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Por Valmir Assunção

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados,

o Terreiro Ilê Axé Ayrá Izô, localizado no bairro de Campinas de Brotas, em Salvador, ameaçado até então de despejo por conta de uma ação judicial, continuará a desempenhar o seu importante papel como um dos pilares das religiões de matrizes africanas em Salvador, pois deverá ser desapropriado pelo governador Jaques Wagner.O local que abriga o templo religioso teria sido doado verbalmente pelo proprietário Antônio Gagliano, já falecido, em retribuição a graças alcançadas, sem qualquer registro de documentação. A área de 878 m² é alvo desde 1992 de uma disputa judicial entre os herdeiros, que ainda não chegaram a um acordo sobre o destino dos atuais ocupantes.

A casa, que funciona há mais de 40 anos, além do seu papel social, desempenha também o papel religioso, numa terra em que o laicismo predomina, com a convivência de vários credos religiosos e que, tem nas religiões de matrizes africanas, parte da sua história. E o governador Jaques Wagner, ante os inúmeros apelos feitos por pais, mães e filhas de santo de toda Salvador, entendeu isso e vai interceder, com uma ação de desapropriação do imóvel, para evitar o seu desaparecimento.

O governador fez isso na data em que se comemorou, na última segunda-feira, em todo o mundo, o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Direitos humanos que implica, também, no direito às manifestações religiosas, na qual as religiões de matrizes africanas têm papel fundamental em Salvador, e na Bahia. E fez isso na presença da ministra Maria do Rosário da Secretaria de Direitos Humanos.

O gesto do governador traduz uma preocupação do governo com os direitos humanos, com a livre manifestação religiosa, mas acima de tudo, com o respeito à própria história dos baianos.

“Foi uma importante vitória para o povo de axé dessa cidade, como bem disse o coordenador do CEN (Coletivo de Entidades Negras), Marcos Rezende, à frente da entidade que liderou as ações políticas e a mobilização social que culminaram na sensibilização da Ministra e do governador.

Os atabaques tocarão essa semana em agradecimento a todos os orixás, para que ninguém nessa cidade duvide da força ancestral que emana das nossas tradições. E o povo de santo, e todos os simpatizantes e praticantes das religiões de matrizes africanas, terão muito o que agradecer ao governador Jaques Wagner, ao CEN e a todos os que se mobilizaram por mais essa vitória dos direitos humanos.

Sr. Presidente/a, solicito a V.Exa. que divulgue este pronunciamento pelo programa A Voz do Brasil e demais meios da casa.

Muito obrigado!

http://www.camara.gov.br/internet/sitaqweb/discursosFrame.asp

Rezende (C) e Jean Wyllys (D) (*): ué, mas nós não somos racistas ?

O Conversa Afiada publica artigo de Marcos Rezende extraído do site AfroPress:

Paulo Henrique Amorim e o Negro da Casa Grande,
de Marcos Rezende

“É necessário saber que, historicamente, havia duas espécies de escravos: o negro da casa e o negro do campo. O negro da casa vivia junto do senhor, na senzala ou no sótão da casa grande. Vestia-se, comia bem e amava o senhor. Amava mais o senhor do que o senhor amava a ele. Se o senhor dizia: — Temos uma bela casa. Ele respondia: — Pois temos. Se a casa pegasse fogo, o negro da casa corria para apagar o fogo. Se o senhor adoecesse dizia: — estamos doentes. Se um escravo do campo lhe dissesse ‘vamos fugir desse senhor’, ele respondia: — Existe uma coisa melhor do que o que temos aqui? Não saio daqui. O chamávamos de negro da casa. É o que lhe chamamos agora, porque ainda há muitos negros de casa.”
Malcolm X

Em um dos seus discursos, cujo trecho reproduzi acima, Malcolm X, um dos maiores ativistas negros pelos direitos civis posicionava-se frente a muitos negros que agem a serviço dos brancos. Negros que não honram a sua negritude e assim prestam um desserviço a comunidade negra, pois aos olhos menos atentos parece que ele ascendeu, mas, na verdade, ele é uma fração que age como serviçal e se coloca sempre ao lado do não negro por algum benefício, seja salarial, seja “meritocrático”, ou por algum tipo de honraria que recebe como forma de gratidão a “serviços prestados”.

O nigeriano Wole Sowinka, primeiro negro a receber o prêmio Nobel de Literatura pronunciou a célebre frase: “O tigre não precisa proclamar a sua tigritude. Ele salta sobre a presa e a mata”. Na verdade a postura de alguns jornalistas como Heraldo Pereira demonstra como a frase de Sowinka é tão atual.

