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As autoridades reguladoras norte-americanas fecharam nesta quinta-feira (18) três bancos nos estados da Flórida, Geórgia e Illinois, o que fez chegar a 68 o número de entidades bancárias declaradas em falência este ano.

A Corporação Federal de Seguros de Depósitos (FDIC, na sigla em inglês) interveio nesta sexta-feira (19/08) no Lydian Private Bank, com sede em Palm Beach, Flórida, que tinha US$ 1,7 bilhão em ativos e US$ 1,24 bilhão em depósitos, informou em comunicado.

Também foram fechadas outras duas instituições menores: First Southern National Bank, de Statesboro (Geórgia), com US$ 164,6 milhões em ativos e US$ 159,7 milhões em depósitos, e o First Choice Bank, em Geneva, (Illinois), que possuía US$ 141 milhões em ativos e US$ 137,2 milhões em depósitos.

Segundo o canal MSNBC, em 2008, ano no qual a crise financeira atingiu de fato os Estados Unidos, foi decretada a falência de 25 bancos, frente aos três do ano anterior. O ritmo de fechamentos diminuiu em 2011, segundo indicou a emissora, mas no ano anterior havia sido declarada a falência de 118 bancos. Entre 2008 e 2010, as quebras bancárias tiveram um custo de US$ 76,8 milhões à FDIC.

Fonte: EFE

Enviado por luisnassif

A insustentável leveza da dívida

Autor(es): Roberto Giannetti da Fonseca Valor Econômico – 28/07/2011

 

Em 1987 aprendemos no Brasil uma grande lição, quando finalmente entendemos o momento em que uma dívida se torna impagável. Após a decretação oficial de moratória de nossa dívida externa em fevereiro de 1987, retornamos à mesa de negociação com os credores internacionais não mais em busca de um novo e inútil reescalonamento do principal e juros, mas sim de uma nova e inédita forma de reestruturação de toda dívida bancária externa, vencida e vincenda. Para os leitores mais jovens, que não viveram esse dramático momento da economia brasileira, é necessário recordar que desde o início da década de 80 o Brasil já se encontrava tecnicamente insolvente com os bancos internacionais. Em dezembro de 1982 havia sido reconhecida oficialmente pelo governo brasileiro a incapacidade de realizar com pontualidade as novas liquidações vincendas em moeda estrangeira, e pedimos auxílio ao FMI – Fundo Monetário Internacional, que impôs rígidas condições ao Brasil para seu apoio e aval ao processo de reescalonamento consentido da dívida externa. De 1983 a 1987 ficamos sujeitos a condições humilhantes de monitoramento econômico, seja pelo FMI como pelo Comitê de Bancos Credores, realizando periodicamente a rolagem do principal e de parte dos juros, estes cada vez mais altos, face ao chamado spread de risco aplicado sobre o total da dívida. Finalmente quando então foi declarada a moratória unilateral da divida brasileira em 1987 o mundo veio abaixo, no momento em que muitos bancos começaram a vendê-la no mercado secundário com deságio de 70% para se ver livre daquele “lixo” contábil.Diante dessa realidade, o próprio mercado já buscava uma solução heterodoxa para a dívida do Brasil, como dos demais países latinos americanos, também encalacrados fazia já quase 7 anos com os bancos internacionais e o FMI. Foi quando na troca de comando do ministério da Fazenda em abril de 1987, a nova equipe econômica então comandada pelo ministro Bresser-Pereira vislumbrou com coragem e sabedoria que era chegada a hora da reestruturação da dívida brasileira por meio da sua securitização, com base na emissão de um menu de bônus de longo prazo e com variantes de taxas juros fixas ou variáveis, valor de corte no principal da dívida, opções de conversão e resgate antecipado e garantias de instituições multilaterais. Infelizmente, em 1987 o então secretário do Tesouro americano chamava-se James Baker, um intransigente e arrogante líder republicano que colocou-se frontalmente contra a proposta brasileira. Em fins de 1987, o governo Sarney veio a sucumbir diante do poderoso lobby dos bancos e dos economistas conservadores de plantão, encerrando sem qualquer solução minimamente plausível o estado de moratória da divida externa. Ficamos com o ônus e sem nenhum bônus.

