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 por rudaricci

Novo mapa econômico e político do Brasil

Rudá Ricci

1. A migração de retorno

Pouco a pouco, o mapa econômico do país se altera. As capitais atraem menos fluxos migratórios (as cidades com até 500 mil habitantes são, hoje, as que mais atraem fluxos migratórios); nordeste, Paraná e Rio Grande do Sul presenciam a volta de sua população que migrou anos atrás; muitas regiões rurais passam a concentrar investimentos externos que alteram seu perfil produtivo; o oeste do país vai consolidando seu poder de atração para todo agronegócio. O nordeste parece um caso emblemático. Os nordestinos não buscam mais São Paulo como ocorria nos anos 1980 e 1990. Em 2004 se inicia o caminho inverso, a “migração do retorno”. É o que revelam os estudos de deslocamento populacional do IBGE. Em cinco anos, a emigração de nordestinos diminuiu 22%. Os primeiros a fazer esta migração do retorno tinham, em média, 45 anos de idade, 7 anos de escolaridade. Oriundos, em especial, de Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte e Paraíba. Parte foi atingida pelo desemprego em São Paulo (18% em meados da primeira década deste século, muito acima da média nacional). Um terço dos trabalhadores da construção civil e serviços domésticos de São Paulo eram nordestinos. Enfim, salário baixo, dificuldades para se empregar, baixa qualificação profissional. Mas isto não bastava para ter a certeza do retorno. O nordeste começou a atrair investimentos e mudar sua paisagem social.Não por outro motivo, a demanda de crédito cresce mais no nordeste, oscilando acima de 15% na comparação com o ano anterior. De maneira geral no país (segundo o Indicador SERASA Experian), os que ganham até 500 reais mensais são os que mais procuram crédito. Trata-se, evidentemente, do fenômeno da ascensão social e emergência da nova classe C, voraz consumidora. O nordeste passou a ser a região mais beneficiada com investimentos do governo federal em 2011, incluindo as estatais. Os investimentos previstos representam 19% do total e atingem 9,9 bilhões de reais. Com os projetos das novas refinarias da Petrobrás na região (Premium II, no Ceará, e Premium I, no Maranhão), o volume tende a aumentar. Segundo o informe técnico do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Banco do Nordeste), grande parte dos investimentos está focado em infraestrutura e atendimento social (como saneamento). A maior parte dos recursos do Executivo serão canalizados para a Bahia (3 bilhões de reais), sendo que Pernambuco receberá a maior fatia dos investimentos das estatais (11,4 bilhões de reais). Pernambuco expandiu sua participação no total de investimentos federais de 0,1% (2006) para 10,6% (2011). Lembremos que este foi o Estado campeão em percentual de votos despejados na campanha pela reeleição de Lula. A Petrobrás investiu na Refinaria Abreu e Lima e uma infinidade de obras de infraestruturas do PAC e projetos relacionados com a Copa do Mundo de 2014. Este novo desenho acabou por gerar necessidade de crédito das empresas nordestinas. Reflexo do grau de descapitalização histórico da região, o que exige recomposição do seu capital de curto prazo. De qualquer maneira, esta situação revela um importante gargalo estrutural. Mesmo com o cenário de desaceleração da economia nacional no primeiro semestre deste ano, a região nordeste foi a que registrou menor recuo na busca por crédito de pessoa física (3,3%, ao contrário do sudeste que recuou 4,9% e da média nacional, que apresentou recuo de 5,1%). Contudo, a situação se inverteu em relação à pessoa jurídica: o recuo da região foi de 5,8%, superior aos 4,5% do sudeste e 5,2% da média nacional. Assim, o baixo background financeiro resulta em que qualquer política restritiva do governo federal em relação à oferta de crédito para empresas afete diretamente e com maior eficiência a região nordeste.

2. Bolsa Família como atração política

O nordeste é, ainda, um caso emblemático de como a mudança do perfil econômico do país é acompanhado diretamente pela alteração do mapa político. Em outras palavras, justamente as regiões de atração da “migração de retorno” são as que mais se aproximam do lulismo. Vejamos o mapa das regiões do país com maior e menor IDH e a votação que Dilma Rousseff e José Serra receberam. André Singer já havia alertado para esta relação entre as políticas de transferência de renda e o voto lulista. Para o autor, seria um voto típico do lumpensinato, desorganizado por natureza e propício ao clientelismo, como ocorre nos fenômenos denominados de bonapartismo. Os dados sobre dos valores da nova Classe C (aqueles que ascendem das classes D e E) não sugerem este fenômeno, já que ocorre uma independência política maior, certa aversão à prática política e um evidente egoísmo e pragmatismo deste eleitor. Esta que é a maior fatia do eleitorado brasileiro na atualidade e envolve mais de 53% dos brasileiros. Mas no que tange à base dos estratos de renda, principalmente aquele beneficiário das políticas de transferência de renda, o neo-clientelismo parece se configurar como possibilidade, embora ainda não totalmente consolidado. Os dados do Censo 2010 revelam que 76% dos brasileiros abaixo da linha de pobreza concentram-se no norte e nordeste do país. Por outro lado, os maiores beneficiários do Programa Bolsa Família (PBF) residem em pequenos municípios, com média populacional de 12,8 mil habitantes. O PBF beneficia 70% da população residente nesses municípios. E aí, cria-se um círculo virtuoso porque se não é este programa que promove a ascensão social dos beneficiários, o incremento do comércio local impulsiona a abertura de novos postos de trabalho. Um círculo virtuoso que carrega várias mazelas, como veremos no final deste artigo. Em 2010, a TV Globo e o jornal Estado de S.Paulo contrataram pesquisa que revelou que 22% dos eleitores do nordeste eram beneficiados pelo PBF. Nas regiões norte e centro-oeste, o índice caía para 8%, decrescendo na medida em que se caminhava para o sul do país (7% no sudeste e 5% no sul).

Temos, então, uma situação econômica e política em transição que altera significativamente a configuração nacional. Transição que indica mudanças culturais e de hábitos sociais dos mais significativos, a saber:

1)      A emergência de uma nova composição da classe C, hoje envolvendo a maioria dos brasileiros, consumidora e focada nos núcleos de intimidade social (em especial, suas famílias), possivelmente diretamente relacionada com o surto desenvolvimentista que envolve cidades médias e regiões que atraem investimentos recentes. As pesquisas recentes revelam um ideário pragmático e independente partidariamente. As escolhas são definidas a partir de garantias de sua estabilidade de consumo ou promoção social. Seus valores morais são ultraconservadores, com destaque para a defesa da unidade e segurança de sua família. Esta nova configuração impacta negativamente os laços clentelistas regionais, principalmente os vinculados às tradicionais oligarquias políticas. Contudo, este impacto não é conclusivo em virtude do pragmatismo da nova Classe C, que sugere uma alta possibilidade de se forjar um acentuado cinismo político;

2)      A estruturação progressiva do neoclientelismo a partir das políticas de transferência de renda e concentração orçamentária no governo federal. Para os estratos de renda mais baixos, os mecanismos de transferência de renda criam um lastro entre os beneficiários e o Poder Local (que administram, em parceria, estes mecanismos). Para os estratos de renda mais altos, o PAC e os financiamentos promovidos pelo BNDES (incluindo os arranjos produtivos locais) consolidam uma relação muitas vezes promíscua entre alto empresariado e estruturas governamentais de fomento ao desenvolvimento. Assim, temos a emergência de anéis burocráticos que envolvem agências de fomento, empresários, lideranças políticas locais e beneficiários das políticas de transferência de renda. O comportamento político desses segmentos sociais parece confluir para certo alinhamento com o lulismo, embora os beneficiários das políticas de transferência de renda guardem, evidentemente, uma dependência política maior;

3)      Um fluxo migratório que inverte a lógica do final do século passado. Esta mudança do fluxo pode alterar hábitos políticos e sociais nos locais que recebem famílias e trabalhadores que se instalaram por anos nas capitais e cidades pólo do centro-sul brasileiro.

