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Os tumultos são o outro lado da moeda do “nós estamos juntos nessa”. Não só porque, como se viu na Grécia e na Espanha, há um limite para o que se pode esperar que as pessoas aceitem antes que elas decidam que “agora chega”. Mas, também, porque uma sociedade que vê crescer a desigualdade e nada faz a respeito é uma sociedade na qual, fatalmente, coisas assim ocorrerão. O artigo é de Rodrigo Nunes.
Rodrigo Nunes

Em 2005, fui dos poucos brasileiros, fora a família, a comparecer a uma manifestação e missa em memória de Jean Charles de Menezes, em Londres. Ainda era permitido reunir-se em frente ao Parlamento – hoje não é mais– e, depois de rápida vigília, pusemo-nos a andar na direção da Catedral de Westminster, em Victoria, local da missa. Quando nosso pequeno grupo estava a caminho, uma senhora bem-vestida, que vinha na direção oposta, gritou: “Mas o que vocês querem? No Brasil, a polícia mata rapazes como ele todos os dias!”

A situação surpreendeu-me, também pelo que havia de improvável numa senhora como aquela pondo-se a gritar; sinal do quanto Londres se tornara uma cidade tensa nas semanas que se seguiram aos atentados de julho de 2005. Eu podia, até certo ponto, entender como ela se sentia – um dos aspectos mais insidiosos da política do medo é que, mesmo quando você está racionalmente consciente de como o medo comanda suas reações, ainda assim não consegue racionalizar o modo como se sente. Mas, evidentemente, a frase soou especialmente dolorosa para mim, tanto por parecer indicar o menor valor relativo da vida de um brasileiro (comparada à ameaça sentida contra as vidas de britânicos), como também porque era, em sentido estrito, verdade: qualquer pessoa, no Reino Unido, que seja minimamente informada a respeito do Brasil, já ouviu falar de nossa altíssima desigualdade social, e de como esta se traduz em uma prática policial brutal e altamente desigual.

É óbvio porque esse incidente voltou-me à memória logo que soube dos tumultos em Tottenham no fim de semana passado, dada a fagulha que acendou essa fogueira específica: a polícia ter matado um homem, quase da mesma idade que Menezes, em circunstâncias que – sobretudo depois de casos recentes, como o de Ian Tomlinson ou Smiley Culture – inevitavelmente parecem suspeitas. Acrescente-se a isso que a atual baixa histórica na confiança nas instituições públicas na Inglaterra, sobretudo depois do escândalo dos celulares grampeados por jornalistas, que expôs o modo como uma panelinha determinou décadas de agenda política; que a morte ocorreu numa área com um histórico de abuso policial passado e presente; que os padrões de vida estão em deterioração e que as perspectivas de futuro são cada vez mais sombrias; e que paira sobre todos a sensação de terem caído num “conto do vigário”, quando os impactos da crise parecem tão desproporcionalmente distribuídos, e “estar todos juntos nessa” parece significar coisas muito diferentes para os ricos e para os pobres. Com toda a sabedoria que nos é dada pelas coisas que já aconteceram, seria tentador dizer hoje que algo do tipo não tardaria em acontecer.

Em 1625, Francis Bacon publicou uma análise dos levantes (“sedições”), na qual distinguia entre causas materiais – o material inflamável – e causas ocasionais – os eventos contingentes que agem como fagulha. Há dois tipos de causas materiais: um grau de privação que se torna insuportável; e o descontentamento, que pode existir mesmo sem privação. Causa ocasional pode ser qualquer uma de várias fagulhas potenciais que, caindo sobre a matéria combustível existente, leve os indivíduos a “unir-se na injúria”. Se um governo deseja evitar levantes, conclui Bacon, não faz sentido concentrar-se nas causas ocasionais, que são relativamente imprevisíveis. É aos sentimentos de privação, de desempoderamento, de descontentamento que deve dar atenção; pois é só quando esses estão presentes que alguma coisa pode operar como o catalisador que une elementos que, até então, permaneciam relativamente dissociados, levando os que deles padecem ao ponto onde decidem agir – para mostrar, coletivamente, que “agora chega”.

Mas nem a existência de sofrimentos e carências, nem a ocorrência de uma “última gota” bastam para fazer agir um indivíduo ou uma multidão. Quando alguém escolhe correr o risco de cruzar uma fronteira em busca de vida melhor, quando alguém joga um tijolo contra uma vidraça, ou quando uma multidão decide enfrentar uma barreira policial, sempre há alguma coisa que não pode ser reduzida a quaisquer das causas, materiais ou ocasionais, pré-existentes. Enquanto as causas materiais podem ir-se acumulando ao longo de muito tempo, essa ‘alguma coisa’ é apenas um instante, o menor dos suplementos, mas sem ela nada acontece. Ao longo dos séculos, muita gente observou que o surpreendente não era que os levantes acontecessem, mas que não acontecessem com mais frquência. Com certeza, as razões pelas quais o Ancien Régime na França, Ben Ali na Tunísia ou Mubark no Egito foram derrubados não brotaram da noite para o dia; assim sendo, por que as pessoas demoraram tanto a agir – e por que, então, agiram quando agiram? É esse pequeno excesso subjetivo, que se sobrepõe às causas objetivas, que é sempre impossível de localizar.

À medida que a imagem do que aconteceu na Inglaterra nos últimos dias vai-se tornando mais clara, talvez se possa usar esse excesso subjetivo como critério para fazer distinções entre o aconteceu aqui ou acolá. Uma coisa é ser motivado pela urgência de manifestar, por quaisquer meios necessários (e muitas vezes pelos únicos meios pelos quais se fazer ouvir), anos e anos de raiva, frustrações, humilhações acumuladas. Outra coisa é, de repente, perder o medo, porque se descobre que, se o grupo for suficientemente grande, você finalmente vai poder se vingar da polícia, pelo menos uma vez. É outra coisa, ainda, calcular que uma força policial assoberbada e uma vitrine de loja quebrada são boa oportunidade para adquirir algumas coisas de graça. Independente de o quanto essas linhas possam ser ou venham a ser demarcadas, há três lições claras a aprender.