Repete-se o mesmo erro passado, dos reescalonamentos infindáveis e do aumento sucessivo dos spreads de risco das dívidas da Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, e Itália. Quanto mais tempo passa, mais se deterioram as respectivas economias dessas nações europeias

Em 1988, empossado como novo secretário do Tesouro dos EUA, Nicholas Brady entendeu de pronto a inevitabilidade da reestruturação da dívida latino americana e em vez de se tornar um espectador passivo dos fatos, se posicionou como protagonista da história e lançando mão da mal sucedida proposta brasileira no ano anterior, remodelou-a como o histórico Plano Brady, que em poucos anos pôs fim àquele dramático período conhecido pelos latinos americanos como “década perdida”.

Isso tudo me volta à memória agora em 2011, quando assisto ao “flashback reverso” dessa história, só que com outros personagens. Temos agora os países europeus e os Estados Unidos, nossos credores de 20 anos atrás, como países devedores a beira do colapso, enquanto o Brasil tornou-se um doador líquido de recursos ao FMI e figura hoje em dia entre os cinco maiores portadores de letras do Tesouro americano. E desde meados de 2008, e com mais ênfase a partir de maio de 2010, o mundo discute qual será a forma definitiva de resgate de alguns países europeus mais endividados e vulneráveis economicamente.

Repete-se o mesmo erro passado, dos reescalonamentos infindáveis e do aumento sucessivo dos spreads de risco das dívidas da Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, e Itália. Quanto mais tempo passa, mais se deterioram as respectivas economias dessas nações europeias e de sua capacidade de enfrentamento convencional do pagamento das obrigações externas. Queda de investimentos, desemprego crescente, forte desequilíbrio fiscal, aguda recessão, são algumas das notícias que todos os dias nos acostumamos a assistir sobre esses países nos últimos meses.

Na terceira semana de Julho, finalmente a União Europeia, reconheceu o inevitável calote da divida grega e anunciou timidamente uma forma de reestruturação voluntária de sua dívida, no estilo do Plano Brady. Melhor teria sido se finalmente os europeus, liderados pela Alemanha e pela França, viessem logo com um plano mais ambicioso e abrangente, de securitização gradual das dívidas de países europeus insolventes, de forma a repartir o custo desse resgate econômico entre os respectivos países devedores, seus respectivos credores, e os países da União Europeia como um todo, já que são sócios na união monetária e no Banco Central Europeu.

Um reforço do mecanismo European Financial Stability Facility – EFSF- poderia proporcionar uma sólida garantia a novos títulos de longo prazo (Exchange Bonds) da dívida desses países devedores. Tais títulos seriam emitidos e trocados com descontos implícitos ou explícitos sobre o principal e juros da dívida velha, de maneira que tornassem sustentável tal dívida reestruturada no período de sua amortização, tal como ocorreu no caso do Plano Brady nos anos 90. Os países europeus em vias de default seriam automaticamente elegíveis ao uso dessa facilidade, desde que viessem a adotar medidas de disciplina fiscal e monetária compatíveis com as regras da União Europeia. Quem viver, verá, a insustentável leveza das dividas europeias e americana!

Roberto Giannetti da Fonseca é empresário e economista, presidente da Kaduna Consultoria, e diretor titular de Relações Internacionais e de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Publicado originalmente em advivo

Por Alejandro Nadal (17/07/11)

Hoje todos os indicadores importantes sobre o desempenho da economia mundial indicam que a crise se aprofunda. Dos Estados Unidos à Europa, passando pelo Japão e pela China, o barómetro anuncia uma tempestade que ameaça converter-se num furacão global.

Os sonhadores, os especuladores e os reaccionários acabaram por afundar o mundo na segunda Guerra Mundial. Essa é o grande ensinamento da controversa obra do historiador A. J. P. Taylor sobre As origens da Segunda guerra mundial (publicada em 1961). Só lhe faltou acrescentar como pano de fundo desse processo a Grande Depressão. Uma vez completado o quadro, as semelhanças com os acontecimentos dos nossos dias começam a delinear-se de maneira mais clara e alarmante.

