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coimbra

do Poder Online via blog do Esmael Morais

Marcos Coimbra.Para o presidente do Instituto Vox Populi, o sociólogo Marcos Coimbra, o Datafolha produziu resultados de encomenda em sua última pesquisa de opinião sobre os sentimentos da população acerca do julgamento do Mensalão.

Segundo o jornal “Folha de São Paulo” divulgou no domingo, o levantamento do Datafolha apontava que 73% da população defendem cadeia para os acusados de participar do escândalo.

Em artigo intitulado “Resultados de encomenda”, publicado hoje no jornal “Correio Braziliense”, Marcos Coimbra afirma:
“A pesquisa abusou de perguntas indutivas, que tendiam a conduzir os entrevistados a determinadas respostas. Como diz a literatura em língua inglesa, fornecendo-lhes ‘pistas’ sobre as respostas ‘corretas’. Leia a íntegra do artigo de Marcos Coimbra: por Marcos CoimbraVia Correio Braziliense

Na primeira aula do curso de pesquisa de opinião, o aluno aprende as coisas básicas da profissão. Uma é ter cuidado com as perguntas indutivas.

É esse o nome que se dá às que são formuladas com um enunciado que oferece informação ao entrevistado antes que ele responda.
Há diversos tipos de indução, alguns dos quais muito comuns.

Quem não conhece, por exemplo, a pergunta chamada de “voto estimulado”, feita habitualmente nas pesquisas eleitorais? Ela pede ao respondente que diga em quem votaria, tendo em mãos uma lista com o nome dos candidatos.
É claro que, assim procedendo, avalia-se coisa diferente do “voto espontâneo”.

Para diminuir o risco de que a indução conduza os entrevistados a uma resposta, recomenda-se evitar que o pesquisador leia nomes. Mesmo inadvertidamente, ele poderia sugerir alguma preferência, seja pela ordem de leitura, seja por uma possível ênfase ao falar algum nome.

Daí, nas pesquisas face a face, o uso de cartões circulares, onde nenhum vem antes. Essa cautela — e outras parecidas — decorre da necessidade de ter claro o que se mede. Sem ela, podemos confundir o significado das respostas.

Dependendo do nível de indução, o resultado da pesquisa pode apenas refletir a reação ao estímulo. Em outras palavras, nada nos diz a respeito do que as pessoas genuinamente pensam quando não estão submetidas à situação de entrevista.Para ilustrar, tomemos um exemplo hipotético.

Vamos imaginar que alguém quer saber se as pessoas lamentaram a derrota da equipe de vôlei masculino na disputa pela medalha de ouro na Olimpíada. A forma “branda” de perguntar talvez fosse começar solicitando que dissessem se souberam do resultado e como reagiram — sem informar o placar.

Outra, de indução “pesada”, seria diferente. A pergunta viria a seguir a um enunciado do tipo “O Sr./A Sra. ficou triste ao saber que o Brasil perdeu para a Rússia, depois de liderar o jogo inteiro e precisar apenas um ponto para se sagrar campeão olímpico?”

Nessa segunda formulação, ela não somente induz um sentimento (mencionando a noção de “tristeza”), como oferece um motivo para ele (a ideia de ter estado perto de alcançar algo desejável).

É muito provável que os resultados das duas pesquisas fossem diferentes. Na primeira, teríamos a aferição da resposta espontânea — e mais real. Na segunda, a mensuração de uma reação artificialmente inflada. Em última instancia, fabricada pela própria entrevista.

É o que aconteceu com a recente pesquisa do Datafolha sobre os sentimentos da opinião pública a respeito do “mensalão” e seu julgamento.

Contrariando o que se esperaria de um instituto subordinado a um jornal, não deixa de ser curioso que decidisse fazer seu primeiro levantamento sobre o assunto 10 dias depois do início do processo no Supremo.

Dez dias depois de ter sido pauta obrigatória nos órgãos da “grande imprensa”. Dez dias depois de um noticiário sistematicamente negativo — como aferiram observadores imparciais.

Preferiu pesquisar só depois que a opinião pública tivesse sido “aquecida”. Foi à rua medir o fenômeno produzido.Não bastasse a oportunidade, a pesquisa abusou de perguntas indutivas, que tendiam a conduzir os entrevistados a determinadas respostas.

