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SÃO PAULO (chega de tontería) – Vamos colocar os pingos nos is de Interlagos. O jornal “O Estado de S.Paulo” publica hoje entrevista com Bernie Ecclestone que começa assim:

São Paulo está fora do calendário da Fórmula 1 em 2014. E dependendo da evolução dos fatos até mesmo o GP do Brasil. É o que afirmou Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, ao Estado, ontem em Xangai, em entrevista exclusiva. “As promessas de reforma de Interlagos não foram cumpridas. Agora chega. Não fosse a relação antiga e os sentimentos que me ligam ao Brasil a Fórmula 1 já não estava mais lá.”

Assina a matéria o correspondente do vetusto diário, Livio Oricchio.

A primeira frase é mentirosa. São Paulo não está fora do calendário. São Paulo tem um contrato com a FOM até 2014 inclusive. A corrida será disputada neste ano e no ano que vem. E neste mês, no máximo em maio, as partes interessadas se sentam para discutir um novo contrato de mais cinco anos.

Mais da matéria:

A equipe do ex-prefeito Gilberto Kassab realizou um projeto, definido junto com integrantes da FIA, para reestruturar o autódromo, com a criação de nova área de boxes, salas, banheiros e paddock no início da Reta Oposta. Tudo segue o padrão de exigência da entidade. E incluiu o valor da obra no orçamento da Prefeitura deste ano, estimado em R$ 120 milhões.

O atual prefeito, Fernando Haddad, contudo, não iniciou os trabalhos. “Este ano não espero mudanças. Mas se o autódromo não estiver na condição que a Fórmula 1 necessita em 2014 não iremos a São Paulo”, garante Ecclestone.

É mentira. O prefeito anterior, Kassab, não incluiu o dinheiro no orçamento da Prefeitura para 2014. Pode até ter dito que iria incluir, mas não incluiu. Por isso os trabalhos não podem começar. E o atual prefeito, Haddad, está estudando como e se vai fazer essa reforma no ano que vem. Para, quem sabe, estar pronta em 2015.

Eu, pessoalmente, sou contra a Prefeitura fazer um paddock novo que só servirá para a F-1. Quando alguém vai rezar uma missa ou fazer um show em Interlagos, se encarrega de montar o altar e o palco. Se a F-1 acha os boxes de Interlagos feios e cafonas, que faça outro por sua conta. A estrutura serve perfeitamente ao automobilismo nacional e internacional. Não fosse assim, a F-1 não correria lá desde 1990.

OK, os autódromos mais novos são lindos e exuberantes. Mas e daí? Desde quando lindeza e exuberância, luxo e extravagância, sofisticação e frescura devem ser padrão para o planeta inteiro?

O GP do Brasil pertence à TV Globo, que comprou a International Promotions, empresa que organizava a corrida. Assim, a Globo que construa seus boxes novos, e que cuide deles. Há outras prioridades na cidade para os estimados 120 milhões da reforma orçada por Kassab e, repito, não incluída no orçamento de São Paulo para 2014. Eu prefiro que esse dinheiro seja usado, por exemplo, em uniformes escolares. Ou em corredores de ônibus. Ou em urbanização de favelas.

Agora, uma espetada sem meias-palavras no autor da reportagem do “Estado”, o jornalista Livio Oricchio. Conheço-o muito bem e o que vou escrever não tem nenhum caráter pessoal. É, mais uma vez, uma reflexão sobre o jornalismo que se pratica hoje no Brasil. Neste caso específico, é ele o personagem, mas poderia ser qualquer outro.

Oricchio cobre F-1 há muito tempo e, como acontece com frequência no futebol, acha que virou um agente atuante no esporte que é pago para cobrir. Acha que pode atuar sobre seu destino. Misturou as coisas. Já ofereceu até “projeto” de mudança do traçado de Interlagos para não sei quem. E há anos, sempre que pode (e quando não deve, como se verá adiante), espezinha Interlagos comparando o autódromo com os demais da F-1. Tudo porque não gosta dos boxes, se sente desconfortável, acha que têm de ser iguais aos que ele conhece em suas viagens, que a F-1 “merece” mais, porque a F-1, oh, a F-1 é demais e não pode ficar apertadinha num autódromo antigo e acanhado como Interlagos.