A primeira é que é um absurdo completo dizer que os tumultos de Londres nada tem a ver com política. Sem dúvida, muitos dos que participaram deles talvez não estivessem “pensando em política” enquanto agiam; e foi particularmente triste ver moradores dos bairros que tiveram suas vidas ameaçadas, suas casas e negócios destruídos, quando eles pertencem às mesmas comunidades e padecem dos mesmos males sociais que afligem os manifestantes. Mas não se pode confundir motivação subjetiva com causas materiais e ocasionais– as quais, como Bacon sabia, são de natureza eminentemente política. Não se trata de simples anomalia estatística que jamais alguém tenha visto banqueiros saqueando uma loja; tampouco sua refinada educação ou gosto sofisticado podem explicar isso. É óbvio que o fato de os saqueadores sempre serem os mais pobres diz algo sobre a distribuição da riqueza e das oportunidades numa sociedade. E no atual clima na Inglaterra, depois dos “resgates” aos bancos e do escândalo Murdoch/News of the World, talvez também demonstre que mais e mais pessoas começam a suspeitar que os banqueiros têm, de fato, acesso a meios mais eficientes, sancionados pelo estado, de saquear os outros. Isso quer dizer que fazer do plano de “austeridade” da coalizão Conservadores/LibDem a causa material e ocasional do que se viu em Londres é contar apenas metade da história. É preciso olhar para atrás, para décadas de exploração e desempoderamento, inclusive para o sentimento de que não faz diferença qual partido esteja no poder, será sempre apenas uma uma pequena fração da sociedade que terá seus interesses politicamente representados.

A segunda lição é a seguinte: os tumultos são o outro lado da moeda do “nós estamos juntos nessa”. Não só porque, como se viu na Grécia e na Espanha, há um limite para o que se pode esperar que as pessoas aceitem antes que elas decidam que “agora chega”. Mas, também, porque uma sociedade que vê crescer a desigualdade e nada faz a respeito é uma sociedade na qual, fatalmente, coisas assim ocorrerão.

Há um “contrato social” perverso que se vê em cidades como Rio de Janeiro, Joanesburgo ou Cidade do México – onde uma pequena elite troca seu acesso desproporcional a riqueza, oportunidades e representação política, pela vida em condomínios, o gasto de fortunas em segurança e o medo. A mais clara ilustração disso talvez venha daqueles pontos nas favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro que se tornaram áreas militarizadas nas quais o estado brasileiro não entra. Olhando do alto as áreas mais ricas da cidade, das quais estão muito perto, elas parecem dizer: “podemos não ter bem-estar, podemos não ter voz na política, mas estamos aqui. Olhem por cima do ombro e vocês verão: estamos juntos nessa”.

Claro, os problemas sociais na Europa estão longe desse nível. Mas o importante aqui é ressaltar que aceitar a desigualdade é um pacto mefistofélico: entra-se numa espiral em que se troca o acesso ao consumo e ao privilégio (mesmo que seja o duvidoso privilégio de poder pagar por serviços de segurança) por direitos: o direito de andar livremente sem medo, o direito de usufruir de bons serviços públicos etc. Você pode ter um carro do ano, mas se seu carro for roubado ou quebrar, porque a cidade foi inundada, o transporte público será ruim ou perigoso demais para que você possa usá-lo. Você pode ter sapatos ridiculamente caros, mas alguém, um dia, pode decidir tirá-los de você. Saques e criminalidade são, na verdade, o outro lado daquela espiral; aquilo que a compensa, como uma espécie de mecanismo “não-oficial” (ainda que ineficaz) de redistribuição de riqueza. Acabem com a infraestrutura e com os serviços comuns, substituam-nos por consumo, e os que não podem consumir, mas são diariamente chamados a fazê-lo, consumirão “por outros meios”.

Não resolvam essas questões, e elas criarão raízes. Veja-se, por exemplo, o controle territorial que hoje têm os cartéis de droga em várias regiões do México; ou como o Primeiro Comando da Capital conseguiu paralisar em São Paulo duas vezes (nem tão diferente do que se viu em Londres nos últimos dias). E nenhuma força policial, por mais de ferro que seja sua mão, consegue interromper essa dinâmica. Os lugares onde a disparidade social é maior tendem a ser aqueles em que as polícias são, mais claramente, um instrumento brutal de proteção dos ricos contra os pobres, e, ainda assim, entre os mais violentos do mundo. O fato de serem um inferno para os pobres não faz deles um paraíso. Talvez os super-ricos – os que, nessas cidades, sobrevoam as ruas em seus helicópteros – nada vejam. Todos os demais entram, com mais ou com menos, na “vaquinha” para pagar o preço desse pacto.

No final das contas, então, os “baderneiros” da Inglaterra não precisam estar “pensando em política” para que a mensagem que enviam seja política. Pois a última lição a ser tirada aqui nada tem de diferente daquela de protestos “explicitamente” políticos, na Grécia, Espanha ou Israel: o fosso que separa ricos e pobres aumenta dia a dia, e a grande maioria se sente cada vez mais passada para trás. Se não se quer deixar que as coisas fiquem ainda mais feias, a hora para mudar de rumo é agora.

Quando a Espanha conquistou a Copa do Mundo de futebol, Barcelona, uma publicação argentina sarcasticamente batizada em homenagem ao destino preferido dos migrantes daquele país, celebrou a conquista com uma manchete gozadora: “Crise, desemprego, miséria, fim do estado de bem-estar, rendição ao FMI e sucesso nos esportes: as nações mais pobres do mundo saúdam os espanhóis – Bem-vindos ao Terceiro Mundo!”. Além de ser uma ótima piada, a manchete faz uma observação pertinente: por que aquilo que é cristalino para as pessoas do Norte global, quando elas estão falando do Sul, parece tão difícil de entender quando acontece “na sua casa”?

