoli e le sue reti) che produce cooperazione sociale ed è prodotto da questa, in spirale. È qui che incontriamo allo stesso tempo la dimensione statale della mafiosità del capitale e la dimensione mafiosa del capitalismo come forme specifiche del capitalismo cognitivo. È quel che vediamo nella trasformazione della “guerra di Rio de Janeiro”: proprio negli anni ’90 si afferma come nuovo modello di capitalismo mafioso il fenomeno che la stampa locale definisce come “milícias”.  Le “milizie” sono composte di poliziotti e altri membri di corpi dello Stato. Questa composizione delle “milizie” è pubblicamente riconosciuta dai vertici della polizia e dello Stato. In un’intervista al canale di TV CNT il 2 gennaio 2011, il capo della Polizia Militare di Rio ha dichiarato: “Il narco-traffico è lo strato inferiore del proletariato, invece le milizie sono lo strato inferiore dello Stato”. Ora, è importante notare che le “milizie” (che controllano territori sempre più vasti e che non si limitano alle “favelas” ma coinvolgono interi quartieri, compresi quelli dei “ricchi”) hanno un modus operandi completamente differente dai “commandos” del narcotraffico. Nel territorio delle “milizie”, la prima fonte di remunerazione dell’attività mafiosa è la sicurezza, cioè la pace della “paura”: il narcotraffico è espulso e la “milizia” esercita la sua “giustizia”. Gli abitanti di un determinato territorio pagano una tassa in cambio della “protezione” (quando non direttamente, la pagano via i commercianti locali o le “agenzie immobiliari” che gestiscono i palazzi e/o gated cities). La prima dimensione delle “milizie” è proprio quella della gestione esplicita (anche se non formale) dell’appalto che il blocco del biopotere gli ha fatto per regolare i “poveri”. In seguito, la milizia “completa” il suo essere Stato passando a fondare il suo funzionamento sul raccoglimento delle imposte. Il diritto sulla vita dei poveri si trasforma nel primo meccanismo costitutivo (è chiaro che chi si rifiuta di pagare deve fare i conti con questa realtà, così come le attività illegali “disorganizzate”: le infrazioni come furti, traffico di stupefacenti e anche non pagamento dei biglietti di autobus sono puniti con la morte). Su questa base interviene una vera e propria innovazione. Le milizie non si limitano ad assumere esplicitamente la sua figura “statale”, ma anche quella (di “rentiers”) tipica del capitalismo cognitivo, controllando tutta la circolazione produttiva dei loro territori: la distribuzione clandestina della TV a cavo, la circolazione dei micro-autobus informali (o formali), la distribuzione delle bombole del gas, gli allacci clandestini all’elettricità, la produzione e vendita dei DVD “pirata” e infine una qualche “articolazione” con le attività più moderne del Jogo do Bicho, cioè le reti delle case di giochi illegali (con le slot machines). In certi casi, gestiscono anche il narcotraffico, eventualmente “affittando” determinati punti di vendita a un “comando” o a un altro del narcotraffico. Vediamo la descrizione del funzionamento delle milizie attraverso alcuni episodi di repressione delle loro attività: in agosto del 2010, la Polizia Federale realizza una retata. Dei 12 miliziani arrestati, 4 sono poliziotti. Per mezzo di 7 aziende, gestiscono la distribuzione di internet e TV a cavo in vari quartieri[14].  In giugno del 2010, sempre la Polizia Federale, chiude una centrale di distribuzione clandestina di TV a cavo che aveva 30.000 abbonati (che pagavano da R$30 a 50 mensili, con un giro d’affari mensile de 1 milione di Reais): tra i cinque arrestati, uno è un poliziotto e un altro un ex-agente penitenziario[15].