Vale ressaltar que as lideranças políticas locais/municipais são elementos centrais desta nova configuração política do país. A concentração orçamentária na União (entre 54% e 60% do total do orçamento público, oscilando nesta faixa nos últimos cinco anos) impele os prefeitos a gerentes dos convênios com ministérios e agências estatais. Os vereadores, por seu turno, procuram acessar e intermediar os benefícios advindos dos convênios entre prefeituras e agências estatais federais. O mesmo, na grande maioria dos casos, envolve grande parte dos parlamentares estaduais e federais do país, que intercedem como representação cartorial por suas bases eleitorais e seus principais apoiadores, os prefeitos.

O que procuro ressaltar é que prefeitos e parlamentares constituem uma trama que se insinua sobre os anéis burocráticos federais. O governo federal e suas agências tornam-se demiurgos do desenvolvimento e da promoção desta rede cartorial.

Temos, assim, subconjuntos especializados que conformam o “fordismo lulista”: a) BNDES/PAC e alto empresariado; b) PBF e outros instrumentos de transferência de renda que são mediados por políticos locais; c) estruturas cartoriais de representação município-agências federais; d) estruturas cartoriais que fazem a mediação entre convênios de prefeituras com governo federal e beneficiários.

Como se percebe, é justamente a nova Classe C que parece estar mais independente deste enredo político-gerencial. Não está representada em nenhuma estrutura formal e nem é atendida por qualquer programa vinculado aos anéis burocráticos fordistas (ou subsistemas do fordismo lulista). Sua ideologia é o consumo e sustentabilidade familiar. É cínica, desconfiada, conservadora nos valores, arredia às ações coletivas amplas. O conceito de direito não lhe parece muito significativa, preferindo o interesse.

Talvez aqui esteja a explicação para entendermos porque vivemos mobilizações sociais extemporâneas e sem grande impacto organizacional (Parada Gay, Marcha com Jesus, Marcha das Vadias, Marcha pela Liberdade de Expressão), apresentando uma pauta fragmentada ou até mesmo esquizofrênica. As mobilizações atuais substituem os movimentos sociais dos anos 1980. Porque não há segmentos sociais organizados, motivados por um projeto de sociedade ou pela ampliação de direitos ou agenda nacional.

O Brasil Potência é fragmentado ou conformado em subsistemas de gerenciamento de políticas setoriais. Uma espécie de focalização global do Estado que conforma tentáculos e múltiplos acordos. E um poder central que, sob administração de Dilma Rousseff, parece mais e mais uma eminência parda. Não aparece nitidamente. Mas todos sabem que paira sobre nossas cabeças, sustentado por esta miríade de acordos e agências.

Publicado originalmente no blogdocappacete

Jovem Marx

Nesta terça-feira (19), das 10h às 19h35 a versão integral do filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”
O projeto Revoluções exibe nesta terça-feira (19), das 10h às 19h35 a versão integral do filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”, uma produção de 9 horas e meia do cineastra e escritor alemão Alexander Kluge. O filme, inédito em português, será exibido em três partes no Sesc Pinheiros, no Auditório Paulo Autran.
Alexander Kluge é um dos fundadores do Novo Cinema Alemão e pretende com este filme reconstruir o projeto do cineastra Sergei Eisenstein ao filmar o livro “O Capital” de Karl Marx, a partir da estrutura do livro “Ulisses”, de James Joice.

Confira a programação da exibição:

10h às 13h – Parte I: Marx e Eisenstein na mesma casa (Marx und Eisenstein im gleichen Haus, Alemanha, 2008, cor e p&b, 189 min.)
14h às 16h – Parte 2: Todas as coisas são homens enfeitiçados (Alle Dinge sing verzauberte Menschen, Alemanha, 2008, cor e p&b, 120 min.)
16h30 às 19h35 – Parte 3: Paradoxos da sociedade de troca (Paradoxe der Tauschegellschaft, Alemanha, 2008, cor e p&b, 183 min.)
No mesmo dia, a Versátil Home Vídeo lançará uma caixa contendo os DVDs do filme, além do curta “Amor Cego – Conversas com Jean-LucGodard”, no qual Kluge entrevista Godard.
O projeto Revoluções: educação, história, direitos humanos, cinema e fotografia é uma iniciativa de artistas, estudantes, professores, jornalistas, cineastras e militantes com objetivo de refletir o tema das revoluções sociais a partir da política e da estética. A coordenação geral e curadoria é Moara Rosseto Passoni e Henrique P. Xavier.
Serviço:

O quê: Filme “Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, o Capital”
Quando: 19/07, das  10h às 19h35
Onde: Sesc Pinheiros (Rua Paes Leme, 195, Pinheiros)
Mais informações: revolucoes@revolucoes.org.br

Para a esquerda, segundo ele, “repressão” é melhor do que “cooptação”

Por: Redação da Rede Brasil Atual

Publicado em 03/11/2010, 17:00

Última atualização às 18:59

Plínio afirma que preferiria governo Serra ao de Dilma Plínio vê PSOL fortalecido após pleito (Foto: Divulgação)

São Paulo – O quarto colocado na disputa presidencial, Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) declarou preferir um governo de repressão a um de cooptação. Os termos foram usados por ele para definir, respectivamente, o que seria um governo comandado por José Serra (PSDB), candidato derrotado no segundo turno, e o que foi o governo Lula. As declarações constam de entrevista concedida à edição digital do Jornal do Brasil.

Plínio deixa claro que considera que um eventual novo governo encabeçado pelo PSDB “seria ruim também”. Ele avalia que a gestão de Dilma Rousseff, eleita no dia 31, é “um horror”, e que ocorrerá uma nova forma de mensalão. “No (eventual governo) Serra, temos a repressão, em Lula a cooptação”, qualificou. “Acho mais favorável (para a esquerda) a repressão, que aliás já enfrentei. Mas é melhor porque a repressão unifica, as pessoas se unem, vão para as ruas”, especulou.

O candidato Plínio avalia que seu partido sai fortalecido do pleito, por ter aumentado as bancadas federal e estaduais, conquistando a “hegemonia da esquerda”. “O PSOL saiu unido, um partido de opinião pública. Ninguém duvida que o partido que faz oposição real é o PSOL, lugar que o PT já ocupou e que deixou vago”, analisou.

O melhor momento da campanha eleitoral, na avaliação do promotor de Justiça aposentado, foram os debates. “Furei uma barreira de omissão, porque a estratégia da direita não se dirigia contra mim, mas contra o que eu falava, porque a burguesia, apesar da hegemonia em que se encontra, tem medo do povo. É um traço sociológico conhecido”, criticou.

Ainda na entrevista, Plínio defende uma reforma tributária com taxação sobre grandes fortunas para garantir recursos suficientes para arcar com um salário mínimo de R$ 2 mil. O valor foi defendido na campanha eleitoral a partir do valor calculado mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) como necessário para assegurar o preceito constitucional que estabelece o piso salarial nacional.

Plínio defendeu ainda o não pagamento da dívida pública. “Só aí, seria R$ 280 bilhões para isso (bancar o aumento do salário mínimo)”. Ele promete nem passar perto do Palácio do Planalto, quando questionado se aceitaria algum cargo no governo Dilma. E ainda afirmou que o PSOL representa uma opção contra o regime capitalista, cuja “lógica interna é perversa, excludente por natureza e perpetuadora da desigualdade”.

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Daniel Piza – O Estado de S.Paulo

Um leitor, Kenny, me manda email sobre a questão da religião. Está atormentado pelo fato de se dizer um agnóstico e viver em meio a pessoas religiosas, que não entendem que ele não consiga “acreditar que após a morte iremos para outro lugar ou que existe Alguém olhando por nós o tempo todo”. E sente culpa, já que cresceu ouvindo que existe “um Deus misericordioso que tudo há de prover” e às vezes se pega agradecendo a Ele pelo bom dia que teve. Pergunta por minha experiência e qual a diferença entre ateu e agnóstico, pois reluta em se dizer ateu porque seria visto com ainda mais desconfiança e discriminação. Num momento em que a religião foi enfiada na pauta eleitoral por setores organizados da sociedade, a dúvida de Kenny vem a propósito.

