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Cuidado com os salvadores da pátria

 

 

 

 

 

 

Saiu no JB Online artigo de Mauro Santayana:

 

O joio, o trigo e a razão

Mauro Santayana
A situação criada com as numerosas manifestações, no Brasil, nas últimas semanas, não se resolverá com a reunião realizada ontem (segunda-feira) em Brasília, da Presidente Dilma Roussef, com governadores e prefeitos de todo o país – embora o encontro seja um importante passo para atender às reivindicações dos que foram às ruas.
Seria fácil enfrentar a questão, se as pessoas que vêm bloqueando avenidas e rodovias – levantando cartazes com todo o tipo de queixas – fossem apenas multidão bem intencionada de brasileiros, lutando por um país melhor.
A Polícia Civil de Minas Gerais já descobriu que bandidos mascarados, provavelmente pagos, recrutados em outros estados, têm percorrido o país no rastro dos jogos da Copa das Confederações, provocando as forças de segurança, a fim de estabelecer o caos.
Mensagens oriundas de outros países, em inglês,  já foram identificadas na internet, como parte da estratégia que deu origem às manifestações.
É preciso separar o joio do trigo. Além do Movimento Passe Livre, com sua postulação clara e legítima, há cidadãos que ocupam as ruas, com suas famílias, para manifestar  repúdio à PEC-37, que limita o poder do Ministério Público, ou para exigir melhoria na saúde e na educação.
E há outros que pedem a cabeça dos “políticos”, como se eles não tivessem sido legitimamente eleitos pelo voto dos brasileiros. Esses pregam a queda das instituições,  atacam a polícia e depredam prédios públicos, provavelmente com o intuito de gerar material para os correspondentes e agências internacionais, e ajudar a desconstruir a imagem do país no exterior.
O aumento brusco do dólar, a queda nos investimentos  internacionais, a diminuição do fluxo de turistas em eventos que estamos sediando, como a visita do Papa, a Copa e as Olimpíadas, não prejudicará só o Governo Federal, mas também as oposições, que governam alguns dos maiores estados e cidades do país, e  dependem da economia para bem concluir os seus mandatos.
Os radicais antidemocráticos  se infiltram, às centenas, no meio das manifestações e nas redes sociais, para pregar o ódio irrestrito à atividade política, aos partidos e aos homens públicos, e a queda das instituições republicanas. Eles não fazem distinção, posto que movidos pela estupidez, pelo ódio e pela ignorância,  entre situação e oposição, entre esse ou aquele líder ou partido.
Eles apostam no caos que desejam. Querem ver o circo pegar fogo para, depois, se refestelarem com as cinzas. Não têm a menor preocupação com o futuro da Nação ou com o destino das pessoas a que incitam à violência agora. Agem como os grupos de assalto nazistas, ou os fascistas italianos, que atacavam a polícia e os partidos democráticos nas manifestações, para depois impor a ordem dos massacres, da tortura, dos campos de extermínio, dos assassinatos políticos, como o de Matteotti.
Acreditar que o que está ocorrendo hoje pode beneficiar a um ou ao outro lado do espectro político é ingenuidade. No meio do caminho, como mostra a História,  pode surgir um aventureiro qualquer. Conhecemos  outros “salvadores da pátria”  que atacavam os “políticos”, e trouxeram a corrupção, o sangue, o luto, a miséria e o retrocesso ao mundo.
O encontro de ontem entre a Chefe de Estado, membros de seu governo e os governadores dos Estados é o primeiro passo em busca de um pacto de união nacional em defesa do regime democrático, republicano e federativo. A presidente propôs consultar a população e a convocação de nova assembléia constituinte a fim de discutir, a fundo, a reforma política, que poderá, conforme as circunstâncias, alterar as estruturas do Estado, sem prejudicar a sua natureza democrática.
É, assim, um entendimento que extrapola a mera questão administrativa – de resposta às reivindicações dos cidadãos honestos que marcham pelas ruas – para atingir o cerne da questão, que é política.  Há outras formas de ação da cidadania a fim de manifestar suas idéias e obter as mudanças. A proposta popular de  emenda constitucional, como no caso da Ficha Limpa. Cem mil pessoas que participam de uma manifestação, podem levantar 500 mil assinaturas em uma semana, a fim de levar ao Congresso uma proposta legislativa.
Não é preciso brincar com fogo para melhorar o país.

 

No início de 1970, quando a repressão do ditador Médici estava desembestada, foi-me passada uma nova aliada, que nem me lembro quais serviços andou prestando para nós da VPR.

