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Soraya Aggege 29 de julho de 2011 às 10:44h

João Pedro Stedile, um dos principais líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirma que a concentração de terras tem crescido e que a reforma agrária clássica realmente “saiu da agenda” nacional. Resta ao MST o caminho da “reforma agrária popular”, que defende um novo modelo de desenvolvimento agrícola, o agroecológico.

CartaCapital: Qual é a dimensão hoje da necessidade real de distribuição de terras no Brasil?

João Pedro Stedile: O Brasil é um dos países de maior concentração de propriedade da terra. Nos últimos anos, mesmo com o governo Lula seguiu concentrando. Os últimos dados do cadastro do Incra, de dezembro 2010, revelam que temos 66 mil fazendas classificadas como grandes propriedades improdutivas, que controlam 175 milhões de hectares.  Pela Constituição e pela Lei Agrária Complementar, todas essas propriedades deveriam ser desapropriadas e distribuídas. Temos ao redor de 4 milhões de famílias de trabalhadores agrícolas sem terra que seriam os potenciais beneficiários.

‘Nos últimos anos, conseguimos muitos assentamentos, mas isso não é reforma agrária’, afirma João Pedro Stedile a Soraya Agegge. Foto: Mauricio Lima/AFP

CC: A distribuição de terras ainda é o fator mais importante da reforma agrária? Por quê?

JPS: A reforma agrária surgiu como política de governos da burguesia industrial no Hemisfério Norte, que aplicando o princípio republicano de direitos iguais, democratizou a propriedade da terra. Com isso impulsionava o mercado interno para a indústria.  Portanto, falar em reforma agrária é necessariamente democratizar o acesso, a posse e a propriedade da terra. Sem isso, nunca haverá uma sociedade democrática, se os bens da natureza que não são frutos do trabalho, são concentrados em mãos de poucas pessoas. No Brasil, as grandes propriedades improdutivas são apenas 1,3%, mas controlam 40% de todas as terras.   Veja que desapropriando apenas esses 1,3%  teríamos uma fantástica mudança no campo.

CC: Ainda há um processo de reforma agrária no Brasil, no sentido de distribuição de terras?

JPS: Um programa de reforma agrária verdadeiro é quando as políticas de desapropriação de terras e democratização da propriedade conseguem impedir a concentração.  Como disse, no Brasil a concentração só aumenta. O Censo de 2006 revelou que a concentração é muito maior agora do que em 1920, quando recém havíamos saído da escravidão.  O que existiu no Brasil, nas últimas décadas, foi a conjugação de duas políticas públicas: a colonização de terras na Amazônia, e isso não altera a estrutura da propriedade, e a política de assentamentos rurais para resolver conflitos sociais e políticos, isso quando há muita pressão por parte dos trabalhadores. Nos últimos anos conseguimos muitos assentamentos, com muita pressão social e um alto custo de sacrifício dos trabalhadores que às vezes pagaram com a vida.  Mas isso não representa reforma agrária, no conceito clássico. Além disso, no Brasil está havendo uma desnacionalização da propriedade da terra, acelerada ainda mais pela crise do capitalismo financeiro que fez com que os capitais especulativos corressem para investir em patrimônio da natureza no Brasil e se protegessem da crise. Estima-se que os capitais estrangeiros já controlam mais de 30 milhões de hectares, para produzir cana de açúcar, gado e soja. Só no setor sucroalcooleiro controlam 33% de toda a terra e usinas.

CC: O que mudou de fato no processo de acesso à terra, desde que o PT assumiu o governo? Houve um aumento nos índices de concentração de terra ou uma redução?

JPS: Há uma lógica do funcionamento do capital na agricultura, que leva naturalmente à acumulação e à concentração da produção e da propriedade da terra. Para combater esse processo o governo deveria ter uma política pública massiva. Por isso que, tanto no governo de FHC como no de Lula, a concentração da propriedade da terra continuou. E quanto maior as taxas de lucro na agricultura, mais altos serão os preços da terra e maior será a concentração da propriedade.

CC: O que o MST acredita que realmente será feito no Brasil com relação à reforma agrária? Quais são as perspectivas do MST?

JPS: O programa de reforma agrária clássica, que a maioria dos países industrializados fizeram no Hemisfério Norte, democratizando a propriedade e criando mercado interno, depende de um projeto político de desenvolvimento nacional baseado na industrialização.  Isso saiu da agenda no Brasil.  Não porque não seja um caminho, mas, sim, porque as burguesias industriais brasileiras nunca tiveram um projeto de desenvolvimento nacional. Então, esse tipo de reforma agrária está inviabilizado por elas, lamentavelmente.  Cabe aos movimentos sociais do campo se organizarem e lutarem agora, por um novo tipo de reforma agrária. Chamamos de reforma agrária popular.  Além da desapropriação de grandes latifúndios improdutivos é preciso reorganizar a produção agrícola, com um novo modelo.  Nós defendemos políticas que  priorizem a produção de alimentos. Alimentos sadios, sem agrotóxicos. Uma combinação de distribuição de terras com agroindústrias nos assentamentos na forma cooperativa, voltada para o mercado interno. Implantando uma nova matriz tecnológica baseada nas técnicas agrícolas da agroecologia.  E ainda a ampla democratização da educação, com a instalação de escolas em todos os níveis, em todo o meio rural.

Essa é nossa plataforma e a nossa perspectiva.  Pode demorar algum tempo, mas esse será o futuro da agricultura em todo o mundo.  O modelo do capital, do agronegócio é inviável, econômica, ambientalmente e do ponto de vista da saúde pública também, pois só produz lucro, usando muito veneno e degradando o meio ambiente.

CC: Não tem ocorrido mais pressão popular pela reforma agrária. O que mudou realmente no MST, nesta última década? O MST não consegue mais promover grandes mobilizações, limitando-se aos protestos pontuais, como o “abril vermelho” e os locais? Não falamos do pico de acampamentos após a posse de Lula, mas de maneira global.