Quem criou o termo “agnóstico” foi um autor pouquíssimo lido no Brasil, Thomas Huxley, biólogo e polemista que defendeu as ideias de Darwin do escândalo clerical. Num ensaio de 1889, Agnosticism, contou que o criou para se contrapor aos que diziam ter o conhecimento (gnose) do invisível, do sobrenatural, das entidades espirituais. Incluiu nesse grupo os ateus ou, como se dizia então, os ateístas, porque muitos deles igualmente afirmavam ter “resolvido os problemas da existência”, ou seja, ter prova da inexistência de Deus. Huxley, no entanto, não conseguiu se livrar da voracidade cristã e foi chamado de infiel, descrente, um imoral a caminho do inferno. De nada adiantou esclarecer que era um livre-pensador; seu nome entrou no índex.

Desde então, o termo “agnóstico”, como antes “ateu”, sofreu modificações. Foi atenuado para algo como “não sei se Deus existe”, o que normalmente é seguido por algo como “acho que existe uma força superior” ou, no caso de Kenny, “sinto culpa por isso”. Mas Huxley, um estilista admirável, deixou bem claro: o agnosticismo tem como princípio o de que “é errado para um homem dizer que tem certeza da verdade objetiva de qualquer proposição a menos que possa produzir evidência que logicamente justifique essa certeza”. Ou seja, Huxley era contra a suposição de que ter fé é acreditar na veracidade do inacreditável. Seus adversários eram aqueles que estavam seguros, por exemplo, de que demônios existem e tomam posse das pessoas, como as mulheres que eram perseguidas como bruxas; ou de que Jesus fez tudo que os Evangelhos dizem que fez, apesar de todas as contradições. O problema não era crer nisso; era crer que existiam provas irrefutáveis disso.

O agnóstico, em suma, não é o sujeito que vota em branco, mas o que tem a opinião ainda controversa de que não existem fenômenos sobrenaturais, apenas fenômenos que não temos condições de explicar. Eu, como Huxley, fui criado numa cultura cristã; meus pais acreditam em Deus e me fizeram fazer a primeira comunhão aos 10 anos; mas, por meio de dúvidas próprias e de leituras científicas, optei por não ter nenhuma religião, por não acreditar em vida pós-morte e num ser que tudo fez e comanda – assim como optei por viver sem vícios e superstições, por não levar a sério o que não me pareça ter consistência lógica como astrologia, numerologia e tudo o mais. Huxley: “As pessoas que falam nos confortos da crença esquecem seus desconfortos.” Nenhum familiar ou amigo nunca me atormentou por isso e não sinto a menor culpa; mais que muitos religiosos, tento respeitar e ajudar o próximo, tolerando todas as diferenças e abominando todas as guerras, santas ou não.

Ao contrário de um Richard Dawkins, não quero converter ninguém à crença na descrença. Conheço muitas pessoas cuja religiosidade não tem nada a ver com fanatismo ou aversão à ciência. Por que eu ia querer convencê-las a mudar de opinião? Mas, como Huxley, não quero crer no que não me parece provável – e defendo esse direito até onde for necessário. E esse direito é mais combatido, veladamente na maioria dos casos, do que supõe nossa vã cultura. Vivemos num estado laico, mas toda repartição pública tem uma cruz e até o papa ordena aos bispos que interfiram nas eleições locais. Espiritistas afirmam ter evidências da reencarnação e da existência de miasmas onde as almas sobrevivem. Nos cultos evangélicos, não crer em Deus é, como disse Huxley, uma ofensa moral. O aborto, mesmo até três meses, é tratado como se fosse assassinato, embora seja legal em diversos países e lá praticado por muitos religiosos. No Brasil, onde até CAMISINHA é pecado, nem sequer se ouve a pergunta humanista: deve-se pôr no mundo uma criança de quem não se pode cuidar dignamente?

E meu email, toda vez que toco no assunto, se entope de leitores jurando que à beira da morte vou me arrepender e buscar o consolo – ao contrário do que fez um Machado de Assis, embora os estudiosos não deem ênfase à sua anti-religiosidade. Mas espero que ao menos Kenny se sinta livre para crer ou descrer e assumir sua posição, com o nome que for, em vez de se sentir culpado por não pensar como os que o cercam. Não é a religião que deve ser cercada; é a liberdade que não deve ser.

Por que não me ufano. Por falar em crença no improvável, onde estão os cientistas políticos que demonstravam por A + B que uma pessoa jamais eleita não o seria agora? E os que juravam que a mera existência do segundo turno levaria a uma virada? Eu sei: estão fingindo que não o disseram. E o disseram não por razões lógicas, mas por desejos disfarçados

Intervenção em “Encontros Moviola”, 21/10/2010, reunião e debate na Livraria Moviola, RJ. / Filme e outras intervenções,  

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O fascismo, o fundamentalismo de tipo novo, não está, em minha opinião, por exemplo, num vídeo que me mandaram – e fiquei indignado que pessoas que eu conheço tenham-se atrevido a me mandar aquilo –, e que, no “Assunto”, trazia a expressão “Dilma Ladra”. O vídeo mostrava um discurso do [deputado] Bolsonaro (que foi eleito aqui no Rio, na coalizão governativa, pra vermos como as coisas são enroladas). O vídeo acusa a candidata Dilma, hoje candidata, de crimes dos quais a ditadura a acusou, há muitos anos. 

O que quero dizer é que o fascismo não está, em minha opinião, no fato de se usarem temas fascistas. Dizer que alguém estaria reintroduzindo no Brasil do século 21, por exemplo, o integralismo. Não. Acho que o fascismo está, isso sim, no uso instrumental de um debate, que acaba se transformando numa armadilha, que reduz completamente o espaço da democracia.

Nesse exemplo, não falo do fato de alguém usar instrumentalmente um vídeo pra fazer alguém perder votos. O fascismo está, sim, em dizer que o que vale na valoração moral da legalidade ou ilegalidade (“ladra” ou “não ladra”) é o que disse um tribunal de exceção, de uma ditadura militar.

É como se Togliatti, líder comunista italiano, voltando de Moscou, depois da 2ª Guerra, é como se a Democracia Cristã italiana usasse, para falar de Togliatti, no debate político, sentenças dos tribunais de Mussolini sobre Togliatti. Como se De Gaulle, voltando junto com os aliados para a França Vichyista libertada com os aliados, fosse apresentado nos termos do que os tribunais Vichyistas e  Petainistas diziam dele. É uma coisa muito preocupante.

Não se trata apenas de tentar usar o medo: de fato, se introduzem na discussão critérios inaceitáveis de valoração moral.

Mas não é fenômeno só brasileiro. Na Espanha, por exemplo, houve o juiz Garzón, juiz importante, que mandou prender Pinochet, que sempre teve desempenho muito correto na ordem liberal, e tornou ilegal um partido que reunia 20, 25% do eleitorado no país basco. Desmontou o Herri Batasuna, partido ligado ao ETA. Mas, quando começou a aplicar aos franquistas a mesma lei que aplicara aos ditadores chilenos e argentinos, o juiz Garzón passou a ser acusado de ter ligações com o ETA e foi destituído e está sendo acusado de abuso de poder. 

O que quero dizer é que há um retorno dos temas, mas o problema não está em que alguém tenha hoje, no Brasil, um projeto fascista, porque isso não há. Ninguém tem projeto fascista. O que há é diferente.

Não há projeto fascista no Brasil, mas há, sim, um fundamentalismo, sim, que funciona como um fascismo, ao meu ver. Qual é a marca desse fundamentalismo?

Começo com outro exemplo. Logo depois que publiquei um artigo de opinião na Folha de S.Paulo, a favor de Dilma [1] e discutindo aspectos do desenvolvimentismo (o que, aliás, discutimos aqui mesmo, na última reunião que tivemos aqui), telefonou-me um amigo, elogiou o artigo, e tal, e disse “[só não concordo com defender Dilma, porque] Dilma é hipócrita”. Perguntei: “Mas… por quê?” “Porque ela dizia que era a favor do aborto, e agora diz que é contra.”

E eu: “Ora essa! Você queria o quê? Que ela agora deveria dizer que defende, que deveria assumir tudo que lhe atribuem… sem discutir nada, sem avançar argumentos, se deixar pautar pelo que lhe atribuem? Ninguém discutiu nada! Não há espaço pra discutir nada!”

