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Sem reajuste salarial desde 2005 e descontentes com os critérios usados para o pagamento da chamada “bonificação por resultados”, professores das escolas técnicas (Etecs) e faculdades de tecnologia (Fatecs) do estado de São Paulo ameaçam entrar em greve nas próximas semanas.
Uma das principais queixas foi a inclusão, em 2007, de critérios de produtividade para a concessão do benefício aos docentes. Quem aprova mais alunos, recebe um bônus maior. Especialista em avaliação, Luiz Carlos Freitas, professor de Educação da Unicamp, afirma que o modelo gera corrupção no sistema. Confira a entrevista concedida a CartaCapital.

via ninho da vespa

CartaCapital: Como o senhor avalia essa política de bonificação instituída na rede pública paulista?
Luiz Carlos de Freitas: A ideia da bonificação é importada da iniciativa privada. Os reformadores empresariais da educação acreditam que a educação é uma atividade como qualquer outra, passível de ser administrada pelos critérios da iniciativa privada, ou seja, a escola é vista como se fosse igual a uma pequena empresa. Para este pensamento, o problema educacional se resolve com um choque de gestão. Uma empresa vai bem quando os lucros aumentam, e na escola, o equivalente aos lucros são os resultados dos testes. Se eles aumentam, então a escola vai bem, logo seus profissionais merecem um bonus, se as notas não aumentam, então alguém tem que ser responsabilizado, ou seja, demitido – tal como s e fosse uma fábrica de sapatos. Ocorre que não há intercambiabilidade entre a área dos negócios e a área da educação. São lógicas diferentes. No mercado há ganhadores e perdedores e os ganhadores não têm de se preocupar com os perdedores. A educação é um direito de todos e temos de nos responsabilizar pelo avanço de todos. São lógicas incompatíveis. Os testes ganham então uma relevância extraordinária. Há, entretanto, um princípio antigo, de Campbell, que diz que quanto mais um indicador social é usado para controle, mais ele distorce e corrompe o processo social que ele tenta monitorar.
 
 CC: Por que o senhor acredita que o sistema de bonificação por resultados, como o implantado em São Paulo, gera corrupção no interior das redes de ensino?
LCF: Há muitos exemplos que comprovam isso. Recentemente, Beverly Hall, superintendente do sistema educacional de Atlanta nos EUA, foi demitida de seu cargo em função de que uma investigação governamental encontrou fraude na avaliação de 58 escolas públicas de Atlanta. Na Cidade de Nova Iorque, John Klein deixou o cargo de superintendente depois que em junho do ano passado a bolha de desempenho da cidade de Nova Iorque explodiu mostrando que as altas notas que os alunos estavam tirando nas escolas estavam infladas. Cathleen Black, que o sucedeu, vindo de um posto bem-sucedido na iniciativa privada [Hearst Magazines] conseguiu ficar apenas três meses no cargo e foi demitida no começo de abril. Black não conseguiu administrar o sistema de educação da cidade de Nova Iorque, pois não dominava o mundo educacional, apenas era uma gestora bem-sucedida no campo da iniciativa privada. Entre suas gafes está sua recomendação de que as sala de aulas superlotadas de alunos poderiam ser mudadas se houvesse mais controle de natalidade. Isso tudo mostra que entre o mundo dos negócios e o mundo da educação há uma grande distância. A escola não é uma pequena empresa.
CC: O sindicato dos professores do ensino técnico afirma que a bonificação tem sido usada como desculpa para a falta de reajustes salariais nos últimos anos e que o sistema leva em conta critérios que não dependem só do docente, como evasão escolar e aprovação dos alunos. Essas críticas procedem?
 LCF: Procedem. Em geral, todos admitem que mais de 50% das variáveis que explicam o bom rendimento do aluno se deve a fatores que estão fora da escola. Entretanto, na hora de pensar nas soluções para aumentar o rendimento dos alunos isto é esquecido e se pensa exclusivamente em termos de variáveis intraescolares, em especial o papel do professor. Isso leva à tentação de aumentar o salário somente para aqueles professores que possam ser associados à melhoria do rendimento de seus alunos, medido em testes, e demitir aqueles que não são associados à melhoria do rendimento do aluno. Por isso, os defensores destas políticas são contra o aumento salarial para todos e são igualmente contra a estabilidade do emprego do professor, pois precisam ameaçar com a demissão ou com o não pagamento de bônus.
CC: Ao incluir como critério do bônus a “produtividade”, isto é, o número de alunos aprovados em relação ao total de matrículas, isso não provoca distorções na avaliação dos alunos?
 
LCF: A prática diz que sim, como relatei acima no caso de Atlanta nos EUA. Mesmo no caso do Estado de São Paulo, com a aplicação da avaliação do Saresp para rede regular de ensino, esta interferência da avaliação tem sido detectada. Há ainda a questão do aumento de simulados no interior das redes que acaba por tomar tempo precioso da aprendizagem dos alunos que acaba sendo substituído por treino para as provas. Aprendizagem é algo diferente de ser treinado para se sair bem em testes. É corrente nos Estados Unidos o fato de que há estados que rebaixam as exigências nos testes locais para que seus alunos possam se sair bem e então acessarem verbas federais.
CC: No Brasil, há experiências de escolas charter [administradas pela iniciativa privada] no sistema público? De que forma esse tipo de iniciativa está associada à política de bonificação e quais são os riscos dessa aposta?
 LCF: No Brasil, a experiência mais próxima deste conceito foi feita em Recife, Pernambuco, no ensino médio, embora tenha sido interrompida. Não há uma avaliação independente dos resultados desta experiência. A única avaliação foi feita por uma agência que atua na própria divulgação da ideia o que torna a avaliação suspeita. As avaliações feitas nos Estados Unidos sobre as escolas charters não são alentadoras. No caso norte-americano, quando as escolas não conseguem fazer com que seus alunos melhorem nos testes, elas podem ser fechadas e transferidas à iniciativa privada por meio de contrato de gestão [escolas charters], em um processo que está previsto em sua lei de responsabilidade educacional. Tal lei, aprovada em 2001, previa que em 2014 todas as escolas norte-americanas deveriam ter seus alunos na categoria de “proficientes” em leitura e matemática. Há um mês o ministro de Educação norte-americano afirmou que 80% das escolas dos EUA não estarão em condições de cumprir esta meta. Ou seja, a lei serviu unicamente para promover a privatização do sistema público de educação norte-americano, destruindo-o com a implantação de escolas administradas por contrato de gestão. Antes destas medidas, os EUA estavam na média do Pisa – o programa de avaliação de estudantes da OCDE – e depois destas medidas, no Pisa de 2009, o país continua na média.
CC: Que lição fica para o Brasil?
LCF: As escolas charter não levaram os norte-americanos a uma melhor posição educacional. Nos testes nacionais igualmente não houve melhora e há quem diga que até piorou. Portanto, estas ações que são no Brasil alardeadas pelos reformadores empresariais como o “Movimento todos pela Educação” e o “Movimento Parceiros da Educação” não se mostraram com condições de melhorar a educação no País que mais fez uso destas medidas. Por que devemos acreditar que fariam diferença no Brasil? Aliás, o Brasil vem melhorando no Pisa sem ter de recorrer a tais medidas.
Rodrigo Martins é repórter da revista CartaCapital há quatro anos. Em 2008 foi um dos vencedores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Via CartaCapital

Após 25 anos na emissora, regente soube na terça que não ia continuar

Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE
Batuta. Para Medaglia, TV Cultura barateia custos com prejuízo à qualidade dos programas.

Júlio Medaglia, de 73 anos, foi surpreendido nesta terça-feira. Após 25 anos na TV Cultura, teve o contrato rescindido. O maestro apresentava o Prelúdio (programa de calouros de música erudita), e mantinha na Rádio Cultura o programa diário Temas e Variações, às 11 horas.

O último programa foi ao ar na própria terça, sobre o compositor Bernard Hermann. Ex-aluno de Pierre Boulez, Stockhausen e John Barbirolli, Medaglia foi fundador da Amazônia Filarmônica e dirigiu a Orquestra da Rádio de Baden-Baden e a Rádio Roquete Pinto.

O que lhe disseram ao demiti-lo?

Quem me chamou foi o João Sayad (presidente da TV Cultura). Disse muito obrigado, que fui importante, mas que ia colocar jovens para fazer o programa de rádio e a cobertura dos projetos de ópera e ia comprar um enlatado americano para a TV. Curioso porque, quando assumi, ele me chamou e ficamos quase duas horas conversando. Ele me perguntava coisas e tomava notas em um caderninho. Mas, ao me demitir, não demorou nem um minuto e meio. Tinha 24 anos de programa e fui demitido em um minuto e meio. Ele resolveu seguir as opiniões de outras pessoas. Sei quem é a pessoa que conduz esse desmonte, mas não vou dizer porque não tenho como provar.

O sr. era caro para a emissora?

No começo, eu era funcionário. Fui demitido em 2005 e transformado em PJ (Pessoa Jurídica). A direção achou que eu não podia ser personalidade física e jurídica ao mesmo tempo. Passei a ganhar R$ 4 mil, mas sem direitos trabalhistas, sem plano de saúde. No fim, estava pagando para trabalhar. Mas continuei porque achei que valia a pena. Tivemos até 2 mil jovens no programa Prelúdio. Prestamos alguns serviços, e revelamos uma geração inteira de novos músicos. O programa trazia um público jovem para a casa, o Instituto Goethe dava uma bolsa na Alemanha para o vencedor, o Consulado Italiano dava outra para a Itália. E não custava nada para a emissora. A orquestra era paga por um convênio. Recebíamos toneladas de cartas. Estão desmontando a Rádio Cultura inteira, a TV Cultura também. É uma coisa triste. Estão sendo dirigidos por pessoas que não sabem dirigir, com uma programação sucateada, programas infantis que vão sendo repetidos.

Qual era o tamanho da sua equipe?

Eu tinha um produtor, mas foi demitido há alguns meses. Era apenas o locutor. Depois que demitiram a Marta Fonterrada (produtora e radialista), eu mesmo estava pesquisando e produzindo tudo. Marta era uma pessoa muito bem preparada, uma profissional de grande gabarito. Desde então, eu definia algum tema, como por exemplo “Compositores que ficaram cegos”, e aí reunia a obra de Bach, Haendel, e assim por diante, e montava o programa. Foi assim nos últimos seis anos, cada dia uma ideia diferente.

Quais são seus planos para o futuro imediato?

Bom, eu continuo à frente de um projeto em São Bernardo do Campo, a solidificação de uma orquestra. Estou me inspirando no que Simon Rattle (maestro inglês) fez em Birmingham, a prospecção de talentos numa zona industrial, tradicionalmente de pouca atividade cultural. A partir da orquestra, revitalizou toda uma cidade. É um projeto bacana de São Bernardo, que pretende instalar um teatro para a gente nos antigos estúdios da Vera Cruz, que abrigará um grande centro cultural.

Outro lado
Em nota, a TV Cultura explicou: “Pelo reconhecido e inconteste papel desempenhado pelo maestro Medaglia em prol da divulgação da música clássica no Brasil, foram oferecidas a ele algumas alternativas, mas a conclusão das conversas foi pela não renovação do contrato”.

Jotabê Medeiros – O Estado de S.Paulo

“Não são as drogas que causam violência, mas sim a ilegalidade imposta ao mercado”

Ex-defensora pública e juíza aposentada no Rio de Janeiro, Maria Lúcia Karam é um dos principais expoentes teóricos do antiproibicionismo brasileiro. Libertária e ativista do abolicionismo penal, Karam inspirou o nome do nosso coletivo (Desentorpecendo a Razão) – agora completando um ano – com sua carcterização de que somente uma razão entorpecida pode conviver com o proibicionismo que combatemos.

Em entrevista exclusiva para o DAR, ela abordou um pouco de suas convicções e opiniões acerca dos efeitos do proibicionismo em geral e de nossa atual lei, do abolicionismo penal, da questão das drogas nas eleições 2010 e também sobre o posicionamento de esquerda e direita neste debate. “É preciso legalizar a produção, o comércio e o consumo de todas as drogas, de modo a efetivamente afastar os riscos, os danos e os enganos do proibicionismo, que provoca violência, que provoca maiores riscos e danos à saúde, que cerceia a liberdade, que impede a regulamentação e um controle racional daquelas atividades econômicas”, sintetiza Karam, uma mente desentorpecida.

DAR – Maria Lúcia, nos inspiramos em suas formulações para nomear nosso coletivo e também para pautar muitas de nossas reflexões. Gostaria que comentasse rapidamente em que consiste a “razão entorpecida” que pauta nossas atuais políticas de drogas, e quais os impactos principais dela.

Maria Lúcia Karam – Costumo dizer que somente uma razão entorpecida sustenta a globalizada política de drogas porque um mínimo de racionalidade demonstra não só o fracasso de seus declarados objetivos, como também – e mais importante – os graves riscos e danos decorrentes da proibição.Após um século de proibição, agravada nos últimos quarenta anos pela adoção da política de “guerra às drogas”, a pretendida erradicação das drogas tornadas ilícitas não aconteceu e nem mesmo a redução de sua circulação. Ao contrário, essas substâncias proibidas foram se tornando mais baratas, mais potentes e muito mais facilmente acessíveis.

Inspiradas pelo paradigma bélico, medidas repressivas impostas pelas convenções da ONU e pelas leis internas criminalizadoras das condutas de produtores, comerciantes e consumidores das drogas tornadas ilícitas se caracterizam por uma sistemática violação de clássicos princípios garantidores de direitos fundamentais, provocando um vertiginoso aumento no número de pessoas presas em todo o mundo e ameaçando os próprios fundamentos da democracia.A proibição conduz a uma total ausência de controle sobre o mercado tornado ilegal, entregue a agentes que, atuando na clandestinidade, não estão sujeitos a quaisquer limitações reguladoras de suas atividades.

A proibição provoca maiores riscos e danos à saúde: impede a fiscalização da qualidade das substâncias comercializadas; sugere o consumo descuidado e não higiênico; dificulta a busca de assistência; constrói preconceitos desinformadores e obstáculos às ações sanitárias; cria a atração do proibido, acabando por estimular o consumo especialmente por parte de adolescentes.

A proibição causa violência. Não são as drogas que causam violência, mas sim a ilegalidade imposta ao mercado.

A produção e o comércio de drogas não são atividades violentas em si mesmas. É a ilegalidade que cria a violência. A produção e o comércio de drogas só se fazem acompanhar de armas e de violência quando se desenvolvem em um mercado ilegal. A violência não provém apenas dos enfrentamentos com as forças policiais, da impossibilidade de resolução legal dos conflitos, ou do estímulo à circulação de armas. Além disso, há a diferenciação, o estigma, a demonização, a hostilidade, a exclusão, derivados da própria idéia de crime, a sempre gerar violência, seja da parte de agentes policiais, seja da parte daqueles a quem é atribuído o papel do “criminoso”, ou, pior, do “inimigo”.