JPS: O MST manteve a mesma média de 250 ocupações de fazendas por ano. Nós continuamos lutando.  E aumentamos a nossa base.  Mas agora mudou a correlação de forças políticas. Temos um inimigo mais poderoso. Agora, além do latifundiário temos de enfrentar o modelo do agronegócio que representa uma aliança entre os grandes proprietários de terra, o capital estrangeiro e o capital financeiro. E some-se a eles o apoio ideológico irrestrito da grande mídia, que ataca permanentemente quando qualquer trabalhador se mobiliza. Foram contra até a mobilização dos bombeiros, imagine dos sem-terra.    Então, é na opinião desta mídia empresarial e hipócrita, que o MST  teria diminuído sua força, mas essa não é a realidade. Por outro lado, se a reforma agrária depende agora de mudança de modelo de desenvolvimento, isso carece por sua vez de um amplo processo de mobilização popular no País, que ainda não está na agendo pelo refluxo do movimento de massas.  Mas algum dia ele voltará, e voltará com força. Pois os problemas estruturais da sociedade brasileira estão aí, intocáveis e latentes.

CC: Quantos acampamentos e quantas famílias acampadas o MST mantém hoje? Esse número pode crescer, por exemplo, com a multiplicação dos grandes canteiros de obras, principalmente das hidrelétricas, por causa da especulação imobiliária? Ou deve diminuir à medida que a situação econômica do País melhora?

JPS: Nós temos ao redor de 60 mil famílias acampadas.  E há outros 4 milhões que vivem no campo, que são pobres, e que poderiam ser beneficiados pela reforma agrária. E que de fato agora, estão adormecidos pelo Bolsa Família, que favorece 4 milhões de famílias acampadas, e pela expansão do emprego na construção civil. Mas isso não é uma solução definitiva. É um programa necessário, mas apenas de emergência. A solução envolve programas estruturantes de emprego e renda.

CC: Qual relação o senhor vê entre o Programa Brasil sem Miséria e a reforma agrária?

JPS: O Programa Brasil sem Miséria ainda é uma colcha de retalhos de diversos programas de compensação social.  Nenhum deles afeta a estrutura e a causa da pobreza.  Por isso temos defendido com o governo diversas propostas.  Há 14 milhões de miseráveis que podem ser atendidos por medidas emergenciais.  E há outros 40 milhões que formam a turma do Bolsa Família. Então o governo deveria fazer um amplo programa, ainda que localizado nas regiões mais carentes, de acesso à terra.  Um programa de instalação de agroindústrias cooperativas, que criam emprego e renda.  Potencializar a Conab, para que se transforme numa grande empresa compradora de todos os alimentos da agricultura familiar. Criar um mutirão nacional de alfabetização dos 14 milhões de adultos.  Instalar escolas em todas as comunidades rurais, de ensino fundamental e escolas regionais, no meio rural de ensino médio, via IFETS ou outras escolas técnicas agrícolas.  E ainda um amplo programa de reflorestamento, ampliando o Bolsa Verde para todos os 4 milhões de camponeses pobres.

CC: O MST pode vir a apoiar a criação de um partido político, por meio do Consulta Popular? A partidarização, enfim, pode ser um caminho para o MST ou parte dele?

JPS: Os partidos políticos no Brasil estão desgastados e possuem pouca coerência com programas de nação ou ideologias de classe.  Em geral, são usados por pessoas e grupos, apenas como trampolim para cargos e recursos públicos. Mas a organização política na sociedade é fundamental para construir as mudanças. O MST é um movimento social, autônomo, com base social no meio rural e nas cidades. Nós devemos estimular como militantes sociais e cidadãos, a revitalização da prática política no País, mas o caminho do MST deve ser apenas a luta pela reforma agrária popular.

CC: Qual é o futuro para o modelo atual?

JPS: Acredito que embora a expressão reforma agrária esteja desgastada e a imprensa burguesa nos faça uma campanha permanente contra a luta dos trabalhadores, pois é aí, onde ela tem hegemonia absoluta,  no futuro teremos grandes mudanças no modelo agrícola e na sociedade brasileira.  Pois o modelo do capital de apenas organizar a produção agrícola para o lucro,  agredindo o meio ambiente e usando venenos, é insustentável no longo prazo. E a sociedade, em geral, e a natureza estarão do nosso lado para realizar as mudanças estruturais necessárias.

Por Otávio Brum (20/05/11)

Uma das dificuldades que nós temos ao enfrentar os problemas estruturais brasileiros é ter pouca gente debatendo. Seja nas universidades, seja na imprensa – menos ainda, que virou um monopólio, uma fábrica de dinheiro, uma manipulação escrota dos interesses das classes dominantes brasileiras.

Então a sociedade tem que organizar para promover debates em algum lugar. Nem mesmo os sindicatos, que antigamente tinham uma tradição de muito debate. Hoje em dia é raro termos debates no meio sindical. Que dirá nas forças armadas; que também tinham uma tradição de debates, com nossos marinheiros, nossos sargentos da aeronáutica. Mesmo lá no Sul, nós tivemos na história uma participação muito importante.

Este ano nós estamos completando 50 anos da legalidade. Lá no Rio Grande nós estamos todos celebrando aquela efeméride porque mobilizou toda a sociedade. E hoje pode acontecer qualquer coisa no mundo, no Brasil e há uma apatia generalizada. Então me alegro que hajam grupos que estão retomando essa boa tradição do debate. E hoje, de maneira muito ampla, imagino que o tema principal seja o problema da propriedade da terra e da organização da produção agrícola do nosso país, que antigamente, inclusive, aparecia apenas como problema camponês, questão agrária. Mas que nas últimas décadas, pelo próprio processo de desenvolvimento do capitalismo, a questão agrária se tornou em uma questão da sociedade brasileira e tem a ver com todos nós, por mais que moremos em um apartamento no vigésimo andar. Pagaremos o preço ou não na solução desse problema.

Então, nessa introdução queria apenas compartilhar algumas ideias gerais que nós discutimos no MST, nas nossas escolas, na Via Campesina, para que tenhamos mais tempo para debate e troca de ideias, que sempre é mais frutífero. (Embora nós da esquerda sempre tenhamos aquela mania: dizemos que vamos fazer uma introdução e acabamos usando a maior parte do tempo para falatório e quando chega na hora do debate não tem mais tempo. Então vou ver se me disciplino na meia hora.)