Como diz a literatura em língua inglesa, fornecendo-lhes “pistas” sobre as respostas “corretas”.Mas o mais extraordinário foi seu uso editorial, na manchete que ressaltava que a maioria desejava que os acusados fossem “condenados e presos”.

Parecia de encomenda: embora o resultado mais relevante da pesquisa fosse mostrar que 85% dos entrevistados sabiam pouco ou nada do assunto, o que interessava era afirmar a existência de um desejo de punição severa.E quem se importa com o que estabelecem as normas das boas pesquisas!

Pessoal

Este artigo é de Paulo Nogueira, jornalista e está vivendo em Londres. Foi editor assistente da Veja, editor da Veja São Paulo, diretor de redação da Exame, diretor superintendente de uma unidade de negócios da Editora Abril e diretor editorial da Editora Globo, uma crítica feroz, à direita, prá ninguém botar defeito, se eu fosse de direita e vivido (ia dizendo inteligente, mas caí em mim) do jeito que sou, ia votar nulo ou na Dilma.

Raul VInhas

Vídeo da Semana: o atentado contra Serra

22nd outubro 2010
written by Paulo Nogueira

Duas matérias, um fato:

http://www.youtube.com/watch?v=Qqalz5ZYsIo&feature=player_embedded

O VÍDEO DA SEMANA é um retrato histórico do Brasil nas eleições de 2010.

Mostra, primeiro e acima de tudo, a farsa de Serra, fortuitamente captada por uma câmara de televisão. Uma bola de papel acabaria dando a Serra ares de um mártir da democracia, com direito a um discurso — sem emoção nenhuma, como se vê — pela paz.

Faltaram apenas sangue e realidade para que Serra emergisse do atentado da bolinha de papel como nosso Malcom X, ou Martin Luther King. Não há um mísero arranhão, uma só gota de sangue que legitime a dor e a angústia. Se houve ou não uma fita crepe, é um detalhe cômico. O único sofrimento real de Serra, no episódio, é o sentimento de derrota iminente.

Vamos considerar que ele tenha sido, sim, vítima de um duplo atentado. Primeiro uma bolinha de papel, depois uma fita crepe. Na essência, nada muda: Serra encenou como Rojas, o lendário goleiro chileno. Não é à toa que o episódio se prestou a piadas de toda natureza. Uma que vi dizia que no papel estava escrito: “Não se larga um líder assim. Assinado: Paulo Preto.”

O brasileiro converte farsas em comédia com facilidade. É um ser cordial. Outros povos talvez fossem mais severos com Serra. A camaradagem do brasileiro é tão assombrosa que Rojas, depois de tentar roubar a seleção brasileira fingindo ter levado um rojão no rosto num jogo no Maracanã, acabaria contratado depois — já banido pela Fifa do futebol — pelo São Paulo para treinar goleiros.

O sorriso mordaz de Carlos Nascimento, no vídeo do SBT, capta com precisão o drama de Campo Grande. Não que a reportagem do SBT seja exemplar. O repórter, num erro básico de técnica de redação, afirma que Serra se sentiu mal. Serra afirmou que se sentiu mal é o correto.

O quadro da Globo é uma pequena tragédia jornalística. Os jornalistas que aparecem nele — a locutora e o repórter — carregarão esse embaraço pelo resto de suas carreiras. Há duas situações extremas na vida de um jornalista. Uma é quando você aparece ligado a um episódio épico. Os jornalistas da Folha na época das Diretas Já ou os da Veja no Caso Collor, por exemplo, falarão sobre isso — ou já falam –  para seus netos com justificado orgulho.

O outro extremo é quando você está no meio de um erro monumental, como é o caso do atentado — simples ou duplo — de que foi vítima não Serra, mas a dignidade do PSDB e o bom jornalismo.