A realidade e a história demonstram que o mercado das drogas não desaparecerá. As pessoas continuarão a usar substâncias psicoativas, como o fazem desde as origens da história da humanidade, nada importando a proibição. Em um ambiente de legalidade, as pessoas estarão muito mais protegidas, tendo maiores possibilidades de usar tais substâncias de forma menos arriscada e mais saudável.

DAR- Como é vista a questão das drogas dentro do sistema judiciário e do meio jurídico? Existem mais vozes dissonantes? Em seu texto “A lei 11.343 e os repetidos danos do proibicionismo” você aponta incoerências e inclusive inconstitucionalidades na nossa atual lei de drogas, como é possível que não haja contestação jurídica desta lei?

MLK – A maioria dos juízes – e dos profissionais do direito em geral – costuma interpretar e aplicar as leis de forma burocrática, ignorando a supremacia das normas garantidoras de direitos fundamentais, inscritas nas declarações internacionais de direitos e nas constituições democráticas, ignorando o fato de que uma lei só é válida – e, portanto, só é aplicável – quando se harmoniza com essas normas garantidoras de direitos fundamentais. Por isso, dispositivos claramente inconstitucionais presentes na Lei 11.343 ainda subsistem e são pouco contestados. Isso, evidentemente, acontece não só no Brasil.

No entanto, alguns avanços podem ser constatados. No Brasil, vale lembrar o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, proferido na Apelação Criminal 01113563.3/0-0000-000, relator o juiz José Henrique Rodrigues Torres, em que foi declarada a inconstitucionalidade da regra criminalizadora da posse de drogas para uso pessoal.

DAR- No caso da Argentina houve uma decisão jurídica da Suprema Corte que na prática descriminalizou o consumo de drogas. Você acredita que existe possibilidade do STF se posicionar de maneira a questionar o proibicionismo?

MLK – A importante decisão da Suprema Corte argentina de 25 de agosto de 2009, em que declarada a inconstitucionalidade da criminalização da posse de drogas para uso pessoal, é um exemplo dos avanços antes mencionados.

Confio que o STF também exerça a função maior de todos os juízes que é a de garantir a supremacia das normas inscritas nas declarações internacionais de direitos e na Constituição, de garantir a efetividade dos direitos fundamentais de cada indivíduo. Assim exercendo corretamente sua função, o STF certamente deverá também proclamar a manifesta inconstitucionalidade da criminalização da posse de drogas para uso pessoal.

DAR – Qual a importância de debater a questão das drogas relacionando-a à criminalização da pobreza, dos movimentos sociais e perante a constatação da seletividade do sistema jurídico?

MLK – A “guerra às drogas” não se dirige propriamente contra as drogas. Como qualquer outra guerra, dirige-se sim contra pessoas – nesse caso, os produtores, comerciantes e consumidores das drogas tornadas ilícitas. Como acontece com qualquer intervenção do sistema penal, os mais atingidos pela repressão são os mais vulneráveis econômica e socialmente, os desprovidos de riquezas, os desprovidos de poder.

No Brasil, os mais atingidos são os muitos meninos, que, sem oportunidades e sem perspectivas de uma vida melhor, são identificados como os “traficantes”, morrendo e matando, envolvidos pela violência causada pela ilegalidade imposta ao mercado onde trabalham. Enfrentam a polícia nos confrontos regulares ou irregulares; enfrentam os delatores; enfrentam os concorrentes de seu negócio. Devem se mostrar corajosos; precisam assegurar seus lucros efêmeros, seus pequenos poderes, suas vidas. Não vivem muito e, logo, são substituídos por outros meninos igualmente sem esperanças. Os que sobrevivem, superlotam as prisões brasileiras.

Nos EUA, pesquisas apontam que, embora somente 13,5% de todos os usuários e “traficantes” de drogas naquele país sejam negros, 37% dos capturados por violação a leis de drogas são negros; 60% em prisões estaduais por crimes relacionados a drogas são negros; 81% dos acusados por violações a leis federais relativas a drogas são negros. Os EUA encarceram 1.009 pessoas por cem mil habitantes adultos. Se considerados os homens brancos, são 948 por cem mil habitantes adultos. Se considerados os homens negros, são 6.667 por cem mil habitantes. Sob o regime mais racista da história moderna, em 1993 – sob o apartheid na África do Sul – a proporção era de 851 homens negros encarcerados por cem mil habitantes. Como ressalta Jack A. Cole, diretor da Law Enforcement Against Prohibition-LEAP – organização internacional que reúne policiais, juízes, promotores, agentes penitenciários e da qual orgulhosamente faço parte – é o racismo que conduz a “guerra às drogas” nos EUA.

Na Europa, a mesma desproporção se manifesta em relação aos imigrantes vindos de países pobres.

Quem deseja construir um mundo melhor, quem deseja construir sociedades mais iguais, mais justas, mais livres, mais solidárias, seguramente precisa lutar pelo fim da “guerra às drogas”, precisa lutar pela legalização da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas.

DAR – É possível se incluir um nicho marginalizado na sociedade sem que este torne-se mais um mecanismo exploratório da mídia e do consumo?

MLK – Sociedades não deveriam ter “nichos marginalizados”. Todos devem estar incluídos nas sociedades. Manipulações e explorações da mídia e dos incentivos a um consumismo descontrolado não são algo preocupante apenas quando se trata de integrar “nichos marginalizados”, sendo sim algo que deve ser permanentemente enfrentado.

DAR- Como avalia o posicionamento dos presidenciáveis frente à questão das drogas? Além dos presidenciáveis como vê o silêncio de figuras públicas vinculadas a partidos?

MLK – Acho lamentável o posicionamento que todos os presidenciáveis e a maioria das figuras públicas brasileiras vinculadas a partidos têm externado em relação às drogas. Repetem o enganoso discurso proibicionista. Ratificam e/ou compactuam com a globalizada política proibicionista fundada na inútil, perigosa, violenta, danosa e dolorosa “guerra às drogas”.Por outro lado, o silêncio frequentemente reflete uma auto-censura, uma postura de quem receia contrariar pensamentos eventualmente majoritários, de quem pauta sua atuação política por momentâneas pesquisas de opinião.

DAR – Muitas pessoas defendem uma saída no sentido de somente descriminalizar ou regulamentar a posse de drogas para consumo próprio, mantendo o tráfico sob forte repressão. Como avalia essa proposição? Seria isso o que é possível no momento ou uma saída para somente um setor da sociedade?

MLK – A descriminalização da posse para uso pessoal das drogas ilícitas é um imperativo derivado da necessária observância dos princípios garantidores dos direitos fundamentais inscritos nas declarações internacionais de direitos e nas constituições democráticas. A posse de drogas para uso pessoal é uma conduta que não atinge concretamente nenhum direito de terceiros. É uma conduta privada que não pode sofrer qualquer intervenção do Estado. Em uma democracia, a liberdade do indivíduo só pode sofrer restrições quando sua conduta atinja direta e concretamente direitos de terceiros.

Mas essa imperativa descriminalização não é suficiente. Praticamente nada mudará, a não ser que a produção, o comércio e o consumo de todas as drogas possam se desenvolver em um ambiente de legalidade.É preciso legalizar a produção, o comércio e o consumo de todas as drogas, de modo a efetivamente afastar os riscos, os danos e os enganos do proibicionismo, que provoca violência, que provoca maiores riscos e danos à saúde, que cerceia a liberdade, que impede a regulamentação e um controle racional daquelas atividades econômicas.

Não se pode parcial e egoisticamente defender apenas os direitos de consumidores de drogas e ignorar ou até mesmo compactuar com as gravíssimas violações de direitos das maiores vítimas da “guerra às drogas” – no Brasil, repita-se, os muitos meninos que negociam e trabalham no árduo mercado tornado ilegal.

Tampouco se pode pensar no paradigma de redução de riscos e danos apenas em um sentido que o vincula unicamente a questões concernentes à saúde. Aliás, o desenvolvimento de programas terapêuticos de redução dos riscos e danos relacionados às drogas tornadas ilícitas no interior de um ordenamento proibicionista, que maximiza esses riscos e danos, torna-se algo irracional e insustentável, ou, na melhor das hipóteses, uma política que se satisfaz com o enfrentamento apenas de alguns riscos e danos menos graves, deixando de lado os riscos e danos mais graves, inclusive os diretamente relacionados e agravantes dos mais limitados riscos e danos enfrentados.

Não se pode parcial e maniqueistamente defender apenas a legalização de uma ou outra droga apresentada como “boa” ou “inofensiva”, como fazem defensores da maconha ou da folha de coca, que, reproduzindo a mesma artificial distinção que sustenta a enganosa e nociva divisão das drogas em lícitas e ilícitas, pretendem se apresentar como os “bons”, se diferenciando dos “maus” produtores, comerciantes e consumidores de drogas ditas “pesadas”.

Não se pode pretender reduzir riscos e danos relacionados às drogas e não se incomodar com a nocividade do proibicionismo.

Somente a legalização da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas porá fim à enorme parcela de violência provocada pela proibição. Somente a legalização da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas permitirá a efetiva regulação e o controle do mercado, de forma a verdadeiramente proteger a saúde. Somente a legalização da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas permitirá a economia dos recursos atualmente desperdiçados na danosa “guerra às drogas” e o aumento da arrecadação de tributos, assim permitindo a utilização desses novos recursos em investimentos socialmente proveitosos.

DAR – E como você encara a participação de setores conservadores neste debate, cujo exemplo mais marcante é o ex-presidente FHC?

MLK – O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que para se apresentar como um reformador nesse tema deveria, antes de tudo, fazer uma profunda autocrítica sobre a política desenvolvida em seu governo – basta lembrar que foi em seu governo que foi criada a militarizada SENAD –, na realidade, avançou muito pouco.

O relatório da Comissão Latino-americana sobre Drogas e Democracia, da qual é um dos líderes, afirma o fracasso e aponta danos da “guerra às drogas”. No entanto, paradoxalmente, apóia ações repressivas, inclusive com a intervenção das Forças Armadas, propondo apenas a mera adoção de programas de saúde fundados no paradigma de redução de riscos e danos e a mera descriminalização da posse para uso pessoal tão somente da maconha.

Setores ditos “conservadores” que verdadeiramente se posicionem no sentido da legalização da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas, naturalmente, devem ser muito bem-vindos. Todas as forças que se disponham a lutar para obter essa conquista fundamental para o bem-estar da humanidade, certamente, devem ser recebidas com entusiasmo. Posicionando-se verdadeiramente pela legalização da produção, do comércio e do consumo de todas as drogas poderão até ser “conservadores” em alguns temas, mas estarão demonstrando um compromisso com a liberdade e com o bem-estar das pessoas que deve ser saudado.

DAR – O seu nome é invariavelmente ligado aos debates sobre o abolicionismo penal. Poderia nos explicar como acredita que devem ser pautados nossos conflitos sociais para além do direito penal? Como isso se daria concretamente em um ambiente capitalista?

MLK – Uma agenda política voltada para o aprofundamento da democracia, para a construção de um mundo melhor, para a construção de sociedades mais iguais, mais justas, mais livres, mais solidárias, onde os direitos fundamentais de todos os indivíduos sejam efetivamente respeitados, há de ter o fim do poder punitivo e a conseqüente abolição do sistema penal como um de seus principais itens.

A luta pela abolição do sistema penal é uma luta pela liberdade; uma luta contra um sistema que estigmatiza, discrimina, produz violência e causa dores; uma luta para pôr fim a desigualdades; uma luta para reafirmar a dignidade inerente a cada um dos seres humanos, assim devendo ser parte inseparável da busca de uma reorganização das sociedades que, superando a violência, as opressões, explorações, desigualdades e misérias provocadas quer pelo capitalismo, quer pelo que se convencionou chamar de socialismo real, possa lançar as bases de um novo patamar de convivência entre as pessoas.

A força ideológica da enganosa publicidade do sistema penal cria a falsa crença que faz com que o controle social, fundado na intervenção do sistema penal, apareça como a única forma de enfrentamento de situações negativas ou condutas conflituosas. Na realidade, porém, as leis penais não protegem nada nem ninguém; não evitam a realização das condutas que por elas criminalizadas são etiquetadas como crimes. Servem apenas para assegurar a atuação do enganoso, violento, danoso e doloroso poder punitivo.

A intervenção do sistema penal, além de provocar danos e dores, é sempre inútil, é sempre tardia, chegando sempre somente depois que o evento indesejável já ocorreu. Essa inútil, tardia, violenta, danosa e dolorosa intervenção do sistema penal deve ser substituída por mecanismos formais e informais de controle (exercido por organismos como a família, a escola, as igrejas, os clubes, as associações, sistemas de saúde e assistência social, leis e aparatos judiciários civis e administrativos) que possam efetivamente regular a vida em comum e evitar ao máximo a produção de situações negativas ou condutas conflituosas no convívio entre as pessoas.

Naturalmente, um convívio mais saudável e menos produtor de conflitos passa pela garantia de respeito e bem-estar para todos os indivíduos. Energias e investimentos desperdiçados com a ilusória e nefasta segurança máxima de prisões devem ser substituídos por energias e investimentos voltados para garantir alimentação saudável, habitação confortável, escolas de boa qualidade, trabalho satisfatoriamente remunerado, lazer, cultura, enfim, dignidade para todas as pessoas.

Os danos e as dores produzidos pelo sistema penal revelam a total falta de racionalidade da idéia de punição. Qual a racionalidade de se retribuir um sofrimento causado pela conduta criminalizada com outro sofrimento provocado pela pena?

Se se pretende evitar ou, ao menos reduzir, as condutas negativas, os acontecimentos desagradáveis e causadores de sofrimentos, por que insistir na produção de mais sofrimento com a imposição da pena? O sistema penal não alivia as dores de quem sofre perdas causadas por condutas danosas e violentas, ou mesmo cruéis, praticadas por indivíduos que eventualmente desrespeitam e agridem seus semelhantes. Ao contrário. O sistema penal manipula essas dores para viabilizar e buscar a legitimação do exercício do ainda mais violento, danoso e doloroso poder punitivo. Manipulando o sofrimento de indivíduos atingidos por seus semelhantes, incentiva o sentimento de vingança. Desejos de vingança não trazem paz de espírito. Desejos de vingança acabam sendo autodestrutivos. O sistema penal manipula sofrimentos para perpetuá-los e para criar novos sofrimentos.

O destrutivo sentimento de vingança, manipulado pelo sistema penal, deve ser trocado pelo perdão, pela compaixão, pela compreensão, abrindo espaço, nos conflitos interindividuais, para estilos compensatórios, assistenciais, conciliadores. Os bens e as riquezas produzidos nas sociedades, certamente, devem ser compartilhados. Mas, é preciso também aprender a conviver com os desconfortos nelas gerados e buscar o entendimento, a proximidade com o conflito, as soluções formadas a partir da consideração de todas as nuances do caso concreto e do respeito à dignidade de todos os envolvidos.