O inusitado era a figura da mulher, uma idosa simpática e robusta, com ânimo invejável. Voz forte e calorosa. Gestos desinibidos, espalhafatosos. Jeitão de quem lidava ou lidara com as artes.
Simpatizei muito com ela. Mas, não tinha, nem de longe, a forma de ser e o discurso de quem apoiava a luta armada. Conseguia imaginá-la em passeatas, nunca na resistência clandestina.

Por mera curiosidade –dela não tive um pingo de suspeita– indaguei o motivo de ter decidido nos ajudar. A resposta me deixou arrepiado, foi algo mais ou menos assim:

Meu tempo de discutir linhas políticas já passou. Agora, tenho de acreditar nos jovens e apoiar o que eles estão fazendo. Vocês são nossa única esperança.
É como me sinto em relação às manifestações de protesto contra antigos torturadores, articulados pela internet e levadas a cabo pelo movimento Levante Popular da Juventude em sete capitais brasileiras, nesta 2ª feira (26).
Carregamos o bastão há décadas, era mais do que tempo de passá-lo às novas gerações. Devemos encarar sua entrada na luta como sopro renovador, coroamento dos nossos esforços e estímulo para perseverarmos: sabemos agora que o sacrifício dos resistentes dos anos 60 e 70 continuará servindo de inspiração para os que travam o bom combate e que nossos mortos continuarão sendo honrados quando nós mesmos já não o pudermos fazer.

Então, deploro a rabugice de Ivo Herzog, diretor do Instituto Vladimir Herzog, que fez questão de rechaçar os invasores de sua praia numa declaração, pra lá de infeliz, que deu ao jornal da  ditabranda:

Sou contra esse tipo de protesto. Quem tem que dizer quem torturou é o poder público. A sociedade deve se manifestar, mas pichar a calçada das pessoas é vandalismo.

Era exatamente o que o pessoal do PCB dizia de nós em 1968, quando tudo fazia para convencer sua militância a  manter a compostura, não se misturando com  baderneiros.
Acontece que o poder público vem se omitindo covardemente, vergonhosamente, repulsivamente, desde 1985. Agora mesmo, é patética a demora para serem definidos os membros e empossada a Comissão da Verdade.
Então, meu coração e meu teclado estão ao lado dos jovens manifestantes.
E vou rir muito quando eles se posicionarem diante do Clube Militar do RJ em pijamas, debochando desses golpistas de outrora que insistem em enaltecer até hoje o despotismo.
Também aí o poder público está sendo extremamente omisso. Nos países civilizados, quem exalta o nazismo e nega o Holocausto é merecidamente processado e chega a cumprir pena de prisão.
Aqui se permite que exaltem quarteladas, façam apologia do terrorismo de estado e achincalhem heróicos resistentes com a maior sem cerimônia. (por Celso Lungaretti)

#desarquivandoBR

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Quando dirigia a Faculdade de Direito, João Grandino Rodas colocou a tropa de choque para desalojar manifestantes. Também já recebeu uma condecoração de oficiais da reserva do Exército, defensores da “Revolução de 64″

Por Ana Paula Salviatti

Ao resgatarmos a Memória da ditadura militar brasileira (1964-1985) encontramos no meio da história o nome do atual reitor da Universidade de São Paulo (USP), João Grandino Rodas. Entre 1995 e 2002, Rodas integrou a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e esteve diretamente ligado à apuração da morte de alguns militantes de esquerda, dentre eles a estilista Zuzu Angel, caso em que os militares foram inocentados.

Enquanto diretor da Faculdade de Direito, Rodas foi primeiro administrador do Largo São Francisco a utilizar o aparato policial, ao requisitar, ainda na madrugada do dia 22 de agosto de 2007, a entrada de 120 homens da Polícia Militar, inclusive da tropa de choque, para a expulsão de manifestantes que participavam da Jornada em Defesa da Educação, na qual estavam presentes representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de estudantes e membros de diretórios acadêmicos, os quais foram fichados e levados à delegacia, com um tratamento ofensivo em especial aos militantes dos movimentos populares.