Os rostos que aparecem no vídeo da Globo — nem vou citar o médico, que em poucos segundos entrou com seu sorriso de Mona Lisa para o anedotário nacional — não saem enobrecidos, definitivamente. Mas a responsabilidade maior está nos letreiros: as pessoas que editaram a reportagem tão sem estro, tão alopradamente que a parcialidade ficou estampada tão bem quanto a própria bolinha captada pelo SBT. Conheci o diretor de telejornalismo Ali Kamel em meus dias de Globo e para mim não existe surpresa nenhuma na maneira como foi editada a reportagem. Existem os aloprados do PT — caras que detesto desde quando meu pai os enfrentou numa eleição pela presidência do Sindicato dos Jornalistas em 1979 — e existem os aloprados do lado de lá, entre os quais Kamel. (Carlos Schroder, gente fina, o chefe de Kamel, não é aloprado, mas falta a ele, oriundo da Produção, ousadia e vigor intelectual para deter os arroubos patronais do subordinado.)

Há os aloprados da esquerda, os do PT, e há os aloprados da direita, como Kamel

Editores como os do telejornalismo da Globo que se preocupam mais em agradar seus patrões do que aos telespectadores podem significar um tiro no pé para a empresa em situações como a de ontem. Eles dão conforto aos donos em dias normais. A “ideologia” está 100% — às vezes mais que isso — protegida. Em circunstâncias dramáticas como as de ontem, porém, eles impedem que a empresa se livre de uma nódoa em algo que, por maior que ela seja, é vital para a sobrevivência de longo prazo: a credibilidade. É como se evitassem uma dor de cabeça mas criassem condições para um derrame posterior.

Sem contar que, rapidamente, eles retiram da companhia o poder de atrair jovens talentosos — cuja causa é o jornalismo isento, que esclareça em vez de contribuir para a confusão. São poucos — e não são os melhores — os que querem passar para a história do Brasil e do jornalismo brasileiro como os jornalistas que aparecem na reportagem da Globo sobre o tumulto no Rio.

A tomografia da fita crepe

21st outubro
2010
written by Paulo Nogueira

Mr Simpatia

Alguém se surpreendeu com as últimas pesquisas, que parecem consolidar a caminhada de Dilma rumo ao Palácio do Planalto?

Eu não.

A campanha de Serra é repulsiva, e acabou por afugentar do PSDB gente que, como eu, tradicionalmente opta pelo partido.

O episódio de ontem no Rio é apenas mais um de uma lista de pequenas trapaças de Serra. Ele é provavelmente a primeira pessoa no mundo a fazer tomografia por receber uma fita crepe na cabeça. O médico que o atendeu disse, constrangido, que o exame acusara o que todo mundo já sabia. Não havia problema nenhum.

Serra aproveitou para fazer fotos no hospital, em meio a extemporâneas e descabidas declarações de paz e amor hippie. “Não entendo política como violência”, disse ele. Serra entende política como uma forma de triturar todo mundo para chegar à presidência. O melhor quadro do PSDB para suceder FHC era Pedro Mallan, que foi sabotado de todas as formas por Serra.

Serra quer ser muito ser presidente. O problema é que os brasileiros não querem que ele seja.

Em farisaísmo, a tomografia da fita crepe equivale à célebre frase de Monica Serra segundo a qual Dilma é a favor de matar criancinhas. Não conheceríamos a capacidade de jogar baixo de Monica se um repórter não estivesse presente para registrar a ação maldosa da candidata a primeira-dama.

Dilma deve ganhar menos pelos seus méritos e até menos pelo apoio do Lula do que pelos vícios da campanha vale-tudo de Serra.

Ele tem que sair de cena para que o PSDB se renove.

É possível que ele arraste Aécio na queda, agora que repousam sobre o mineiro as esperanças de operar uma reviravolta.  Dilma bateu Serra no primeiro turno, e Aécio disse que vai mudar isso. Faz alguns mandatos já que quem ganha em Minas leva a presidência, e por isso as esperanças se reabriram.

Só falta Aécio combinar com os mineiros.

A última pesquisa mostra que a distância de Dilma sobre Serra em Minas se ampliou em vez de diminuir.

Serra talvez possa culpar Aécio se a virada não aparecer, e assim prosseguir, como um interminável Galvão da política, mais alguns anos em sua louca cavalgada rumo à presidência, num titânico duelo de vontades contra os brasileiros.