COLETIVO DESENTORPECENDO A RAZÃO ENTREVISTA MARIA LÚCIA KARAM, pelo viés doColetivo Desentorpecendo a Razão

coletivodar@gmail.com

A cantora e compositora Ana de Hollanda foi escolhida pela presidente eleita Dilma Rousseff para ser a nova ministra da Cultura. Ela será a primeira mulher a assumir a chefia do Ministério da Cultura, concretizando o desejo anunciado por Dilma de ter mais mulheres em cargos de chefia na Esplanada.

Ana de Hollanda esteve em uma sala de reuniões do edifício do BNDES para sua primeira coletiva de imprensa após o anúncio oficial feito pela equipe de transição. O encontro aconteceu na manhã desta terça-feira (22), no Rio de Janeiro.

Na conversa, a futura ministra falou de suas prioridades de gestão e se revelou ainda surpresa com o convite que recebeu da presidente eleita. Ana também reconheceu a qualidade da gestão iniciada por Gilberto Gil e continuada por Juca Ferreira, e destacou especialmente o trabalho realizado em regiões do Brasil onde anteriormente o MinC não atuava. Ela também assegurou que pretende dar continuidade a uma série de políticas culturais já implantadas e destacou a importância da criação do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e da implementação dos Pontos de Cultura como exemplos de ações de fortalecimento da política cultural no Brasil.

“O MinC tem dado prioridade em atender classes desfavorecidas, o que tem proporcionado um grande trabalho de inclusão social. Pretendo aproveitar essas ações e manter a Cultura como fator de inserção social”, disse Ana de Hollanda. “Não quero interromper este trabalho bem feito que tem sido desenvolvido pelo Ministério da Cultura, mas é evidente que cada gestor tem uma visão e vai dar suas prioridades ao que achar necessário”, completou.

Para a futura nova ministra, o centro da cadeia produtiva está na área da criação e destacou que pretende desenvolver um trabalho maior de fomento e difusão dessa área, passando pela música, o cinema, as artes plásticas, o circo, o design, o teatro, a dança, entre outras áreas. Ela também revelou sua preocupação com a diversidade cultural brasileira e pretende trabalhar em parcerias com os diversos setores, focalizando também na integração entre os ministérios.

Quando questionada pelos jornalistas sobre as reformas da Lei dos Direitos Autorais e da Lei Rouanet, Ana de Hollanda afirmou que essas questões continuarão sendo discutidas pelo Ministério da Cultura e acompanhadas por especialistas do setor, que analisarão o que deve ser mantido ou alterado ao longo de sua gestão.

Ana defendeu ainda a inserção da Cultura como fator relevante para elevação do nível social e de conhecimento do brasileiro, e que isso deve ser feito tanto por meio do consumo como da participação criativa. “A cultura é uma necessidade do ser humano prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos, o que naturalmente demonstrará a necessidade de mais verbas para esse setor”, declarou.

Trajetória

A Cultura sempre teve uma presença forte na vida de Ana de Hollanda, que vem participando de discussões do setor há pelo menos 30 anos.

Trabalhou no Centro Cultural São Paulo, da Secretaria Municipal de São Paulo, de 1982 a 1985, e chefiou o setor de música do órgão. Foi também Secretária de Cultura do Município de Osasco, entre 1986 e 1988, e diretora do Centro de Música da Funarte (Fundação Nacional de Artes), entre 2003 e 2007, quando teve a oportunidade de reavivar o Projeto Pixinguinha. Na Funarte, Ana de Hollanda também participou do projeto de criação das Câmaras Setoriais e coordenou a Câmara Setorial de Música.

Nos últimos três anos, ela fez parte da diretoria do Museu da Imagem e do Som (MIS), do Rio de Janeiro.

(Texto: Juliana Nepomuceno, Comunicação Social/ MinC)
(Fotos: André Mello)

Fonte: http://www.cultura.gov.br

Eu briguei a vida inteira para ser presidente… Agora acabou… Graças a Deus, acabou bem…”

por Hélio Campos Mello e Ricardo Kotscho

Encontramos Luiz Inácio Lula da Silva, um senhor grisalho de “guayabera” branca, calça e sapatos pretos, já na pista do aeroporto de Congonhas para dar início a mais uma viagem de rotina. Conforme o combinado com ele na véspera, vamos entrevistar o presidente Lula nessa viagem a Ribeirão Preto e depois a Brasília, para fazer um balanço dos seus oito anos de governo. Faltavam 38 dias para Lula terminar seu segundo mandato, mas o clima já era de despedida.

Até os tripulantes da FAB, escalados para esse voo no Embraer 190 – o jato executivo reserva da Presidência (o AeroLula estava em manutenção) -, vieram pedir para tirar uma foto com o presidente antes de ele ir embora. “Preciso começar a desacelerar”, repete para si mesmo, evitando pensar no que pretende fazer depois de passar a faixa presidencial, no dia 1o de janeiro de 2011, para sua amiga Dilma Rousseff, a sucessora que ajudou a eleger do alto dos mais de 80% de aprovação do seu governo.

Mais que uma entrevista de prestação de contas, essa foi uma conversa entre velhos amigos, três sexagenários que se conheceram no final dos anos 1970, na cobertura das históricas greves dos metalúrgicos do ABC comandadas por Lula – o líder sindical, o repórter e o fotógrafo da revista IstoÉ – que naquela época jamais poderiam imaginar um filme com esse desfecho.

Nessa viagem pelo tempo, em que foi acompanhado pelo ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência, Lula não deixou pergunta sem resposta e respondeu até sobre o que não perguntamos, quando falou da sua polêmica política externa e da questão do Irã. Melhores e piores momentos dos oito anos, expectativa sobre o governo Dilma, as tensas relações com a imprensa, as principais conquistas e o que faltou fazer, o adversário tucano, a decepção com Obama, as histórias e os personagens que o marcaram, o que pretende fazer da vida. Falamos um pouco de tudo e, ao final da conversa, Lula parecia satisfeito consigo mesmo, com cara de missão cumprida.

Valeu, amigo Lula.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva – Quem quer adoçante?
Brasileiros –
(Um jantar em sua homenagem oferecido pela comunidade luso-brasileira.).
Eu não estou tomando café, presidente, obrigado… Parei de fumar… A que horas você saiu daquela festa ontem?

Presidente Lula – Mais de meia-noite… Foi uma festa portuguesa com certeza. Cheguei em casa uma e pouco da manhã e agora, antes das nove, já estou aqui dentro do avião. Eu trabalho muito…

Brasileiros – Bom dia, presidente. Para começar, vou fazer uma pergunta difícil: tudo bem?
Presidente Lula –
Buon giorno… Sabe que esse “tudo bem” não é fácil da gente responder… Um dia desses, eu perguntei “tudo bem?” para uma mulher no elevador e ela me respondeu: “Você fala tudo bem porque ainda não foi à feira hoje!”. Mas isso foi no tempo da inflação a 80%… Aliás, eu estava lendo aqui a matéria (publicada na edição de novembro da Brasileiros) sobre o livro do Maílson da Nóbrega, que era o ministro da Fazenda na época, muito interessante. Mostra o poder que o Roberto Marinho tinha. Ele descreve como o Sarney o chamou para ir lá na ilha dele, no Maranhão. Depois de três horas de conversa, o Sarney fez o convite para ele assumir o Ministério, mas explicou que ainda teria de fazer algumas consultas políticas. E pediu para ele conversar com o doutor Roberto Marinho. O Maílson foi lá, conversou durante várias horas com o doutor Roberto Marinho e, terminada a conversa, o doutor Roberto Marinho disse que gostou dele. Lá, ele encontrou com o Antonio Carlos Magalhães, que também tinha ido conversar com o doutor Roberto Marinho, que lhe comunicou: “Olha, Maílson, o homem te aprovou!”. Aí, ele foi novamente procurar o Sarney, porque o presidente Sarney ia anunciar a nomeação. Mas, antes de ele chegar ao Sarney, a Globo já deu a notícia sobre o novo ministro da Fazenda. O Maílson diz assim: “Aí que eu descobri que o doutor Roberto Marinho tinha força no poder paralelo…”. O Sarney ainda não tinha indicado oficialmente o nome dele e a Globo anunciou o novo ministro. Não deixa de ser hilário…


Brasileiros – Alguém ainda tem esse poder? Seria possível acontecer algo parecido hoje em dia ou o País mudou?
Presidente Lula –
Acho que não é possível você exercer a Presidência da República, se estiver subserviente a algum setor, a algum empresário ou a algum político. Ou seja, você só pode exercer a Presidência corretamente se estiver totalmente independente para tomar as decisões. Eu tenho um profundo respeito pela imprensa brasileira, tenho um profundo respeito pela democracia, mas as pessoas precisam aprender que a liberdade de imprensa é, sobretudo, a boa qualidade da informação, a neutralidade da informação, a isenção da informação. Se a sociedade puder, livremente, fazer suas opções e interpretações daquilo que ela vê, ouve e lê, a imprensa cumpre seu papel. Você participou daquele fatídico almoço na Folha de S.Paulo, em 2002, quando eu me levantei da mesa e saí porque fui desrespeitado. Foi o último. Então, eu acho que essa relação entre a imprensa e o governo mudou. Mudou porque mudou o Brasil, porque mudou a economia, porque mudou a consciência das pessoas. Melhorou a visão empresarial, melhorou a visão dos trabalhadores, os meios de comunicação são muito mais numerosos. Nós temos, hoje, muito mais opções. Não temos apenas uma revista ou um canal só de televisão, apenas um jornal. Temos muitos jornais, muitas televisões, temos a internet… Acho que isso é muito bom para o Brasil, isso é bom para o povo brasileiro.

Brasileiros – Presidente, faltam poucas semanas para o término dos seus dois mandatos como Presidente da República. Como o senhor gostaria de ser lembrado pelos historiadores do futuro, daqui a cem anos?
Presidente Lula –
É muito difícil responder a esta pergunta. Seria presunção da minha parte dizer como é que eu quero ser lembrado. Isso depende da ótica das pessoas que forem estudar o que aconteceu no período do meu governo. Certamente, se algum historiador, daqui a cem anos, for consultar apenas um ou outro jornal para saber como foi o meu governo, ele poderá ter uma impressão negativa. Mas se esse mesmo historiador tiver o cuidado de analisar além da imprensa brasileira, a imprensa internacional e acessar a internet da época, ver as mudanças ocorridas na economia brasileira, irá constatar a melhoria no padrão de vida do povo brasileiro. Assim, ele poderá ter uma outra impressão, eu diria favorável, do nosso governo, daqui a cem anos. Mas, de qualquer forma Ricardo, a nossa passagem pelo governo é como se fosse a construção de uma casa. Se eu fiz o alicerce, o alicerce está feito. Se eu fiz a parede, a parede está feita. Se eu fiz o telhado, o telhado está colocado. Ou seja, as pessoas só podem ver aquilo que está sendo feito. Eu, sinceramente, gostaria de ser lembrado da forma mais honesta possível, seja por um pensamento contrário ou a favor do meu governo. Só quero que a pessoa seja justa na avaliação que está fazendo. Depois, é o seguinte: não dá para escolher como você quer ser lembrado. Tem gente que vai se lembrar do Ronaldão pelos gols que ele fez no Inter de Milão, que vai se lembrar dele quando jogou no Barcelona, que vai se lembrar dele da Copa do Mundo de 2002… Tem gente que vai se lembrar do Ronaldo do Corinthians… Então, vai depender muito sob qual ótica a pessoa estiver analisando.


Brasileiros – Se o senhor tivesse de definir em poucas palavras qual a marca que ficou do seu governo, o que diria? Por exemplo: Fernando Henrique Cardoso foi o presidente do Plano Real e da estabilidade econômica. E no seu caso?
Presidente Lula –
Foi o governo da inclusão social. Veja bem, Ricardo, deixa eu te falar uma coisa: um governo poderia ser medido por uma única coisa, mas nós não podemos ser. Porque, veja, quando eu falo em inclusão social, é que nós nunca tivemos uma relação entre Estado e sociedade como nós temos agora. Nunca tivemos a participação da sociedade na condução do governo como nós temos agora. Você deve ter visto o jornal Valor desses dias: todas as empresas de economia aberta tiveram o maior ganho da história delas, tivemos o maior número de empresas criadas… Nós vamos chegar a dois milhões e meio de empregos criados com carteira profissional assinada, só de janeiro a outubro deste ano. No nosso período, registramos o mais importante processo de distribuição de renda. É um conjunto de medidas que nós tomamos, voltado para a inclusão social de milhões de brasileiros. Até me assustei outro dia em uma reunião sobre microcrédito com a quantidade de coisas que está acontecendo nessa área. Eu, que sou o presidente da República, não tinha dimensão do que está acontecendo com o microcrédito em nosso País.

Brasileiros – No começo do governo, o senhor admitia que teria dificuldades na área econômica, perante a difícil situação em que o País se encontrava, e repetia sempre: “Nós só não podemos errar na política”. Ao fazermos um balanço desses oito anos, notamos que o governo acabou acertando mais na economia e encontrou mais dificuldades na área política. O que aconteceu? Por quê?
Presidente Lula –
Nós tivemos dificuldades nos dois, acertamos nos dois e também erramos nos dois, na política e na economia. Tivemos um extraordinário crescimento econômico já em 2004. Quando eu falei do espetáculo do crescimento, em agosto de 2003, não foram poucas as charges e os artigos irônicos com o presidente da República. No ano seguinte, nós crescemos 5,2%, um número excepcional que há muito tempo não acontecia no Brasil. Em 2005, nós cometemos um erro na política econômica, apertamos muito, não crescemos. Ao mesmo tempo, foi o ano da grande crise política, tivemos problemas sérios. No balanço geral, acho que nós conseguimos ir bem nos dois, nos saímos bem na economia e nos saímos bem na política.


Brasileiros – Se pegarmos agora os indicadores econômicos e sociais de 2003 e compararmos com os números de 2010, até os líderes da oposição reconhecem que o País melhorou em todos os campos. Com toda franqueza, ao assumir o governo o senhor sonhava com esses resultados e a consequente aprovação do governo acima de 80% no final do segundo mandato? O senhor esperava mesmo isso?
Presidente Lula –
Não, veja… A única coisa que eu tinha certeza era que eu não podia errar, eu tinha convicção de que, se eu errasse, nunca mais um trabalhador iria chegar à Presidência da República. Então, eu tinha de acertar, eu tinha de provar a cada dia, a cada hora, que nós éramos capazes de governar esse País. Ninguém precisava provar, mas eu precisava provar. Graças a Deus, saímos vencedores.