Também foi Grandino Rodas que, ainda na gestão do governador José Serra (2006-2010), lavrou o documento que viabilizava a entrada da PM no campus da USP, em 2009. Durante sua administração na Faculdade de Direito, tentou sem sucesso a implementação de catracas para impedir o acesso de gente “estranha” ao prédio da instituição. Em seu último dia na direção da Faculdade de Direito, Rodas assinou a transferência do acervo da biblioteca para um prédio próximo à Faculdade, o qual não possuía perícia para tanto, apresentava problemas com a parte elétrica, hidráulica e inclusive com os elevadores. Tudo isso feito sem consultar sequer o corpo burocrático da Faculdade.

Ainda durante a gestão de José Serra, Grandino Rodas foi escolhido reitor da USP através de um decreto publicado no dia 13 de novembro de 2009. Seu nome era o segundo colocado numa lista de três indicações. Ou seja, Rodas não foi eleito pela comunidade acadêmica. A última vez que o governador do Estado impôs um reitor à Universidade — utilizando-se de um dispositivo legal criado no período militar e que está presente na legislação do Estado de São Paulo até hoje — foi durante a gestão do governador biônico Paulo Maluf, que indicou Miguel Reale para assumir a Reitoria da USP entre 1969 e 1973.

Na gestão de Rodas, estudantes têm sido processados administrativamente pela Universidade com base em dispositivos instituídos no período militar. Num dos processos, consta que uma aluna — cujo nome ficará em sigilo — agiu contra a moral e os bons costumes. Dispositivos como estes foram resgatados pela USP.

Em agosto de 2011, João Grandino Rodas assinou um convênio com a Polícia Militar para que esta pudesse entrar na Universidade. O reitor também recebeu o título de persona non grata por unanimidade na Faculdade de Direito, que apresenta uma série de denúncias contra a gestão do ex-diretor, acusando-o de improbidade administrativa, entre outros crimes. Recentemente, um novo ocorrido, a princípio um incidente, podia ser visto no campus ao ser lido na placa do monumento que está sendo construído na Praça do Relógio uma referencia à “Revolução de 64”, forma como os setores militares e demais apoiadores do golpe militar se remetem à ditadura vivida no Brasil.

Rodas também é atualmente investigado pelo Ministério Público de São Paulo por haver contratado sem concurso público dois funcionários ligados ao gabinete da Reitoria, sendo um deles filho da ex-reitora Suely Vilela. Contra Rodas também pesam denúncias de mau uso do dinheiro público. E, por último mas não menos importante, Grandino recebeu a medalha de Mérito Marechal Castello Branco, concedido pela Associação Campineira de Oficiais da Reserva do Exército (R/2) do NPOR do 28° BIB. O Marechal que dá nome à honraria, não custa lembrar, foi o primeiro presidente do Estado de Exceção vivido no país a partir de 1964.

Todas estas informações foram lembradas. No entanto, muitas outras lotam o Estado em todas as suas instituições, todos os dias, graças ao processo de abertura democrática do país, que não cumpriu o seu papel de resgatar a Memória e produzir uma História que reconfigurasse e restabelecesse os acontecimentos do regime, possibilitando a rearticulação das inúmeras ramificações do Estado, como foi feito no Chile, Argentina e mais recentemente Uruguai. A consciência dos cidadãos passa pelo tribunal da História que, ao abrir as cicatrizes não fechadas, limpa as feridas ao falar sobre as mesmas dando a cada um o que é lhe de direito.

As diversas vozes que exclamam a apatia nacional frente às condutas políticas sofrem deste mesmo mal ao não relembrarem que a história do país conduzida por “cima” não expulsou de si seus fósseis, e sim os transferiu de cargo, realocou-os em outras funções. Os resgates da imprensa são limitados às Diretas Já e ao Impeachment de 1992. Se a memória que a mídia repõe é a mesma que se debate no cotidiano, então nosso país sofre de perda de memória e , junto disso, de uma profunda inaptidão crítica de suas experiências, dando assim todo o respaldo ao comumente infundado senso comum.

Ao levantarmos o passado, constata-se que o anacronismo não está só nas inúmeras manifestações que acontecem no meio universitário, no caso a USP, mas em todas as vezes em que não são cobertas pelo noticiário as inúmeras reintegrações de posse feitas em comunidades carentes, nas manifestações que exigem a reforma agrária, nas reivindicações que exigem moradia aos sem-teto. O anacronismo está presente nas inúmeras invasões sem mandado judicial que ocorrem em todos os lugares onde a classe média não está, no uso comum de tortura pelas Polícias Militares em um Estado que se reivindica democrático, nos criminalizados por serem pobres e negros, naqueles que são executados como Auto de Resistência pelas Polícias Militares, e a lista segue. Vive-se a modernização do atraso nas mais diversas formas e matizes.