Como funciona esse debate? Exatamente como funciona no fascismo, no nazismo, que são formas de mobilização das massas que não se fazem como construção da democracia, mas como perda de democracia, pelo impedimento de todos os debates. Cria-se o obscurantismo. E perdem-se todos os espaços de debate.

Como se responde a alguém que diga o que eu ouvi do meu amigo? Que, para vencer a eleição, Dilma deveria assumir tudo o que lhe atribuem e atribuem para fazê-la perder a eleição… O debate ficou impossível.

Esse obscurantismo não é volta ao passado, os novos obscurantistas usam a internet, todas as ferramentas. Operam por dentro, para destruir toda e qualquer possibilidade de debate – e isso é que é importante [fim do primeiro filme]

Outro exemplo: o Daniel Cohn-Bendit andou pelo Brasil, circulou por aqui antes do no primeiro turno, e deu entrevistas [2]. Fez críticas violentas ao governo Lula, disse que o governo Lula tinha políticas de desenvolvimento do século passado (aliás, não faz nem dez anos! [risos]).

Eu tenho amigos franceses que trabalham com ele, no movimento ecologista, que se está unificando na Europa. Eu disse a eles: “[Cohn-Bendit] andou aqui, acho que não entendeu nada.” Ficou por isso mesmo. 

Agora, no segundo turno, voltei a fazer contato com eles e disse: “Bom, agora, há risco real de a direita vencer. A Marina e o PV, no mínimo não vão tomar partido; e muitos deles consideram assumir a direita. O que vocês vão fazer?”

E eles, lá, fizeram um documento, muito moderado, com críticas à Dilma, mas dizendo aos ‘verdes’ brasileiros que eles têm de assumir o rumo da esquerda. Me mandaram o documento.

Peguei o documento e liguei para a FSP, com quem tenho alguns contatos, às vezes publico lá, e ofereci o documento. “Estamos interessados”, me disse alguém. E nada. Voltei a ligar, e me disseram “Mas o pessoal que assina não é gente muito conhecida…”. Digo eu: “Desculpa, mas, quando passaram por aqui, antes, vocês acharam que sim, eram muito conhecidos. Agora, acham que não…”

Os signatários são dois ex-ministros do Meio Ambiente da França, três co-presidentes dos verdes europeus, que é a 3ª força na Europa, na França vai ser força decisiva nas próximas eleições, sempre aliados à esquerda, são todos senadores, há a senadora-prefeita de uma subprefeitura com 100 mil habitantes, da Grande Paris, que sempre foi governada pelo Partido Comunista, Montreuil, o José Bové, da Via Campesina, militante da agricultura familiar, ligado ao MST, super conhecido no Brasil… E nada.

Dias depois, me liga outro jornalista da FSP, de Brasília, e me diz: “Estou interessado no manifesto, mas queria saber se é normal que os verdes europeus tomem posição em eleições em outros países…” E eu: “Bom, quando eles andaram por aqui, no primeiro turno, vocês acharam que era perfeitamente normal…” [risos]

De qualquer modo, aproveitei pra dizer que “esse manifesto foi escrito porque, dado o peso político que estão ganhando, os verdes europeus são atravessados pelo debate sobre que lado estão, se devem ficar neutros no início, e depois se alinhar a um lado ou outro. Então, nesse caso, estão aproveitando em primeiro lugar, para apoiar a esquerda no Brasil. E aproveitam para dizer, também, que, caso a opção se apresente na Europa, a opção pelo candidato progressista, tem de ficar clara, desde o início da discussão.” E ele disse: “Então, a Dilma seria progressista…” Digo: “Eu acho que sim. Eles, também”. Só opiniões minhas, e a opinião do jornalista.

Dias depois publicaram matéria sobre Dilma e os projetos ambientais, em que o Greenpeace contestava os verdes brasileiros que apóiam Dilma [3]. O Greenpeace ganhou espaço, os verdes europeus, não. Ora, que eu saiba, o Greenpeace não é propriamente brasileiro, é global. Acho normal que opinem. O caso é que o Greenpeace tem espaço para opinar sobre o Brasil, e s verdes europeus, não. E o jornalista da Folha de S.Paulo me disse: “Eu escrevi e o editor cortou, porque achou que não era importante.”[4]

Para concluir, queria dizer, sobre os novos fundamentalismos, que acho que o fundamentalismo não é uma volta do fascismo como foi, mas é uma forma de falsificação sistemática, que usa todas as tecnologias, como faz o fundamentalismo islâmico do tipo Al-Qaeda, mas que usa as tecnologias de tal modo que reproduz hierarquias e falsifica o debate democrático.

Acho que temos hoje em ação dois fundamentalismos: um fundamentalismo que está completamente em crise, vertical, que é o fundamentalismo de mercado, que vive de dizer que tem de cortar, tem de cortar, coisa em que ninguém mais acredita. O Brasil somos nós. Cortar o “custo Brasil” significa nos cortar… e privatizar, idiotice pura, ninguém mais acredita nisso.

Vale o mesmo para a tal de sustentabilidade econômica, em que ninguém acredita mais. Sem esse fundamentalismo, todos se mudaram imediatamente para outro fundamentalismo.

Vê-se bem no caso dos EUA, Wall Street. Se se retirar da economia todo o dinheiro que o Federal Reserve pôs na Bolsa, nos bancos, nas seguradoras, a coisa desmorona. A discussão que se tem de fazer tem a ver com o valor político da moeda.

Então, por um lado temos o fundamentalismo de mercado, que usa sempre só o que esse pessoal tinha como conteúdo (“Serra é o melhor administrado”, o “mais competente” etc. etc.) em que ninguém acredita. Daí, então, foram para outro fundamentalismo. Isso é que é preocupante.

O fato de eles terem passado imediatamente, do que se podia ler na imprensa (Serra dizia que não era candidato, depois pôs Lula na propaganda dele). As primeiras declarações do Índio da Costa de fato, até por terem sido tão desencontradas, anunciavam que eles iam passar imediatamente para outro fundamentalismo.

Fato é que essas paixões tristes ficam.

Não podemos analisar com leveza, porque parecem que serão derrotados, e mesmo que sejam, tomara, porque essas paixões ficam.

Ficam no retrocesso do debate, do debate que se poderia, mas não se pode fazer, de defesa da candidatura progressista. E elas ficam, também, em termos da mobilização social. Temos, sim, de estar muito, muito, muito preocupados.

Vê-se que já está acontecendo também nos EUA. É a mesma coisa, no movimento Tea Party, uma mobilização muito mais radical em termos de novo fundamentalismo do que os Republicanos de antes, e que está impedindo que se concretize, até, o pequeno avanço anunciado pela eleição de Obama. E o que está acontecendo na Europa também tem elementos muito importantes de radicalização, em termos de novo fundamentalismo, por exemplo, no crescimento da xenofobia.

O que estamos assistindo hoje, nessa involução da campanha pró-Serra, não é a defesa do neoliberalismo e das privatizações, mas é exatamente o que será o pós-neoliberalismo do ponto de vista da direita. Parece que haverá uma volta do discurso estatal, de direita, autoritário, pesado, que nós, em geral, subestimamos, subavaliamos.

Temos, portanto, que avaliar essa campanha, e temos de estar preocupados, num horizonte que vai além dessa campanha.

A nova direita que vem aí é direita da pesada, e que tem de preencher o vazio do fundamentalismo do mercado, em que ninguém acredita mais, o tucanês, em que ninguém acredita mais.

O risco que enfrentamos hoje é que o “choque de gestão” pode muito rapidamente virar “choque de ordem” [fim do segundo filminho].

Notas de Rodapé

[1] COCCO, Giuseppe, 17/10/2010, “Dilma é garantia do processo democrático”, Folha de S.Paulo, Tendências & Debates, p.3,

[2]Eu sou um mito“, afirma Cohn-Bendit, Folha de S.Paulo, 25/8/2010, Ilustrada, p. 16,   

[3]Em evento tumultuado, Dilma mostra plano ambiental genérico”, 21/10/2010, Folha de S.Paulo, em  .