Brasileiros – Em que área se deu a principal mudança positiva e qual foi a maior deficiência do seu governo, que ficarão como herança para a sua sucessora… (Antes que eu terminasse de fazer a pergunta, o taifeiro da Aeronáutica vem com o carrinho e começa a servir o café da manhã completo: frutas, pães, frios, omelete, sucos, café expresso.)
Presidente Lula –
Espera aí… Agora, eu vou comer… Sabe, um dia desses estava vindo nesse avião e peguei um pacotinho de manteiga… Não conseguia abrir a embalagem. Você tem de abrir com a faca, é um absurdo. Fiquei invocado e liguei para o Inmetro… Fiz uma denúncia para o Inmetro, falei que isso era uma vergonha. Essa aqui você puxa e abre, tem outras que não têm como abrir… O Inmetro mandou uma certificação mostrando que nenhuma marca estava dentro das normas, e comunicou às empresas para consertar…

Brasileiros – Presidente, saiu isso no Fantástico domingo… Todas as empresas foram reprovadas e foram obrigadas a mudar a embalagem.
Presidente Lula –
Mas o que Fantástico não falou é que fui eu que fiz a denúncia, porque certamente o Inmetro não comunicou para eles…

Brasileiros – Voltando para a pergunta: em que área se deu a principal mudança positiva e qual foi a deficiência do seu governo, que fica de herança para a sua sucessora?
Presidente Lula –
Ricardo, se fosse fácil resumir assim, meu filho, eu poderia dizer muitas vezes que foi a inclusão social. Eu sempre vou dizer que a inclusão social foi a grande conquista do nosso governo, mas é preciso especificar o que é essa herança social, ou seja, você tem o Bolsa Família, você tem uma redução da pobreza, a geração de empregos, a distribuição de renda, então eu acho que a inclusão social foi o grande mote.

Brasileiros – E qual foi a principal deficiência, a herança maldita do seu governo?
Presidente Lula –
Isso não existe, mas certamente existem coisas que a gente não conseguiu fazer. Não existe herança maldita, sobretudo para a Dilma, porque tudo que nós construímos, nós construímos juntos. Pode ser que depois de alguns meses ela descubra uma herança maldita…

Brasileiros – Mas ela não vai poder falar, ela participou do governo… Presidente, o senhor percorreu o Brasil inteiro, várias vezes, para cima e para baixo. Nunca um Presidente viajou tanto pelo País. Qual foi o lugar que mais o marcou, a cena, a pessoa, a viagem, que ficará para sempre em sua memória?
Presidente Lula –
Ah, tem muita coisa! A minha cabeça não é uma máquina fotográfica… É uma máquina de filmar… Tem muita coisa na minha cabeça, Ricardo. Por exemplo, a primeira vez que eu fui visitar uma plataforma da Petrobras. Eu fiquei muito emocionado, porque é um monstro, é uma cidade de aço. Antes de eu chegar à Presidência, diziam que a gente não tinha tecnologia para fazer, e nós fizemos e mostramos para o Brasil. Também quando eu cheguei ao canal da transposição do São Francisco… Quando a gente fica sobrevoando a região de helicóptero e vê aquele canal de água no meio do sertão seco, é um negócio emocionante… Agora, o que mais me emociona mesmo é que em volta das obras estão as pessoas que fizeram aquilo ali ou se beneficiaram delas. A alegria delas é contagiante…

Brasileiros – Lembra do que te falou uma dessas pessoas…
Presidente Lula –
Posso me lembrar de uma mulher em Cabrobó, porque ela me contou a sua história. Quando começou o canal do São Francisco, ela pediu 50 reais emprestados para o sobrinho dela e começou a fazer pastel para o pessoal da obra. Vendeu muito pastel e guaraná e começou a oferecer mais coisas. Em seis meses, ela estava com um restaurante, servindo mais de 400 refeições, comprou motocicleta… A alegria dela era incrível. Ela falou para mim: “O meu maior orgulho é que neste ano eu paguei 5 mil reais de Imposto de Renda…”. Pois é, enquanto o presidente da República estava recebendo devolução – no ano passado, eu recebi a devolução -, essa mulher estava pagando 5 mil reais de Imposto de Renda, e ela falava com orgulho daquilo. A outra história que eu me lembro é a de um baixinho do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, lá de Pernambuco. Ele veio para uma reunião comigo, em Brasília, e eu percebi que ele não tinha dente. E eu falei: “Companheiro, não dá para colocar dente na boca?”. “Ah! Não tenho dinheiro”, ele respondeu. Aí, eu perguntei para o governador Eduardo Campos: “Não tem um programa Brasil Sorridente lá em Pernambuco?”. “Tem, presidente.” “Então leva esse companheiro!” Aí, ele levou o baixinho ao dentista e depois eu encontrei esse companheiro com dentinho na boca, bonitinho, e ele me falou quando o encontrei de novo: “Fazia muito tempo que eu não conseguia mastigar, agora eu estou mastigando tudo. Eu não podia comer uma castanha, eu não podia comer uma carne! Presidente, só falta o senhor me dar uma coisa, agora que eu estou com a boca boa… Eu preciso de um carrinho…!”. Mas deixa eu dizer uma coisa antes da próxima pergunta: vocês precisariam viajar comigo para ver as grandes obras que estamos tocando. Hoje, o Brasil está construindo as três maiores hidrelétricas do mundo, estamos fazendo as duas maiores ferrovias e as duas maiores refinarias do mundo. É pouco?


Brasileiros – Presidente, do que o senhor mais vai sentir falta ao deixar o governo?
Presidente Lula –
Eu acho que eu vou sentir falta das amizades que eu construí nesses oito anos. Vou voltar agora para o meu berço natural, o meu ninho em São Bernardo, deixar de lado amigos que conheci nos anos de governo. Foi muita gente que eu conheci, e agora cada um vai cuidar da sua vida. Vou dizer uma coisa para você: eu estou consciente de que, ao deixar a Presidência da República, eu tenho de desencarnar do mandato. É um processo de desencarnação mesmo. Eu quero ficar desintoxicado do poder, fazer uma limpeza no corpo, tirar da minha vida tudo que não precisa, sabe… Tenho de começar a desacelerar. Porque eu preciso ficar o mais próximo possível da vida de um ser humano normal, e não ficar querendo curtir um status de ex-presidente, que não tem importância. Porque ex-presidente, você sabe, é que nem ex-marido, vale muito pouco… E eu também não quero ficar vivendo de saudade, sabe como é? Eu vou guardar recordação das coisas boas e vou ter de tocar a vida para a frente…

Brasileiros – O que o senhor gostaria de fazer nessa nova fase que começa a partir do dia 1o de janeiro de 2011?
Presidente Lula –
Eu quero voltar ao Pacaembu para ver jogo do Corinthians, vestido de torcedor, encontrar os meus companheiros do sindicato e tomar uma cerveja, eu quero ser um homem comum…

Brasileiros – Como era antes de ser presidente…
Presidente Lula –
É isso… Um pouco mais livre até… Porque, antes de ser presidente, eu queria ser presidente, e eu agora já fui presidente…


Brasileiros – Por falar nisso, o que o senhor gostaria de ter feito, e não conseguiu, para melhorar a vida do povo brasileiro? Qual foi a sua maior frustração. E qual foi a sua maior alegria no governo?
Presidente Lula –
Alegrias foram muitas e frustrações, também muitas. Antes de terminar o mandato, a gente não deve ficar dizendo que foi tudo só alegria. Eu vou dizer para você que a minha maior tristeza no governo não foi o mensalão, nem foram as críticas da oposição. Para mim, a coisa mais dolorida foi a tentativa de culpar o governo por aquele acidente da TAM no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Nunca vi tanta perversidade de alguns setores dos meios de comunicação, ao tentar jogar nas costas do governo a responsabilidade pelo maior acidente aéreo do País. Depois que ficou provado que tinha sido erro humano, ainda assim nenhum crítico teve coragem de pedir desculpas. Este foi o momento mais duro nos oito anos de mandato.

Brasileiros – E a maior alegria?
Presidente Lula –
Meu mandato é um rosário de coisas boas, mas, obviamente, quem conviveu comigo sabe que eu colocava eleger a minha sucessora como uma das grandes conquistas do meu governo. E conseguir, depois de oito anos de mandato, eleger a primeira mulher presidenta da República do Brasil, eleger uma mulher que a maioria dos políticos não acreditava que pudesse chegar lá, é bom demais, é o maior reconhecimento pelo nosso trabalho. Tenho certeza de que a Dilma vai ser uma excepcional presidenta da República.

Brasileiros (brincando) – Então, tua maior alegria vai ser na hora em que passar a faixa para ela… E eu pensei que a tua maior tristeza tivesse sido quando eu saí do governo…
Presidente Lula –
Sempre tem um momento de tristeza no governo quando alguém sai. Na verdade, são dois momentos diferentes. Uma coisa é quando é o ministro que pede para sair, é o cara que procura o presidente e comunica: “Presidente, eu vou sair, porque eu quero ser candidato a isso, vou fazer tal coisa na vida”. O cara só comunica e não se preocupa em saber se o governo vai ficar bem ou mal. O cara vai embora e pronto. Agora, quando é o presidente que decide tirar o cara… haja sofrimento!

Brasileiros – Para você, sempre foi muito difícil isso, mandar alguém embora, demitir um amigo, eu me lembro, desde os tempos do sindicato…
Presidente Lula –
É difícil porque tem gente que chora, tem gente que fica às vezes sem falar nada… Teve gente que começou a chorar antes mesmo de eu comunicar a demissão. O bom do ser humano é isso, o lado emocional estar presente em todas as coisas. Mas, realmente, é muito difícil você chegar para o cara e falar: “Olha, companheiro, eu não quero mais você trabalhando comigo”. Agora, se é o contrário, o sujeito chega para você com a maior desfaçatez e diz simplesmente: “Presidente, eu vou embora!”.

Brasileiros – Em algum momento, o senhor se arrependeu de ter sido eleito Presidente?
Presidente Lula –
Eu briguei a vida inteira para ser presidente… Você me conhece, no sindicato, quando as coisas estavam feias eu dizia: “Quem quiser me derrotar vai ter de ir para a rua”. No PT e no governo, a mesma coisa: eu dizia que quem quisesse me derrotar, teria de ir para a rua. De modo que, Ricardo, o importante é que eu vou terminar o meu mandato de oito anos sem mágoas, sem nenhuma razão para ter nenhuma tristeza. Não há razão para guardar qualquer mágoa dos meus opositores nem de nenhum companheiro. Fui oposição muito tempo, e sei qual é o papel da oposição – sobretudo, fazer oposição quando o governo está bem.


Brasileiros – Pelo jeito, você está chegando ao final do seu governo de alma leve…
Presidente Lula –
De alma leve… Me sinto muito mais sabido do que quando entrei, muito mais preparado. Com muita humildade, vou utilizar todas as coisas que foram bem-sucedidas no meu governo para trocar experiências com países mais pobres do que o Brasil. Se você quiser encontrar um homem de alma limpa hoje, olhe para mim… Te digo que Deus foi generoso comigo em excesso, por ter me permitido fazer tudo o que eu fiz. Não é uma obra de capacidade e de inteligência, é alguma coisa superior guiando a gente. Eu acredito nisso.

Brasileiros – Ao se despedir de Fernando Henrique Cardoso, no dia da sua posse, em 2003, o senhor disse a ele na porta do elevador: “Saiba, Fernando, que você deixa aqui um amigo”. O que vai dizer para a Dilma nessa hora, ao se despedir dela?
Presidente Lula –
Não sou eu, é ela quem vai ter de dizer alguma coisa para mim… Eu vou te contar uma coisa, embora eu tenha consciência de que “rei morto, rei posto”, embora eu tenha consciência de que a Dilma tenha de montar um governo com a cara e à semelhança dela, eu não sou inocente para não saber que tenho responsabilidade. Não sou inocente para desconhecer a relação que eu tenho com a sociedade brasileira. Quero exercitar essa relação de amizade, a respeitabilidade que eu conquistei e o companheirismo que eu produzi no governo para ajudar a Dilma a fazer mais e melhor do que eu fiz.

Brasileiros – Pegando um pouco, o que o senhor falou sobre a oposição em seu discurso da vitória, a presidente eleita estendeu a mão à oposição. Como será a sua postura em relação ao Fernando Henrique, ao PSDB, o senhor vai trabalhar para uma união…
Presidente Lula (cortando a pergunta no meio) –
Não existe essa possibilidade, não existe. Nós temos de ter claro o seguinte: Partido Democrata é Partido Democrata, Partido Republicano é Partido Republicano, PSDB é uma coisa e PT é outra coisa. Está certo que nós temos amigos comuns, que de vez em quando, no afã de nos ajudar, falam pensando que a gente é a mesma coisa… E não é, não tem similaridade entre um tucano e uma estrela, não tem. Já estivemos próximos, é verdade, no começo da criação do PSDB, por ocasião da Constituinte, ou seja, já estivemos bem mais próximos do que hoje, mas isso acabou com o tempo.


Brasileiros – Só para lembrar um fato: no final de 1993, em um almoço na Cantina do Mario, discutindo o cenário para a campanha presidencial de 1994, o senhor chegou a falar com o Tasso Jereissati sobre a possibilidade da formação de uma chapa PT-PSDB…
Presidente Lula (cortando a pergunta) –
Não, não falei só com o Tasso Jereissati, falei com mais gente. Era o Tasso, era o Fernando Henrique, era o Sérgio Machado, era o José Serra, falei com todos eles. Nós chegamos a discutir a composição da chapa, mas não foi possível. E eu acho que nem eles devem ter remorso e nem nós. Ou seja, nós trilhamos caminhos diferenciados, o que é importante para a democracia brasileira. O que é grave é que, na campanha passada, os tucanos se apresentaram com uma predisposição de baixar o nível do debate, como eu não via há muito tempo. Sinceramente, do ponto de vista de quem vê de fora, o Serra saiu um pouco menor desta vez que em 2002. Do ponto de vista da questão ética, da questão moral, eu acho que ele saiu inferiorizado, o tempo é que vai mostrar. O tipo de campanha que ele fez não combina com a trajetória política dele. Eu vou ter um comportamento na minha vida agora como teve o Pelé, como teve o Rivelino, que pararam de jogar, mas não desaprenderam. Vou ser apenas torcedor, e torcedor tem mais autonomia. Pode gritar mais, não têm as barreiras que um dirigente partidário tem.

Brasileiros – Não vai ser técnico, mas vai dar seus palpites, é isso?
Presidente Lula –
Vou, sim… Sou um homem hoje realizado, um homem feliz.

Brasileiros – Dá para perceber…

O comandante informa que o pouso está autorizado e, dentro de instantes, pousaremos no aeroporto de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Fechamos a mesa, desligamos os gravadores, mas o presidente continua falando.