O tempo se abre novamente e aguarda o resgate da Memória e a reconstrução da História. O país tem uma dívida a ser paga com seu passado, e eis que, finalmente, a Comissão da Verdade vazia de sentido ao ser apresentada pelos inábeis veículos de informação ressurge agora preenchida e repleta de sentido. Afinal, a História dos vencedores nega o passado dos vencidos, assim como seu presente e, consequentemente, seu futuro.

 

Operárias de Mahalla tomaram as fábricas “de mulheres” e recusaram-se a sair de lá até que recebessem “massivo” aumento de salário: de £60 por mês, para £100.
Por Robert Fisk

A cidade de Mahallah, capital do algodão egípcio, esconde muito bem seus saberes políticos.

Local de fábricas stalinistas que trabalhavam 24 horas por dia, casas arruinadas do século 19 enterradas entre blocos de concreto e uma rede de trilhos em cacos, só a aparição de uma barata impressionantemente grande no chão do escritório da prefeitura agita os funcionários e os faz levantar. A barata e outra estranha criatura: esse seu correspondente, encharcado de suor, perguntando sobre uma greve na indústria que começou e acabou há cinco anos.

Cada vez que eu perguntava sobre a greve, alguém me perguntava se eu vira Mubarak naquela gaiola no Cairo. Supunham sempre que eu falasse das batalhas na Praça Tahrir, em janeiro passado. Só começaram a entender quando entrou na sala uma das heroínas da Batalha de Mahallah, Widdad Dimirdash, vestida com o véu, super energética, voz alta e atitude de profundo orgulho. Mrs. Dimirdash participou do comando de uma das primeiras grandes greves contra a empresa estatal (quer dizer: pertencia à família Mubarak) Misr Cotton Company, em 2006.

“Não se pode dizer que tenha sido greve realmente política” – diz ela, mas não acredito. “Acho que não tivemos escolha. Nossos salários haviam caído tanto e o preço da comida era tão alto que já ninguém nem comia nem vivia.”

Dos 30 mil operários do algodão em Mahallah – homens e mulheres trabalhavam em fábricas separadas – 6.000 eram mulheres. Elas pararam de trabalhar quando os homens pararam. Tomaram as fábricas “de mulheres” e recusaram-se a sair de lá até que recebessem “massivo” aumento de salário: de £60 por mês, para £100, o que as ainda as mantinha como os trabalhadores de mais baixo salário em todo o Egito. Mas o governo de Mubarak, em três dias, concedeu o aumento que as mulheres pediam.

Não teve escolha. Mahallah, centro do comércio egípcio de exportação, era grande demais para ser desafiada. “Primeira Cidade do Algodão do Delta” – lê-se numa placa enferrujada, quando passo de carro pelas calçadas rebentadas, montes de lixo e muitos carros “toc-tocs”, uma espécie de riquixá movido a petróleo que circula pela velha passagem de nível. A cidade não ostenta a própria história, mas a história parece pairar por ali, entre as ruínas.

Introduzido na região pelos franceses em 1817, o algodão de Mahallah prosperou quando a guerra civil nos EUA cortou as vias transatlânticas das importações europeias, nos anos 1860s. Adeus, Sul Profundo. Bem-vindo, Delta do Nilo.

No dia 6/4/2008, contudo, o povo de Mahallah acrescentou mais uma nota de pé de página à própria história. Dessa vez, marcharam pelas ruas, negociando com um ministro do governo Mubarak, por melhores salários e condições de trabalho, e enfrentaram a violência dos policiais. Mrs. Dimirdash foi uma das duas mulheres que participaram da equipe de negociação de sete trabalhadores. “As pessoas demarcaram campos na rua principal, a ‘Rua do Presidente’ – relembrou o jornalista Adel Dora. – “Os baltagi [mercenários pró-governo, armados com porretes] nos atacaram com terrível violência; e a Polícia usou gás lacrimogêneo, mas muita gente nos defendeu em todo o país, usando o Facebook”.

Só dois canais árabes de televisão por satélite cobriram a batalha de Mahallah. A imprensa egípcia, diz Dora, “simplesmente mentiu sobre nós – publicaram tudo que o governo Mubarak queria que publicassem”. Os homens e mulheres de Mubarak mantiveram o movimento durante uma semana.