Fonte: http://uninomade.org/la-guerra-di-rio-de-janeiro-l%E2%80%99offensiva-del-capitalismo-cognitivo/

Para João Pedro Stedile, da direção nacional do MST, a vitória de Dilma permitirá um cenário e correlação de forças mais favoráveis ao avanço de conquistas sociais

A candidatura de José Serra (PSDB) representa o núcleo central dos interesses da burguesia e a volta do neoliberalismo. Esta é a avaliação João Pedro Stedile. Em sua primeira entrevista ao Brasil de Fato, o dirigente nacional do MST e da Via Campesina constata que, no atual cenário eleitoral, as candidaturas não estão debatendo programas, projetos para a sociedade. Mas, segundo ele, elas representam claramente interesses diversos de forças sociais organizadas. Nesse sentido, Stedile afirma que Serra representa os interesses da burguesia internacional, da burguesia financeira, dos industriais de São Paulo, do latifúndio atrasado, com Katia Abreu de coordenadora de finanças e setores do agronegócio do etanol. E, frente a esse cenário, defende que, “como militantes sociais, e como movimentos sociais, temos a obrigação política de derrotar a candidatura Serra”.

Brasil de Fato – Com a implementação do modelo neoliberal, os bancos e o capital financeiro aumentaram seus lucros e passaram a dirigir a economia do Brasil, que se sustenta na política de juros altos, meta de inflação, arrocho fiscal e política de exportações. Quais as consequências desse modelo?

João Pedro Stedile – Estamos vivendo a etapa do capitalismo que se internacionalizou, dominou toda a economia mundial sob a hegemonia do capital financeiro e das grandes corporações que atuam em nível internacional. O mundo é dominado por 500 grandes empresas internacionalizadas, que controlam 52% do PIB mundial e dão emprego para apenas 8% da classe trabalhadora. As consequências em nível mundial são um desastre, pois toda população e os governos nacionais precisam estar subordinados a esses interesses. E eles não respeitam mais nada, para poder aumentar e manter suas taxas de lucro. Seus métodos vão desde a apropriação das riquezas naturais, deflagração de conflitos bélicos para manter as fontes de energias e controle do Estado, para se apropriarem da mais-valia social ou poupança coletiva através dos juros que os estados pagam aos bancos. No Brasil, a lógica é a mesma. Com um agravante, sendo uma economia muito grande e dependente do capital estrangeiro, aqui o processo de concentração de capital e de riqueza é ainda maior. Esta é a razão estrutural do porquê – apesar de sermos a oitava economia mundial em volume de riquezas – estamos em 72º lugar nas condições médias de vida da população e somos a quarta pior sociedade do mundo em desigualdade social. Portanto, essa fase do capitalismo, em vez de desempenhar um papel progressista no desenvolvimento das forças produtivas e sociais, como foi a etapa do capitalismo industrial; agora, os níveis de concentração e desigualdade só agravam os problemas sociais.

Mesmo com a eleição de governos mais progressistas, o Estado brasileiro mantém seu caráter antipopular, sem a realização de mudanças mais profundas que resolvam os problemas estruturais do país. Como você avalia a democracia e o Estado no Brasil?

Primeiro, há uma lógica natural do funcionamento da acumulação e da exploração do capital que sobrepõe os governos e as leis. Segundo, no período neoliberal, o que o capital fez foi justamente isso, privatizar o Estado. Ou seja, a burguesia transformou o Estado em seu refém, para que ele funcione apenas em função dos interesses econômicos. E sucateou o Estado nas áreas de políticas públicas de serviços que servem a toda população, como educação, saúde, transporte público, moradia etc. Por exemplo, temos 16 milhões de analfabetos. Para alfabetizá-los, custaria, no máximo, uns R$ 10 bilhões. Parece muito – o Estado, com todo seu aparato jurídico impede de aplicar esse dinheiro –, mas isso representa duas semanas do pagamento de juros que o Estado faz aos bancos. Construímos viadutos e estradas em semanas, mas para resolver o deficit de moradias populares é impossível? Temos ainda 10 milhões de moradias faltando para o povo.