Primeiro há um problema estrutural na nossa sociedade, que tradicionalmente se chama de questão agrária, ou problema agrário, que é a concentração da propriedade da terra. A terra é um bem da natureza, não é fruto do trabalho de ninguém, assim como são a água, o sol, o vento. Ninguém pode dizer: “eu quero meu pedaço de vento”. Mas infelizmente, como a terra não se mexe, o capitalismo industrial, no século XVIII, inventou a propriedade privada da terra. Porque os capitalistas que tinham sua origem no comércio e na indústria, quando foram para a agricultura, exigiram do Estado, burguês, uma garantia jurídica. E foi aí, então, que nasceu a propriedade privada da terra, sendo um bem da natureza. Portanto, como propriedade privada, é muito recente, porque o capitalismo no início tratou de introduzir a propriedade privada das mercadorias e do trabalho, depois é que foi para a agricultura.

Então há um problema na sociedade brasileira que a forma como as classes dominantes se apropriaram desse bem da natureza levou a uma alta concentração da propriedade. Combinou grandes propriedades, em concessão de uso com o trabalho escravo. Nós passamos quatrocentos anos onde havia praticamente um monopólio na propriedade da terra, para algumas pessoas. E depois, ao longo da nossa história, mesmo quando nós entramos no período da Revolução Industrial, ainda que tardia, na década de 1930, com o governo Getúlio, ao contrário de todos os outros países industriais que fizeram a reforma agrária como uma forma de desenvolver o mercado interno, aqui no Brasil – como a indústria também nasceu colada com os grandes proprietários de terra – eles nunca permitiram que fosse feita uma reforma agrária.

Então, nós nascemos mal da concentração e não tivemos capacidade nem vontade política para fazer uma reforma agrária que democratizasse a propriedade da terra. Voltando de novo à história do capitalismo, durante todo o século XIX e início do século XX, todos os países industriais e a burguesia industrial tomaram a iniciativa de fazer a reforma agrária, como uma maneira de, democratizando a propriedade da terra, ampliar o mercado interno para as mercadorias industriais. Na medida em que, ao democratizar o acesso à terra, os camponeses, que antes pagavam a renda da terra, ao livrarem-se dela, transformando-se em pequenos proprietários, transformaram-se também, automaticamente, em consumidores dos bens produzidos pela indústria.

O que pouca gente se lembra é que justamente a reforma agrária, quando ela nasceu com essa expressão, e, por isso é considerada a reforma agrária clássica, foi implementada pelas burguesias industriais. Primeiro na Europa Ocidental, depois nos Estados Unidos e a última grande reforma agrária clássica foi feita depois da Segunda Guerra Mundial no Japão e, inclusive, segundo a literatura, foi a reforma agrária mais radical que nós tivemos feita pela burguesia, com um agravante ainda: ela foi feita a mando militar pelo exército invasor dos Estados Unidos, sob o comando do general Arthur McCarthy, que impôs à sociedade japonesa uma reforma agrária como forma de quebrar os proprietários de terra feudais e expansionistas.

Então, entre 1945 e 46, até 1947, o exército americano impôs ao Japão uma reforma agrária que distribuiu terra para 4.000.000 de famílias e cada família recebeu até dois hectares de terra; acima de dois hectares todo mundo foi desapropriado porque a terra era considerada latifundiária. E isso foi a base econômica que transformou o Japão de um país arrasado pela guerra, talvez tenha sido, junto com a Rússia, o país que mais sofreu com os horrores da guerra; duas bombas atômicas. E em 40 anos eles se transformaram de novo em uma potência industrial, porque criaram um mercado interno democrático, todos os camponeses passaram a consumir bens industriais.

A burguesia industrial brasileira, por ter implementado um modelo de industrialização dependente, dependente das transnacionais, do capital estrangeiro, da tecnologia – há farta literatura sobre isso –, aqui no Brasil não quiseram fazer a reforma agrária porque, em vez de ganhar dinheiro com o mercado interno, mantiveram o processo de industrialização dependente, ou voltada para uma elite consumidora de luxo ou para o exterior. E por isso, talvez tenha sido, segundo Wladimir Pomar em um livro que publicou recentemente sobre os latifundiários do Brasil, o único país que se industrializou no século XX sem fazer reforma agrária. E esta é uma das causas do porquê que as cidades brasileiras se incharam durante o século XX. De 1930 a 80 nós tivemos um boom industrial, foi a economia industrial que mais cresceu naqueles 50 anos em todo o planeta, nós crescemos em média 7,6% ao ano durante 50 anos. Não há paralelo no século XX equiparado à nossa economia, no entanto, empurramos os pobres, em vez de para a reforma agrária, empurramos para a cidade, e vocês estão pagando o pato desse erro histórico das classes dominantes. Com cidades inchadas, onde se pode botar Jesus Cristo de governador e a Virgem Maria de prefeita, não se resolve mais, tal o agravamento dos problemas sociais que resultaram em nossas cidades.

Chegamos agora a essa etapa nova do processo sócio-econômico brasileiro em que depois da crise do capitalismo industrial na década de 1980. Da década de 1990 para cá nós entramos no período histórico em todo o mundo, inclusive somado à derrota dos países do Leste, socialistas, a uma nova etapa do capitalismo que foi chamada grosso modo de neo-liberalismo. Mas neo-liberalismo é apenas um rótulo, na verdade o capitalismo entrou em uma fase dominada pelo capital financeiro; é esta etapa que nós estamos vivendo e que Wilferd, Bukharin e o tal de Vladimir Ulianov haviam previsto para a década de 1930, mas que agora, do final do século para cá, é que veio se completar de forma plena, em que o capital financeiro é que domina toda economia. E domina no sentido de que o maior processo de acumulação de riqueza, embora siga sendo produzido pelo trabalho, na agricultura, na indústria, no comércio, o principal resultado desse processo de acumulação de riquezas acaba sendo acumulado na esfera do capital financeiro, por diversos mecanismos que eles passaram a operar da década de 1990 para cá. Então esse capital financeiro começou a tomar conta das várias esferas produtivas e nos últimos dez anos chegou na agricultura. E chegou na agricultura pelos bancos, pelas empresas transnacionais e tomou conta do processo da produção agrícola brasileira.