Em 2009, tentaram novamente, mas dessa vez – e Dora baixou a cabeça ao dizer – o povo estava com medo. “Com medo da Polícia, de serem mortos, de mais violência, do que o governo pudesse fazer contra eles”. Dora falava com ira, mas, estranhamente, como se não percebesse o precedente que a cidade criara. Essa Mahallah sombria, sem brilho, em 2006 e em 2008, foi versão em miniatura, talvez prematura, da grande revolução que derrubaria o governo egípcio em fevereiro de 2011 e mandou Hosni Mubarak para a gaiola com leito que se viu no Cairo essa semana. A união de homens e mulheres, trabalhadores comuns, o Facebook, as tendas armadas na Praça Tahrir, os mercenários baltagi as bombas de gás lacrimogêneo da Polícia, tudo reapareceu depois, aos olhos do mundo, na Praça Tahrir. E naquela praça descobrimos – embora ninguém entendesse quem eram e o que faziam ali – muitos homens e mulheres de Mahallah. Ah, sim, eles sabiam o que fazer para derrubar ditador.

O jornalista francês Alain Gresh foi dos primeiros a perceber a plena significação de tudo isso: que aqueles trabalhadores eram “atores esquecidos” da revolução egípcia. Lembrou como um repórter industrial egípcio respondeu às suas perguntas no Cairo, perguntando: “Por que, até agora, as rebeliões na Líbia, no Iêmen e no Bahrain falharam?” Poderia ter acrescentado à lista, a Síria. Mas foi na Tunísia, onde os sindicatos eram fortes, que o sindicado geral dos trabalhadores da Tunísia conseguiu finalmente derrubar a ditadura de Ben Ali. Nos últimos dias, o golpe final foi a greve geral que convocaram. Mas tampouco os homens e mulheres de Mahallah foram os únicos trabalhadores da indústria a conseguir derrotar o poder de Mubarak.

Os operários do complexo de fábricas de cimento em Suez – que também fizeram sua “revolução” miniatura em 2009, pra protestar contra as vendas de cimento a Israel – iniciaram também sua greve política em fevereiro de 2011.

Quanto aos trabalhadores da Síria, Líbia, Iêmen, há muito tempo foram cooptados, Baathizados, hipnotizados pelo Livro Verde ou tribalizados, com o socialismo tomado só como inspiração infeliz para muitos ditadores. Quer dizer então que é preciso que haja movimento de trabalhadores e sindicatos organizados para que as revoluções no Oriente Médio sejam bem-sucedidas? Mahallah é cidade feia, suja, triste – mas seu lugar na história aumenta ano após ano.

Artigo publicado originalmente no The Independent, UK (via REVISTA FORUM)
Robert Fisk: The city and its workers that first took on Mubarak

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Foto: Greve dos trabalhadores em Mahalla, em setembro de 2007/Flickr

Os tumultos são o outro lado da moeda do “nós estamos juntos nessa”. Não só porque, como se viu na Grécia e na Espanha, há um limite para o que se pode esperar que as pessoas aceitem antes que elas decidam que “agora chega”. Mas, também, porque uma sociedade que vê crescer a desigualdade e nada faz a respeito é uma sociedade na qual, fatalmente, coisas assim ocorrerão. O artigo é de Rodrigo Nunes.
Rodrigo Nunes

Em 2005, fui dos poucos brasileiros, fora a família, a comparecer a uma manifestação e missa em memória de Jean Charles de Menezes, em Londres. Ainda era permitido reunir-se em frente ao Parlamento – hoje não é mais– e, depois de rápida vigília, pusemo-nos a andar na direção da Catedral de Westminster, em Victoria, local da missa. Quando nosso pequeno grupo estava a caminho, uma senhora bem-vestida, que vinha na direção oposta, gritou: “Mas o que vocês querem? No Brasil, a polícia mata rapazes como ele todos os dias!”

A situação surpreendeu-me, também pelo que havia de improvável numa senhora como aquela pondo-se a gritar; sinal do quanto Londres se tornara uma cidade tensa nas semanas que se seguiram aos atentados de julho de 2005. Eu podia, até certo ponto, entender como ela se sentia – um dos aspectos mais insidiosos da política do medo é que, mesmo quando você está racionalmente consciente de como o medo comanda suas reações, ainda assim não consegue racionalizar o modo como se sente. Mas, evidentemente, a frase soou especialmente dolorosa para mim, tanto por parecer indicar o menor valor relativo da vida de um brasileiro (comparada à ameaça sentida contra as vidas de britânicos), como também porque era, em sentido estrito, verdade: qualquer pessoa, no Reino Unido, que seja minimamente informada a respeito do Brasil, já ouviu falar de nossa altíssima desigualdade social, e de como esta se traduz em uma prática policial brutal e altamente desigual.