Por último, a sociedade brasileira não é democrática. Nós nos iludimos com as liberdades democráticas de manifestação, que conquistamos contra a ditadura, que foram importantes. Mas a verdadeira democracia é garantir a cada e a todos cidadãos direitos e oportunidades iguais, de trabalho, renda, terra, educação, moradia e cultura. Por isso, mesmo quando elegemos governos com propostas progressistas, eles não têm força sufi ciente para alterar as leis do mercado e a natureza do Estado burguês.

Na política internacional, o governo Lula investiu na relação com países do hemisfério Sul, com o fortalecimento do Mercosul e da Unasul, por exemplo. Qual a sua avaliação dessa política e quais os seus limites?

O governo Lula fez uma política externa progressista no âmbito das relações políticas de Estado. E uma política dos interesses das empresas brasileiras, nos seus aspectos econômicos. Comparado às políticas neoliberais de FHC, que eram totalmente subservientes aos interesses do imperialismo, isso é um avanço enorme, pois tivemos uma política soberana, decidida por nós. Na política, se fortaleceram os laços com governos latinos e daí nasceu a Unasul para a América do Sul, e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) para todo o continente, excluindo-se os Estados Unidos e o Canadá. Esses dois organismo representam o fim da OEA. Aliás, já tarde. Na economia se fortaleceram laços econômicos com países do Sul. Mas ainda precisamos avançar mais na construção de uma integração continental que seja de interesse dos povos, e não apenas das empresas brasileiras, ou mexicanas e argentinas. Uma integração popular latino-americana no âmbito da economia será o fortalecimento do Banco do Sul, para substituir o FMI. O banco da Alba, para substituir o Banco Mundial. E a construção de uma moeda única latino-americana, como é proposto pela Alba, através do sucre, para sair da dependência do dólar. Se queremos independência e soberania econômica nas relações internacionais e latino-americanas, é fundamental colocarmos energias para derrotar o dólar. O dólar foi fruto da vitória estadunidense na segunda guerra mundial e tem sido, nessas décadas todas, o principal mecanismo de espoliação de todos os povos do mundo. Num aspecto mais amplo, o presidente Lula tem razão: as Nações Unidas não representam os interesses dos povos, e por isso é besteira o Brasil sonhar em ter a presidência. Precisamos é construir novos e mais representativos organismos internacionais. Mas isso não depende de propostas ou vontade política. Depende de uma nova correlação de forças mundial, em que governos progressistas sejam maioria. E hoje não são.

O sistema de televisão e rádio é extremamente concentrado no Brasil, em comparação até com os outros países da América Latina. Quais as consequências disso para a luta política?

Durante o século 20, hegemonizado pela democracia republicana e pelo capitalismo industrial que produziu uma sociedade de classes bem definida, a reprodução ideológica da burguesia se dava pelos partidos políticos, pelas igrejas e pelos sindicatos e associações de classe. Agora, na fase do capitalismo internacionalizado e financeiro, a reprodução da ideologia dominante se dá pelos meios de comunicação, em especial redes de televisão e as agências internacionais de noticias. A burguesia descartou os outros instrumentos e prioriza estes, os quais tem controle total. Por isso, no Brasil, na América Latina e em todo o mundo, os meios de comunicação estão sob controle absoluto das burguesias. E eles usam como reprodução ideológica, como fonte de ganhar dinheiro e como manipulação política. E como seus patrões estão internacionalizados, suas pautas e agendas estão também centralizadas. Por isso, a construção de um regime político mais democrático, mesmo nos marcos do capitalismo, depende fundamentalmente da democratização dos meios de comunicação. Isso é fundamental para garantir o direito ao acesso à informação honesta e impedir a manipulação das massas. E os governos deveriam começar eliminando a publicidade estatal, em qualquer nível, em qualquer meio de comunicação. É uma vergonha o que se gasta em publicidade oficial. No Paraná, para se ter uma ideia, em oito anos de governo Lerner [1995-2002], o Estado pagou mais de R$ 1 bilhão em publicidade para dois ou três grupos de comunicação.