Presidente Lula – Agora em off… (ao final, ele só pediu para não publicar um determinado trecho da conversa). Me lembro quando fui a primeira vez a uma reunião do G8, a convite do Chirac. Eu só tinha uns cinco meses na Presidência. Cheguei lá e já estavam o Putin, o Bush, o Tony Blair, o Prodi, o Schroeder, o primeiro ministro do Canadá. Como convidados, estavam também o presidente do Senegal, o rei da Arábia Saudita, estava o Fox, do México, o presidente da Indonésia, e eu fiquei pensando o que estava fazendo lá no meio deles… De repente, eu fiquei olhando para a cara daquele pessoal e pensei: “Espera aí, o que esses caras são mais do que eu? Quem eles representam e quem eu represento? Quem pode falar em nome dos trabalhadores mais do que eu?”. E hoje eu me dou conta, Ricardo, que eu me reuni mais vezes com os trabalhadores dos países deles do que eles próprios, e depois de ser presidente! Quando vou ao G20, a referência para os dirigentes sindicais sou eu. Então, eu fiquei pensando: o que Tony Blair representa, o que o Bush representa, qual é o público deles? Por que eu tenho de me sentir inferior a eles?

Brasileiros – Em que momento você se deu conta do que representa ser presidente do Brasil?
Presidente Lula –
Eu percebi, eu me lembro como se fosse hoje, na hora em que o Bush entrou no salão. Estava sentado ao lado do Kofi Annan, estava todo mundo sentado na hora em que o Bush entrou. Todo mundo se levantando, eu segurei na mão do Celso Amorim e falei: “Fica aí, daqui a gente não vai levantar”. Ninguém levantou para mim, por que eu tenho de levantar? Fiquei sentado e o Bush foi até lá para me cumprimentar. E aí, meu caro, eu vi que respeito é respeito. Respeito não é porque você tem dinheiro ou porque você tem arma nuclear. O respeito vem pelo seu comportamento. E eu termino o meu mandato com uma relação de amizade internacional extraordinária, eu tenho consciência de que as pessoas me respeitam, e é isso que eu quero. O Brasil não precisa ser mais do que ninguém, mas também não precisa ser inferior a ninguém.

O avião agora já está parado na pista, mas Lula continua falando sobre a política externa.

Presidente Lula – Essa questão do acordo com o Irã me deixou pessoalmente decepcionado.

Brasileiros – Foi um erro o Brasil entrar nessa história?
Presidente Lula –
Foi um erro deles…

Brasileiros – De quem? Do Irã?
Presidente Lula –
Não, foi um erro do Bush, do Obama… O que eles queriam? Queriam levar o Irã para a mesa de negociação? Eu perguntei ao Obama se ele já tinha conversado com o Ahmadinejad. Não. Perguntei ao Sarkozy. Não. Perguntei ao Gordon Brown: você já conversou com o homem? Não. Ninguém nunca tinha conversado com ele! Ficam brigando pelos assessores… Aí, eu falei para o Obama: “Obama, você é o presidente mais importante do mundo. Pega um telefone e liga para o cara. Convida ele para vir aqui…”. Falei para o Sarkozy a mesma coisa. No final da reunião, eu avisei para eles: “Eu vou ao Irã. Vou a Israel, vou ao território palestino e vou conversar com o Ahmadinejad”. Eles passaram a dizer que não ia dar certo, não ia dar certo, não ia dar certo. E eu falei: “Só queria que vocês não fizessem o bloqueio ao Irã antes de eu ir lá”. Porque eles queriam fazer o bloqueio de qualquer jeito. Daí, o Obama ficou muito nervoso, muito irritado. Os outros também mostraram irritação, mas todo mundo, pela nossa relação de amizade, ficou condescendente. Fui embora e, quando ia viajar ao Irã, antes de ir, recebi uma carta do Obama, que dizia textualmente quais as coisas que ele achava importantes o Ahmadinejad fazer para permitir o acordo. E o Ahmadinejad fez exatamente o que estava pedido na carta do Obama. Para minha surpresa, quando viajei ao Irã, passei na Rússia, e o Obama tinha ligado para o Medvedev, para reclamar da minha ida. Chego no Qatar, a Hillary Clinton tinha ligado para o Emir do Qatar para reclamar da minha ida. Na verdade, a dona Hillary Clinton trabalhou contra o tempo inteiro. Nós chegamos lá, eu e o Celso Amorim, passamos o dia inteiro em reuniões, fui falar até com o grande líder religioso deles, o Khomeini. A toda hora, eu falava para o Ahmadinejad: “Vim aqui para fazer o acordo. Se você não fizer acordo, estará abrindo mão dos dois países que querem contribuir para a paz, o Brasil e a Turquia. Você sabe que eu estou perdendo a amizade com os meus aliados, porque eu acho que a paz vale tudo isso.” Na hora em que ele topa os termos do acordo, os caras não aceitam! Não aceitam o que eles mesmos queriam que o cara fizesse. Sabe aquele negócio… Eu te devo 50 dólares. Aí, eu demoro para pagar e, quando vou pagar, você fala: eu não quero mais os 50 dólares! Então, eu fiquei sentido pessoalmente. De qualquer forma, eu descobri também que o Conselho de Segurança da ONU precisa mudar e eles não querem mudar nada. Eles estão em um baile com cinco caras e cinco mulheres bonitas. Por que convidar um sexto ou um sétimo cara para o baile?

A entrevista é finalmente interrompida para o presidente descer do avião, e cumprir seus compromissos em Ribeirão Preto: início das obras do alcoolduto São Sebastião-Uberaba e apresentação dos resultados das ações governamentais para o setor sucroenergético no período 2003-2010. Só retomamos a conversa, já no avião novamente, às quatro da tarde. Na cabine presidencial, agora também viaja o ministro da Agricultura, Wagner Rossi.

Brasileiros – Qual a coisa que o senhor mais tem vontade de fazer em seu primeiro dia sem agenda, sem protocolo, depois de entregar a faixa à presidente? Ninguém acredita que o Lula vai ficar parado em casa, sem fazer nada, sentado no sofá…
Presidente Lula –
Realmente, eu não vou conseguir ficar sentado em casa no sofá. É o que eu disse: vou ter de primeiro desencarnar da Presidência, até por necessidade de sobrevivência. Quero estar bem com a minha cabeça quando deixar de ser presidente. A gente não deixa apenas quando entrega a faixa, a gente só deixa quando consegue tirar da cabeça a ideia de que você foi presidente. Tem de voltar a ser o que você sempre foi antes, entendeu? A única profissão que eu tive na vida foi a de torneiro-mecânico. É a única coisa que eu aprendi a ser. Agora, nem isso sei mais, mudou tudo. No meu tempo, torneiro tinha de ser um artista, agora é um operador de máquina. Presidente não era profissão, era exercício de um mandato. Acabou… Graças a Deus, acabou bem…

Brasileiros – Na imprensa, sai todo dia matéria sobre os planos de Lula para o futuro ao deixar a Presidência. O senhor, afinal, já definiu o que pretende fazer da vida, depois de descansar alguns dias?
Presidente Lula –
Ainda não defini e não tenho preocupação em definir, e não sei o que eu pretendo fazer da vida. Só posso definir o que eu quero fazer depois que eu deixar de ser presidente. Enquanto eu for presidente, eu não penso sobre isso e não decido o que eu vou fazer.


Brasileiros – Como o senhor imagina que será o governo Dilma? Apenas uma continuidade do governo Lula ou terá outras características? E quais seriam? Em que Dilma é diferente de Lula?
Presidente Lula (brincando) –
Se for só uma continuidade, já vai ser uma grande coisa… Agora, como é outra pessoa, é outra cabeça, certamente ela pode fazer mais e pode fazer melhor. Além disso, a Dilma já vem com uma experiência de oito anos de governo. Portanto, ela pode marcar um gol de placa que eu não marquei… A situação do Brasil hoje é invejavelmente melhor do que quando eu peguei o País em 2003. O Brasil está em outro patamar. E ela tem mais conhecimento hoje do que eu quando entrei no negócio. A relação dela com os partidos é muito melhor que a minha quando ganhei as eleições. Então, todas as condições, meu filho, estão dadas para ela fazer um extraordinário governo. Eu espero estar na arquibancada, gritando e torcendo. Não sou daqueles que vai ao estádio para vaiar o meu time. Eu vou para aplaudir o meu time.

Brasileiros – Nesse seu último Natal no Palácio da Alvorada, que presente o senhor gostaria de receber?
Presidente Lula –
Eu não sou de esperar presente de Natal. Veja, para mim, Ricardo, que sou um homem de poucas pretensões materiais, se a minha família estiver com saúde, se meus amigos estiverem todos bem, eu, sinceramente, me sentiria muito gratificado. Se eu estiver com toda a minha família, e se o Zé Alencar puder tomar um gole comigo, já está ótimo.

Brasileiros – O que o senhor vai dizer ao companheiro do PT, que certamente vai aparecer, para lançar o seu nome para 2014?
Presidente Lula –
Eu acho que qualquer resolução sobre 2014 deve ser encabeçada pela companheira presidenta, quando ela entender que chegou o momento de discutir a eleição. Como eu acredito que ela vai fazer um bom governo, ela pode conquistar o segundo mandato, e ganhar as eleições

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ENTREVISTA SÉRGIO REZENDE 

Burocracia torna a ciência brasileira menos competitiva

MINISTRO DA CIÊNCIA FAZ BALANÇO DE GESTÃO DE MAIS DE CINCO ANOS E DIZ QUE META DEVE SER FORTALECER CULTURA DE PESQUISA EM EMPRESAS 

SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO

O físico carioca Sérgio Rezende deixará em 31 de dezembro o MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), que esteve sob seu comando por mais de cinco anos.

Em entrevista exclusiva à Folha, ele reconhece que, apesar dos avanços de sua gestão, a burocracia ainda é um dos grandes inimigos dos cientistas brasileiros. Também defendeu a escolha do petista Aloizio Mercadante como seu sucessor: “Certamente pode ter um papel de influência no governo”. Leia os melhores trechos da conversa abaixo.

Folha- O sr. está saindo de uma gestão considerada positiva. Isso é raro…
Sérgio Rezende – Eu só espero que as pessoas não fiquem com saudades de mim [risos]. Tivemos mais recursos e, acompanhando isso, uma atuação mais forte do governo federal em incentivar e apoiar a pesquisa e inovação nas empresas.
Isso é uma mudança grande. Nossa política científica sempre foi desvinculada da política industrial -que, por sua vez, teve seus altos e baixos. Não havia acontecido até agora uma articulação entre ciência e indústria. Estamos aprendendo a fazer isso, mas avançamos muito.

Ter 1,3% do PIB destinado à ciência é suficiente?
Passar de 1% foi mudar de patamar. Tínhamos planejado chegar a 1,5% do PIB e chegamos a 1,3%. No entanto, em números absolutos, nós atingimos a meta, porque o PIB do Brasil cresceu muito e continua crescendo. 

Mas qual seria o ideal?
Os países desenvolvidos têm em média 2,5% do PIB investido em ciência. Mas esses países têm muito mais cientistas: são dois cientistas para cada 10 mil habitantes. Nós temos um pesquisador para 10 mil pessoas. Se tivéssemos mais recursos, eles não seriam utilizados.
Precisamos formar mais gente, e isso é um processo gradual. A ideia é que a gente chegue a 2022 com dois pesquisadores para cada 10 mil habitantes e com 2,5% do PIB em ciência.

Ainda há barreiras por parte de quem acha que dinheiro público não deve ser gasto com ciência nas empresas?
Existe um pouco. Essas vozes estão ficando isoladas. Felizmente nós estamos passando dessa fase. Há 20 anos se dizia que o dinheiro público deve ficar na universidade e que empresa não deveria fazer pesquisa. Dizia-se que ciência não combina com lucro. Isso é uma bobagem.

Esse tipo de crítico também costuma dizer que não dá para fazer “Big Science” [ciência cara e de grande porte] num país que ainda tem gente passando fome.
A ciência feita com intensidade, com aplicações, contribui de maneira eficaz para resolver os problemas sociais.
O melhor exemplo que temos é da Coreia do Sul, a qual, na década de 1970, era mais subdesenvolvida que o Brasil. Eles investiram em tecnologia e inovação e, com isso, o país tirou milhões de pessoas da pobreza.

Qual foi o principal desafio da sua gestão?
Nós tivemos um problema com o excesso de burocracia. Alguns desvios que aconteceram em fundações de amparo à pesquisa fizeram o TCU [Tribunal de Contas da União] tornar a execução de recursos muito mais difícil.
Hoje a burocracia é um dos entraves para a realização da atividade de pesquisa no Brasil de maneira mais tranquila. É uma burocracia para se usar os recursos, para explicar como usou. Um cientista brasileiro enfrenta muito mais burocracia do que um europeu para fazer o mesmo trabalho, e isso diminui a competitividade.
Nós conseguimos simplificar o procedimento de importação, mas ainda é bem mais difícil um pesquisador daqui comprar um equipamento de fora do que um pesquisador de outro país.
Nos outros lugares é assim: o pesquisador quer comprar um equipamento para fazer uma pesquisa e compra. Aqui não pode, tem sempre de fazer licitação e comprar o mais barato.
Eu decidi sair antes do resultado da eleição. Estou há dez anos consecutivos em atividade de gestão. No momento, quero me dedicar à atividade científica e não à gestão. A gestão do cotidiano, dos problemas, das pessoas, das confusões -isso é algo que desgasta.
Nós demos um salto no MCT, e eu acho que não conseguiria dar novo salto. Precisamos de novas ideias.

Mas o sr. já foi convidado para administrar alguma outra instituição?
Sim, já tive mais de um convite. Mas já disse que não quero mais ter atividade executiva nos próximos anos. Estou indo para Pernambuco [na UFPE].
Estou envolvido em nanotecnologia de materiais magnéticos, já tenho alguns trabalhos. Há dois pós-doutores publicando resultados interessantes, e estou sem tempo de me juntar a eles, de entender o problema, de fazer teoria. Pode ser que em dois anos em volte à gestão, mas agora eu quero ser cientista.

Aloizio Mercadante será um bom ministro no seu lugar?
Ele tem tudo para ser um bom ministro. É uma pessoa de visão larga, certamente pode ter um papel de influência no governo. 

Em entrevista ao Portal do PT-SP, o presidente Edinho Silva avaliou o resultado eleitoral e apontou as perspectivas para o partido no próximo período. Em sua opinião, o PT precisa ter uma agenda que dialogue e resgate a relação com os setores médios da sociedade paulista, mesmo na oposição ao governo Alckmin. Temas como tecnologia, trânsito, segurança pública, cultura, lazer, meio ambiente e desenvolvimento sustentável devem nortear a construção dessa agenda.

Por Cezar Xavier
Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Edinho, qual é a contribuição de São Paulo à campanha da Dilma?