Pergunte a qualquer cidadão britânico medianamente informado sobre a violência no Brasil, e é provável que ele responda algo sobre a distribuição desigual da riqueza, a falta de oportunidades, ou mesmo sobre como o tráfico chega a locais onde o estado nunca entrou, como alguns adolescentes veem uma arma como instrumento para que sintam-se valorizados e respeitados,como a polícia piora tudo, porque é vista como corrupta e preconceituosa, e de como o sistema político basicamente reproduz essa situação. E no entanto, agora mesmo, posso imaginar aquela senhora que vi em Victoria. “Por que eu deveria escutar o que você diz?”, ela pergunta ela. “O seu país tem problemas sociais muito maiores que o meu.”

Tem razão, minha senhora. É exatamente por isso.

(*) Rodrigo Nunes é doutor em filosofia pelo Goldsmiths College, Universidade de Londres, pesquisador associado do PPG em Filosofia da PUCRS

Artigo publicado originalmente no blog Orango Quango

Tradução: Vila Vudu

Posted by eduguim on 14/05/11

Puta que pariu / é a elite/ mais tosca do Brasil !!

O verso acima era declamado por mais de mil pessoas que se espremiam diante do shopping  no meio da tarde de um sábado nublado – e esfriando – depois do sol que dera palhinha por volta das 12 horas, quando cheguei ao local do Churrascão da Gente Diferenciada e não encontrei ninguém que me parecesse que participaria de algo assim tão “popular”.

No boulevard que precede os corredores tomados por brilhos, luzes, cheiros e sons que embriagam o endinheirado consumidor do asséptico e verdejante bairro paulistano de Higienópolis para depois depená-lo, senhores maduros, gordos e engravatados riem em duas, três mesas, fazendo-me pensar por que estariam vestidos assim num sábado. Outras mesas eram ocupadas por casais, senhoras e até crianças e adolescentes, mas os maduros predominavam.

Olho para um lado, para o outro, e nada. Ninguém diferenciado. Eram todos iguais na cor da pele, nos perfumes fortes, na aparência bem-nutrida, enfim. Não posso negar que, por alguns momentos, senti-me em Paris. Lembrei-me de um café em Saint Germains des Pres…

Pensei na internet. Deve ter informação. Só que não uso esses telefones que, além de tudo, fazem até chamadas e nos quais se pode navegar na rede. Mas estava em um shopping e todo shopping tem lan-houses… Certo? Errado. Nesse não tem. E por que teria, ora, se todos, ali, andam pelos corredores do shopping e nas ruas olhando seus aparelhinhos mágicos?

Contudo, estava na República de Higienópolis e, ali, até os balcões de informações são… diferenciados – ou seriam iguais aos dos países que aquele bairro-estado emula? Enfim, sei que a garota me disse que NÃO havia lan-houses no shopping ou naquela região (?!), mas que a uns MIL metros dali, na rua Maria Antonia, encontraria. E imprimiu o mapa para mim (!).

É um bairro mais igual, entendem? É o contrário do conceito de “diferenciado”.

Fui até lá e, assim que entro no Twitter, o Luis Nassif me manda uma mensagem dizendo que estava ali “com as menininhas” e doido pra comer churrasco, mas não tinha nada. Deixo-lhe uma mensagem pedindo que me ligue. Ele liga e diz que tem compromisso, lamentando não ter encontrado o churrasco.

Penso que está na hora de voltar. Ficarei até duas e meia e, se não aparecer ninguém, vou ao Sujinho comer bisteca de boi e tomar uma cachacinha Seleta, que as mais famosas não cabem no meu bolso. Saio a passos largos, já suando e maldizendo o blazer que vesti no começo da manhã, quando fazia frio e saí de casa para ir ao Churrascão.

Alvíssaras!, tem gente lá na frente falando com a imprensa. Estão ao lado de um carro da RedeTV! Aproximo-me e algumas pessoas vêm falar comigo. Alguns membros do Movimento dos Sem Mídia, leitores que conheço e várias pessoas simpáticas que não conhecia. A maioria, porém, não conheço. Todos ainda muito tímidos. Eu, inclusive.

Fiquei pensando, naquele momento: como faremos isso aqui? Esse pessoal tão… civilizado e fleumático vai se “horrorizar”.

Ando entre os grupos de pessoas conversando. Vai chegando cada vez mais gente. Uma rede de tevê me pára e pede para dar entrevista, como fazia sem parar. Não guardei o nome porque o afluxo crescente de pessoas começou a surpreender. Daqui a pouco chegam a Band e o SBT. Já havia quase umas duzentas pessoas, no local.

Aí a polícia apareceu, bem como o CET. Chegam manifestantes, chega polícia, chega imprensa… E vão chegando.

Mas os grupos de pessoas só dão entrevista e mais entrevista. Ouço um engraçadinho que não quis se misturar dizer que tinha mais jornalista que manifestante. O sangue sobe. Vou ao centro dos manifestantes e grito: Quem quer metrô, aqui?! Aquela massa crescente acorda e brada: Nós! E ficaram esperando eu dizer mais.

As câmeras se voltam e começo a discursar, com as mãos ao lado da boca numa tentativa de amplificar a voz. Surpreendentemente, ecoou forte. A repórter enfia o microfone na cara e começa a fazer perguntas que respondo não para ela, mas para as pessoas, que assoviam, gritam frases bem-humoradas.

Paro de falar e a manifestação amaina. Em alguns segundos, porém, mais alguém começa a falar. Daí chega o humorista Celso Mim com um capacete de obras “reprimindo” a manifestação como se fosse um funcionário do metrô, dando bronca nos manifestantes. Alguns parecem acreditar, de início.

Quando os discursos e palavras de ordem já proliferavam, ouve-se a batucada lá longe, mas avançando pela avenida Higienópolis. Parecia que jogavam confete. Sambavam, cantavam. Um dos cânticos era mais ou menos assim, se me lembro:

Se esta rua fosse minha / Eu mandava ladrilhar / Com Pedrinhas de Brilhante / Para o meu metrô passar

Alguém aparece com churrasco. Agora está cheio de jovens bem humorados. Maduros, idosos e até crianças diferenciados. Somos muitos. A avenida Higienópolis está tomada. Não passam mais carros. Das imensas sacadas dos prédios, moradores do bairro imóveis e aparentemente em silêncio observam a tudo.