No Brasil e na maioria dos países agrícolas da periferia se produziu então, fruto dessa nova etapa do capitalismo, um novo modelo de produção agrícola, uma nova aliança de classes, entre os grandes proprietários de terra que se aliaram com as empresas transnacionais, que controlam os insumos agrícolas, a tecnologia, as máquinas, o mercado e controlam o preço dos produtos agrícolas; e com os bancos. Para dar alguns exemplos gerais, aqui no Brasil, esse setor da grande propriedade, que produz para exportação, produz mais ou menos R$ 120 – 130 bi por ano, por safra. Para ele produzir esse volume de produção, precisa tirar do banco em torno de R$ 100 bi, ou seja, na verdade o banco antecipa a maior parte do volume de produção, e para o fazendeiro depois vai ficar a diferença, os R$ 20 bilhões, com que ele paga porcamente a mão de obra e o resto fica com ele. Mas a maior parte da taxa de lucro produzida pelos produtos agrícolas acaba ficando, ou com o banco, pelos juros, ou pela empresa transnacional, que controla o preço e o mercado. Então, por exemplo, o Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja. Muito bem! Todo mundo bate palmas, a Globo incensa o agronegócio: “Agora somos o maior produtor de soja!” Sim. E quem fica com os lucros da soja para ser produzida neste território? Cinco empresas transnacionais: A Monsanto, a Bunge, a Cargill, a DuPont, e a ADM. Existe inclusive estudos calculando as taxas de lucro. Os proprietários de terra ficam com 8-9% da taxa de lucro e essas empresas ficam com 15 a 16% da taxa de lucro produzida pela soja.

Essa aliança entre os grandes proprietários de terra, os bancos  e as empresas transnacionais é o que se chama do modelo do agronegócio.

A grande imprensa, que é uma idiota, não tem ideia, só copia o que a classe dominante quer, acaba projetando que agronegócio é apenas uma operação comercial com mercadorias agrícolas, como se fosse um verbete. Não. Agronegócio é um modelo de produção agrícola imposto ao nosso país, resultante dessa nova aliança de classes, essas três classes que eu citei. E esse agronegócio se apropria das nossas terras, da nossa natureza (…)

Essas empresas estão preocupadas em produzir mercadorias e não alimentos, tanto é que todos aqueles alimentos que não dão lucro elas param de produzir. E, ao mesmo tempo, como é controlado por um oligopólio de poucas empresas, vocês devem ter percebido o que aconteceu esse ano, por exemplo: apesar da safra vir aumentando a cada ano no Brasil, os preços agrícolas continuam aumentando. No capitalismo concorrencial é o contrário: quando a produção sobe, os preços caem. Aqui no Brasil não, a produção sobe, os preços sobem também. Por quê? Porque as empresas que controlam o preço no mercado já o fazem no sistema de oligopólio, não é mais em concorrência. Então, depois que elas se apropriam do volume de produção botam o preço que querem, e quando elas não controlam a produção em si, mas elas controlam o mercado, impõem o preço de qualquer maneira.

Nós estamos vivendo na sociedade brasileira agora, além da herança anterior da propriedade da terra extremamente concentrada, e, portanto, antidemocrática, antipopular, uma nova situação, que não estava presente na época da reforma agrária clássica, que é o confronto entre dois modelos de como produzir na agricultura. De um lado nós temos o agronegócio, que é baseado nessa aliança, na grande propriedade, com o banco, com as empresas transnacionais, e de outro lado, nós teríamos a proposta da agricultura familiar, da Via Campesina, como nós dizemos internacionalmente, que é organizar a produção prioritariamente para alimentos, e alimentos saudáveis. Há um confronto permanente entre esses dois modelos, e esses dois modelos são antagônicos  nas suas propostas e nos seus resultados. A grande propriedade precisa a todo instante ir aumentando a sua escala, porque, como tem que dividir o lucro com o banco e com a multinacional, a maneira do proprietário se defender um pouco dessa transferência de renda que vai ter que fazer de qualquer maneira, porque ele pega dinheiro do banco, compra o adubo, compra a semente, compra uma máquina de uma multinacional, ele amplia o tamanho da sua propriedade, a cada ano ele quer aumentar a escala. O pequeno agricultor não precisa aumentar a escala, ele vai tentar desenvolver uma forma de produzir na mesma área de uma forma melhor. São duas visões: um quer aumentar a escala e o outro quer aumentar a produtividade. O pequeno agricultor tem que, necessariamente, dar emprego aos seus filhos, para os vizinhos, e, portanto, é uma agricultura intensiva de mão de obra; o grande proprietário do agronegócio, ao contrário, ele quer expulsar, ele quer se ver livre da CLT e colocar máquina. O pequeno agricultor vive no meio rural e conhece a natureza, então sabe que não pode agredí-la porque ela se vinga. Assim, ele tem que ter uma atitude de respeito com a natureza, porque é a vida dele, ele mora lá. O grande proprietário não mora na propriedade, mora no Rio de Janeiro, em São Paulo. 80% dos fazendeiros que têm mais de 2.000 hectares no Brasil moram em São Paulo – a Receita Federal tem até o nome e o endereço. Esse proprietário do agronegócio, ao invés de usar mão de obra e respeitar a natureza, usa veneno, o agrotóxico, que é produzido por uma multinacional. E esses venenos, como são de origem química, não são degradáveis, não se destroem. Eles destroem a fertilidade natural do solo porque matam aquelas bactérias, os micronutrientes que têm, consequentemente o agricultor fica mais dependente de adubos químicos na próxima safra. Ele mata todos os outros seres vegetais, todos os outros seres animais que há na área e ainda fica o resíduo no produto para nos matar devagarinho. Afinal, não podem nos matar de uma hora para a outra porque senão paramos de consumir. Então recebemos doses sistemáticas de venenos até que, um belo dia, descobrimos que estamos com câncer e daí colocamos a culpa em qualquer um, menos na Bayer, que é a verdadeira culpada.