[4] Notícia sobre o manifesto dos verdes europeus foi afinal publicada em jornal de Mato Grosso, Folha do Estado, só dia 30/10/2010, matéria da redação), e inclui a íntegra do manifesto:

A íntegra do manifesto:

A candidatura de Marina Silva trouxe para o eleitorado de Dilma, a pupila de Lula, a grande surpresa do primeiro turno. É preciso saudar a novidade que representa a candidatura de Marina Silva que já lutava, desde o período de sete anos em que foi ministra do governo Lula, para fazer entrar verdadeiramente as questões ecológicas na pauta de preocupações do governo brasileiro de esquerda. Com sua presença no escrutínio, a diversidade de lutas sociais, de todas as minorias (sexuais, religiosas) encontrou uma voz.

 

O placar de 19% do total de votos para uma candidata independente, sem apoio de partidos poderosos, representa a segunda grande surpresa. Ele prova que o Brasil se transforma muito mais profundamente do que apenas no plano do crescimento econômico. Para a democracia e a cultura, este já é um passo considerável.

 

Na América Latina, da Colômbia ao Chile, e agora também no Brasil, para além dos diferentes contextos, as questões ecológicas entram definitivamente na pauta das eleições presidenciais, o que não é mais o caso na Europa. O Brasil é a sétima potência mundial. Nenhum europeu em sã consciência pode se desinteressar pelo que está em jogo para os destinos ecológicos e sociais do planeta.

 

Esta é a razão pela qual desejamos, através deste manifesto, expressar nossa inquietação. A batalha do segundo turno se anuncia bastante cerrada e, algo impensável até ontem, uma vitória da direita não está mais excluída. Na configuração de hoje, o partido verde está longe de ter a dimensão popular de Marina Silva. Algumas personalidades como Gilberto Gil, ele mesmo afiliado a este partido, conclamam a que se vote em Dilma sem ambiguidade. E nós compartilhamos desta posição. Prestemos bastante atenção ao seguinte: José Serra não é um social democrata de centro. Por trás dele, a direita brasileira vem mobilizando tudo o que há de pior em nossas sociedades: preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses econômicos os mais escusos e míopes. A direita sai do porão.

 

Contra as mulheres, as facções mais reacionárias das igrejas cristãs – incluindo aquela da mulher do candidato da direita que declarou publicamente que Dilma quer assassinar criancinhas – acusam a candidata de ser favorável ao aborto, mesmo que esta questão não faça parte de seu programa de governo, tampouco do programa do Partido dos Trabalhadores.

 

Contra os homossexuais: o vice de Serra sustenta um discurso abertamente sexista e homofóbico.

 

Contra os pobres: acusados de votar na esquerda por ignorância.

 

A esta panóplia, bem conhecida em toda parte, vem se juntar uma criminalização particularmente ignóbil por parte da direita das lutas de resistência contra a ditadura. Dilma tem sido alvo de campanhas anônimas na internet que acusam de terrorismo e de bandidagem por ter participado na luta contra o regime militar, ela que foi por este motivo presa e barbaramente torturada.

 

A mobilização da direita está completamente ligada aos interesses do agro-negócio, um vínculo sobre o qual o governo Lula tem sido ambíguo em alguns momentos. No entanto, uma vitória da direita representaria o triunfo do complexo agro-industrial e dos céticos em matéria de aquecimento global. Seria uma guinada à direita em direção à revisão do estatuto da floresta que começou a limitar a devastação na Amazônia e no Mato Grosso, e no asseguramento dos direitos indígenas sobre suas reservas, que no ano passado obtiveram uma importante vitória (Raposa Serra do Sol) referendada pela Corte Suprema do país, que reconheceu esses direitos. Vinte e duas reservas indígenas podem seguir este caminho de enfrentamento com o agro negócio da soja e do arroz transgênico.

 

Não permitamos que o voto libertário em Marina Silva paradoxalmente se transforme em uma catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os direitos da natureza!

 

No plano internacional, os aspectos mais inovadores da política Sul-Sul de Lula (certamente pelo fato de seu apoio a Ahmadinejad), seriam condenados ao ostracismo com um realinhamento com os Estados Unidos. Além de representar uma alternativa à fixação estéril em uma política de confronto entre Estados Unidos e China, esta política Sul-Sul se opõe às estratégias dos países do Norte de multiplicar as medidas de defesa dos direitos da propriedade intelectual em detrimento do acesso aos saberes, à internet (especialmente no âmbito da ACTA).

 

Marina Silva recusou-se a manifestar apoio ao voto em Dilma. Pode-se compreender que seja um pouco difícil para ela se alinhar imediatamente com Dilma, com quem ela entrou em conflito enquanto no governo, e neste momento ela luta para evitar o alinhamento do partido verde com a direita, apesar da campanha virulenta contra ela por parte do PT.

 

Com efeito, os ecologistas estão travando, não só na Europa, como em vários países do mundo, um sério debate com os socialistas sobre a questão nuclear, sobre a OMC e o produtivismo agrícola e industrial, bem como o problema do aquecimento climático. No Brasil, agrega-se a todas essas questões uma dimensão – amplificada por sua urgência crucial – da luta contra as desigualdades. Pode-se compreender, portanto, a reserva de alguns ambientalistas em se alinharem com a candidata da esquerda.

 

Mas nossa experiência como força política e de oposição e governo na Europa nos permite afirmar a nossos companheiros brasileiros que, nas atuais circunstâncias do Brasil, a ancoragem na esquerda é a única possibilidade real de fazer avançar a causa ecológica: já vimos no que se tornou a «Grenelle» – Ministério do Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Energia e Transportes – na França com a direita.

 

Quanto às mulheres, às minorias étnicas, religiosas, sexuais, elas sabem aonde têm que se bater. A xenofobia, o racismo, a mobilização reacionária da religião são os perigosos instrumentos que a direita populista utiliza alegremente na Europa.

 

É impossível acreditar que a esperança suscitada pelos dois mandatos presidenciais de Lula acabe terminando no segundo turno com a eleição do candidato da direita.

 

Assinam:

Dany Cohn Bendit (Alemanha) co-président du groupe parlementaire des députés Verts au Parlement Européen

Monica Frassoni  (Itália) co-présidente du Parti des Verts Européens

Philippe Lamberts (Bélgica) co-président du Parti des Verts Européens

Dominique Voynet (França)  Senadora, Prefeita da Cidade de Montreuil , ex-Ministra do Meio Ambiente (gov. Jospin)

Yves Cochet ( França) Deputado Nacional,  ex-MInistro do Meio Ambiente (Gov. Jospin)

Noël Mamère (França) – Deputado Nacional e Prefeito de Bègles (Bordeaux)

José Bové  (França) – Deputado europeu

Alain Lipietz  (França) – dirigente dos Verdes, ex-deputado europeu

Jérôme Gleizes (França) – Dirigente da comissão internacional dos Verdes

Yann Moulier Boutang (França) Co-diretor da Revista Multitudes (Paris)

 

Paris 18 de outubro de 2010

 

Destaques CartaCapital “http://www.cartacapital.com.br/

“Lula é um gênio do povo”

Publico
25 de outubro de 2010 às 15:58h

 

Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota em Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par. Foto: Marcelo Carnaval

Por Alexandra Lucas Coelho*

Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par

Maria da Conceição Tavares é daquelas figuras “maiores que a vida”. Aos 80 anos, a fumar ininterruptamente na sua casa do bairro carioca Cosme Velho, tem algo de Indira Gandhi ou Churchill. Voz e riso de trovão, olhar agudo, resposta incisiva. Respeitada em todo o espectro político como economista e pensadora, é uma das grandes conselheiras do PT. Nunca quis ser ministra porque diz tudo o que pensa.

Portuguesa, nascida em Anadia, crescida em Lisboa, filha de um anarquista que alojava refugiados da Guerra Civil de Espanha, veio casada e grávida para o Brasil, aos 21 anos, por causa de Salazar. Desde então, ao longo de 60 anos, formou gerações de economistas e líderes políticos, incluindo Lula.

A senhora deve ser a única pessoa no Brasil que consegue juntar no aniversário dos seus 80 anos….