Passo a me esgueirar entre a multidão. Encontro gente que conheço e que não conheço e me conhece e eis que, de repente, vejo, diante de mim, dois colunistas da Folha de São Paulo.

São Fernando de Barros e Silva e Sergio Malbergier, aquele que andou escrevendo sobre o direito dos ricos de não quererem metrô na porta deles. Abro-lhes um sorriso como se fossem velhos amigos e, para minha surpresa, percebo que me reconhecem, apesar de jamais termos nos visto pessoalmente.

– Eu conheeeço você – digo a Barros e Silva, em tom jocoso –, e você também – estendo o cumprimento a Malbergier.

Digo que li o texto de Malbergier e que estava “um primor”. Ele sorri, simpático, como se não ligasse para a ironia. Barros e Silva, porém, fecha a cara, aproxima-se e diz:

– Olha, eu respeito você, Eduardo, mas as suas posições são primárias…

Respondo:

– Eu acredito que você pensa assim, mas não são as minhas posições que são primárias, são as suas que são muito avançadas, próprias para Londres, Paris, Amsterdam…

Barros e Silva franze ainda mais o cenho, percebo os dentes trincando, dá-me as costas, empina o queixo e diz, sem se voltar: “Está vendo como você é primário?”. E sai andando.

Comento com Malbergier: “Ele está zangado, né?”. E ele, sorridente: “Está zangado”.

Bato no braço dele, despedindo-me, e dizendo que acho positivo que tenham ido até lá. E caio no meio da galera.

Dali, a manifestação começa a se mover com batucadas e jovens à frente. Avançam em direção à avenida Angélica. Dobram à direita e começam a subi-la. Ocupam as duas pistas. Olho para a avenida e, diante de nós, está vazia de veículos até onde a vista enxerga. Nos prédios em volta as pessoas se debruçam nas janelas e sacadas. Policiais e agentes da CET parecem nervosos…

Peço ao comandante da operação que me diga o número estimado de manifestantes. Ele tasca 600. Digo que ele só pode estar brincando. Havia mais de mil pessoas fácil, ali. Saio meio zangado, batendo o pé, e nem agradeço. Depois reflito que o oficial não teve culpa. Estava cumprindo ordens.

Vejam o que acham

Enfim, foi mágico para este coração cinqüentão de um homem que cresceu em um país em que fazer um ato daquele significava ser espancado e até preso e torturado, quando não assassinado. E o mais lindo foi ver os jovens exigindo direitos, pregando igualdade com calma, bom humor, pacificamente.

Pena que a grande imprensa não contará direito o que aconteceu em São Paulo nesta tarde fria de maio, mas a internet contará a verdade. Fotos, vídeos e relatos, não faltarão. Não carecia, portanto, que me prendesse a isso. Queria passar ao meu leitor as “primárias” impressões deste “primário” blogueiro sobre essa incrível festa da democracia

via ninho da vespa

Metrô de Higienópolis vira gozação no Twitter

A recusa dos moradores de Higienópolis, em São Paulo, em receber uma estação do Metrô virou piada nas redes sociais. No Twitter, o tema é destaque nos trending topics
bairro de Higienópolis, em São Paulo, ganhou notoriedade nacional hoje. O motivo, claro, é a recusa dos moradores em receber uma estação do Metrô sob a alegação de que ela atrairia “gente diferenciada” para o bairro. No Twitter, nesta tarde de quarta-feira, a hashtag #gentediferenciada está em segundo lugar na lista de Trending Topics, logo abaixo de Higienópolis, o termo número um na lista.
“Metrô em Higienópolis só com entrada social e outra de serviço”, tuitou @cirilodias. Lembrando a canção Vou de Táxi, que fez sucesso na voz da então cantora Angélica, o usuário @Proliferado, escreveu: “Tudo faz sentido. É proibido metrô na Angélica porque ela vai de táxi.” Junto com as piadas, muita grosseria mal-humorada também.
O governo desistiu de construir a estação, mas isso não significa que os moradores do bairro da higiene vão se livrar dos diferenciados. No Facebook, uma turma convida para um churrasco em frente ao Shopping Higienópolis. “Leve farofa, carne de gato, cachorro, papagaio, som portátil, carro tunado e tudo o que sua consciência social permitir. Não se esqueçam dos sacos de lixo. Somos diferenciados, mas somos limpinhos”, diz o texto. No início da tarde, cerca de 14.000 pessoas já haviam aceito o convite.

Quando começou isso ? Quem é contra o nordestino ?

Saiu no Agora ( o único jornal que presta em SP), pág. A3:

“Jovem do ABC envia e-mail racista a escola de samba.”

“ Novo e-mail com ataques e palavrões foi recebido ontem pela Acadêmicos do Tucuruvi, que fará homenagem a nordestinos no Carnaval 2011.”

O tema do enredo é “Oxente, o que seria da gente sem essa gente ? São Paulo, Capital do Nordeste !”.

Um jovem de Santo André, que o Agora localizou através do Orkut, faz parte de organizações como “São Paulo Independente”, “Eu amo o Estado de São Paulo”, “São Paulo é a Minha Nação”, “Sou Paulista e Separatista”,  e “Movimento República São Paulo”.

Um dos e-mails que a Escola recebeu dizia assim:
Tomara que esse Carnaval seja o pior de toda a História da escola. É o que deseja (sic) todos os paulistas separatistas. São Paulo é o meu país.”

Fonte: conversaafiada

Em defesa da estudante Mayara

por JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL*, na Folha

Não parece justo que Mayara seja demonizada como paulista racista, quando o mote da campanha eleitoral foi o da oposição entre as regiões

Sou neta de nordestinos, que vieram para São Paulo e trabalharam muito para que, hoje, eu e outros familiares da mesma geração sejamos profissionais felizes com sua vida neste grande Estado brasileiro.