Ora, é este o mesmo jornalista que se apresenta como um funcionário ou um negro da Casa Grande da Rede Globo e nunca fez um comentário sequer quando a emissora se posiciona contra as cotas, contra as comunidades quilombolas e sobre qualquer tipo de avanço da comunidade negra. Este mesmo jornalista não fez ou faz um único comentário ou reflexão acerca do livro “Não somos racistas” escrito pelo seu chefe, o diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel. Este mesmo repórter se curva frente ao ministro Gilmar Mendes, atitude diametralmente oposta à postura digna, honrada e altiva do Excelentíssimo Ministro Joaquim Barbosa que o enfrenta e diz a verdade acerca da postura de um ministro que representa a elite branca, burguesa, aristocrática, ruralista, machista e homofóbica deste país.

Eis que, de repente, o repórter Heraldo Pereira, sempre silencioso frente às maiores questões raciais deste país, sente a sua negritude desrespeitada pelo Jornalista Paulo Henrique Amorim. Sem dúvida a postura é a mesma que Malcolm X dizia em seu discurso. Um verdadeiro negro da Casa Grande.

O histórico de Heraldo Pereira o coloca como um indivíduo subserviente a serviço da elite. E toma para si a dor do seu chefe, tentando desqualificar um jornalista com posição de vanguarda e anti-racista como Paulo Henrique Amorim (para quem não conhece basta visitar o site: http://www.conversaafiada.com.br) e assim colocá-lo na posição de racista. Logo Paulo Henrique Amorim, um dos poucos jornalistas da grande mídia deste país que enfrenta verdadeiramente os representantes da elite e que é curiosamente processado por todos eles. Só para exemplificar Ali Kamel, o famoso “não somos racistas”, foi testemunha de acusação neste processo juntamente com o próprio Gilmar Mendes.

Daí cabe um desagravo à figura de Paulo Henrique Amorim que, ao utilizar o termo negro de alma branca, nada mais fez do que trazer à tona um debate antigo, mas de forma antagônica à maneira tradicionalmente utilizada.

Outrora o termo negro de alma branca era utilizado em casos de negros “educados”, “civilizados” e que agiam como brancos, com toda a civilidade do outro. A expressão era utilizada com a idéia de um sujeito dotado de polidez, um ser letrado, que avançou, apesar das adversidades a que os de sua raça estavam expostos.

O que Paulo Henrique Amorim fez foi descortinar a expressão e colocá-la como de fato deveria ser. O termo “negro de alma branca” deste modo caracteriza-se como um negro a serviço de um determinado setor, uma pessoa que não dignifica a sua ancestralidade e origem, ao se dispor a fazer determinado papel, e quando não assume responsabilidade para com os seus. É como imaginar um judeu nazista de pensamento ariano, para mim algo impensável.

Evoco então Milton Santos que pontuou: “É por isto que no Brasil quase não há cidadãos. Há os que não querem ser cidadãos que são as classes médias, e há os que não podem ser cidadãos que são todos os demais, a começar pelos negros que não são cidadãos. Digo-o por ciência própria. Não importa a festa que me façam aqui e ali, o cotidiano me indica que não sou cidadão neste país… (sic) o meu caso é o de todos os negros deste país, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção além se ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo de momentâneo, de impermanente, resultado de uma integração casual”.

Enfim, o que envergonhava Milton Santos serve de júbilo para Heraldo Pereira. Uma lástima para nós, verdadeiramente negros de alma negra.

Marcos Rezende

Membro do Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos e bacharel em História, Marcos Rezende lecionou em escolas públicas e particulares buscando aproximação dos alunos com a história da cidade, enfatizando a questão da desigualdade social e racial.

Além de ser principal voz de resistência contra o episódio da derrubada do terreiro Oyá Onipó Neto, no Imbuí, presta auxílio a pequenas entidades e afoxés que participam do Carnaval e atua com destaque no Coletivo de Entidades Negras (CEN), organização não-governamental, sem fins lucrativos e sem vínculos político-partidários, que tem o objetivo de estabelecer o diálogo e diminuir a intolerância entre diferentes segmentos raciais e sociais. Também é Conselheiro Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares da Câmara Municipal de Salvador por serviços prestados a comunidade negra. É Religioso do Candomblé.

(*) Rezende testemunhou a favor de Paulo Henrique Amorim no processo no Crime. Jean Wyllys concordou também em ser testemunha no processo Cível. E só não testemunhou porque PHA aceitou fazer um acordo com Heraldo Pereira de Carvalho, para encerrar a ação. Já que Heraldo assinou o documento em que diz que PHA não usou a expressão “negro de alma branca” “com “conotação racista”. Clique aqui para ler “Heraldo diz que PHA não é racista”. Também o ex-Ministro da Igualdade Racial e Deputado Federal Edson Santos teria sido testemunha de PHA no Cível, não se tivesse encerrado a ação com o reconhecimento de Heraldo Pereira de Carvalho.