Os dois candidatos à presidência da República! [ri-se]

… Dilma Rousseff e José Serra.

Mas o clima estava muito bom. Eles nunca se trataram mal, nem nada. Eram pessoas civilizadas, que se tratavam bem. A campanha é que despertou essa trapalhada. A noite [do aniversário, 24 de Abril] correu perfeita. Nem se discutiu política. Foi uma festa.

Eles sempre tiveram boa relação?

Não que sejam amigos pessoais, como eu sou amiga dos dois. Mas sempre tiveram boa relação. O Serra era um sujeito civilizado. Não sei o que deu na cabeça dele agora.

Conhece-o muito bem…

Desde 1968.

… se tivesse de explicar quem é José Serra, o que diria?

Um bom economista. Ambos éramos do PMDB, a frente democrática contra a ditadura. E ele saiu para fundar, com o [Mário] Covas e o Fernando Henrique [Cardoso], o PSDB, uma espécie de ala esquerda. Muita gente não acompanhou isso. Eu, por exemplo, não fui porque não faço muita fé no Fernando Henrique, que sempre foi meio dúbio, trapalhão. O Covas é que era o homem importante. Morreu. E aí… A partir do momento em que Fernando Henrique foi para o poder, o Serra manteve a posição dele como economista contra a política neoliberal.

Porque é que acha o Fernando Henrique “meio dúbio”?

Diz uma coisa para agradar a uns e outra para agradar a outros. Não fazia política, mas era um político na academia. E o Serra não, sempre foi muito “straight”, muito direito.

Confiaria mais no Serra que no Fernando Henrique?

Sem dúvida [ri]. E o primeiro governo [de Fernando Henrique] mostrou isso. Porque aí o Serra foi ministro de Planejamento contra a política neo-liberal do Fernando Henrique. Depois foi um bom ministro da saúde. Não havia nada nele que demonstrasse que ia ter uma mudança assim tão brusca. Mesmo quando foi candidato contra o Lula foi uma campanha normal. Ele sempre respeitou o Lula.

Mas acha que Serra mudou?

Mudou. Por razões de interesse político.

Como é que essa mudança se manifesta?

Na arrogância, na agressão. Ele não era assim.

Mas na segunda volta quem passou ao ataque foi Dilma.

Mas não foi ataque pessoal, xingando ele. Foi atacando o governo anterior [de Fernando Henrique]. E ele não se defendeu.

Depois [a campanha] foi piorando. E agora piorou de vez.

Como vê o incidente em que Serra acusou o PT de ser nazi, ao agredirem-no com um rolo de papel?

Ah, são jovens na rua. Mesmo que sejam pêtistas não tem a ver com o partido em geral. Essa mania de chamar um partido de nazi, acho de maluco, num país democrático como é hoje o Brasil. A gente está extremando o argumento. O Serra está muito agressivo. É verdade que essa deve ser a última oportunidade, mas parece que lhe bateu o desespero.

Mas não acha que Dilma mudou de atitude também, ficou mais agressiva?

Claro. Mas é para responder. Defender a honra dela. Ele diz que ela é mentirosa, que disse isto e depois aquilo. Diz que ela abriga a corrupção, que é dela a culpa da Erenice [Guerra, ex-braço direito de Dilma, acusada de corrupção], que todos os problemas do Brasil são culpa dela. Ela está mais agressiva no tom, inclusive mais assertiva. Mas não está insultando, dizendo que ele é ladrão.

De qualquer maneira, [a campanha] degringolou. Passou a ser um debate agressivo e vazio. Conheceu Dilma nos anos 80, sua aluna na Unicamp. Como a pode apresentar?

É uma moça que sempre fez política, como o Serra. Fez política nos partidos radicais nos anos 70, ficou presa muitos anos, teve um comportamento fantástico na prisão, é uma mulher de muita coragem, de nervo. Ela não se desmorona à toa.

Em 80 veio para Campinas, para o doutoramento. Era brilhante. Brilhantes, eles são os dois.

Serra e Dilma?

É. Ambos são bons economistas. Isso é que irrita. Podiam estar falando de coisas importantes para o Brasil.

Portanto, em termos de economia, não fica preocupada com nenhum dos dois?

Não, não fico. Quero dizer, com o Serra fico, em termos de política. Porque ele virou muito conservador e é frontalmente contra a política externa do Brasil, essa política de autonomia. Ele não é a favor das relações Sul-Sul. Preferia que a gente mantivesse a relação Norte-Sul, mais estreita com os Estados Unidos, o que acho um erro. E ele é muito fiscalista. Tanto, que o que está dizendo é contraditório. É a favor do corte do gasto público, mas diz que vai dar não sei quantos mil de salário mínimo, e para os aposentados. Está fazendo promessas demagógicas, o que não é nada o estilo dele.

Existe a ideia de que a Dilma é uma construção do Lula, alguém que não tem personalidade própria.

Isso é uma bobagem. O que ela não tem é o conhecimento político do Lula. Mas foi ministra de Minas e Energias, um sector pesado, em plena crise de energia eléctrica — herança da política boba do Fernando Henrique —, e foi Chefe da Casa Civil, uma casa política. E está com ele [Lula] todos os dias. Tem aprendido com ele tudo o que há para aprender sobre o Brasil. É evidente que sem ele não teria chance. O Serra já foi candidato a várias coisas, ela não. Então, o facto de ser apoiada pelo Lula ajuda. Não bastava o PT. O PT não tem peso suficiente para fazê-la ganhar. Quem tem é o Lula, uma figura política como nunca ocorreu no país. Para dizer a verdade, pouco ocorreu no mundo.

No vídeo em que apoia à Dilma diz: não sigam a propaganda das grandes empresas, o Brasil tem de fazer as pazes com o povo, não pode ficar só votando para os 10 ou 20 por cento de cima, e a mulher do povo é a Dilma. Acha que existem dois Brasis, essa faixa de cima que é anti-Lula e o Brasil do povo?

Acho. Tranquilamente.

E isso está a manifestar-se de novo nesta eleição?

De novo. Agora, tem a classe média, que vai para cá ou para lá, conforme a conjuntura.

A classe média que ascendeu nos últimos anos?

A que ascendeu foi a média-baixa. A média-alta, não. E essa é que tem muita raiva do Lula e não vai votar na Dilma.

Nessa faixa média alta, o Lula é frequentemente descrito como um ignorante, ou um populista.

Primeiro, não é populista porque é do povo. Populista seria um cara da elite que estivesse manipulando o povo. Ele ascendeu do povo, e foi sendo feito pelo povo.

Depois, ignorante, coisa nenhuma. O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém. E sabe mais de economia aplicada, prática, do que ninguém. Já é candidato desde 1989. Então, na primeira derrota fez o Instituto de Cidadania, uma espécie de ONG, e convidava todos os intelectuais. Eu conhecia-o de vista, mas aí passei a ser assessora dele. Eu, uma série de economistas progressistas, filósofos, sociólogos.

Era uma espécie de academia informal?Claro. De maneira que ele fez uma “universidade” que durou de 1989 a 2002.

Como “aluno”, como era?

Ah, brilhante, brilhante. Tem uma memória prodigiosa. E quando havia discussão académica e ele percebia que as questões estavam resvalando, não deixava. Ele vai no gume. Tem um sentido de oportunidade muito afiado, uma mente muito lógica. Isso é que é impressionante. Tem um coração popular, uma emoção popular, mas a cabeça dele é totalmente lógica. É dos homens mais inteligentes que conheci. Se não o mais.

Diria que o Lula é talvez o homem mais inteligente que conheceu?

Sem dúvida. E não apenas politicamente. É uma inteligência nata. É um génio do povo. Nós tivemos um génio do povo. Se não, não teria chegado lá. Você acha que alguém vindo de onde ele veio, com as dificuldades que teve, chega a presidente? Não. Ele é um génio do povo, mesmo, e impressiona qualquer um.

A senhora tem uma frase que é: “O Lula é o maior intelectual orgânico do Brasil.”

Os intelectuais como eu são clássicos. E ele é orgânico. Interpreta e representa organicamente o povo brasileiro.

Não tem nada a ver com um Hugo Chávez?

