Posts Tagged ‘Egito’

Desde quinta-feira, os bombardeamentos israelitas sobre Gaza fizeram pelo menos sete mortos e dezenas de feridos. O ministro da defesa de Israel já pediu desculpa pela morte de cinco militares egípcios junto à fronteira, mas a tensão está a aumentar entre os dois países.
Artigo | 20 Agosto, 2011 – 20:01
Funeral de três das vítimas dos bombardeamentos israelitas de sexta. Entre elas está uma criança de cinco anos.

Funeral de três das vítimas dos bombardeamentos israelitas de sexta. Entre elas está uma criança de cinco anos. Foto Mohamed Saber

A mais recente vaga de bombardeamentos teve origem na quinta-feira, quando Israel responsabilizou um grupo armado palestiniano – Comité de Resistência Popular, que negou a autoria do ataque – de ter entrado em Israel a partir do Egipto para raptar soldados e matar civis.

Neste ataque morreram seis civis e dois soldados israelitas e outras sete pessoas foram mortas nas perseguições que se seguiram por via terrestre e aérea. Mas cinco delas eram do exército egípcio e foram atingidas por helicópteros militares israelitas, o que causou uma onda de indignação que levou o Egipto a entregar um protesto formal e ameaçar retirar o seu embaixador em Israel.

Ehud Barak, ministro da defesa israelita, apressou-se a lamentar a morte dos soldados egípcios, numa altura em que o país atravessa uma fase crítica e se prepara para escolher o novo presidente após a revolução que fez cair Mubarak. Mas do lado do governo em funções no Cairo, a resposta israelita não pareceu suficiente e este sábado um comunicado veio sublinhar que “o Egipto denuncia o uso da força contra civis em qualquer circunstância e aconselha fortemente Israel a por fim imediato às suas operações militares contra Gaza”.

A acção militar israelita contra a faixa de Gaza, com bombardeamentos aéreos nas últimas noites que já fizeram pelo menos sete mortos e dezenas de feridos, levou o governo palestiniano a solicitar uma reunião de urgência da Liga Árabe este domingo para tentar travar a escalada de violência. Mahmoud Abbas enviou o mesmo pedido ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, classificando os ataques aéreos como “crimes de guerra”.

Do lado israelita, repetem-se as acusações contra os palestinianos por causa do lançamento a partir de Gaza de dezenas de rockets sobre as zonas junto à fronteira, em resposta aos bombardeamentos. A esmagadora maioria caiu em campo aberto sem provocar estragos, tendo um deles ferido seis pessoas num parque industrial e outro, lançado este sábado, fez um morto e sete feridos em Bersheeba.

Publicado originalmente no ESQUERDA.NET

Operárias de Mahalla tomaram as fábricas “de mulheres” e recusaram-se a sair de lá até que recebessem “massivo” aumento de salário: de £60 por mês, para £100.
Por Robert Fisk

A cidade de Mahallah, capital do algodão egípcio, esconde muito bem seus saberes políticos.

Local de fábricas stalinistas que trabalhavam 24 horas por dia, casas arruinadas do século 19 enterradas entre blocos de concreto e uma rede de trilhos em cacos, só a aparição de uma barata impressionantemente grande no chão do escritório da prefeitura agita os funcionários e os faz levantar. A barata e outra estranha criatura: esse seu correspondente, encharcado de suor, perguntando sobre uma greve na indústria que começou e acabou há cinco anos.

Cada vez que eu perguntava sobre a greve, alguém me perguntava se eu vira Mubarak naquela gaiola no Cairo. Supunham sempre que eu falasse das batalhas na Praça Tahrir, em janeiro passado. Só começaram a entender quando entrou na sala uma das heroínas da Batalha de Mahallah, Widdad Dimirdash, vestida com o véu, super energética, voz alta e atitude de profundo orgulho. Mrs. Dimirdash participou do comando de uma das primeiras grandes greves contra a empresa estatal (quer dizer: pertencia à família Mubarak) Misr Cotton Company, em 2006.

“Não se pode dizer que tenha sido greve realmente política” – diz ela, mas não acredito. “Acho que não tivemos escolha. Nossos salários haviam caído tanto e o preço da comida era tão alto que já ninguém nem comia nem vivia.”

Dos 30 mil operários do algodão em Mahallah – homens e mulheres trabalhavam em fábricas separadas – 6.000 eram mulheres. Elas pararam de trabalhar quando os homens pararam. Tomaram as fábricas “de mulheres” e recusaram-se a sair de lá até que recebessem “massivo” aumento de salário: de £60 por mês, para £100, o que as ainda as mantinha como os trabalhadores de mais baixo salário em todo o Egito. Mas o governo de Mubarak, em três dias, concedeu o aumento que as mulheres pediam.