É óbvio porque esse incidente voltou-me à memória logo que soube dos tumultos em Tottenham no fim de semana passado, dada a fagulha que acendou essa fogueira específica: a polícia ter matado um homem, quase da mesma idade que Menezes, em circunstâncias que – sobretudo depois de casos recentes, como o de Ian Tomlinson ou Smiley Culture – inevitavelmente parecem suspeitas. Acrescente-se a isso que a atual baixa histórica na confiança nas instituições públicas na Inglaterra, sobretudo depois do escândalo dos celulares grampeados por jornalistas, que expôs o modo como uma panelinha determinou décadas de agenda política; que a morte ocorreu numa área com um histórico de abuso policial passado e presente; que os padrões de vida estão em deterioração e que as perspectivas de futuro são cada vez mais sombrias; e que paira sobre todos a sensação de terem caído num “conto do vigário”, quando os impactos da crise parecem tão desproporcionalmente distribuídos, e “estar todos juntos nessa” parece significar coisas muito diferentes para os ricos e para os pobres. Com toda a sabedoria que nos é dada pelas coisas que já aconteceram, seria tentador dizer hoje que algo do tipo não tardaria em acontecer.

Em 1625, Francis Bacon publicou uma análise dos levantes (“sedições”), na qual distinguia entre causas materiais – o material inflamável – e causas ocasionais – os eventos contingentes que agem como fagulha. Há dois tipos de causas materiais: um grau de privação que se torna insuportável; e o descontentamento, que pode existir mesmo sem privação. Causa ocasional pode ser qualquer uma de várias fagulhas potenciais que, caindo sobre a matéria combustível existente, leve os indivíduos a “unir-se na injúria”. Se um governo deseja evitar levantes, conclui Bacon, não faz sentido concentrar-se nas causas ocasionais, que são relativamente imprevisíveis. É aos sentimentos de privação, de desempoderamento, de descontentamento que deve dar atenção; pois é só quando esses estão presentes que alguma coisa pode operar como o catalisador que une elementos que, até então, permaneciam relativamente dissociados, levando os que deles padecem ao ponto onde decidem agir – para mostrar, coletivamente, que “agora chega”.

Mas nem a existência de sofrimentos e carências, nem a ocorrência de uma “última gota” bastam para fazer agir um indivíduo ou uma multidão. Quando alguém escolhe correr o risco de cruzar uma fronteira em busca de vida melhor, quando alguém joga um tijolo contra uma vidraça, ou quando uma multidão decide enfrentar uma barreira policial, sempre há alguma coisa que não pode ser reduzida a quaisquer das causas, materiais ou ocasionais, pré-existentes. Enquanto as causas materiais podem ir-se acumulando ao longo de muito tempo, essa ‘alguma coisa’ é apenas um instante, o menor dos suplementos, mas sem ela nada acontece. Ao longo dos séculos, muita gente observou que o surpreendente não era que os levantes acontecessem, mas que não acontecessem com mais frquência. Com certeza, as razões pelas quais o Ancien Régime na França, Ben Ali na Tunísia ou Mubark no Egito foram derrubados não brotaram da noite para o dia; assim sendo, por que as pessoas demoraram tanto a agir – e por que, então, agiram quando agiram? É esse pequeno excesso subjetivo, que se sobrepõe às causas objetivas, que é sempre impossível de localizar.

À medida que a imagem do que aconteceu na Inglaterra nos últimos dias vai-se tornando mais clara, talvez se possa usar esse excesso subjetivo como critério para fazer distinções entre o aconteceu aqui ou acolá. Uma coisa é ser motivado pela urgência de manifestar, por quaisquer meios necessários (e muitas vezes pelos únicos meios pelos quais se fazer ouvir), anos e anos de raiva, frustrações, humilhações acumuladas. Outra coisa é, de repente, perder o medo, porque se descobre que, se o grupo for suficientemente grande, você finalmente vai poder se vingar da polícia, pelo menos uma vez. É outra coisa, ainda, calcular que uma força policial assoberbada e uma vitrine de loja quebrada são boa oportunidade para adquirir algumas coisas de graça. Independente de o quanto essas linhas possam ser ou venham a ser demarcadas, há três lições claras a aprender.