Hoje todos os indicadores importantes sobre o desempenho da economia mundial indicam que a crise se aprofunda. Dos Estados Unidos à Europa, passando pelo Japão e pela China, o barómetro anuncia uma tempestade que ameaça converter-se num furacão global. Já levamos três anos de estagnação, regressão e desemprego agudo e os governos das economias capitalistas desenvolvidas têm sido incapazes de apresentar soluções para sair do buraco. O mais grave é que fizeram seu o sonho do sistema financeiro de agravar a crise e torná-la mais duradoura.

O ataque dos especuladores na Europa mostra que a crise não assusta o sector financeiro. Talvez tenha aprendido a viver com a instabilidade pois sabe aproveitar o descalabro no sistema de preços, ainda que isso leve economias inteiras à ruína. O certo é que os técnicos do Banco Central Europeu (BCE) e dos governos da Europa continuam rendidos aos pés dos agentes financeiros. Mas isso não resolve a crise, só a agrava.

O BCE acaba de subir as taxas de juro, afundando as perspectivas de uma saída mais ou menos airosa para a Espanha e a Itália. O BCE fez isso sabendo que a taxa Euribor subiria imediatamente e 90 por cento das hipotecas em Espanha estão ligadas a essa taxa. O impacto será brutal, aprofundando a recessão e o desemprego.

O diferencial entre os juros dos títulos de tesouro da Alemanha e de países como a Itália e a Espanha prenuncia como será difícil para estes países mediterrânicos enfrentar os seus compromissos de pagamentos em Agosto e Setembro. A Itália deve reciclar 70 mil milhões de euros nesses meses e o custo em juros adicionais será insuportável.

Com os casos de Grécia, Portugal e Irlanda poder-se-ia pensar que o sistema financeiro europeu poderia subsistir. Mas quando falamos de Itália e Espanha as coisas mudam. O ajustamento ou reestruturação, ou como queiram chamar ao desastre da dívida nestes países, poderão arrastar toda a União Europeia para o abismo. Os reflexos sacudirão o
planeta inteiro.

Para piorar a situação, os governos europeus escolheram a austeridade e a depressão prolongada. Sem o apoio da despesa pública, a procura continuará no fundo. O crescimento será mais medíocre e o desemprego aumentará. A receita reduzir-se-á, o peso da dívida elevar-se-á e os prémios de risco também. Os sonhos dos reaccionários serão o pesadelo
dos cidadãos.

Nos Estados Unidos o retrocesso passa pela rendição incondicional de Barack Obama perante os sonhadores e reaccionários do partido republicano. Face à transferência de cifras astronómicas para os bancos e a Wall Street, os republicanos pedem cortes nos programas sociais Medicare e Medicaid e Obama aceita o repto. Até o sacrossanto seguro social, tão venerado pelos democratas, foi oferecido de bandeja aos falcões dos republicanos. Obama anuncia que é necessário reformar o seguro social para alcançar a estabilidade que a comunidade de negócios requer para poder investir e levar a economia norte-americana ao crescimento e à prosperidade. De onde tiraram este sonho? Os números de desemprego nos Estados Unidos anunciados na semana passada confirmam que o país está a viver um pesadelo e está longe de ter saído da crise.

Obama soçobra com o mesmo raciocínio que domina o ideário reaccionário: se dermos estabilidade e tranquilidade aos empresários, os investimentos fluirão por si sós e tudo se arranjará. É o que clamam os falcões no Congresso. Não lhes importa que o país vá para o buraco da segunda Grande Depressão.

Se há algo que os gigantescos pacotes de resgate para o sector financeiro demonstraram é que a crise actual não é uma crise de liquidez. Na realidade, a histérica exigência de austeridade na Europa e nos Estados Unidos traduz uma visão equivocada da crise. Quer-se negar que esta é uma perigosa crise estrutural de todo o modelo económico neoliberal.

Por não ser superada, a crise actual acabará por sair do campo financeiro-económico e conduzirá a distorções políticas e até a conflitos armados. A histeria da austeridade (e o afã de destruir o que resta do estado de bem-estar na Europa e nos Estados Unidos) é comparável ao que Taylor qualificou como a neblina moral e intelectual na qual se moveram os estadistas europeus no período 1925-1939. Já conhecemos o trágico resultado.

Artigo publicado no jornal mexicano La Jornada a 13 de Julho de 2011.
Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o autor

Alejandro Nadal
Economista, professor em El Colegio do México.