Não teve escolha. Mahallah, centro do comércio egípcio de exportação, era grande demais para ser desafiada. “Primeira Cidade do Algodão do Delta” – lê-se numa placa enferrujada, quando passo de carro pelas calçadas rebentadas, montes de lixo e muitos carros “toc-tocs”, uma espécie de riquixá movido a petróleo que circula pela velha passagem de nível. A cidade não ostenta a própria história, mas a história parece pairar por ali, entre as ruínas.

Introduzido na região pelos franceses em 1817, o algodão de Mahallah prosperou quando a guerra civil nos EUA cortou as vias transatlânticas das importações europeias, nos anos 1860s. Adeus, Sul Profundo. Bem-vindo, Delta do Nilo.

No dia 6/4/2008, contudo, o povo de Mahallah acrescentou mais uma nota de pé de página à própria história. Dessa vez, marcharam pelas ruas, negociando com um ministro do governo Mubarak, por melhores salários e condições de trabalho, e enfrentaram a violência dos policiais. Mrs. Dimirdash foi uma das duas mulheres que participaram da equipe de negociação de sete trabalhadores. “As pessoas demarcaram campos na rua principal, a ‘Rua do Presidente’ – relembrou o jornalista Adel Dora. – “Os baltagi [mercenários pró-governo, armados com porretes] nos atacaram com terrível violência; e a Polícia usou gás lacrimogêneo, mas muita gente nos defendeu em todo o país, usando o Facebook”.

Só dois canais árabes de televisão por satélite cobriram a batalha de Mahallah. A imprensa egípcia, diz Dora, “simplesmente mentiu sobre nós – publicaram tudo que o governo Mubarak queria que publicassem”. Os homens e mulheres de Mubarak mantiveram o movimento durante uma semana.

Em 2009, tentaram novamente, mas dessa vez – e Dora baixou a cabeça ao dizer – o povo estava com medo. “Com medo da Polícia, de serem mortos, de mais violência, do que o governo pudesse fazer contra eles”. Dora falava com ira, mas, estranhamente, como se não percebesse o precedente que a cidade criara. Essa Mahallah sombria, sem brilho, em 2006 e em 2008, foi versão em miniatura, talvez prematura, da grande revolução que derrubaria o governo egípcio em fevereiro de 2011 e mandou Hosni Mubarak para a gaiola com leito que se viu no Cairo essa semana. A união de homens e mulheres, trabalhadores comuns, o Facebook, as tendas armadas na Praça Tahrir, os mercenários baltagi as bombas de gás lacrimogêneo da Polícia, tudo reapareceu depois, aos olhos do mundo, na Praça Tahrir. E naquela praça descobrimos – embora ninguém entendesse quem eram e o que faziam ali – muitos homens e mulheres de Mahallah. Ah, sim, eles sabiam o que fazer para derrubar ditador.

O jornalista francês Alain Gresh foi dos primeiros a perceber a plena significação de tudo isso: que aqueles trabalhadores eram “atores esquecidos” da revolução egípcia. Lembrou como um repórter industrial egípcio respondeu às suas perguntas no Cairo, perguntando: “Por que, até agora, as rebeliões na Líbia, no Iêmen e no Bahrain falharam?” Poderia ter acrescentado à lista, a Síria. Mas foi na Tunísia, onde os sindicatos eram fortes, que o sindicado geral dos trabalhadores da Tunísia conseguiu finalmente derrubar a ditadura de Ben Ali. Nos últimos dias, o golpe final foi a greve geral que convocaram. Mas tampouco os homens e mulheres de Mahallah foram os únicos trabalhadores da indústria a conseguir derrotar o poder de Mubarak.

Os operários do complexo de fábricas de cimento em Suez – que também fizeram sua “revolução” miniatura em 2009, pra protestar contra as vendas de cimento a Israel – iniciaram também sua greve política em fevereiro de 2011.

Quanto aos trabalhadores da Síria, Líbia, Iêmen, há muito tempo foram cooptados, Baathizados, hipnotizados pelo Livro Verde ou tribalizados, com o socialismo tomado só como inspiração infeliz para muitos ditadores. Quer dizer então que é preciso que haja movimento de trabalhadores e sindicatos organizados para que as revoluções no Oriente Médio sejam bem-sucedidas? Mahallah é cidade feia, suja, triste – mas seu lugar na história aumenta ano após ano.

Artigo publicado originalmente no The Independent, UK (via REVISTA FORUM)
Robert Fisk: The city and its workers that first took on Mubarak

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Foto: Greve dos trabalhadores em Mahalla, em setembro de 2007/Flickr