A primeira é que é um absurdo completo dizer que os tumultos de Londres nada tem a ver com política. Sem dúvida, muitos dos que participaram deles talvez não estivessem “pensando em política” enquanto agiam; e foi particularmente triste ver moradores dos bairros que tiveram suas vidas ameaçadas, suas casas e negócios destruídos, quando eles pertencem às mesmas comunidades e padecem dos mesmos males sociais que afligem os manifestantes. Mas não se pode confundir motivação subjetiva com causas materiais e ocasionais– as quais, como Bacon sabia, são de natureza eminentemente política. Não se trata de simples anomalia estatística que jamais alguém tenha visto banqueiros saqueando uma loja; tampouco sua refinada educação ou gosto sofisticado podem explicar isso. É óbvio que o fato de os saqueadores sempre serem os mais pobres diz algo sobre a distribuição da riqueza e das oportunidades numa sociedade. E no atual clima na Inglaterra, depois dos “resgates” aos bancos e do escândalo Murdoch/News of the World, talvez também demonstre que mais e mais pessoas começam a suspeitar que os banqueiros têm, de fato, acesso a meios mais eficientes, sancionados pelo estado, de saquear os outros. Isso quer dizer que fazer do plano de “austeridade” da coalizão Conservadores/LibDem a causa material e ocasional do que se viu em Londres é contar apenas metade da história. É preciso olhar para atrás, para décadas de exploração e desempoderamento, inclusive para o sentimento de que não faz diferença qual partido esteja no poder, será sempre apenas uma uma pequena fração da sociedade que terá seus interesses politicamente representados.

A segunda lição é a seguinte: os tumultos são o outro lado da moeda do “nós estamos juntos nessa”. Não só porque, como se viu na Grécia e na Espanha, há um limite para o que se pode esperar que as pessoas aceitem antes que elas decidam que “agora chega”. Mas, também, porque uma sociedade que vê crescer a desigualdade e nada faz a respeito é uma sociedade na qual, fatalmente, coisas assim ocorrerão.

Há um “contrato social” perverso que se vê em cidades como Rio de Janeiro, Joanesburgo ou Cidade do México – onde uma pequena elite troca seu acesso desproporcional a riqueza, oportunidades e representação política, pela vida em condomínios, o gasto de fortunas em segurança e o medo. A mais clara ilustração disso talvez venha daqueles pontos nas favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro que se tornaram áreas militarizadas nas quais o estado brasileiro não entra. Olhando do alto as áreas mais ricas da cidade, das quais estão muito perto, elas parecem dizer: “podemos não ter bem-estar, podemos não ter voz na política, mas estamos aqui. Olhem por cima do ombro e vocês verão: estamos juntos nessa”.

Claro, os problemas sociais na Europa estão longe desse nível. Mas o importante aqui é ressaltar que aceitar a desigualdade é um pacto mefistofélico: entra-se numa espiral em que se troca o acesso ao consumo e ao privilégio (mesmo que seja o duvidoso privilégio de poder pagar por serviços de segurança) por direitos: o direito de andar livremente sem medo, o direito de usufruir de bons serviços públicos etc. Você pode ter um carro do ano, mas se seu carro for roubado ou quebrar, porque a cidade foi inundada, o transporte público será ruim ou perigoso demais para que você possa usá-lo. Você pode ter sapatos ridiculamente caros, mas alguém, um dia, pode decidir tirá-los de você. Saques e criminalidade são, na verdade, o outro lado daquela espiral; aquilo que a compensa, como uma espécie de mecanismo “não-oficial” (ainda que ineficaz) de redistribuição de riqueza. Acabem com a infraestrutura e com os serviços comuns, substituam-nos por consumo, e os que não podem consumir, mas são diariamente chamados a fazê-lo, consumirão “por outros meios”.

Não resolvam essas questões, e elas criarão raízes. Veja-se, por exemplo, o controle territorial que hoje têm os cartéis de droga em várias regiões do México; ou como o Primeiro Comando da Capital conseguiu paralisar em São Paulo duas vezes (nem tão diferente do que se viu em Londres nos últimos dias). E nenhuma força policial, por mais de ferro que seja sua mão, consegue interromper essa dinâmica. Os lugares onde a disparidade social é maior tendem a ser aqueles em que as polícias são, mais claramente, um instrumento brutal de proteção dos ricos contra os pobres, e, ainda assim, entre os mais violentos do mundo. O fato de serem um inferno para os pobres não faz deles um paraíso. Talvez os super-ricos – os que, nessas cidades, sobrevoam as ruas em seus helicópteros – nada vejam. Todos os demais entram, com mais ou com menos, na “vaquinha” para pagar o preço desse pacto.