O PT do estado de São Paulo cumpriu um belíssimo papel na eleições de 2010. Nós saímos para elas numa situação desfavorável. É verdade que o PT no estado de São Paulo vem mobilizando as bases, os dirigentes e os movimentos sociais, desde 2009, com a organização das caravanas. Nós debatemos a conjuntura fizemos um debate de programa de governo em cada região do estado. Portanto nós chegamos a 2010 já com boa parte da nossa formulação pronta. Mas também é verdade que, por conta da construção da tática eleitoral nacional, nós ficamos aguardando para nos posicionarmos. Com isso, acabamos retardando a decisão da nossa candidatura ao governo do estado, inclusive das nossas candidaturas ao Senado. Mesmo assim, conseguimos construir uma boa tática eleitoral. Onze partidos apoiaram a candidatura de Mercadante. Conseguimos construir uma boa chapa ao Senado e também organizamos uma boa base de sustentação com as candidaturas de deputados federais e estaduais.

Conseguimos obter um resultado extremamente positivo e o Mercadante cumpriu um belíssimo papel nesse sentido. Ele conseguiu representar esse projeto alternativo para São Paulo, que passava pela melhoria da educação, da saúde, da segurança pública, da política de pedagiamento, que se tornou um limitador para o desenvolvimento regional. Conseguimos debater as questões de trânsito e transporte, os problemas das regiões metropolitanas. E deixamos de ir para o segundo turno com a candidatura de Mercadante por algo em torno de 40 mil votos. Essa candidatura foi fundamental para a construção do palanque da Dilma em São Paulo. E nós ficamos apenas três pontos percentuais da candidatura da Dilma atrás da candidatura do Serra.

O Serra é o a dversário da Dilma que é daqui do estado e tem uma base muito forte no estado. Podia ter sido um fiasco essa eleição…

Nós conseguimos ainda obter esse resultado eleitoral enfrentando a máquina do governo estadual. É verdade. Eles com dezesseis anos no governo do estado. Com a máquina enraizada, com uma política de alianças bem construída por estarem presentes na máquina já terem uma base de sustentação na Assembleia Legislativa. Por eles terem uma aliança com o prefeito da capital de São Paulo, o Kassab. Enfim…

Uma mídia forte…
Nós conseguimos, mesmo nessa situação adversa, fazer com que o Mercadante tivesse esse resultado. Saímos da eleição com a bancada federal tendo crescido, elegendo a Marta senadora e com a maior bancada de deputados da Assembleia Legislativa. A maior bancada de deputados, hoje, em São Paulo, é a bancada do PT. Dos cinco milhões de votos de legenda que o PT teve no Brasil inteiro, São Paulo deu dois milhões. Portanto, acertamos também na política de valorização da marca do PT.

O PT sai maior?

O PT sai maior do que entrou nessas eleições, tanto como representação, como com base orgânica, a política de alianças que nós construímos, o apoio das centrais sindicais e dos movimentos sociais. No segundo turno, eles acreditavam que São Paulo faria a diferença desequilibrando o pleito nacional aqui em São Paulo. E não é verdade. Nós fortalecemos as regiões em que havíamos sido vitoriosos e onde tínhamos mais condições de crescer. E perdemos as eleições por oito pontos percentuais em São Paulo. Portanto, aquela avalanche de votos que eles achavam que teriam sobre nós em São Paulo não aconteceu.

Claro, temos, agora, que entender o resultado das urnas. Temos que entender principalmente a complexidade das disputas políticas em São Paul o, sua formação socioeconômica e como podemos dialogar com esses setores. Esse é o desafio, mas eu não tenho dúvida que o balanço é muito positivo.

Edinho, dá pra fazer um balanço dessas eleições, mais regionalizado? Existem regiões onde o PT se saiu muito bem e regiões onde precisa fazer um trabalho melhor?

O que aconteceu no Brasil, aconteceu em São Paulo, com uma dimensão maior, devido a sua formação socioeconômica. O PT teve muita dificuldade de diálogo com os setores médios. Boa parte do primeiro turno, começamos com os setores médios dialogando conosco, mas tendo as crises políticas de 2005 e 2006 debaixo do braço. Em São Paulo, a Dilma chegou a abrir uma margem significativa de votos sobre o Serra.

Quando veio o “Caso Erenice”, toda a crise política foi ressuscitada e virou o grande fato da conjuntura política. Muito mais do que o aborto e os ataques que nós sofremos, principalmente, na internet. Muito mais do que a tendência de setores na imprensa. O que definiu a eleição no final do primeiro turno foi eles terem criado essa conjuntura política. Um governo bem avaliado cria condições para a transferência de votos. O presidente Lula mostrou essa força. Nunca antes nós havíamos registrado numa campanha tanta capacidade de transferência de votos. A aprovação de um governo abre a capacidade na sociedade para que haja um diálogo.

Mas o que define a eleição é a conjuntura. Nossos adversários criaram um fato no final do primeiro turno que ressuscitou a crise de 2005 e os setores médios migraram da nossa candidatura. Eu não tenho dúvida que esse foi o fator que impediu que o Mercadante fosse ao segundo turno. Porque as nossas pesquisas também mostravam uma curva acentuada de crescimento do Mercadante, freada ao final do segundo turno. Os setores médios no Brasil foram migrando da candidatura da D ilma. O fato teve muito peso na definição do primeiro turno e perdurou no segundo turno.

O que temos que entender é que, hoje, nós temos uma resistência significativa dos setores médios. Essa resistência é real e essas eleições deixaram isso muito claro. Em São Paulo, isso teve mais peso que no Brasil. É só olhar o mapa eleitoral das cidades, e nós vamos ver que onde a classe média é mais extensa, nós tivemos dificuldades eleitorais. Em São Paulo, isso se acentua porque é o estado onde você tem a classe média mais extensa do Brasil.

É importante que se pondere que não é a classe média ascendente criada no governo Lula. Essa classe média se abre para nós e quer discutir conosco. É aquela classe média histórica que, uma parte dela, já teve simpatia pelo PT. Em eleições anteriores, como em 2002, nós tínhamos muita mais capacidade de diálogo nas classes médias, e dificuldade nos setores populares. Essa classe média mais esclarecida, mais politizada, uma classe média de centro esquerda… Com o governo Lula, nós nos fortalecemos muito nos setores populares, que sentiram diretamente os benefícios do governo Lula e, de 2005 pra cá, nós tivemos resistência nesses setores.

Em São Paulo, uma parte desses setores médios sempre foram se referenciando historicamente no ademarismo, no malufismo, depois no quercismo, e com o declínio do malufismo e do quercismo, no governo Covas. Com a ascensão do governo FHC, o PSDB faz um giro pra centro-direita e hegemoniza uma parte significativa desses setores médios, criando um campo político hegemônico muito forte aqui em São Paulo. Temos que fazer essa leitura, até para que a gente possa pensar os passos futuros.

Por outro lado, o PSDB tem uma resistência muito forte nos setores populares que são uma grande parcela da população. Tem essa classe media ascendente que vê muito m ais simpatia no PT e no governo Lula. Qual é o tamanho do impacto sobre o PSDB, já que eles estão comemorando a conquista de governos e a passagem para o segundo turno?

Nacionalmente, não interessa ao governo Dilma, ao Brasil, e à sociedade, que comecemos a organizar o terceiro turno. Seria um desastre politicamente pra nós e muita falta de habilidade, um desastre para o Brasil. Temos que chamar a oposição para o diálogo. Claro, a oposição tem a sua identidade, tem seu espaço político, tem sua plataforma programática. É bom para o Brasil que tenha. Mas eu não tenho dúvida nenhuma que nós temos que fazer uma ponte política com a oposição e chamá-la para o diálogo e tentar construir uma agenda conjunta que interesse ao Brasil. Essa tem que ser a posição do PT e do governo Dilma. Se a oposição quiser fazer outro movimento, que isso fique claro para a sociedade brasileira. Claro que o Governo Dilma é maior do que ess a agenda que seja capaz de unificar a oposição. E nós temos que continuar fazendo avançar o Governo Lula e tudo aquilo que nós construímos, mas temos que sentar com a oposição e ver onde é que tem acordo em torno de uma agenda nacional.

Em São Paulo, é a mesma coisa. Para que a gente possa quebrar esse bloqueio que os setores médios têm em relação a nós, e possamos ampliar a nossa base social e, portanto, vislumbrar vitórias futuras, primeiro nós temos que propor uma agenda que dialogue com os setores médios. Temos que propor uma agenda que trata dos problemas enfrentados pelos setores médios em São Paulo. que passe pelas regiões metropolitanas, pelas questões de trânsito e transporte, pela segurança pública, pela geração de emprego de qualidade para os filhos da classe média. Que passe pela nossa capacidade de retomar o diálogo com a juventude da classe média debatendo a questão da perspectiva de futuro, da cultura, do lazer, do modelo de desenvolvimento que seja sustentável. O governo do presidente Lula é o que tem mais legitimidade para construir uma agenda de sustentabilidade para o Brasil, pois foi o governo que mais combateu o desmatamento, que mais se preocupou com as questões ambientais, que levou a Copenhague uma agenda pautando o mundo. O governo da Dilma terá legitimidade para isso.

Aqui em São Paulo, somos um partido de oposição, temos que valorizar nossas bandeiras, nossa plataforma programática, mas temos que assumir um papel de oposição mais propositiva em São Paulo. A sociedade está olhando para nós. Os setores médios estão olhando para nós para saber qual será a nossa postura. Temos que criar uma agenda que dialogue com os setores médios levando para a Assembleia propostas que tratem dessas questões e, com isso, comecem a romper com essa resistência em relação ao PT. Temos que ter habilidade para manter um campo político aqui no Estado que dê sustentação a essa construção que temos que fazer para movimentos futuros.

Aqui eu entro na seguinte questão: nacionalmente, a Dilma fez uma grande aliança e o Mercadante fez uma aliança um tanto quanto inédita. Qual é o saldo? O que fica dessa aliança com tantos partidos?

O governo da Dilma tem que ser sustentado por uma coalizão. Nós temos que construir um governo de coalização para enfrentar a agenda futura. A agenda futura passa pela reforma política, que tem que ser prioridade para o PT. A reforma tributária; a questão de uma reforma no modelo de saúde brasileiro; uma reforma profunda no modelo de segurança pública; o aprofundamento da regulamentação do pré-sal… Alguns pontos, você tem que tentar construir uma unidade com a oposição, porque você só consegue avançar se tiver um governo de coalizão. Então, essa política de aliança tem que se refletir num govern o que represente uma coalizão política.

Em São Paulo, é a mesma coisa. Nós não somos governo, mas temos que criar um campo político de diálogo permanente, dentro dessa agenda propositiva. Não só temos que manter a nossa base social, porque a Dilma vai continuar governando pra ela, mas temos que, em São Paulo, criar esse espaço para construção dessa agenda e levar à Assembléia Legislativa propostas que se traduzam em políticas públicas.

Essa campanha criou uma central de boatos. Você, Edinho, demonstrou uma preocupação particular com a democracia. Deu resultado essa central de boatos? Ela volta nas próximas eleições?

Espero que não. O que vivenciamos nessas eleições, não tem precedentes na história política brasileira. Felizmente, esse método não foi vitorioso. O método do debate no submundo da política, nas trevas, nas sombras, a política sendo feita no anonimato, nos ataqu es sem autoria. Se esse método sai vitorioso, daqui pra frente ninguém segura mais as campanhas eleitorais, porque nós iríamos passar uma mensagem para o Brasil de que campanha se ganha no vale-tudo, no pode-tudo, no submundo. Aquilo que está no submundo enfraquece as instituições, o que enfraquece a democracia. Felizmente, esse método foi derrotado e o que prevaleceu foi o método do debate de idéias e propostas. Foi uma mensagem positiva que passamos para o Brasil: que se ganha eleição quando se debate propostas. Espero que tenhamos condições políticas de criar uma regulamentação eleitoral, de tal forma, que não exista mais brechas para isso que aconteceu em 2010. Que a gente possa virar a página desse tipo de prática que se instituiu nas eleições desse ano. Uma prática nociva e ruim e que passa uma péssima mensagem para a sociedade.

Houve uma tentativa da campanha adversária de desgastar a relação do partido com os religiosos. Como fica essa relação?

O que existiu foi uma tentativa de manipulação de consciência utilizando a religião. Felizmente, isso também não foi vitorioso. Eu penso que a Dilma tem que estabelecer com as igrejas uma relação de estadista. Fortalecer esse nosso papel histórico do Estado Laico. É só vermos as experiências terríveis que temos no mundo quando se cruza estado e religião. No Brasil, a nossa cultura é de um estado laico, em que as pessoas têm liberdade de opção religiosa, de pensamento, de expressão. A Dilma tem que retomar esse debate imediatamente. Dialogar com as igrejas de forma republicana, fortalecendo o papel de cada religião, mas de cada religião como opção do indivíduo, e não do estado.

Qual a expectativa do estado de São Paulo com o governo da Dilma?

A expectativa é a melhor possível, porque nós vamos reforçar a cultura do Governo do pres idente Lula, que foi uma cultura republicana de valorização dos entes federados, tanto do Estado, como dos municípios. Essa vai ser a tônica da Dilma, e nós vamos com isso aprofundar uma cultura política que é muito benéfica, onde você desenvolve programas e projetos para a sociedade, independente do partido do agente político que está empossado.

A Dilma vai construir a infraestrutura necessária para a Copa do Mundo e depois para as Olimpíadas. Isso vai ter reflexos no estado de São Paulo…

Essa vai ser a grande agenda do momento. Além do PAC 1 e 2, do Minha Casa, Minha Vida 1 e 2, nós teremos aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas. As Olimpíadas vão acontecer no Rio de Janeiro, mas a cadeia produtiva que se fomenta com as Olimpíadas é muito grande e São Paulo vai se beneficiar, porque aqui tem o maior parque têxtil do Brasil, a capacidade de produzir equipamentos para as Olimpíadas, as principais escolas para capacitação pra prestação de serviços. A Copa do Mundo vai mobilizar o Brasil inteiro. E o mais importante é que a herança que nós vamos receber tanto da Copa do Mundo, quanto nas Olimpíadas é algo significativo. Foi assim em todos os países que tiveram a oportunidade de sediar uma Copa e uma Olimpíada. Então, é uma agenda extremamente promissora.

Pela primeira vez, a internet e as redes sociais ocuparam um papel central numa campanha eleitoral. Parece que o Mercadante saiu vitorioso nessa disputa. Que avaliação você faz disso, Edinho?

Nós fomos bem nas redes sociais e trabalhamos bem. O que temos é que entender o papel das redes sociais no processo eleitoral, inclusive para superar aquilo que nós vimos de negativo. Foram as redes sociais sendo usadas pelo anonimato. Os spams sendo construídos não com o objetivo de fazer o debate, mas para atacar, para destruir, para desconstruir image ns. Então, as redes sociais nessas eleições tiveram um papel fundamental sim, mas também representaram uma marca triste na história eleitoral do Brasil. Isso nós temos que aprimorar e aperfeiçoar para as próximas eleições. Agora, que as redes sociais democratizam o debate eu não tenho dúvida nenhuma. Fizeram e vão continuar fazendo com que as pessoas possam efetivamente participar como sujeitos do debate político.