Nós vivemos uma situação hoje onde o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de agrotóxico. Não há nenhum paralelo: nem de volume total, nem de relativo. O Brasil está consumindo 156 quilos de veneno por hectare. Não tem paralelo isso. Estamos consumindo, em média, cinco quilos por pessoa. Essa é cota de vocês, por ano. Todo este veneno é produzido por dez empresas, nove delas transnacionais. Algumas delas, inclusive, produzem fórmulas de veneno aqui no Brasil que já estão proibidas em seus países de origem. Então, para aproveitar a pesquisa, eles aplicam aqui ou, muitas vezes, até importam, como a Polícia Federal já apreendeu produtos importados pela Syngenta, venenos produzidos na Suíça, que lá foram proibidos. Eles, disfarçadamente, puseram outro nome: “leite em pó”, assim entrou pelo porto de Santos – sendo que é o mesmo veneno proibido na Suíça. Há também outras falcatruas: na semana passada, a Anvisa fez outra apreensão. Mas, no ano passado, ao total, a Anvisa conseguiu detectar 500 mil litros de veneno adulterado por estas três empresas: a Bayer, a Syngenta e a Basf. Claro que sobre uma coisa dessas só vai sair uma notinha minúscula nO Globo, daquelas que parecem anúncios de obituário. Todo o produto químico contém na embalagem um rótulo informando sua composição e a farsa se consistia em manter o rótulo indicando um conteúdo legalizado pela Anvisa, porém embalando um veneno muito mais potente e perigoso para o agricultor acreditar que aquele produto, sim, é o bom, é o que mata mesmo! No entanto, o conteúdo não condiz com o rótulo. É um duplo crime. Primeiro, porque é mentiroso. Depois porque se o agricultor se intoxica, a indicação médica é que leve junto o rótulo e, ao chegar no hospital,  o que há no rótulo é diferente daquilo com que ele foi contaminado.

Como a Anvisa conseguiu detectar? Os funcionários destas multinacionais, percebendo o engodo, ligaram para a agência e fizeram denúncia anônima.  De outra forma ninguém descobriria. Há heróis anônimos entre os operários que, sabendo o grau de toxicidade daquilo que está sendo vendido se animam a denunciar, então eles vão lá, fazem os testes e apreendem.

Esse mesmo agronegócio também não tem nenhuma responsabilidade com o meio ambiente. O que se pode perceber no debate do Código Florestal. O que eles querem mudar? Querem liberar que se derrube o mato até o rio, que não seja mais necessário respeitar o topo da montanha, justamente onde é feita a recarga do lençol freático e se ela estiver desprotegida escorre para a planície. A exemplo do que aconteceu na serra fluminense. A mudança que querem é para não precisar respeitar mais essas margens nem as reservas legais que são obrigados a manter onde há floresta nativa. Este é o principal objetivo das mudanças que querem impor. E se conseguirem – espero que o governo e a Dilma tenham bom senso para vetar – toda a sociedade brasileira vai pagar, muito caro. Porque as consequências do desequilíbrio do meio ambiente, não são apenas nas lavouras, se vai chover mais ou menos, são para as cidades. Alguns programas de televisão mais sérios convidaram cientistas que explicaram: As chuvaradas que caíram tão forte na serra (fluminense) vieram da Amazônia, porque se formou um verdadeiro rio celestial (sic), lá jã não há mais controle: onde havia floresta agora só há soja, e onde há soja matam tudo com veneno. Imaginem uma fazenda de 240.000 hectares onde se joga veneno de um avião, matam tudo, só sobra a soja. Evidentemente isso gera um desequilíbrio. Consequentemente, no período de chuva, ao invés da chuva cair sobre lá e se distribuir de maneira homogênea como acontecia, ela forma um rio celestial que são casualmente carregados para o Sudeste, São Paulo e Rio de Janeiro, dependendo do movimento dos ventos. Então, se quisermos evitar desastres aqui, temos que preservar a Amazônia.

Voltando à questão agrária. Hoje no Brasil nós temos esses dois problemas fundamentais: um é a concentração da propriedade, o que é um absurdo, uma vez que afronta o espírito da nossa Constituição, que é boa neste sentido e determina que todas as propriedades sejam produtivas, respeitem o meio ambiente, não tenha trabalho escravo, respeite os trabalhadores, e as que descumprirem devem ser desapropriadas para serem distribuídas para os trabalhadores. E de outro lado nós temos o confronto entre duas visões, entre dois modelos de produzir na agricultura: um modelo dos pequenos agricultores e o outro modelo do agronegócio, que só quer ter lucro, sem nenhuma responsabilidade, nem com seus trabalhadores, nem com o ambiente, nem com a sociedade em geral, porque só conseguem produzir com muito veneno, que, repito, não é um problema só da propriedade deles. Na maioria dos países da Europa, inclusive, já está proibida a pulverização aérea. Aqui no Brasil 25% de todo o veneno utilizado é pulverizado por avião. Depois que vai para a atmosfera, claro que a maior parte pode cair naquele território, mas uma vez na atmosfera, encontram água. No início deste ano ocorreu uma chuva ácida na praia de Florianópolis. Foi feita uma pesquisa em laboratório e constataram que tratava-se de veneno vindo de lavouras de soja do Mato Grosso; atingindo uma população litorânea em Florianópolis. Isso nunca tinha acontecido na história da cidade, pelo que se lembre a população mais antiga. Mas o Professor Vanderlei Pignatti, um grande cientista que vem há anos pesquisando o efeito dos agrotóxicos na natureza e na saúde humana na Universidade Federal do Mato Grosso, acabou de publicar uma pesquisa de 10 anos – que até a Globo teve que repercutir – onde ele encontrou 6 tipos de agrotóxicos no leite materno das mães da cidade de Lucas do Rio Verde; não eram agricultoras nem moravam no depósito de veneno, mas pessoas comuns que moram naquela localidade que é cercada por plantações de soja. Portanto, ficou constatado que o avião passa e o veneno fica para todo mundo. As pessoas vão se alimentando e próprio leite materno que achávamos ser o melhor antibiótico natural do mundo, agora vem com seu conta-gotas de veneno, para já ir acostumando as crianças. O resultado disso, só para assustá-los mais um pouco, é que nossos amigos do Instituto Nacional do Câncer já revelaram em vários artigos que a estimativa é o surgimento de 40 mil novos casos de câncer de estômago no Brasil, sendo que metade vai a óbito. E o que mais chamou a atenção desses especialistas é que antigamente o câncer aparecia nas pessoas de mais idade em decorrência do envelhecimento natural das células. Agora o câncer aparece em crianças com 8, 10, 15 anos, o povo brasileiro de todas as idades está pagando. Mas ninguém vai responsabilizar a Bayer, a Syngenta, a Basf… Colocamos a culpa em uma desgraça, “Deus não me protegeu”, “faltei várias sessões do Candomblé” e me deu este problema. Quando, na verdade, é um problema do sistema. Hoje a situação que enfrentamos nos movimentos camponeses é que temos que fazer uma luta muito mais difícil, não é mais apenas lutar contra os latifundiários e, atrasados, o grande proprietário de terra, que era a luta passada, até a década de 1960/70. A luta era pela democratização da terra. Agora temos que lutar contra a concentração da terra e, ao mesmo tempo, fazer uma luta contra o modelo agrícola, que, no fundo, é enfrentar um bando, uma transnacional, é ter que falar mal da Bayer. Para dar outro exemplo, o Dantas, que mora na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro) nunca viu um pé de milho na vida dele, apesar de já ter sido pobre. Mas como banqueiro, depois de rico, duvido que ele tenha chegado a menos de um quilômetro de um pé de milho. Ele é um banqueiro que administra um fundo de investimento de um banco americano. Com este fundo de investimento ele comprou em três anos no Sul do Pará cinquenta e seis fazendas, seiscentos mil hectares, e colocou um milhão de cabeças de gado – não se tem notícia de que banco ganhe dinheiro com zebu na história do capitalismo, banco ganha dinheiro com juros. Então deve haver alguma outra razão do porquê de uma conta de investimentos americana resolve comprar terras no Brasil e usou o tal banqueiro como testa de ferro. Ele comprou essas cinquenta e seis fazendas em nome desse fundo de investimento. Nós ocupamos cinco fazendas dele. A notícia saiu primeiro no New York Times e o jornal O Globo só repercutiu que saiu no New York Times. Em outra fazenda, a Santa Bárbara, que tinha até campo de aviação, nós tínhamos um acampamento na frente, umas mil famílias. Um capataz resolveu fazer um despejo do nosso acampamento, despejo violento, tentaram fazer. Mas o que me causou estranhamento foi que a equipe de reportagem da Globo chegou de helicóptero um dia antes do despejo. Não havia ordem judicial nenhuma para o despejo, até porque estávamos acampados na beira da estrada. Agora notem as ilações que há dos proprietários de terra lá no fundo do Pará. Quem vai ter notícias de onde é que fica Eldorado dos Carajás? Nós ocupamos uma área lá do fim do mundo, na fronteira agrícola, que teoricamente não interessaria às forças do capital, mas, mesmo assim, lá surge a Globo para defender, surge o New York Times, e nós é que viramos os bandidos.