É muito triste ler a frase da estudante de direito Mayara Petruso, supostamente convocando paulistas a afogar nordestinos.

Também é bastante triste constatar a reação de alguns nordestinos, que generalizam a frase de Mayara a todos os paulistas.

Igualmente triste a rejeição sofrida pelo candidato da oposição à Presidência da República, muito em função de ele ser paulista. Todos ouvimos manifestações no sentido de que, tivesse sido Aécio Neves o candidato, Dilma teria tido mais trabalho para se eleger.

Independentemente da tristeza que as manifestações ofensivas suscitam, e mais do que tentar verificar se a frase da jovem se “enquadraria” em qualquer crime, parece ser urgente denunciar que Mayara é um resultado da política separatista há anos incentivada pelo governo federal.

É o nosso presidente quem faz questão de separar o Brasil em Norte e Sul. É ele quem faz questão de cindir o povo brasileiro em pobres e ricos. Infelizmente, é o líder máximo da nação que continua utilizando o factoide elite, devendo-se destacar que faz parte da estigmatizada elite apenas quem está contra o governo.

Ultrapassado o processo eleitoral, que, infelizmente, aceitou todo tipo de promessas, muitas das quais, pelo que já se anuncia, não serão cumpridas, é hora de chamar o Brasil para uma reflexão.
Talvez o caso Mayara seja o catalisador para tanto.

O Brasil sempre foi exemplo de união. Apesar das dimensões continentais, falamos a mesma língua.

Por mais popular que seja um líder político, não é possível permitir que essa união, que a União, seja maculada sob o pretexto de se criarem falsos inimigos, falsas elites, pretensos descontentes com as benesses conferidas aos pobres e aos necessitados.

São Paulo, é fato, é fonte de grande parte dos benefícios distribuídos no restante do país. São Paulo, é fato, revela-se o Estado mais nordestino da Federação.

Nós, brasileiros, não podemos permitir que a desunião impere. Tal desunião finda por fomentar o populismo, tão deletério às instituições no país.

Não há que se falar em governo para pobres ou para ricos. Pouco após a eleição, a futura presidente já anunciou o antes negado retorno da CPMF e adiou o prometido aumento no salário mínimo. Não é exagero lembrar que Getulio Vargas era conhecido como pai dos pobres e mãe dos ricos.

Não precisamos de pais ou mães. Não precisamos de mais vitimização. Precisamos apenas de governantes com responsabilidade.

Se, para garantir a permanência no poder, foi necessário fomentar a cisão, é preciso ter a decência de governar pela e para a União.

Quanto a Mayara, entendo que errou, mas não parece justo que seja demonizada como paulista racista, quando o mote dado na campanha eleitoral foi justamente o da oposição entre as regiões.

Se não dermos um basta a esse estratagema para manutenção no poder, várias Mayaras surgirão, em São Paulo, em Pernambuco, por todo o Brasil, e corremos o risco de perder o que temos de mais característico, a tolerância. Em nome de meu saudoso avô pernambucano, peço aos brasileiros que se mantenham unidos e fortes!

*JANAINA CONCEIÇÃO PASCHOAL, advogada, é professora associada de direito penal na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

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Para o Painel do Leitor

Racismo às avessas

Lendo as absurdas argumentações da professora Janaina Paschoal “Em defesa da estudante Mayara”, lembrei que grandes pesquisadores do racismo e preconceito no Brasil, como Roger Bastide e Florestan Fernandes, denunciaram a lógica da inversão. Graças a ela, não apenas não somos racistas, como, ademais, tudo que acontece é culpa da vítima. Se não fossem os negros, os nordestinos, os pobres, as prostitutas, os homossexuais, se Lula não fosse presidente, a estudante Mayara não teria cometido o destempério de pedir o assassinato de ninguém e tampouco teria sido demonizada. Coitadinha dela!

Heloísa Fernandes, professora associada de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (São Paulo, SP)

Típico fascista “descolado”, que posa de moderno, que detesta o politicamente correto, Leandro Narloch, porém, apenas desfila aqueles mesmos ideais supremacistas e aquela mesma ideologia de ódio do começo do século XX e que foi responsável, sabemos, pelas maiores atrocidades.

Seu ódio é contra os pobres, contra os analfabetos, contra aqueles que ele chama da “ignorantes”. Ignorantes por votar diferente dele, por não terem a mesma linha ou forma de raciocínio e concordarem com suas opiniões Narloch tem preconceito contra quem votou na Dilma, pois, segundo ele, não pensam.

Ou melhor, é daqueles que diz que pensam com a barriga, logo, acusa o governo de compra de votos, de usar programas sociais para ter dividendos políticos. Em sua opinião, bom seria deixar o povo morrer de fome, aí sim votariam com a “consciência”. Pelo menos aqueles que continuassem vivos.

Eu tenho preconceito contra os cidadãos que nem sequer sabiam, dois meses antes da eleição, quem eram os candidatos a presidente. No fim de julho, antes de o horário eleitoral começar, as pesquisas espontâneas (aquela em que o entrevistador não mostra o nome dos candidatos) tinham percentual de acerto de 45%. Os outros 55% não sabiam dizer o nome dos concorrentes. Isso depois de jornais e canais de TV divulgarem diariamente a agenda dos presidenciáveis.

Todas as criticas da figura se direcionam, obviamente, para os pobres, mas ele esquece qe boa parte dos membros de sua classe, dos playboys de classe média, também não sabia, na época, o nome dos candidatos.

Muitos destes votavam em Serra porque este iria manter os privilégios de sua classe ou na Marina, porque, afinal, todo playboy de classe média gosta de seguir a moda e ser descolado.

Aliás, os dados apresentados por Narloch são interessantes, na tentativa de denegrir o eleitor de Dilma – que em grande parte votou pela continuidade do governo Lula – ele acaba por mostrar que mesmo Serra era desconhecido por 55% dos eleitores, afinal, eles não conheciam o nome de nenhum dos concorrentes.