Até porque os setores médios estão muito situados na internet. Isso torna o diálogo importante…

E os setores populares também, de uma forma ou de outra. Ou na utilização, às vezes, precária das lan houses, muitas vezes, utilizando a estrutura dos locais de trabalho, os setores populares também entraram. Eu penso que agora, com a banda larga que é prioridade para a Dilma, vamos popularizar ainda mais a internet e caminhar para o sonho da universalização da internet no Brasil.

Que apelo o PT faz à militância nas redes sociais?

Que valorize cada vez mais para o debate de idéias e o debate programático, para criar espaço de interlocução propositiva.

A militância se move, um pouco, em função das pesquisas eleitorais. As pesquisas surpreenderam no primeiro turno. Mostraram uma diferença grande com o resultado eleitoral. No segundo turno, me parece que a militância esteve mais alheia ao que a pesquisa dizia e foi à luta.

As pesquisas erraram muito no primeiro turno. Com exceção do Ibope que acabou tendo um nível de acerto grande, o Datafolha dava que nós perderíamos com mais de dez pontos de diferença em São Paulo e nós deixamos de ir para o segundo turno por causa de 40 mil votos. No segundo turno, a militância se norteou menos pelas pesquisas e muito mais por sua capacidade de fazer o debate e a defesa da candidatura Dilma. No segundo turn o, os institutos acertaram mais, mas no primeiro, eu repito, com exceção do Ibope, todos eles perderam em credibilidade.

O que o PT espera da militância para o próximo período, já que seremos oposição no estado e governo nacional?

Eu encerraria dizendo o seguinte: o desafio para o próximo período é a construção de uma agenda nacional que passe pela reforma política, reforma tributária, da saúde, uma mudança profunda no sistema de segurança pública, que passe pelo debate com a juventude de forma prioritária, com uma agenda que dialogue com os setores médios que mostre que somos capazes de responder aos desafios do futuro, o desenvolvimento tecnológico e os empregos de qualidade. Que a gente possa efetivamente mostrar para a sociedade o que representa o pré-sal, e mostrar que somos capazes de construir uma agenda do pré-sal que passe pela educação, pelo desenvolvimento tecnológico, pelo combate a miséria e a exclusão social e pela busca do modelo de desenvolvimento sustentável, que insira a questão do debate ambiental.

Em São Paulo, é repetir tudo isso, mas com uma diferença, pela extensão da classe média paulista, nós temos que fazer essa agenda ficar muito clara.

Eu vou defender isso junto à Executiva e ao Diretório Estadual. Vou propor que, no começo do primeiro semestre, possamos percorrer todo o estado de São Paulo debatendo essa agenda. Que possamos também, no segundo semestre, começar a construir um programa de governo para as eleições municipais de 2012. Temos que colocar como meta o final de 2011 não só construindo o programa de governo, incorporando essa agenda de diálogo com os setores médios, reforçando as nossas propostas de transformação social no Brasil, mas que possamos terminar 2011 com a nossa tática eleitoral construída, principalmente nas cidades com mais de 100 mil eleitores e, idealmente, em todo o estado.

simaopedro14

Dep. Estadual Simão Pedro PT - SP

SUPERLOTAÇÃO CAUSOU PANE NO METRÔ DE SÃO PAULO

O deputado petista Simão Pedro aponta o processo de terceirização de serviços e obras do Metrô como responsável pela perda de qualidade, superlotação e outros problemas do transporte público de São Paulo

O laudo do Instituto de Criminalística (IC) aponta que a paralisação de 18 estações da linha Vermelha do Metrô no dia 21 de setembro foi motivada por falha técnica, diferentemente da primeira versão divulgada pelo Metrô que dizia ter sido uma blusa presa na porta. A perícia indica que a superlotação do vagão pressionou a porta, acionando o sinal vermelho que impediu o condutor de continuar a viagem quando o trem estava parado próximo à estação Sé. Os usuários desceram aos trilhos, o que levou o Metrô a cortar a energia de toda a Linha Vermelha e causar pânico para 250 mil pessoas durante as quatro horas em que a linha ficou paralisada.

“Há incompetência e negligência na gestão tucana no Metrô. Ele vem perdendo qualidade por conta do processo de privatização”, afirma o deputado estadual Simão Pedro (PT). ”A linha amarela já é completamente privatizada, já terceirizaram todas as bilheterias, além de todo serviço de manutenção”. Para o deputado, esse é o real motivo da pane que paralisou o metrô paulistano no dia 21 de setembro.

“Na época eu encontrei funcionários da linha que alegaram que os devidos testes não foram realizados no trem que causou todos os problemas. Os paulistanos usam o metrô todos os dias com risco de sofrerem acidentes e outros transtornos”, afirma o deputado. A linha vermelha é a que apresenta maior índice de hiperlotação no horário de pico com 11 pessoas por metro quadrado enquanto o padrão internacional é seis.

Na ocasião, políticos da base governista associaram a pane a uma sabotagem da candidatura petista. O governador de São Paulo Alberto Goldman afirmou: “Nós vamos fazer uma sindicância para saber o que aconteceu. Se foi um ato acidental ou se foi um ato sem acidente, um ato motivado”. Contudo, após a divulgação do laudo, o governador negou ter considerado intenção particular de alguém na paralisação. “Em nenhum momento achei que fosse sabotagem. No trem lotado, alguém encostou no botão de abrir a porta e todos começaram a descer, já que o trem não andava”, explicou. “Com certeza houve um motivo eleitoral quando disseram que uma blusa causou a pane e, agora, depois das eleições, divulgam que foi um problema técnico”, diz Pedro.

Outra que causou barulho na ocasião foi a então coordenadora de internet da campanha do tucano José Serra à presidência, que postou na rede de microblogs Twitter: “Metrô de Spaulo tem problemas na proporção direta da proximidade com a eleição. Coincidência? #SABOTAGEM #valetudo #medo [sic]“. A frase de Soninha virou dos assuntos mais comentados do dia no Twitter e originou um dos vários virais das eleições na rede, o #soninhafacts.

“Fora isso tem o atraso das obras: a Linha 5 parou a licitação por fraude na concorrência e a Linha 4 apressaram a obra, manipularam os editais e acabou no desastre do buraco no metrô na Marginal Pinheiros”, lembra Pedro. Todos esses problemas levaram o deputado, presidente da comissão de serviços e obras na Assembleia, a convocar o secretário de Transportes Metropolitanos José Luiz Portella para prestar uma explicação à comissão. Porém, Portella exige fazer o esclarecimento à comissão de Transportes, comandada por parlamentares do DEM. “Tentei convocar uma reunião da comissão para o secretário explicar essa história da pane do Metrô, mas a bancada governista negou quórum”.

Bruno Huberman

Vagner Magalhães
Direto de São Paulo

A menos de uma semana da eleição que o coloca em condição de conquistar uma das duas vagas destinadas ao Senado para o Estado de São Paulo, o candidato Netinho de Paula (PCdoB) afirma em entrevista exclusiva ao Terra que essa possibilidade representa para algumas pessoas um sentimento de “raiva”, especialmente entre os integrantes da elite paulista. Na opinião do candidato, há uma superexposição do caso de agressão à sua ex-mulher e de outras acusações a ele que envolveriam violência física, além de problemas financeiros na Organização Não-Governamental que criou em Carapicuíba. Por trás de alguns desses ataques “tem um grande apelo de desconforto racial”, diz ele.

Porém, Netinho diz que o movimento feminista sai fortalecido desta campanha. “Eu acho que cumpri um papel positivo, porque você falar sobre um assunto de agressão, falar sobre a (lei) Maria da Penha, numa candidatura para o Senado em São Paulo, isso nunca foi pauta de discussão de Senado, entende?”

Netinho falou também da relação com a sua companheira de chapa, Marta Suplicy (PT), que ele caracteriza como “cordial”, ainda que não íntima. Segundo ele, durante o período eleitoral, houve orientações diferentes para as duas campanhas que os mantiveram afastados. Descontente com a postura, Lula chamou os dois na semana passada para gravarem juntos, o que se repetiu posteriormente com Mercadante. “É isso que a gente queria desde o início. Antes tarde do que nunca”, disse ele.

Terra – Durante uma entrevista ao Terra, em maio, você disse que se sentia um tanto preterido pelo PT. Ali era o momento que os petistas ainda contavam com a possibilidade de o Gabriel Chalita (PSB) disputar o Senado na coligação. Você acha que hoje, dentro do PT, há uma aceitação total ou você ainda sente que está descolado do partido?
Netinho de Paula – Não, eu acho que a partir do momento em que ficou decidido que eu era o senador que completava a chapa, a nossa opção foi colar no governador (Aloizio Mercadante) e fazer todas as agendas com o governador. Eu acho que isso foi um grande acerto da nossa campanha.

Terra – Isso partiu do PT? Ou foi uma ideia de vocês?
Netinho de Paula – Não, isso partiu do PCdoB, da nossa direção, até porque, em termos de condição de campanha, nossa condição era muito pequena. E o Mercadante também achou que isso seria muito bom. A questão de eu ser uma pessoa bem popular e de ele já ter uma organização política o aguardando para chegar na cidade e tudo mais. A soma disso ia ser muito boa para o nosso trabalho. E foi exatamente o que aconteceu. Eu fui muito bem recebido. Acho que a maioria dos deputados e dos presidentes dos “PTs” que a gente visitou foram todos muito gentis, receberam a gente de braços abertos, entendendo que era um candidato da chapa. O PT do Estado todo abraçou a candidatura.

Terra – Deu para perceber que você realmente ficou muito próximo do Mercadante, até do senador Eduardo Suplicy (PT), que tem participado quase todos os dias na campanha. Vocês tem conversado bastante no sentido de eles te orientarem para saber o que você vai encontrar lá na frente, caso seja eleito?
Netinho de Paula – Eles tem dito muito para mim sobre como o trabalho parlamentar é, em alguns momentos, desgastante. Ainda mais quando você é da base do governo. A função de você estar conversando, dialogando, foi uma opção que eles fizeram. Cada um tem um estilo muito diferente. O Aloizio muito mais voltado para o setor econômico e o Suplicy para a questão social. Isso foi uma química muito boa na defesa do Estado. Eles não queriam que a gente perdesse isso, no caso de dar certo. Eles passam sim muitas dicas do que fazer, do que não fazer, do que é legal, do que não é legal. Têm sido pessoas muito próximas. Esse tempo todo a gente tem conversado, não só em campanha, mas jantando um na casa do outro, trocando ideias.

Terra – Você acha que está preparado? Quando a gente conversou lá no começo da campanha ainda era uma possibilidade, você estava entrando, ninguém sabia exatamente se ia crescer, se não ia. Hoje você está muito próximo, pelo resultado das pesquisas, de ser eleito senador. Você acha que está preparado para a responsabilidade de representar São Paulo no Senado?
Netinho de Paula – Eu acho que eu estou muito preparado. Eu não toparia me candidatar ao Senado sem me sentir capaz de representar esse Estado, de entender as burocracias, os nós que a gente tem no nosso Estado, estar ao lado de pessoas que eu estive, da Dilma, do Mercadante, do próprio Lula, dessas pessoas, nesse tempo todo. Essa parte técnica, de onde a gente vai ter que trabalhar daqui para frente, não só em São Paulo, mas no País. Isso tudo me deu muita base.

Terra – Você estava fazendo uma faculdade de ciência política?
Netinho de Paula – Sociologia. Tive que parar em função de tudo o que a gente está fazendo. Pretendo continuar, eu gosto muito. E a FESP é uma faculdade que se dedica muito ao aluno e faz com que a gente queira cada vez mais aprender também.

Terra – Ao mesmo tempo em que você esteve muito próximo do Aloizio Mercadante, do senador Suplicy, tem sido noticiado também um ponto de atrito com a Marta Suplicy. Nessa última semana vocês estiveram em Brasília, gravaram com o presidente Lula. Depois, no horário político, entrou uma gravação de vocês com o Aloizio Mercadante. Como é que foi a sua receptividade por parte dela?
Netinho de Paula – Eu acho que (as candidaturas) partiram de orientações diferentes. A minha candidatura ficou muito colada à do Mercadante, com a ideia de que nós somos um time e que esse time tinha que trabalhar coeso e que um não disputava, não atrapalhava o público do outro. Eu acho que a Marta teve uma outra orientação, de que atrapalhava e tal. O bacana é que eu acho que, com o tempo, não só os números, os dados, as pesquisas, fizeram os dois lados perceberem que trabalhar junto, num sentido só, como um time, era o melhor. É esse o filme que você viu e é a tentativa que o Lula já vinha fazendo desde o primeiro comício que ele fez aqui em São Paulo, falando: “Quem votar na Marta, vota no Netinho. Quem votar no Netinho, vota na Marta”. Essa é a ideia que a gente defendeu desde o início, mas a direção da campanha da Marta tinha uma outra visão. Eu também não posso dizer que a Marta tenha sido indelicada, ou tenha cometido algum ato falho comigo. Isso não aconteceu.

Terra – A impressão que dá é que ela pode até não ter sido indelicada, mas que também não se envolveu muito. Sempre manteve uma certa distância…
Netinho de Paula – Acho que por orientação, mas todas as vezes em que nós estivemos juntos, a gente sempre conversou, sempre teve uma troca de ideias, sempre foi muito cordial. Houve também aquele episódio de uma pessoa da equipe ter soltado um vídeo, ter mandado para a imprensa, e que para mim também foi superado, porque no mesmo dia em que aconteceu isso ela me ligou dizendo: “Netinho, eu quero que você acredite que não fui eu. Não tem minha autorização. Eu quero que você não leve isso em conta”. A minha relação com ela tem sido de trabalho. Eu não tive tempo, nesses meses, para pensar no que as pessoas estão pensando sobre mim, não dava. Eu tinha que estar na rua, trabalhando, andando, viajando pelo Estado, então, para mim, tudo foi muito válido. A minha relação com ela tem sido melhor a cada dia. Na semana passada, nós fomos para Brasília, gravamos juntos. O vídeo tem tido uma repercussão excelente. É isso que a gente queria desde o início. Antes tarde do que nunca.

Terra – Sua relação pessoal com ela, hoje, é boa?
Netinho de Paula – Acho que é uma relação boa, cordial. Isso… inalterou. Sempre foi, de cumprimento, de troca de ideias. Nós nunca fomos íntimos, né? Estamos mais próximos agora, nessa reta final de campanha.

Terra – Vocês estão disputando o mesmo eleitorado?
Netinho de Paula – Absolutamente, porque são dois votos. Muito pelo contrário, eu acho que a Marta traz com ela, inclusive, um voto para um segmento até mais qualificado, de uma classe média, que eu nunca tive nem acesso. Ela dialoga bem com essa classe. E ela sempre foi uma prefeita que fez um mandato para a periferia. Muito semelhante ao que eu sempre trabalhei, tanto como vereador, ou nas minhas propostas, na música, ou no programa que eu apresentei. Não é conflitante, é complemetar.