Não, imagina! O Chávez é de origem militar. Ao Chávez é que se podia chamar populista, embora eu o ache mais uma espécie de caudilho ilustrado.

E o Lula não tem nada de caudilho [líder carismático e autoritário]?

Não, que caudilho! Ele jamais faz apelos carismáticos. Ele fala com o povo, ou com quem quer que seja, de igual para igual. Faz piada, faz humor.

É um deles?

É um deles. Mas também quando se encontra com a classe média é como um de nós. Não tem complexo de inferioridade, nem de superioridade.

Não tem ressentimento, é isso?

De nenhuma espécie. E não gosta que fiquem elogiando ele de mais. É muito lúcido. Como a lucidez é uma característica da inteligência analítica, ele tem uma inteligência analítica poderosa. E como é do povo, eu digo que é orgânico.

A senhora escreveu que ele foi quem mais avançou na “republicanização do Brasil”. No sentido de democratização?

É. Porque está dando voz ao povo. A preocupação dele é tornar cidadãos os que estão à margem. E não com palavras, com factos. Indo até eles, dando-lhes direitos, com a preocupação de que as políticas sociais sejam para incorporação.

O Lula, entre as derrotas, fez várias viagens ao Brasil inteiro, chamadas Caravanas da Cidadania. A palavra que escolhe sempre é cidadania. Por isso digo que é republicanização. O que ele quer é que todos os brasileiros tenham cidadania, possam-se expressar, ter direitos. Quer acabar com os dois Brasis, em resumo. Quer fazer disto uma nação.

Quando chegou ao Brasil, o pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro foi importante para si, a ideia de construir uma democracia multiracial nos trópicos. O Brasil está mais perto disso?

Está. Nunca julguei que chegasse. Mas agora acho que a democracia está consolidada no Brasil. A coisa multiracial está avançando, porque os direitos dos negros, dos índios, estão sendo reconhecidos. E os dois Brasis estão terminando. Essa nossa vergonha.

Lula é acusado de tentações autoritárias, de se apoderar da máquina do Estado, de se enfurecer com a imprensa. Há toda esta tensão.

Ele ironiza, ridiculariza, o que é outra coisa, porque é muito do estilo popular, rir dos defeitos do adversário.

Mas não há uma tentação autoritária? Quando se fala do inchaço da máquina do Estado…

Que inchaço da máquina do Estado, coisa nenhuma. Nós desmontámos o Estado do Fernando Henrique, que fez uma política neo-liberal durante oito anos, nunca fez concurso público e deixou que todo o Estado ficasse terciarizado, com gente que trabalhava sem contrato, sem carteira assinada. Isso é que inchaço. O Lula faz concurso público, a terciarização está diminuindo, está aumentando o pessoal com carteira assinada. Enfim, estão-se reconhecendo formalmente os direitos trabalhistas. E isto é autoritarismo?

É possível que em alguns cargos de confiança o Lula tenha errado, mas também o Fernando Henrique errou, botou vários em cargos de confiança que nas privatizações se revelaram pessoas sem escrúpulos. Errar em cargo de confiança acontece em qualquer governo. Agora, no Estado, não, porque o Lula fez concurso. Foi por mérito, não para inchar a máquina.A corrupção foi o problema que prejudicou mais o governo Lula?

Foi o que prejudicou a imagem. Não propriamente dele, que tem 80 por cento de aprovação. Prejudicou os candidatos dele, como está prejudicando Dilma, prejudicou a imagem do governo.

Mas ele tirou, por exemplo, o José Dirceu [protagonista do escândalo Mensalão, em que o PT pagava a deputados uma mesada], de quem era amigo antiquíssimo. Não há nepotismo.

Todos os casos de corrupção declarada, ou objecto de inquérito público, foram demitidos.

Por exemplo, com o Berlusconi, não há dúvida nenhuma de que aquilo é um governo corrupto, porque ele é um corrupto. Agora, ninguém acusou o Lula directamente. Acusaram-no de ter fechado os olhos, mas ele não fechou olho nenhum. Podia ter mantido o José Dirceu, e dizer que era culpa de fulaninho e sicraninho, enfim daqueles que fizeram lá os “mal-feitos”.

Como podia ter mantido a Erenice, não tinha processo contra ela.

Agora, tem pêtistas que não gostaram que o PT não expulsasse esses quadros. Eu fazia parte da tendência chamada refundação. Achava que devíamos dar uma refundada e ter um código de ética mais pesado. O argumento dos outros era que seria injusto expulsar enquanto não ficasse provada a culpa.

Obviamente, não tenho a menor simpatia pelos quadros que foram acusados. Quanto mais não seja por ineficácia política. De um homem da importância de José Dirceu, que foi presidente do partido anos, e deixa o tesoureiro nomeado por ele fazer o que fez, dele é que se pode dizer que como estava preocupado com o poder esqueceu essa parte [ter mão na corrupção]. Ele pode ser acusado disso. O Lula não. Não tinha nada que ver com a máquina do partido. Lançou a Dilma, e depois é que o partido referendou. O Lula sempre teve muita autonomia em relação ao partido. Tanto que o pessoal fala que há o pêtismo e o lulismo.

Acha que há?

Há mesmo. Porque o Lula é maior que o partido. Acha que essa malta pobre que vota nele é pêtista? Coisa nenhuma. São pentecostais, a maior parte não tem partido. Acreditam no Lula. O lulismo é um fenómeno de massas. O pêtismo é um fenómeno orgânico, de um partido de esquerda que foi andando para uma espécie de centro-esquerda, social-democrata, que hoje já não existe na Europa, porque a Europa está decadente.

A Europa está decadente?

Ah, está. Puxa vida. Bota decadência, não é? Até nós.

Até nós?

Nós, portugueses [risos].

Seguimos o exemplo dos outros. O único país que seguiu menos esse exemplo foi a Suécia, que teve um período neo-liberal muito curto. Nós virámos neo-liberais. Não somos social-democratas faz horas. Nem nós, nem a Europa inteira continental. Nem a Inglaterra, nem nada.

O Lula é um social-democrata?

É. Vamos ver: social-democrata é quando você representa organicamente os trabalhadores. Ora, se há social-democrata é o Lula. Jamais foi a favor da luta armada, jamais. Sempre ficava meio chateado entre a discussão dos intelectuais e dos que vinham da igreja. O PT tem três origens: a sindical, que é a dele, a da igreja, católica, e a dos intelectuais revolucionários. Perdiam um tempo danado a discutir e a vontade dele era mandar os padres rezar e os intelectuais para a academia, e não chatearem ele [ri]. Isso ele disse uma vez para mim, rindo: “Você não tem ideia do que era!” Quando eu entrei, [o PT] já estava manso.Nunca quis ser ministra?

Não. Não tenho temperamento para ser executiva. Fui deputada porque me pediram.

O Lula nunca a convidou?

Não. Ele conhece-me, sabe que eu sou pêlo no vento. Eu sou muito mais agressiva do que a Dilma, muito mais. Ela consegue disfarçar a raiva dela, eu não. Quando fico com raiva, fico. Digo na cara das pessoas o que acho. Eu não seria uma boa ministra. Sou uma boa assessora.

Porque diz o que pensa.

Isso. O que é importante. Alguém que não fica puxando o saco do chefe. Eu não puxo saco de ninguém. Várias vezes disse ao Lula coisas com que ele não concordava.

Por exemplo?

Por exemplo, quando ele fez a aliança com o Garotinho [ex-governador do Rio, condenado por corrupção]. Eu não votei.

Já agora, Collor de Melo e Sarney [ex-presidentes envolvidos em escândalos, que também fazem parte da base de apoio de Lula]. Sente-se confortável com estas alianças?

Eu não sigo as instruções. Se a aliança for com alguém que considero indecoroso, não voto.

É o caso de Sarney ou Collor?

Collor, sim. Sarney, nem tanto. O Sarney que conheço é o da transição. Na primeira parte do governo fez o que pôde. Depois, degringolou. E nunca mais foi candidato a nada. Acho injusto confundir o Sarney com o Collor. O Collor é uma coisa desqualificada.