No final das contas, então, os “baderneiros” da Inglaterra não precisam estar “pensando em política” para que a mensagem que enviam seja política. Pois a última lição a ser tirada aqui nada tem de diferente daquela de protestos “explicitamente” políticos, na Grécia, Espanha ou Israel: o fosso que separa ricos e pobres aumenta dia a dia, e a grande maioria se sente cada vez mais passada para trás. Se não se quer deixar que as coisas fiquem ainda mais feias, a hora para mudar de rumo é agora.

Quando a Espanha conquistou a Copa do Mundo de futebol, Barcelona, uma publicação argentina sarcasticamente batizada em homenagem ao destino preferido dos migrantes daquele país, celebrou a conquista com uma manchete gozadora: “Crise, desemprego, miséria, fim do estado de bem-estar, rendição ao FMI e sucesso nos esportes: as nações mais pobres do mundo saúdam os espanhóis – Bem-vindos ao Terceiro Mundo!”. Além de ser uma ótima piada, a manchete faz uma observação pertinente: por que aquilo que é cristalino para as pessoas do Norte global, quando elas estão falando do Sul, parece tão difícil de entender quando acontece “na sua casa”?

Pergunte a qualquer cidadão britânico medianamente informado sobre a violência no Brasil, e é provável que ele responda algo sobre a distribuição desigual da riqueza, a falta de oportunidades, ou mesmo sobre como o tráfico chega a locais onde o estado nunca entrou, como alguns adolescentes veem uma arma como instrumento para que sintam-se valorizados e respeitados,como a polícia piora tudo, porque é vista como corrupta e preconceituosa, e de como o sistema político basicamente reproduz essa situação. E no entanto, agora mesmo, posso imaginar aquela senhora que vi em Victoria. “Por que eu deveria escutar o que você diz?”, ela pergunta ela. “O seu país tem problemas sociais muito maiores que o meu.”

Tem razão, minha senhora. É exatamente por isso.

(*) Rodrigo Nunes é doutor em filosofia pelo Goldsmiths College, Universidade de Londres, pesquisador associado do PPG em Filosofia da PUCRS

Artigo publicado originalmente no blog Orango Quango

Tradução: Vila Vudu

Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, e a empresa construtora Queiroz Galvão articulam a saída de pelo menos 130 brasileiros da Líbia ainda hoje (22). Um navio deve transportar o grupo da cidade de Benghazi até a costa de um país mais próximo, ainda a ser definido. A direção da construtora negocia com os manifestantes, que dominam a cidade, para que autorizem o navio a atracar na região.

A medida foi tomada, segundo diplomatas, porque o aeroporto da capital da Líbia, Trípoli, está fechado. As pistas do Aeroporto de Benghazi estão sem condições para pousos e decolagens de aeronaves, de acordo com as autoridades. Assim, a única alternativa para os estrangeiros deixarem o país é por meio marítimo.

Desde a semana passada, a Líbia enfrenta uma série de manifestações contrárias ao governo do presidente líbio, Muammar Khadafi, que está no poder há quase 42 anos. Os manifestantes foram contidos de forma violenta por militares e policiais líbios. Há informações de que os enfrentamentos ocorreram em meio a bombardeios intensos e com o uso de violência.

A Organização das Nações Unidas (ONU) condenou o governo líbio e ordenou o fim da violência na região. Para as autoridades das Nações Unidas, há indícios de crimes contra a humanidade e evidências de violação de direitos humanos. As autoridades líbias negam as acusações. Mas a organizações não governamentais afirmam que os mortos podem superar 400.

No caso dos brasileiros, a Embaixada do Brasil na Líbia informou que há cerca de 600 no país. A maioria trabalha para as empresas Queiroz Galvão, Odebrecht e Andrade Gutierrez, além da Petrobras. Grande parte atua em Trípoli, mas os funcionários da Queiroz Galvão estão em Benghazi – cidade que enfrenta as manifestações mais intensas.

Por questão de segurança, a construtora Queiroz Galvão mantém as famílias de 50 brasileiros e também de empregados portugueses na casa do diretor da empresa para o Norte da África, Marcos Jordão. Há várias crianças no grupo. Os funcionários solteiros estão alojados em um hotel próximo à casa de Jordão. De acordo com relatos do grupo, todos passam bem.

Edição: Talita Cavalcante