Exemplo dessa perseguição tola (e inútil, obviamente)? Vejam o primeiro parágrafo da boa reportagem que Oricchio fez sexta-feira com Raikkonen na China (a íntegra está aqui).

Jamais espere ouvir um “boa tarde”, por exemplo, de Kimi Raikkonen, ao se apresentar para a entrevista. Ou um aperto de mão e “até logo” depois de encerrada. O finlandês de 33 anos, campeã do mundo de 2007, pela Ferrari, chegou e saiu quieto de óculos escuros nesse encontro exclusivo com o repórter do Estado, ontem, na área reservada da Lotus no Autódromo Internacional de Xangai, em meio a belíssimos jardins, em completa oposição ao que Interlagos oferece.

O negrito é meu. Faz algum sentido a última frase? Por que colocar uma referência a Interlagos numa entrevista feita com Raikkonen na China? Para “preparar” o leitor para a reportagem da segunda, “tirando” Interlagos do calendário com esse lobby ridículo por novos boxes no autódromo de São Paulo? É como, sei lá, escrever “Bono Vox chegou ontem ao Brasil e deu entrevista na sala de imprensa de Cumbica, que não se compara à do aeroporto de Los Angeles”.

É tão tosco e infanto-juvenil que me espanto. Claro que um editor minimamente preparado cortaria a última frase, sobre Interlagos, do texto sobre Raikkonen. Mas no jornal em questão, duas a três vezes por ano são demitidos 30, 50 jornalistas. Pode-se imaginar o cuidado com os textos publicados nesse ambiente de permanente tensão e ameaça de perda de emprego. O jornal, como muitos, está virando uma porcaria irreversível e acaba servindo de tribuna para lobbies dos mais distintos, sem o menor controle. É o destino dos impressos. Não porque são impressos. Porque são ruins, mesmo. Portais de internet ruins também estão condenados à extinção. Como sempre digo, não é a internet que mata os jornais; é o mau jornalismo.

É tosco e infanto-juvenil essa “estratégia”, porque não é possível que alguém ainda acredite que essa imprensa velhaca e carcomida tem alguma influência na realidade. Ecclestone sempre usou muito essa arma — que, hoje, é apenas um estilingue, no caso do jornal em questão. Usa a mídia como instrumento de pressão para atender seus interesses. “Planta” na imprensa, junto àqueles que lhe são mais permeáveis, as notícias que quer. Uma vez, de brincadeira, inventou um GP em Cuba. Saiu em tudo quanto era jornal e ele morreu de rir.

Há uma chance de o GP do Brasil sair de São Paulo e ir para Santa Catarina? Sim, se fizerem um autódromo lá. Se o povo catarinense aceitar uma despesa da ordem de milhões de dólares para construir m autódromo que será usado duas ou três vezes por ano. Está sobrando dinheiro lá? Não sei, não me diz respeito. Não faço lobby nem a favor, nem contra corrida em lugar algum. Não é esse o papel do jornalista. Se a F-1 deixar Interlagos, paciência. A Prefeitura continuará tendo a obrigação de manter seu autódromo em boas condições para tudo que acontece lá. São Paulo, a cidade, não vai morrer por causa de uma corrida. Qualquer bom show de rock traz mais gente à cidade do que o GP. É uma falácia essa história de que entra uma fortuna nos cofres públicos graças à corrida. É apenas mais um evento, para 50, 60 mil pessoas, que acontece todos os anos. Legal, claro. Eu adoro e me orgulho, como paulistano, de ver a F-1 aqui. Mas não quero pagar a conta para que ela aconteça. Quem ganha com o GP que se encarregue de viabilizar sua permanência.