As grandes cidades brasileiras enfrentam problemas como falta de habitação, saneamento básico, escolas, hospitais, além de trânsito e violência. Como você analisa a questão urbana?

A maior parte da população se concentra nas grandes cidades, e aí estão concentrados também os pobres e os maiores problemas resultantes desse modelo capitalista, e de um Estado que atua somente em favor dos ricos. Os pobres das grandes cidades se amontoam nas periferias, não têm direito a moradia, escola, transporte público decente, trabalho, renda. Nem a lazer. Sobram os programas de baixaria da televisão como lazer. Nesse contexto é evidente que o sistema gera um ambiente propício para o narcotráfico, para a violência social.

E o Estado, o que tem feito através dos mais diferentes governos?

A única resposta tem sido a repressão. Mais polícia, mais violência oficial, mas cadeia. As cadeias estão cheias de pobres, jovens, mulatos ou negros. Há uma situação insustentável de tragédia social. Todos os dias assistimos os absurdos da desigualdade social, do descaso do Estado e da truculência do capital. As estatísticas são aterrorizantes: 40 mil assassinatos por ano nas grandes cidades, a maioria pela polícia. Por isso os movimentos sociais apoiaram a campanha pelo desarmamento. Mas a força das empresas bélicas financiou deputados, campanhas etc., e o povo caiu na ilusão de que o problema da violência urbana se resolveria tendo o direito de ter arma. Acredito que a pobreza e a desigualdade nas grandes cidades brasileiras é o problema social mais grave que temos. Infelizmente nenhum candidato está debatendo o tema, nem quando o debate é para prometer segurança! Segurança para quem? As famílias precisam de segurança de trabalho, renda, escola para os filhos.

Nas eleições presidenciais, o quadro apresenta duas candidaturas que polarizam a disputa, enquanto as outras não demonstram força para mudar essa situação. Nessa conjuntura, quem abre melhores perspetivas para a classe trabalhadora e para a reforma agrária?

As candidaturas não estão debatendo programas, projetos para a sociedade. Mas as candidaturas representam claramente interesses diversos de forças sociais organizadas. Serra representa os interesses da burguesia internacional, da burguesia financeira, dos industriais de São Paulo, do latifúndio atrasado, com sua Katia Abreu de coordenadora de finanças, e setores do agronegócio do etanol. Dilma representa setores da burguesia brasileira que resolveram se aliar com Lula, setores mais arejados do agronegócio, a classe média mais consciente, e praticamente todas as forças da classe trabalhadora organizada. Vejam, apesar de toda popularidade do Lula, nessa campanha, a Dilma reuniu mais forças da classe trabalhadora do que na eleição de 2006. A candidatura da Marina representa apenas setores ambientalistas e da classe média dos grandes centros, e por isso seu potencial eleitoral não decola. E temos três candidaturas de partidos de esquerda, com companheiros de biografia respeitada de compromisso com o povo, mas que não conseguiram aglutinar forças sociais ao seu redor, e por isso, o peso eleitoral será pequeno. Nesse cenário, nós achamos que a vitória da Dilma permitirá um cenário e correlação de forças mais favoráveis a avançarmos em conquistas sociais, inclusive em mudanças na política agrícola e agrária. E evidentemente que nesse cenário incluímos a possibilidade de um ambiente propício para maior mobilização social da classe trabalhadora como um todo, para a obtenção de conquistas. Como militantes sociais, e como movimentos sociais, temos a obrigação política de derrotar a candidatura Serra, que representa o núcleo central dos interesses da burguesia e a volta do neoliberalismo.

O MST apresentou uma avaliação de que a luta eleitoral não é sufi ciente para a realização das mudanças sociais. Por outro lado, analisa que é um momento importante no debate político. Como o MST vai se envolver nessas eleições?