Essas são as dificuldades que estamos enfrentando agora na Reforma Agrária: não basta mais apenas lutar pela democratização da propriedade, mas precisamos lutar contra o modelo perverso por trás do qual há forças do capital muito mais poderosas do que antes com o latifúndio. E isso nos leva também a mudar a visão de Reforma Agrária, que é a reflexão interna que nós fizemos no movimento, que também agora não basta mais só distribuir a terra. Na década de 1960, aquela proposta generosa, que até agora é a melhor no meu ponto de vista, do Celso Furtado, anunciada por João Goulart na Central do Brasil no dia 13 de março de 1964. Aquela proposta era a proposta de uma reforma agrária clássica, inclusive muito sábia por parte de Celso Furtado, porque ele defendia naquela lei que deveriam ser desapropriadas apenas as fazendas acima de 500 hectares, portanto estabelecia limite de tamanho, 10 quilômetros ao lado das BR’s, das ferrovias e dos açudes públicos. A ideia era transformar o camponês em abastecedor e consumidor das cidades, integrá-lo ao mercado. Essa era a ideia da reforma agrária clássica, muito generosa, que foi transformada em proposta de lei e, dezoito dias depois, derrubaram João Goulart, um dos motivos foi esse, embora não o único.

Agora, uma reforma agrária que só distribui terras não tira o pobre da pobreza porque o modelo de produção está controlado por grandes capitalistas, então na nossa proposta, que é o que estamos debatendo com o Governo Dilma, é que temos que incorporar outros elementos como o Programa de Agroindústria, para que o agricultor que recebe a terra quando produza não fique dependente de vender apenas a matéria-prima apenas para alguma multinacional. Ao invés de produzir leite e ter que vender in natura para a Nestlé pagar apenas cinquenta ou sessenta centavos por litro, não há empecilho nenhum em termos um pequeno laticínio em cada comunidade agrícola, ele pasteuriza e vende na cidade a R$ 1,20, ainda assim vai ser mais barato do que a Nestlé vende no Walmart. Mas a única maneira do agricultor sair da pobreza com leite é se ele for dono do laticínio, se ele participar da pasteurização. Se ele continuar vendendo leite in natura não vai sair da pobreza nunca. A agroindústria é fundamental para que esses pobres do campo saiam da pobreza. Segundo elemento: a educação. Tão importante quanto democratizar a terra é democratizar a escola. Nos últimos dez anos as prefeituras fecharam no Brasil 24 mil escolas e substituíram por kombis que buscam as crianças, quando chove não podem ir. Isto é uma vergonha, um assassinato da cidadania das crianças do meio rural. Nós temos que levar a escola aonde o povo mora e não o contrário, trazer o povo para a cidade, é uma maneira de simular o êxodo. Faz-se necessária, então, a democratização da educação, não apenas do nível fundamental, mas todos os níveis. E, terceiro, temos que combinar com um vigoroso programa de difusão das técnicas de agroecologia. Já há ciência e conhecimento científico acumulado que nos permite produzir sem veneno, sem baixar a produtividade, mas tem que ser disseminado entre a população. Ninguém nasce sabendo. Existe o conhecimento, mas está ainda restrito e precisamos amplificá-lo entre os agricultores. Técnicas que nos permitem produzir alimentos saudáveis, sem venenos e respeitando o meio ambiente. E por último, um grande programa de reflorestamento. É verdade que os grandes agricultores e os próprios assentados ou recebem terras degradadas ou, por ignorância, vão derrubando as árvores até  o corte. Qual seria a solução “milagrosa” do ex-comunista Aldo Rebelo? “Já que derrubaram, vamos incentivá-los a que continuem!”. Ao invés de legalizar um problema que vai afetar todos nós , o que devemos criar é um programa de incentivos para que se recupere as matas ciliares, na beira dos córregos e nos topos das montanhas. E para isso precisa-se de dinheiro público, precisa-se de um programa. A reforma agrária não é só dividir um quadrado burro, como se diz no INCRA, ela deve vir combinada com esses quatro programas, dessa forma, sim, produziremos alimentos saudáveis, recuperaremos a cidadania entre os pobres do campo e construiremos uma sociedade mais democrática. Sem isso continuaremos tendo graves problemas com o êxodo rural e com a pobreza no campo.