E, sinceramente, prefiro o calor humano e a bagunça de Interlagos aos jardins de Xangai. Caguei para os jardins de Xangai.

Por Cristian Klein | De São Paulo

Valor Econômico – 17/04/2012

A cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, tem 159.030 eleitores. Pode parecer um alvo pouco interessante para os objetivos nacionais de um partido, mas virou uma questão de honra que envolve PT, PSB e DEM na eleição municipal deste ano e está atrapalhando uma candidatura a 2.804 quilômetros de distância dali: a do ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT), na capital paulista.

Apesar das tentativas da cúpula nacional, o PT potiguar insiste em lançar nome próprio à Prefeitura de Mossoró, o que dificulta os planos de uma troca de apoio que leve o PSB a se engajar numa coligação com Haddad, em São Paulo.

Em reunião ontem na capital Natal, com o secretário nacional de organização do PT, Paulo Frateschi, o reitor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Josivan Barbosa, manteve a disposição de levar adiante sua candidatura.

Barbosa é apoiado pela corrente majoritária do PT, a Construindo um Novo Brasil (CNB), e, há menos de um mês, venceu a disputa interna que defendia nome próprio, por apenas cinco votos (162 a 157).

Desde então, no entanto, o reitor vem sendo pressionado pela direção nacional a desistir em favor do apoio à chapa da deputada estadual Larissa Rosado (PSB).

Assim como outras cidades pelo país – Campinas (SP), Duque de Caxias (RJ), João Pessoa (PB) entre outras -, Mossoró foi posta na mesa de negociação como uma das exigências do PSB para, em contrapartida, apoiar Haddad.

A candidatura em São Paulo, patrocinada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, é uma prioridade do PT nacional. Tanto que, segundo um interlocutor, a decisão de apoiar o PSB em Mossoró já teria sido tomada, na quinta-feira, independentemente da vontade local. Na reunião de ontem com os representantes dos diretórios municipal e estadual, Frateschi teria lembrado a intervenção no Maranhão, na eleição para governador em 2010, para argumentar que o apoio será dado de um jeito ou de outro.

O desfecho pode ser traumático. Mesmo um integrante do PT potiguar cuja corrente, Movimento PT, votou contra a tese de candidatura própria, afirma hoje defender que a legenda honre com a decisão do encontro de delegados e que não haja intervenção da direção nacional para que se apoie Larissa Rosado.

Embora com colégio eleitoral modesto, Mossoró é repleta de simbologia e rivalidade que despertam a cobiça tanto do PSB quanto do PT local.

Maior produtora de petróleo em terra do país, é a única cidade entre as 118 maiores do país, com mais de 150 mil eleitores, que ainda é governada pelo DEM, depois que a legenda definhou com a criação do PSD pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

O município representa como poucos a imagem de um dos últimos bastiões da segunda maior sigla de oposição. Há décadas Mossoró é dominada pelo DEM e é a terra natal do presidente nacional do partido, o senador José Agripino Maia. Também é a cidade cuja prefeitura já foi controlada por três mandatos pela governadora Rosalba Ciarlini Rosado (DEM), única do partido a comandar hoje um Estado.

Mais do que do DEM, Mossoró é um feudo dos Rosado. A prefeitura é administrada por Fafá Rosado, prima do marido da governadora, o ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado, líder do grupo. A vice-prefeita também é da família: Ruth Ciarlini, irmã da governadora.

Desde 1948, os Rosado são hegemônicos. Sendo quase impossível vencer sem ter o sobrenome, a oposição também é da família. Larissa Rosado é filha de Sandra Rosado, líder do PSB na Câmara dos Deputados e adversária da ala do clã filiada ao DEM. Larissa aparece nas pesquisas com cerca de 40% das intenções de voto, à frente da provável candidata do DEM, a vereadora Claudia Regina, com 10%, e de Josivan Barbosa, com menos de 5%.