A esquerda brasileira, os movimentos sociais e políticos ainda estão aturdidos com a derrota político-ideológica-eleitoral que sofremos em 1989. Isso levou a muitas confusões, e também a alguns desvios de setores da classe. Vivemos um período da história da luta de classes de nosso país – e poderíamos dizer em nível internacional, na maioria dos países – em que a estratégia para conseguir acumular forças para mudanças sociais é a combinação da luta institucional com a luta social. Na luta institucional, compreendemos a visão gramsciana na qual os interesses da classe trabalhadora precisam disputar e ter hegemonia na disputa de governos nos três níveis: municipal, estadual e federal. Nos espaços do conhecimento, universidade, meios de comunicação. Nos sindicatos, igrejas e outras instituições da sociedade de classes. E a luta social são todas as formas de mobilização de massa, que possibilitam o desenvolvimento da consciência de classe e a conquista de melhores condições de vida – sabendo que elas dependem de derrotar os interesses do capital. Pois bem, o que aconteceu no último período? Parte da esquerda e da classe trabalhadora priorizou a luta institucional da disputa apenas de governos e menosprezou, desdenhou a luta social. E parte dos movimentos sociais, desencantado com a crise ideológica, desdenhou a luta institucional, como se a luta direta, de massas, fosse sufi ciente. Luta social apenas, sem disputar projeto político na sociedade e sem disputar os rumos institucionais do Estado, não consegue acumular para a classe. Podem até eventualmente resolver problemas pontuais da classe, mas não mudam a natureza estrutural da sociedade. O MST compreende que devemos aglutinar, combinar, estimular as duas formas de luta, de forma permanente. Para que com isso possamos acumular forças, organizadas, de massa, de forma orgânica, que construa um projeto político da classe e ao mesmo tempo crie condições para o reascenso do movimento de massas, pois este é o período histórico em que a classe tem condições de ir para a ofensiva, de tomar inciativa política, de pautar seus temas para todo o povo. Por isso, claro que todo militante do MST, como cidadão consciente, deve arregaçar as mangas e ajudar a eleger os candidatos mais progressistas em todos os níveis. Isso é uma obrigação de nosso compromisso com a classe.

Desde os tempos do governo FHC, José Serra fez declarações contra a reforma agrária e o MST. No entanto, nas últimas semanas, vem intensificando os ataques. Na sua visão, por que ele vem agindo dessa forma?

Por dois motivos. Primeiro, porque as forças sociais que ele representa agora, como porta-voz maior, são as forças da classe dominante do campo e da cidade, que são contra os interesses dos camponeses, da classe trabalhadora em geral e do povo brasileiro. Portanto, ele é contra a reforma agrária não porque não goste do MST, mas por uma questão de interesse de classe. Segundo, na minha avaliação, é que a coordenação tucana acha que a única chance do Serra crescer eleitoralmente é adotar um discurso de direita, para polarizar e, então, se mostrar mais de confiança do que a Dilma. Por isso adotou todos os ícones da esquerda para bater. Bate em nós, em Fidel, em Cuba, Chávez, Evo Morales, até no bispo Lugo ele bateu. Achou uma conexão das Farc com o PT absurda. Ele sabe que o partido está mais próximo da social-democracia. Não é por ignorância, é por tática eleitoral. Acho que ele errou também na tática. E vai ficar refém de seu discurso de direita sem ampliar os votos. Eu acho ótimo que ele se revele como direitista mesmo. Ajuda a clarear os interesses de classe das candidaturas. E por isso mesmo vai perder de maior diferença do que o Alckmin perdeu do Lula em 2006.

Atualmente, o movimento sindical vem fazendo a luta pela redução da jornada, mas está fragmentado em uma série de centrais sindicais. Quais os problemas e desafios da luta sindical atualmente?