A direita mais fanática é engraçada, se FHC não presta como cabo eleitoral – na verdade tira votos – e não pode ser usado por Serra, então o PT também não pode usar o Lula. A continuidade é ilegal, porque a do FHC seria um tiro no pé.

É interessante imaginar a postura desse cidadão diante dos entrevistadores. Vem à mente uma espécie de Homer Simpson verde e amarelo, soltando monossílabos enquanto coça a barriga: “Eu… hum… não sei… hum… o que você… hum… está falando”. Foi gente assim, de todas as regiões do país, que decidiu a eleição.

Ao invés de ter preconceito contra quem não sabia quais eram os candidatos, Narloch deveria parar e pensar um pouco: Porque? Porque não sabiam? Será que é porque são pobres e ignorantes ou é porque o sistema político brasileiro é uma farsa? Porque os políticos em geral não investem em educação, em polização, em inclusão social e apena surgem na hora de pedir voto para, depois, dar uma banana ao eleitor?

Mas não, mais fácil odiar o nordestino pobre e “ignorante”. Talvez os mesmos “ignorantes” que colocavam Serra na frente nestas mesmas primeiras pesquisas… Sinal dos tempos!

A referência ao Homer Simpson, aliás, é providencial. William Bonner já a usou – Vejam como a direita se entende. Se referiu assim aos que assistem o Jornal Nacional. Será, meu caro Narloch, que o povo que você tanto odeia, politicamente alienado – e que não é “apenas” os pobres – assim o é porque sofrem amplo descaso dos políticos e tem uma mídia de merda (perdoem o termo, mas é o mais próximo da realidade) que apenas nos imbeciliza?

Tampouco simpatizo com quem tem graves deficiências educacionais e se mostra contente com isso e apto a decidir os rumos do país.

Aliás, vale lembrar, o Narloch, o grande gênio do voto consciente, é editor da revista pseudo-científica Superinteressante, trabalhou na Veja e possivelmente não lê o que publica sobre história na “Aventuras na História”. Ou se lê, não aprende. Não nota que seu ódio contra os “ignorantes” beira o ódio de certos elementos que, daí, passaram ao puro e simples extermínio.

Aliás, a referência educacional claramente faz alusão ao Lula, ao melhor presidente que o país teve em sua história (não que tenha sido, por isto, maravilhoso, claro). A direita ainda não aceita o fato de que um PhD como FHC tenha sido um lixo e que Lula representa um Brasil moderno e respeitado internacionalmente.

Todo o ódio se limita a isto, ao fato de que um cara que veio da pobreza e nunca fez seu doutorado e tampouco pertença ao seleto clube da elite racista do Jardins/Leblon. O ciclo foi quebrado. Collor não era do grupo e logo sofreu um impedimento, não quis dividir o butim, já Lula, meu deus, ele veio da merda, ele era um sindicalista, ele não faz parte do nosso grupo! Intolerável!

São sujeitos que não se dão conta de contradições básicas de raciocínio: são a favor do corte de impostos e do aumento dos gastos do Estado; reprovam o aborto, mas acham que as mulheres que tentam interromper a gravidez não devem ser presas; são contra a privatização, mas não largam o terceiro celular dos últimos dois anos. “Olha, hum… tem até câmera!”.

O ódio de classe e o ódio contra a origem e a história de um nordestino pobre fica, então, escancarado. Este é o problema principal. O povo votou num “ignorante” e a elite não tolera ser desrespeitada, não tolera que passem por cima das suas decisões.

Vejam o raciocínio: “Globo, Folha, Veja, Abril, todos fizeram, junto com a elite, campanha pro Serra. Então como é possível que este povo ignorante tenha escolhido a Dilma! Oras, eles são analfabetos e pobres, não lêem a revista! Então vamos logo atacá-los, mostrar sua inferioridade, lamber nossas feridas atacando, porque nós é que somos inteligentes, letrados, estudados! Nós é que temos de governar este país!”

Mude algumas palavras, mas a idéia permanecerá a mesma. A direita está saindo do armário. A mídia ainda se esconde, se faz de imparcial, mas vários indivíduos-chave começam a se mostrar, a assumir seu racismo e preconceito. Esta elite que vê o mundo preto no branco e não cinza, contraditório, complicado.

Afinal, no poder, fecham os olhos para as classes baixas e governam para si. “Porque descriminalizar o aborto se só pobre morre? Afinal, nossas mulheres, brancas, ricas, podem pagar clínicas e não sofrem nada. Porque aumentar o gasto do governo com programas sociais se a elite não precisa? Ou mesmo os impostos, porque reduzir a carga para os mais pobres se isto significa aumentar a nossa, a dos ricos?”

A direita, a elite, tem um raciocínio linear, não consegue concatenar as idéias, pensamento complexo? Sem chance! Podem até estudar o conceito na universidade, mas a prática é diferente. Sabem usar a palavra, é bonita, “c-o-n-t-r-a-d-i-ç-ã-o”, mas usar, aplicar à realidade…

Aliás, devem estar apavorados, hoje tem mais pobres na universidade que ricos! Como então irão agora chamar os pobres de burros e ignorantes?

Para gente assim, a vergonha é uma característica redentora; o orgulho é patético. Abster-se do voto, como fizeram cerca de 20% de brasileiros, é, nesse caso, um requisito ético. Também seria ótimo não precisar conviver com os 30% de eleitores que, segundo o Datafolha, não se lembravam, duas semanas depois da eleição, em quem tinham votado para deputado.

Admito ser dificil ler e comentar parte-a-parte o texto desta figura grotesca, mas é necessário. Precisa ser denunciado, demolido. O bom é que, debaixo d todo este ódio, apenas grassa ignorância, conceitos deturpados ou mesmo um raciocínio tão rasteiro que até envergonha. Sob o perigo de cair na Lei de Godwin, Hitler ao menos sabia discursar. Mussolini tinha estilo. A direita brasileira é apenas patética.