* Otávio Brum é jornalista

Guilherme Kolling

Marcelo G. Ribeiro/JC

''Brizola foi o primeiro homem público que fez uma lei de reforma agrária'', afirma Stédile.
”Brizola foi o primeiro homem público que fez uma lei de reforma agrária”, afirma Stédile.

Nome mais conhecido do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile avalia que o Brasil tem uma democracia apenas formal, em que, apesar do direito ao voto, a população não conquistou igualdade de oportunidades. Crítico das diferenças sociais entre ricos e pobres, o líder do MST fala, nesta entrevista ao Jornal do Comércio, sobre as raízes do ativismo pela reforma agrária, das dificuldades do MST com a mudança no perfil da agricultura brasileira e projeta o futuro do movimento. Vê avanços no projeto dos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff, que, para ele, estão substituindo o neoliberalismo pelo “neodesenvolvimentismo”. E aponta que falta envolvimento da sociedade e debate na imprensa e na universidade sobre o modelo de desenvolvimento do Brasil.

Jornal do Comércio – Qual é a sua avaliação do atual momento econômico do Brasil?
João Pedro Stédile –
O governo Lula fez uma política macroeconômica de reconciliação de classes. Garantiu os ganhos para aqueles 5% mais ricos e tirou da miséria os 40 milhões que dependem do Bolsa Família. E freou o neoliberalismo, recuperou o papel do Estado, do Bndes (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que financiava privatizações, agora financia fábricas. O governo Dilma ganha as eleições no bojo da continuidade. Porém, isso tem limite. Não dá mais para apenas distribuir renda através do Bolsa Família. Tem que mudar o modelo. E tem que mexer na taxa de juros.

JC – E essa proposta no atual cenário de aumento de inflação?
Stédile –
Esse projeto neodesenvolvimentista da Dilma saiu perdendo para os setores conservadores do governo, que ganharam o primeiro round contra a inflação ao fazer um corte de R$ 50 bilhões no orçamento e ao aumentar a taxa de juros em 1 ponto percentual. O aumento da taxa Selic é uma burrice. Quem vai bater palma são os bancos, o resto da sociedade vai pagar para eles.

JC – Falta debate sobre o modelo de desenvolvimento?
Stédile –
A imprensa tem que ser mais criativa, propor o debate. Tem que discutir problemas de fundo, o agrotóxico – ninguém escapa, vai pegar também donos de jornal, de televisão, o câncer pega todo mundo. E levar esse debate para a universidade, que está de costas. Levar para as igrejas. Enfim, um mutirão de debate político e social. Estamos num momento de letargia na sociedade. Nem nas campanhas eleitorais se discute projetos.

JC – Qual é a sua avaliação da democracia brasileira?
Stédile –
É uma democracia formal, em que o povo brasileiro ganhou o direito de votar. Mas a população quer as mesmas oportunidades. Então, quando todo o povo brasileiro tiver a oportunidade de entrar na universidade, uma moradia digna, uma informação honesta, cultura, e não depender do Bolsa Família, aí viramos uma sociedade democrata.

JC – Falta igualdade na democracia brasileira?
Stedile –
Sem dúvida. A sociedade brasileira é a terceira mais desigual do mundo. É por isso que não consegue ser democrática.

JC – Como o senhor iniciou na luta pela reforma agrária?
Stédile –
Na Comissão Pastoral da Terra (CPT). Em 1978, Nonoai (RS), uma área indígena, tinha 700 posseiros pobres. E os índios se organizaram e expulsaram os posseiros, que, da noite para o dia, estavam na beira da estrada. Então, comecei a organizá-los, porque parte queria voltar para as terras indígenas, e aí dava morte; outra parte queria ir para o Mato Grosso, que era a proposta do governo. Nosso trabalho na militância social era: quem quiser continuar trabalhando aqui no Rio Grande, tem terra. E reivindicamos duas áreas públicas, remanescentes da reforma agrária do (ex-governador Leonel) Brizola, que tinham sido griladas.

JC – O senhor já falou da importância do Brizola para a reforma agrária. Foi na gestão dele o embrião desse movimento?
Stédile –
O embrião foi a colonização europeia no Rio Grande. Deu uma base para a democratização da propriedade, eles pegavam de 25 a 40 hectares, nem menos, nem mais. Isso criou uma base de sociedade mais justa. Não é por nada que Caxias do Sul tem um PIB mais elevado que o de toda a Metade Sul. Na década de 1960, Brizola retomou esse embate e foi o primeiro homem público que fez uma lei estadual de reforma agrária. Foram ocupadas muitas fazendas, a mais importante delas foi a Sarandi, tinha 24 mil hectares.

JC – E a denominação Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra?
Stédile –
De 1978 até 1984, em todo o Brasil, a CPT começou a juntar as lideranças desses movimentos e a fazer encontros. Quem deu a marca de Movimento dos Sem Terra foi a imprensa – começou a se noticiarem acampamentos dos “colonos sem-terra.” Quando fundamos o movimento nacional, em janeiro de 1984, já havia essa marca. Incluímos uma questão de classe: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

JC – Como está o MST hoje?
Stédile –
O MST sofreu percalços nos últimos 10 anos, houve mudanças na agricultura. Até a década de 1980, o que dominava era o capitalismo industrial. E o latifúndio improdutivo era uma barreira. Quando ocupávamos o latifúndio improdutivo, a burguesia industrial nos apoiava, porque éramos o progresso. A minha turma dividia terras, ia para o banco comprar máquinas, geladeira… E, na essência, essa é a proposta da reforma agrária clássica: dividir a área improdutiva para ela desenvolver as forças produtivas. Por isso, na maioria dos países da Europa, nos Estados Unidos e no Japão, quem tomou a iniciativa de fazer a reforma agrária foi a burguesia industrial, não os camponeses.

JC – Quais foram as mudanças no Brasil?
Stédile –
O movimento nasceu na década de 1980 no contexto de reforma agrária clássica. Por isso a burguesia industrial e a imprensa nos toleravam: “Ah, está certo, tem que ocupar mesmo.” Com o neoliberalismo, houve uma expansão das empresas transnacionais e do capital financeiro que veio tomar conta da nossa agricultura, desde os anos 1990. Quem tem a hegemonia da agricultura não é mais o capital industrial. Tanto que, na década de 1970, a economia brasileira vendia 80 mil tratores por ano. Quem comprava? O pequeno agricultor. Sabe qual foi a venda de tratores no ano passado? 36 mil. Então, aumentou a potência do trator e diminuiu o mercado. É um absurdo.