Não tenho a pretensão de dar lições a ninguém. Há valorosos companheiros que atuam na luta sindical que têm muitos elementos para analisar a situação da organização de classe. Os problemas e desafios da organização sindical são evidentes. Mas não estão no número de sindicatos ou de centrais. Isto, ao contrário, até poderia ser visto como vitalidade, já que as correntes sindicais sempre existiram, são importantes e aglutinam por vertentes ideológicas. Os desafios da unidade da classe nos sindicatos passam pela necessidade de recuperarmos o trabalho de base, a organização, de toda a classe, lá no local de trabalho e no de moradia. Ninguém mais quer fazer reunião na porta de fábrica, na fábrica (mesmo que de forma clandestina, como era nos tempos do Lula). Precisamos recuperar o sentido da luta de massas como a única expressão da força da classe. Precisamos recuperar o debate de temas políticos, relacionados com um programa para a sociedade que extrapole as demandas salariais e corporativas. Precisamos recuperar a importância de o movimento sindical ter seus próprios meios de comunicação de massa. Saúdo a chegada da televisão dos trabalhadores no ABC. Mas precisaríamos ter antes, e em todas regiões metropolitanas. Precisamos recuperar a formação de militantes da classe trabalhadora, em todos os níveis. Sem conhecimento, sem teoria, não haverá mudanças. E, com essas iniciativas, certamente poderemos construir um processo de maior unidade, já que os interesses da classe como um todo serão o denominador comum, e de construção do reascenso do movimento de massas.

Um grupo de dirigentes e estudiosos avalia que a sociedade brasileira passou por uma transformação, e sindicatos e partidos políticos não são suficientes para organizar o povo brasileiro, especialmente com o aumento da informalidade. Com isso, seria necessário construir novos instrumentos para a luta política. Como você avalia os desafios organizativos da classe trabalhadora?

As formas de organização da classe em partidos, sindicatos e associações de bairro foram desenvolvidas pela classe, como respostas ao desenvolvimento da exploração pelo capitalismo industrial, desde os tempos de Marx até os dias atuais. Acho que o problema não é ficar analisando se serve ou não, jogar tudo fora e pensar novos instrumentos. Cada tempo histórico tem suas formas de organização, suas formas de luta de massa e produz suas próprias lideranças. Estamos vivendo um período de derrota político-ideológica que gerou crise ideológica e organizativa na classe. Um período de refluxo do movimento de massas. Mas isso faz parte de um período, de uma onda. Logo ingressaremos em novos períodos. Acho que o principal não é discutir a forma, mas tratar de organizar de todas as maneiras possíveis todos os setores da classe trabalhadora. E evidentemente que a forma sindical ou partidária não está conseguindo chegar na juventude pobre, da classe trabalhadora das periferias. E precisamos descobrir novos métodos e novas formas. As formas podem ter outros rótulos, outros apelidos, mas o principal é que a classe precisa se organizar do ponto de vista econômico, corporativo, para resolver suas necessidades e problemas imediatos; e precisa ter organização política, para disputar projetos para a sociedade. E só vamos resolver os problemas de organização organizando. A prática é a melhor conselheira, do que grandes teses, nesse caso.

Dentro de um modelo que tem hegemonia de bancos e do capital financeiro, com o enfraquecimento da indústria, baseado no consumo de massa, quais as perspectivas de futuro para a juventude?

A juventude pobre, da classe trabalhadora urbana, não tem espaço nesse modelo de dominação do capital financeiro e internacionalizado. Nem nos países chamados ricos, como na Europa, onde o desemprego atinge até 40% da juventude. O futuro da juventude está justamente em desenvolver uma consciência como classe trabalhadora. Se apenas ficar se olhando como jovem e sem oportunidades, não vai encontrar as respostas, vai ficar velho sem as respostas. Precisamos desenvolver consciência de classe, e motivá-los para que se mobilizem, lutem. E como estão fora das fábricas, da escola, temos que desenvolver novas formas de trabalho político com a juventude, que a ajude a debater, a se aglutinar, para que descubra que o futuro é agora. Tenho esperanças, há uma massa enorme da juventude trabalhadora urbana que está em silêncio. Ou ainda alienada, iludida. Alguns tentando entrar no mercado consumidor, como se fosse a felicidade geral. Logo perceberão que precisam ter uma atitude, uma participação ativa na sociedade.