Terra – Você foi surpreendido de alguma maneira com tudo que tem vindo à tona nas duas últimas semanas de campanha em relação a você?
Netinho de Paula – No início, eu achava que não iria acontecer nada, esse tipo de ataque e tal, mas, depois que eu vi como eles estavam se comportando no horário eleitoral, eu esperava que, no final, eles iam tentar centrar fogo mesmo. Minha vida, no fundo, nunca foi diferente disso. Sempre foi tudo muito difícil. Eu sei o que representa uma candidatura minha para alguns setores da sociedade, particularmente para essa elite que a gente tem aqui em São Paulo. Um cara que veio do gueto, que vendia doce, que é da periferia, chegar, disputar e ganhar o Senado em São Paulo, para algumas pessoas tem o sentido de raiva. Por trás de muitos desses ataques, de informações falsas, de coisas que eles publicam, tem um grande apelo de desconforto racial.

Terra – O que você considera falso?
Netinho de Paula – Muita coisa do que eles falaram, de falta, de ficar me xingando, falando que eu sou um covarde, de falar do projeto, que é uma coisa que eu sempre amei tanto, lá na Cohab, nossa galerinha, a molecada, de falar dessas coisas da minha vida pessoal. Aí é apelação, eles estão raivosos mesmo.

Terra – A questão da agressão à sua ex-mulher… Você acha que vai carregar esse peso para sempre?
Netinho de Paula – Eu não acho. Na verdade, eles não tinham muito o que falar de mim. Eles pegaram alguma coisa que aconteceu em 2005 e trouxeram à tona para um debate de Senado. Eu acho que a gente tem que ver por dois lados esse assunto. Eu acho que cumpri um papel positivo, porque você falar sobre um assunto de agressão, falar sobre a (lei) Maria da Penha, numa candidatura para o Senado em São Paulo, isso nunca foi pauta de discussão de Senado, entende? Eu acho que o movimento feminista sai fortalecido dessa eleição. Quanto à minha posição, a população em geral, não só do Estado de São Paulo, mas do Brasil, já sabia minha posição, já sabia o que eu tinha feito, e eu fui eleito depois disso, voltei com o meu programa depois disso, com altos índices de audiência, e fui muito bem votado, dizendo o seguinte: “Legal. Fato superado”. Então eu acho que eles não tinham muito por onde me pegar. Acho que foi uma falha de marketing da campanha dele (Aloysio Nunes Ferreira). Para mim, isso é uma coisa já resolvida na minha vida.

Terra – Você acha que, hoje, é o Aloysio quem pode colocar uma das vagas de vocês em risco? Como é que vocês estão lidando com esse crescimento dele nessa reta final? Você e a Marta estão estabilizados nas últimas pesquisas e ele tem apresentado um crescimento. De alguma maneira, um dos três vai sobrar…
Netinho de Paula – Eu acho que o crescimento dele é algo natural nesse processo, com a saída do Quércia, com o afastamento do senador Tuma, em função de ele ter ficado doente e não estar fazendo corpo-a-corpo na rua. Com o tempo de TV que ele herdou, com a força do PSDB no Estado, a tendência não era ele ficar com 4, 5, 6 pontos, como ele estava. Acho que é natural ele crescer. Eu acho que nós trabalhamos, tanto eu como a Marta, nós fomos para o vídeo para fazer propostas, para falar o que acha que seria bacana para São Paulo e de que forma o Senado podia influenciar nessas propostas que a gente pretende implantar. Acho que o povo comprou essa ideia, enquanto ele ficou voltado para mim. Acho que isso atrapalhou um pouco sim.

Terra – No domingo, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria sobre uma outra agressão a uma funcionária da Vasp. Como é que você explica isso?
Netinho de Paula – Além de ser uma inverdade, teve até um acordo para não ter problema. Ela tinha que provar que houve a agressão. Não houve a agressão. Ela sentiu que foi um dano moral, porque tivemos uma discussão no aeroporto por atraso do voo. Eu tinha que embarcar, estava com overbooking, eu queria falar com ela e ela deu as costas. Eu falei: “moça, você não pode me dar as costas. Eu estou falando com a senhora”, ela falou: “você está gritando comigo”, e foi parar tudo na delegacia. Foi uma discussão, que virou um processo, porque ela disse que em função dessa discussão a saúde dela complicou e tal. O juiz perguntou: “tem acordo”, eu falei: “tem acordo”. Fizemos um acordo e segui minha vida. Ela entrou com uma ação de R$ 80 mil, mas foi feito um acordo em um valor menor e ela foi embora. Eu não entendi quando voltou esse assunto, eu fiquei pensando “espera aí, a Folha trouxe isso agora, na semana da eleição, por qual motivo? Alguma coisa tem”. A mulher eu nunca mais vi desde 2001 e, resolvido, toquei a minha vida. A briga com a Sandra, a minha ex-esposa, foi em 2005, inclusive a Sandra estava comigo no aeroporto quando aconteceu isso. Não tem nada a ver com a discussão no Senado. Eu não entendi o porquê estão fazendo isso. Quer dizer, não sou tão inocente. Essa semana, tudo o que eles puderem fazer, eles vão fazer. Se tiver algum carnê que eu não paguei, que eu atrasei… Na época que eu morava na Cohab, eu recebi umas cartas pretas que estavam atrasadas, porque era difícil, mas eu paguei tudo. Se eles trouxerem isso também, é a minha vida, é isso aí.

Terra – Você citou o projeto social Casa da Gente, tem também essa questão da dívida, o que se passa aí?
Netinho de Paula – Isso não tem nada a ver comigo. O instituto tem a vida dele, tem a direção que pode responder por ele, pelas coisas que eles fazem…

Terra – Mas tem o seu nome associado, de alguma maneira…
Netinho de Paula – Com muito orgulho. A gente que ajudou a criar aquilo, a gente que sonhou com aquilo. Se tiver dívida, paga a dívida, não tem problema nenhum. Não tem como as pessoas pegarem o dinheiro do instituto. Eles tiveram problema na prestação de contas, foi isso que aconteceu. Pelo menos nisso eu acho que a matéria foi verdadeira, de dizer que está na tomada de contas e que não houve má fé. O problema é que eles põe na chamada “ONG do Netinho deve não sei quanto”, aí neguinho já pensa “ai, meu Deus, roubaram as crianças”. Aí é armação.

Terra – Mas é a ONG no Netinho, não é? Todo mundo conhece aquilo como a ONG do Netinho. Para o bem ou para o mal…
Netinho de Paula – É verdade, mas, poxa, falar isso da ONG é mancada, né? Continua falando de mim, me xinga, mas deixa nossa Cohab tranquila lá.

Terra – Mas tem problemas, não é? E não é um valor baixo, convenhamos…
Netinho de Paula – Porque os projetos que foram executados não foram pequenos, né? Eles dizem, por exemplo, que o dinheiro foi usado para a construção da sede. Como é que ia construir a sede se ela já existia? O governo não ia dar rescurso para implementar programas se não tivesse a sede. Eu conheci a nossa imprensa, de verdade, nessas últimas duas semanas. Fica muito claro que ela tem lado, né? Ela está a serviço de algumas coisas. Fiquei muito triste mesmo.

Terra – Isso embasa o discurso do Lula, no comício em Campinas, em que ele falou que a imprensa estava tomando partido político, que até gerou uma discussão sobre liberdade de imprensa. Como é que você vê isso?
Netinho de Paula – Acho que é legítimo. Acho que você tem até que ter lado, desde que você assuma. Eu não acho que tem que ter isenção não. Quem optar por isenção, que seja isento e fale: “eu sou isento”, mas quando você começa a colocar coisas que não são verdades… A minha pergunta é a seguinte: então, se a ONG do Netinho tem problemas, nenhum dos outros candidatos que estão disputando ao Senado têm problemas? É só o Netinho que tem problemas? Essa é a pergunta que fica. Por que não é dado aos outros candidatos a mesma invasão de privacidade, de problemas, de vida, de questões pessoais? O nosso povo não está mais bobo, entende? A galera meio que se liga. É o que eles falam para mim na rua, o povo fala: “Neto, fica firme. Eu poderia ficar sentado no sofá dando risada de vários programas, como todo mundo faz, mas eu vim para a política porque eu acho que eu posso ser melhor do que está, eu acho que eu posso contribuir. Eu vim porque eu quero contribuir, não é porque eu preciso da política para poder viver. Se eu fizer meus shows, eu vou viver muito bem.

Terra – Você tem uma carreira dentro do mundo artístico e deve ter tomado conhecimento que no Twitter, a Rita Lee desceu a lenha, escreveu uma historinha referente a você. Você chegou a ver, soube disso?
Netinho de Paula – A Rita Lee?

Terra – Ela escreveu uma história de ficção que envolvia o seu nome, falando de episódios de violência… Você acha que de alguma maneira, esses episódios podem deixar em você uma marca de uma pessoa violenta? Tem o caso da sua ex-mulher, esse outro caso da Vasp, a história do pessoal do Pânico, que você também teve atrito…
Netinho de Paula – Eu faço a seguinte análise para você. Eu tenho 40 anos de idade. Em termos de violência, você citou três episódios.

Terra – Da última década…
Netinho de Paula – Eu não lembro de ter mais, mas digamos que eu tenho três episódios que vocês então citam como eu sendo violento. Será que em 40 anos de tudo o que eu fiz, de bom, ninguém vai perguntar… O Neto fica como uma pessoa que fez isso, que foi o primeiro negro aí nos últimos 40 anos a ter um programa de televisão, que trouxe uma discussão sobre a periferia urbana de São Paulo com o seriado Turma do Gueto, que organizou como o primeiro grupo aqui da cidade de São Paulo uma ONG em um município que precisa. Eu acho que tem coisa muito mais positiva do que isso. E é essa resposta, essa força que o povo me dá. É diferente dessa imprensa que tem feito isso massivamente nesses últimos dois três meses em que eu me tornei candidato ao Senado. Porque o Senado é algo que mexe muito com essa nossa elite conservadora. E eu quero ter muito a oportunidade de mostrar que sem revanchismo, essa elite estava equivocada. Eu quero mostrar que a gente vai melhorar a receita do nosso Estado, que a gente vai implementar boas políticas públicas e que eles possam falar assim: realmente a gente estava enganado com relação ao Netinho. Esse é o meu anseio.

Terra – Você foi eleito vereador com 88 mil votos em 2008. Você acha que o seu mandato que tem pouco mais de um ano e meio foi suficiente para convencer o eleitorado de que você pode ser um bom Senador?
Netinho de Paula – Não é um mandato de vereador, em um ano e meio ou dois anos que vai falar se uma pessoa vai ser um bom senador ou se a pessoa pode ser um bom prefeito ou um bom governador. São os projetos, os planos, os desejos, os sonhos, o seu poder de convencimento, a sua história de vida que te credencia. Ou para você ser um bom vereador ou para você ser um presidente da República, como foi o Lula. Eu acho que esses rótulos que são dados… Como é que pode, o cara passou um mês como vereador e quer ser presidente da República. Eu acho que isso aí, não é esse trâmite que deve ser questionado. O que tem de ser questionado é o seu desejo. Para ser senador, você precisa ter popularidade? Um pouco. Você precisa conhecer um pouco do Estado? Precisa conhecer… Precisa ter bons projetos? Precisa ter boas alianças, precisa ter bons aliados? Isso eu acho que eu tenho. Acho não, eu tenho certeza que tenho. Não é à toa que a maioria desses meus aliados são pessoas que estão aí para ser entre os mais votados esse ano. Portanto eu me sinto muito tranqüilo em relação a isso.

Terra – Que garantias o senhor pode dar para o eleitor que cumprirá os oito anos de mandato no Senado. Aliados seus, em conversas particulares, falam até de o ser candidato a prefeito em 2012…
Netinho de Paula – Diferente de outros políticos, eu tenho o compromisso de ser um bom senador, no tempo que eu puder ser um bom senador. Porque ser candidato a governador, ou ser candidato a prefeito ou a presidente, é muito mais do que você querer. É você ter um grupo e uma quantidade expressiva de pessoas que queiram. Portanto, se eu fui durante quase dois anos vereador e acredito que serei eleito para o Senado, é porque o povo quis. Se o povo quiser que eu seja um prefeito ou que eu seja um governador, eu farei a vontade do povo. Eu hoje, eu Netinho, tenho a vontade de ser um ótimo senador.

Terra – Você tem ambições políticas, ainda que não seja agora, mais adiante…
Netinho de Paula – Acho que o político que não tiver ambições de crescer, de poder ampliar os seus horizontes, não deveria ser político. Mas acho que tudo isso é construído ao longo do tempo. Eu entrei como vereador sabendo e comunicando a todos que queria disputar para o Senado. Com relação a outros pleitos, hoje eu não tenho, nem essa pretensão. Minha vontade hoje é de fato ser um bom senador.

Terra – E como conciliar essa carreira de Senador. O senhor tem sido alvo de críticas por ter faltado aqui como vereador ter mantido a carreira de artista, que isso tenha talvez prejudicado um pouco o seu mandato como vereador. Dá para conciliar as duas coisas, o senhor no Senado com a carreira de artista. Como se concilia isso?
Netinho de Paula – É com essas coisas que eu fico triste. Com mentiras, com inverdades. Porque eu não tenho porque faltar na Câmara, onde as sessões são à tarde e acabam geralmente às 9 horas da noite. Quem é que vai fazer show, terça, quarta e quinta, das 15h às 21h? Estão chamando o povo de burro. O povo não é burro. Falar essas coisas é querer instigar o povo a uma coisa que o povo… O nosso povo, quando vai curtir, é sexta-feira depois das 10 da noite, é sábado, é domingo. É onde eu sempre me apresentei a vida inteira. Então, falar uma coisa dessa é xingar o povo.

Terra – Mas há registro de faltas lá. Aconteceu alguma outra coisa?
Netinho de Paula – Não há. A gente tem de ser verdadeiro. Foram 190 sessões que a gente teve. Dessas 190 sessões, eu tive duas ausências que não foram justificadas. Duas ausências que não foram justificadas e todas as outras ausências foram representando a Câmara em alguma cidade. Então não tem sentido. A informação é fruto de um levantamento de uma entidade que sequer leva em consideração a comissão que eu presido, que é a Comissão da Criança e do Adolescente. Porque como ela é extraordinária, eles não dão atenção para essa comissão. Ela serve a alguns interesses que eu fico muito triste de saber… Então não é verdade. Eu pediria, para pelo menos a imprensa que for séria, não faça isso… Porque é mexer com 86 mil votos, pessoas que acreditaram em mim. Já pensou eu faltar porque eu fui fazer um show à tarde? Isso é chamar o povo… é brincar com o povo. Então isso não pode fazer, não é verdade.