O orgulho é patético. O orgulho daquele pobre que hoje vai à universidade que, mesmo sendo uma Uninove ou uma Uniban, ainda é motivo de orgulho, por ser alguma coisa melhor que a submissão à casta dominante, daquele outro miserável que saiu de lá e pode ter um telefone – mesmo pagando as taxas mais caras do mundo.

Mas, lembrem-se, pela cartilha da direita brasileira, privatizar é bom! Nossa direita é entreguista, sem um pingo de patriotismo ou respeito pelo país, sonha em morar em Miami para não se misturar.

Estes 30% de eleitores que não se lembram do voto são o que? Pobres ignorantes ou apenas uma imensa parcela da população que, independentemente de classe social, não se vê representada pelos políticos eleitos ou não vê na política representativa uma saída ou solução para seus problemas?

Não estou disposto a adotar uma postura relativista e entender esses indivíduos. Prefiro discriminá-los. Eu tenho preconceito contra quem adere ao “rouba, mas faz”, sejam esses feitos grandes obras urbanas ou conquistas econômicas.

E isto é problema do desiludido ou é um problema da formação política e social brasileira e do trabalho de imbecilização midiática? Imbecilização esta, aliás, patrocinada por que usa o espaço na mídia para destilar ódio e preconceito.

Mas o caro Narloch subestima o povo. Chama-o de imbecil, de idiota, de inferior… É o último estágio dos fascistas brasileiros, impotentes frente à vitória de Dilma. Se o governo será bom ou ruim, difícil saber, mas é herdeiro de um governo cujo presidente ultrapassa os 80% de aprovação e em que nem a direita mais odiosa consegue demonizar ou, se o faz, não consegue fazer ressoar pela sociedade.

Discriminar é aquele estágio final em que viram que seu poder de fogo é quase zero, que seus diplomas – por enquanto, os “ignorantes” estão chegando! – não valem de nada, não mudam a balança eleitoral. É melhor, então, apenas admitir que tem horror a pobre, a cheiro de pobre e viver com isso.

Conquistas econômicas só para a elite. Pobre não pode ter dinheiro! Absurdo! Reforma urbana, casas para sem-teto e população de baixa renda, urbanização de favelas, todas obras que merecem repúdio. Obra boa mesmo é aquela patrocinada pelo Kassab, sanitarista, higienista, que tire os pobres sujos do caminho e deixe a elite andar em paz.

Referência ao Mensalão, talvez? Ao caixa dois que, de fato existiu, mas começou em minas com o PSDB e é praticado por TODOS os partidos com exceção de poucos como o PSOL? Não é justificável, mas condenar um em detrimento de outros é atitude tão burra quanto.

Contra quem se vale de um marketing da pobreza e culpa os outros (geralmente as potências mundiais, os “coronéis”, os grandes empresários) por seus problemas. Como é preciso conviver com opiniões diferentes, eu faço um tremendo esforço para não prejulgar quem ainda defende Cuba e acredita em mitos marxistas que tornariam possível a existência de um “candidato dos pobres” contra um “candidato dos ricos”.

“Marketing da pobreza”, adorei! Vai ver que as crianças pedindo esmola no sinal, ou as favelas – pegando fogo – ou mesmo os indigentes dormindo nas calçadas sejam só intriga da situação. É marketing. Querer tirar estes da miséria? Marketing.

Mas, realmente, terrível culpa os “outros”. Culpar as potências mundiais que, com seus acordos e organizações perpetuam a pobreza ao impor concertos econômicos esdrúxulos aos países pobres? Absurdo!

Clpar os coronéis que mantiveram – e ainda mantém – os pobres das cidades mais desgraçadas (no sentido de pobres, por favor) na mais completa miséria e ignorância? Jamais!

Oras, vejam que disparate, culpar os empresários, só porque estes formam cartéis, aprovam o monopólio, praticam uma mais-valia assustadora, escravizam trabalhadores e se recusam a reconhecer os direitos sociais e trabalhistas de seus funcionários? Inaceitável! Acusação vil!

A referência à Cuba é a cereja do bolo. Sempre. É a Lei de Godwin da direita. Ou a Lei de Fidel. Sempre que uma discussão com a direita esquentar, eles apelarão pra Cuba. Não importa que críticas faça a própria esquerda à Cuba, nem o embargo, nem os sucessos, é sempre a saída final, aquilo que acaba com a discussão – para eles.

Falando nesta direita acéfala, não é de surpreender que o artigo tenha sido publicado pela Folha (acesso restrito) e logo depois re-postado pelo Augusto Nunes, o cão de guarda da Veja que foi humilhado pelo Zé Dirceu no Roda viva (vale à pena assistir), que demonstra a cada post o nível (ou a falta) da atual direita brasileira. Ressentida, acuada, sem argumentos e em franco desespero.

A direita brasileira é tão burra que sequer sabe aproveitar o fato de boa parte da população ser conservadora. Partem logo para a agressão, afastando os mais moderados  e virando mero motivo de piada.

Vejam, apenas de passagem, a argumentação usada por este Augusto Nunes para criticar o Ministro Celso Amorim, apenas o maior ministro de Relações Exteriores desde Rio Branco:

Nenhum país merece, pensei na poltrona logo atrás. Amorim lembrava um pintassilgo com frio. E então tive de resistir bravamente à tentação que sempre assaltava Nelson Rodrigues quando topava com o cronista Carlinhos Oliveira, pequeno e franzino, nas ruas do Rio.

Nunes chama o nosso ministro de “passarinho”, critica o formato de seu corpo e diz que “nenhum país merece”. Realmente, saudades do Ministro Lafer, que humilhava o país retirando o sapato nos aeroportos dos EUA. Mas é desta subserviência que nossa elite gosta!

De fato não podemos falar, nas ultimas eleições, em apenas um candidato dos ricos e dos pobres. Mas podemos com segurança falar do candidato da criminalização, da mentira e da farsa, do sanitarismo, da violência, da barbárie, da intolerância e do atraso. Serra e Marina disputam as classificações.