O MST vem fazendo a avaliação de que a reforma agrária não avançou durante o governo Lula. Por quê?

É preciso ter claro os conceitos e o significado da reforma agrária. Reforma agrária é uma política pública, desenvolvida pelo Estado, para democratizar a propriedade da terra e garantir o acesso a todos os camponeses que queiram trabalhar na terra. Do ponto de vista histórico, ela surgiu numa aliança da burguesia industrial no poder com os camponeses que precisavam terra, para sair da exploração dos latifundiários. E, assim, a maioria das sociedades modernas fez reforma agrária a partir do século 19 e ao longo do século 20. Depois tivemos as reformas agrárias populares e socialistas, que foram feitas por governos populares ou revolucionários, no bojo de outras mudanças sociais. Aqui no Brasil nunca tivemos reforma agrária. A burguesia brasileira nunca quis democratizar a propriedade da terra. Ela preferiu manter aliança com os latifundiários para que continuassem exportando matérias-primas (e aí ela usaria os dólares da exportação para bancar a importação de máquinas) e sobretudo preferiu expulsar os camponeses para a cidade, para criar um amplo exército industrial de reserva, que manteve ao longo do século 20 os salários industriais mais baixos de todas as economias industriais do mundo. E os camponeses brasileiros nunca tiveram forças, sozinhos nem em aliança com os trabalhadores da cidade, para impor uma reforma agrária aos latifundiários. Chegamos mais perto disso em 1964. E tivemos um baita programa de reforma agrária, em aliança com o governo Goulart. A resposta da burguesia foi se aliar com Império e impor a ditadura militar de classe. As políticas dos governos no Brasil e do governo Lula são de assentamentos rurais. Ou seja, aqui e acolá, pela força da pressão camponesa, desapropria algumas fazendas para aliviar os problemas sociais. Mas isso não é reforma agrária. Tanto que o censo do IBGE de 2006 revelou que agora a concentração da propriedade da terra é maior do que no censo de 1920, quando recém saímos da escravidão. E no governo Lula não tivemos espaço para debater um processo de reforma agrária verdadeiro, e nem tivemos força de massas para pressionar o governo e a sociedade. Por isso, a atual política de assentamentos é insuficiente por um lado, mas reflete a correlação de forças políticas que há na sociedade. Lamentamos apenas que algumas forças dentro do governo se iludam a si mesmas, fazendo propaganda ou achando que essa política de assentamentos  – insuficiente – fosse reforma agrária.

Alguns estudiosos e setores sociais, até mesmo na esquerda, avaliam que passou o tempo da reforma agrária no Brasil. Qual o papel da reforma agrária dentro do atual estágio de desenvolvimento?

É verdade, nós também dizemos isso. Não há mais espaço para uma reforma agrária clássica, que visava apenas distribuir terra aos camponeses e eles produziriam com suas próprias forças e família para o mercado interno. Esse modelo era viável no auge e para o desenvolvimento nacional e do capitalismo industrial. Mas ele é inviável não porque o MST desdenha, e sim porque as forças políticas e sociais que poderiam ter interesse não têm mais. Se houvesse uma reviravolta nas classes que dominam o Brasil, e um novo projeto de desenvolvimento nacional e industrial entrasse na pauta política, aí a reforma agrária clássica teria lugar. Mas não é isso que se desenha. Então, qual a alternativa agora? É lutar por um novo tipo de reforma agrária. Uma reforma agrária que nós chamamos de popular. Que o movimento de pequenos agricultores chama de Plano Camponês, que a própria Contag e Fetraf chamam de agricultura familiar. São rótulos diferentes para um conteúdo semelhante. Ou seja, nós precisamos reorganizar o modelo de produção agrícola do país. Nós queremos usar nossa natureza para uma agricultura diversificada, fixando as pessoas no meio rural com melhoria das condições de vida, eliminando o latifúndio (não precisa ser muitos, apenas os acima de 1.500 hectares), adotando técnicas de produção de agroecologia, respeitosas ao meio ambiente e, sobretudo, produzindo alimentos sadios para o mercado interno. Nossa proposta de reforma agrária popular, no entanto, depende de um novo modelo de desenvolvimento, que tenha distribuição de renda, soberania nacional, rompimento com o domínio do capital estrangeiro sobre a agricultura e a natureza.