JC – Como isso afeta o MST?
Stédile –
Hoje, quando tem um latifúndio improdutivo, as grandes empresas transnacionais também chegam para disputar com a gente. Quando tentamos ocupar a Fazenda Ana Paula, 18 mil hectares improdutivos, acampamos e fomos despejados. Aí, a Aracruz comprou e encheu de eucaliptos. Quantos empregos gerou? Nenhum. Faz sete anos que tem eucalipto lá. Nenhuma renda para o município. Mas a Aracruz vai ganhar muito dinheiro no dia em que colher aquele eucalipto. Então, agora o MST enfrenta barreiras… Mudaram os inimigos de classe.

JC – E encolheu o MST?
Stedile – Não, o movimento até que aumentou, mas a luta ficou mais difícil. Para desapropriar uma área ficou mais difícil, porque a força desses capitalistas pressiona para não ter desapropriação. Querem empurrar os pobres do campo para a cidade.

JC – Como o senhor projeta o futuro do movimento, com a presidente Dilma?
Stedile –
As vitórias do governo Lula (PT) e Dilma colocaram uma barreira ao neoliberalismo. Há uma tentativa de reconstruir o modelo de desenvolvimento, com lugar para mercado interno, distribuição de renda e indústria nacional. Mas isso ainda é uma vontade política. No nível macro, está havendo mudanças de rumo: não é mais o neoliberalismo, agora é o neodesenvolvimentismo. Na agricultura, estamos iniciando esse grande embate entre o modelo do agronegócio e o da agricultura familiar. Nossa esperança é que nos próximos dez anos a sociedade perceba que o agronegócio é inviável.

JC – Por quê?
Stédile –
Economicamente porque os únicos que ganham são as transnacionais. Pode dizer: “o Rio Grande produz 10 milhões de toneladas de soja”. E quem fica com o lucro se a soja sai daqui em grão? Voltamos a ser um simples exportador de grãos. Temos que exportar é o óleo de soja. A longo prazo, esse modelo de monocultura, que só beneficia a exportação, é inviável. Ou seja, não agrega valor e não distribui renda, concentra. E expulsa a população do campo. E, terceiro, o agronegócio tem uma contradição com o meio ambiente: só produz com veneno, que mata o solo, os vegetais e o ser humano pelos alimentos contaminados. Então, é uma questão social, e econômica e ambiental.

JC – Se o governo federal promover o assentamento reivindicado para as famílias sem terra, como fica o MST?
Stédile –
Vamos continuar lutando contra o latifúndio. Mas, ao mesmo tempo, temos que desenvolver, nas áreas de assentamento, programas que combinem com esse novo modelo: ter agroindústria, laticínio, reflorestar áreas degradadas, produzir alimentos saudáveis… Esse novo caminho que vamos trilhar é seguir a luta contra o latifúndio, implantando um novo modelo nos assentamentos.

JC – Isso depende mais do governo ou da sociedade?
Stedile –
Depende dos pobres do campo lutarem; do governo ter essa vontade política de deixar o agronegócio para o mercado, as políticas públicas de agricultura têm que estar voltadas para o pequeno agricultor; e depende de a sociedade perceber que a luta pela reforma agrária não pode ser criminalizada, porque é o progresso. É para garantir emprego, renda e comida farta e saudável. Tudo que o agronegócio não consegue.

JC – Como o senhor avalia o papel da imprensa nesse processo?
Stedile
– Os quatro grandes grupos que controlam a imprensa no Brasil – Rede Globo, Estadão, Folha de S. Paulo e o grupo Abril – estão a mercê dos interesses do grande capital, das multinacionais e do capital financeiro. Para eles, não só o MST mas qualquer movimento social que lute contra esse modelo se transforma em inimigo. Quando os operários voltarem a lutar como fizeram em Jirau (usina que está em construção no Rio Madeira, em Rondônia), a hora que os sem-teto voltarem a lutar, a imprensa vai chamá-los de vândalos. Ninguém foi a Jirau pesquisar como os operários estavam vivendo. Mas quando colocaram fogo, a primeira coisa que fizeram foi chamá-los de vândalos. É um caso exemplar de como a imprensa criminaliza e tenta derrotar ideologicamente qualquer luta social.

JC – Mas tem havido perda de apoio de setores mais urbanos da sociedade, especialmente a partir de episódios de violência em ações do MST.
Stedile –
O movimento é contra qualquer tipo de violência, sobretudo, contra pessoas. Mas na mobilização de massas sempre há fatores incontroláveis.

JC – Qual é o seu conceito de burguesia?
Stedile –
A burguesia brasileira é aquele 1%, com as 5 mil famílias que controlam 48% do PIB brasileiro e que são subordinadas ao capital internacional. São as 100 maiores empresas que tiveram lucro de R$ 129 bilhões para dividir entre eles.

João Pedro Stédile, 57 anos, nasceu em Lagoa Vermelha (RS). Passou a infância e a adolescência no Interior, com a família, que produzia uva, trigo e produtos de subsistência. Aos 17 anos, veio para Porto Alegre estudar. Cursou Economia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) e formou-se em 1975. Estagiou e depois fez concurso para a Secretaria da Agricultura. Atuou na Comissão Estadual de Planejamento Agrícola (Cepa), estimulando o cooperativismo e viajando por todo o Estado.
Ficou na Secretaria de Agricultura até 1984. Paralelamente, atuava junto aos sindicatos dos produtores de uva da região de Veranópolis, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, a quem assessorava em um plano de cálculo do custo de produção. Sua militância foi influenciada pela Igreja, através Comissão Pastoral da Terra (CPT), onde atuou e através da qual se envolveu na questão da terra.
Com a redemocratização, nos anos 1980, diversos grupos, em todo o Brasil, se reuniram e formaram em janeiro de 1984 o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que luta pela reforma agrária e do qual Stédile é considerado um dos fundadores – embora não goste disso – e integra até hoje a coordenação nacional. Ele está radicado em São Paulo.

Fonte: Jornal do Comércio