Afinal, se há alguma receita testada e aprovada contra a pobreza, uma feliz receita que salvou milhões de pessoas da miséria nas últimas décadas, é aquela que considera a melhor ajuda aos pobres a atitude de facilitar a vida dos criadores de riqueza.

Já sei, aquela receita neoliberal aplicada por FHC que tirou os pobres….. hmmmm, não, não tiro não, só os afundou no buraco. Ou talvez aquela, também neoliberal, que resgatou a Argentina… opa, também não. A Argentina faliu… Ou a do FMI pra Coréia do Sul! Ah essa… eita, também não, a Coréia do Sul se recusou a seguir o FMI, por isso cresceu….

É o caso do Chile e de Cingapura, onde a abertura da economia e a extinção de taxas e impostos fizeram bem tanto aos ricos quanto aos pobres. Não é o caso da Venezuela e da Bolívia.

Pois é, países com população ínfima comparada ao Brasil… Cingapura nem vale comentar, é um colosso!

Mas, bem, vamos entrar na discussão de ditaduras? Porque o Chile teve de matar mais de 30 mil pra ter o crescimento que o Narloch admira. Cingapura também nunca foi bem ma democracia. Pena que o Brasil “só” matou uns 300 ou 400. Se tivesse matado um milhão, quem sabe?

Mas, realmente, Chile é bom exemplo, a população Mapuche que o diga! Estão em festa.

Já Venezuela e Bolívia, realmente, terrível! Ao invés de caminhar rumo ao consumismo, à noção de acumulação acima de tudo, passaram a impor leis democráticas de respeito aos povos originários, garantiram educação universal a todos, erradicaram o analfabetismo, melhoraram os indicadores sociais….Besteira.

Por fim, eu nutro um declarado e saboroso preconceito contra quem insiste em pregar o orgulho de sua origem. Uma das atitudes mais nobres que alguém pode tomar é negar suas próprias raízes e reavaliá-las com equilíbrio, percebendo o que há nelas de louvável e perverso. Quem precisa de raiz é árvore.

A declaração final da elite racista e entreguista. Dispensa grandes comentários. A declaração em si representa tudo aquilo de mais repudiável, de uma elite disposta a abrir mão da história do país, a negar sua origem.

Que vendam tudo, que matem todos, mas a elite permanecerá. O resto é resto.

Este artigo da/na não vem do nada, mas é reflexo e uma campanha suja em que a direita mais racista, os fascistas dormentes, despertaram e ganharam a mídia. Mayara Petruso, Leandro Narloch, Augusto Nunes e tantos outros são apenas o reflexo do nível do debate político nacional, em que a mídia e a direita, completamente desesperados e esvaziados de idéias, partem para os ataques mais toscos e absurdos, criando e perpetuando ódio, preconceito e racismo

Read more: http://tsavkko.blogspot.com/2010/11/odio-pos-eleitoral-folha-leandro.html#ixzz154nzKrW3

Na foto, uma reunião do pessoal do SP só para SP

O Conversa Afiada reproduz e-mail do amigo navegante Miguel, do “http://limpinhocheiroso.blogspot.com Limpinho e Cheiroso:

Caros amigos do Conversa Afiada,
Fiquei estupefacto ao ler o Terra Magazine, do Bob Fernandes. A repórter Ana Cláudia Barros fez duas matérias de cair o queixo. Numa, ela entrevistou Fabiana Pereira, 35 anos, autora intelectual (sic) do manifesto que circula na internet “São Paulo para os paulistas”. Em outra, Ana Cláudia entrevistou Willian Godoy Navarro, 22 anos, signatário do manifesto e articulador, juntamente com Fabiana e outros 600 paulistas, do Movimento Juventude Paulistana.Com o Movimento Juventude Paulistana, eles querem mudar, quer dizer, melhorar São Paulo e fazer manifestações à la Greenpeace. A primeira será, observe a coincidência, na Ponte Estaiada. Outra coisa: a Fabiana defende a atitude da xenófoba-estudante de Direito-paulistana Mayara.

Sério! Dá medo ao ler as matérias… Nossa Senhora da Antixenofobia que nos proteja.

O Limpinho reproduziu os textos:

http://limpinhocheiroso.blogspot.com/2010/11/em-manifesto-na-web-jovens-paulistas.html”

Depois de ler os artigos o Limpinho chegou às seguintes conclusões:

1. Em São Paulo, a coisa está muito pior do que eu imaginava. Muito pior…

2. Fazer manifestação na Ponte Estaiada é sintomático. Quem é da capital de São Paulo sabe que o pano de fundo do jornalismo paulistano da Rede Globo é a Ponte Estaiada. Que coincidência!

3. Willian Godoy Navarro, mesmo medindo suas palavras, se entregou: “Essas pessoas [Movimento São Paulo para os paulistas] querem mudar São Paulo, mudar não, pelo menos, melhorar.”

4. A Fabiana Pereira, com todo respeito, não diz coisa com coisa: “Acabaram usando tudo isso [a xenofobia da Mayara] para colocar até um pouco como vítima, né?!”

5. Eles querem usar a mesma tática do Greenpeace, aquele movimento que se calou durante o vazamento de petróleo no Golfo do México, cuja culpa foi da British Petroleum, que se tornou um dos piores da história dos Estados Unidos. Só falta eles querem também seguir os Repórteres com, quer dizer, Sem Fronteiras.

Miguel Baia Bargas

Como foi que tudo isso começou, amigo navegante ?

Começou aqui, amigo navegante: Serra semeou o ódio e agora o Brasil colhe a tempestade do preconceito, da discriminação e da xenofobia.

Recomenda-se reler o texto da professora Tânia Bacelar, da Universidade Federal de Pernambuco, em Mauricio Dias da Carta Capital: “O Nordeste não trocou o voto pelo miolo do pão”.

E aqui para ler “Serra perdeu porque São Paulo só pensa em São Paulo”.

Que horror !

Paulo Henrique Amorim