Como a reforma agrária pode beneficiar o conjunto da sociedade, especialmente a população das cidades?

A reforma agrária e a fixação do homem no campo são fundamentais para reduzir o desemprego na cidade e elevar os patamares do salário mínimo e a média salarial. A burguesia só paga baixos salários e aumenta o número de empregados domésticos porque todos os dias chegam milhares de novos trabalhadores se oferecendo para serem explorados. A reforma agrária é a única que pode produzir sem venenos. A grande propriedade do agronegócio só consegue produzir com veneno, porque não quer mão de obra, e esse veneno vai para o estômago de todos nós. Na última safra foram um bilhão de litros de venenos, 6 litros por pessoa, 150 litros por hectares. Uma vergonha. Um atentado. A reforma agrária ajuda a resolver o problema de moradia e do inchaço das cidades. Também vai reequilibrar o meio ambiente e com isso teremos menos mudanças climáticas que estão afetando agora, com mais força, as cidades. Vejam o que aconteceu no Nordeste. Num dia, 13 cidades foram varridas do mapa pelas chuvas torrenciais. Não foi a chuva a culpada, e sim o monocultivo da cana que alterou o equilíbrio e empurrou o povo para a beira do rio. Mas isso só o general Nelson Jobim viu e teve coragem de dizer. A Globo ficou quietinha procurando acobertar. Nenhuma área de reforma agrária de Pernambuco e Alagoas foi atingida, por que será? E nossos assentamentos foram os primeiros, antes do governo, a dar guarida aos desabrigados.

 

Por que a Via Campesina e o MST vêm realizando protestos contra as grandes empresas do agronegócio? As ocupações de terras não são sufi cientes ou não servem mais para a luta pela reforma agrária?

Como disse antes, agora a disputa não é mais apenas entre os pobres sem-terra e os latifundiários. Agora é uma disputa de modelo para produção e uso dos bens da natureza. De um lado temos o agronegócio, que é a aliança entre os grandes proprietários, o capital financeiro, que os financia – veja que, de uma produção de R$ 112 bilhões, os bancos adiantam R$ 100 bi para eles poderem produzir –, as empresas transnacionais que controlam a produção de insumos, sementes, o mercado nacional e internacional e as empresas de mídia. E, de outro lado, os sem-terra, os camponeses com pouca terra e a agricultura familiar em geral. E nesse marco de disputa, nosso inimigo principal são os bancos e as empresas transnacionais. Então, fazemos a luta de classes contra nossos inimigos principais e ao mesmo tempo devemos seguir lutando para melhorar as condições de vida, com novos assentamentos, moradia rural, luz para todos, programa de compra de alimentos pela Conab, um novo crédito rural etc. Essas medidas, embora setoriais, também ajudam a acumular força como classe.

Nos próximos dias, o MST vai realizar atividades pela reforma agrária. Como serão essas mobilizações e quais seus objetivos? Elas têm alguma relação com o período eleitoral?

A coordenação nacional do MST escolheu há tempos essa semana de meados de agosto para realizar uma campanha nacional de debates em torno da reforma agrária. É uma forma concentrada de esforços para desenvolver diferentes maneiras de agitação e propaganda; para levar nossas ideias à classe trabalhadora urbana; para denunciar os problemas e malefícios que o agronegócio, com seus venenos e sua sanha concentradora, causa para toda a sociedade; e, ao mesmo tempo, mostrar justamente os benefícios de uma reforma agrária popular. Esperamos que nossa militância se engaje em todo país, para essa jornada de conscientização de massas.