Há quem critique programas como o Bolsa Família como a criação de uma rede de dependência do governo, que pode ter o efeito contrário justamente a essa autonomia dos cidadãos. O que acha disto?

Acho que é mentira. O Lula tirou 28 milhões da pobreza. Esses não são mais dependentes da Bolsa Família, porque a Bolsa Família é para os pobres. Esses 28 milhões entraram no mercado de trabalho, são assalariados, ou têm os seus pequenos negócios. O que o Lula fez foi proteger os pobres, não deixar os caras morrer de fome. Mas uma vez que ficaram acima do salário mínimo, não. Ninguém que ganhe acima do salário mínimo tem Bolsa Família. Pode ter outras.

Como economista, como vê estes programas?

Acho que é o correcto. Ao tirar da pobreza, e meter no mercado de trabalho vinte e tantos milhões, você está consolidando o mercado interno. Por isso é que a crise internacional não nos atingiu duramente. Por isso, e porque o sector externo estava bem. Tínhamos pago a dívida externa.

E Lula investiu no consumo…

É, deu crédito, além de ter dado emprego. Deu muito emprego. Mais do que prometeu. Investiu no mercado interno e deu financiamento para aquisição de bens necessários, tipo geladeira [frigorífico]. As pessoas dizem: “Ah, fica financiando geladeira…” Mas neste país quente querem que não se financie geladeira? E as pessoas comem o quê? Carne podre? Evidentemente que o que ele fez está correcto. Passámos de uma taxa de crédito de 20 e tantos por cento para 40 e tantos. O que é bom. Não é como nos países ricos, que era 120, 130, o que deu na catástrofe que deu [crise de 2008]. Aqui não tem alavancagem do crédito. Não tem incumprimento alto, inclusive, ou seja, não pagar a prestação que deve. Os devedores pagam, e quem mais paga são os pobres, exactamente. Essa é outra ideia, que pobre não paga. É mentira. Quem não paga é a classe média-alta, que usa cartão de crédito, cheque especial, vai-se endividando e endividando. O povo não faz isso. Nem tem cartão de crédito nem cheque especial. Tem banco, isso sim. Foi uma coisa importante.

O Lula não fez só o Bolsa Família. Fez O Luz para Todos, fez a Bancarização, que é você ter direito, mesmo sem carteira de trabalho, a poder ir ao banco e ter crédito. Essas coisas que implicam integrar o cidadão na sociedade.O que é está em jogo nesta eleição, de facto? É uma eleição importante?

É importante. É a continuidade deste esforço em todos os sentidos. Desde a política externa autónoma, que é fundamental. As pessoas não se dão conta, porque aqui ninguém sabe nada de política externa, então a classe média nem fala no assunto.

Uma das críticas maiores ao governo Lula é o facto dele falar no tom em que fala com Chávez, com o regime cubano, com Ahmadinejad.

Isso é tudo uma bobagem, porque tem de falar com todo o mundo. Lula também fala, e é amigo, do presidente dos Estados Unidos. Só que não se submete.

Mas a questão não é falar, é…

É falar sim, porque ele não fez nada que não fosse de acordo com as regras da nossa constituição e as regras internacionais.

A questão que algumas pessoas colocam é se faz sentido um presidente como Lula ir abraçar os irmãos Castro num momento em que estão dissidentes a morrer e a serem mortos.

Faz sentido como faz sentido ir abraçar qualquer um. Então eu pergunto: faz sentido o governo dos Estados Unidos ter sustentado com dinheiro, com apoio da CIA, todos os golpes de Estado da América Latina?! Isso ninguém critica! Aposto que essa gente da classe média nunca falou nos golpes latino-americanos financiados pelos Estados Unidos e pela CIA!

Certo. Mas a pergunta…

Então?! Nós não estamos financiando golpe de Estado! Só estamos indo a governos legítimos. Não estou falando democráticos, estou falando legítimos.

Como alguém que acredita profundamente da democracia não a incomoda…

Não me incomoda nada! O Oriente Médio não tem democracia nenhuma, e não terá tão cedo. Há tanta possibilidade de ter democracia no Irão, no Iraque, naquela república petroleira que sustenta tudo…

A Arábia Saudita. Mas eu não estava a falar do Oriente Médio…

Como não? Uma das críticas maiores foi ele ter falado com o Irão. Como não está falando no Oriente Médio, se foi aí que a imprensa espirrou? O Castro é periódico. Todo o mundo sabe que ele é amigo do Castro de Cuba.

Mas estou a perguntar-lhe a si.

Acho que ele tem todo o direito. Eu também não teria nenhum inconveniente se fosse a Cuba — não tenho nada que fazer lá, de momento, nem tive, no passado — em cumprimentar o velho Castro, imagina, que é uma figura histórica totalmente relevante. Agora de repente o Castro não tem importância nenhuma? Eu teria inconveniente era em cumprimentar o primeiro-ministro da Itália [Berlusconi], esse sim, que é um ladrão.

No caso da Itália, não é só por causa da corrupção. É por causa do neo-fascismo, que Berlusconi promoveu, e de que é aliado. O que está acontecendo na Itália é gravíssimo, voltar o fascismo à Itália como partido legal. Mas se cumprimentasse Castro, provavelmente também lhe diria o que pensa, não?

Sem dúvida nenhuma. Ia dizer: “Sei que agora não é você quem manda, é o Raul, mas porque é que não libera logo esses caras, e pára de ter uma praga em cima de você?” Eu diria. E ele diria: “Porque não, nhim-nhim-nhim, nhim-nhim-nhim, lá os argumentos dele. Digo sempre o que penso. Nos Estados Unidos também dizia, quando estava lá.

A senhora acha que isso não teve custos políticos para Lula?

Custos políticos não teve, porque as pessoas que dizem isso nunca votaram no Lula.

Há pessoas que votaram nele e dizem isso.

Não senhora. Não é pela política externa. Não é verdade. Podem ter-te dito que votaram, mas é mentira. A política externa [de Lula] não é uma crítica da esquerda. Ao contrário. Isso é uma crítica da direita.

Concentrando-nos na América Latina, a minha questão era se faz sentido uma figura como o Lula, justamente pelo que transporta de inspiração, de exemplo…

Faz todo o sentido! Não é uma política de autonomia? É! Cuba está ou não cercada pelo boicote económico americano? Está. Um dos problemas económicos deles é esse.

Justamente. Uma palavra de Lula aí não teria força em relação à repressão política, dos prisioneiros?

O Lula não se vai meter nas decisões de cada país. Vai lá para mostrar simpatia pelo facto de que eles estão sendo cercados. E deve ter falado [na questão dos presos políticos]. Porque ele disse-me que isso foi tocado.

É?

Mas amigavelmente. Não vai agora se meter na política dos outros. Chama-se política de não intervenção. Ninguém se intromete. Se fosse à Itália provavelmente também cumprimentaria o Berlusconi. Só que não foi, graças a Deus. Acho que é um dos poucos países onde não foi. Não deve ter sido por acaso. Foi à Alemanha, a França, e também não deve morrer de amores pela Merkel, ou por aquele francês, que é um autoritário de direita, o Sarkozy. E daí? Por acaso ele critica o Sarkozy em público, ou vai lá peruar sobre os direitos dos franceses? Isso não se usa. Isso não é diplomacia. Eu faria, mas o Lula é um estadista, representa o estado brasileiro.

Outra coisa com que a direita não concorda é a política Sul-Sul, e é o caso do Serra, que hoje é um homem de direita.

Acha que ele é um homem de direita?

Hoje, virou. Porque o partido dele virou a direita possível. Dado que a direita clássica está encolhendo no Brasil, ele foi-se estendendo para a direita. Então o partido dele hoje, no máximo, pode-se chamar de centro-direita. Como, no máximo, o nosso pode ser chamado de centro-esquerda. Você tem o centro dominando o espectro ideológico. Ora vai para a esquerda, em certas eleições. Ora vai para a direita.

MEMÓRIAS DE PORTUGAL

Falemos um pouco do seu percurso antes de vir para o Brasil. O seu pai acolheu refugiados da Guerra Civil de Espanha.

É verdade [ri].

Era anarquista, o meu velho. Nasci em Anadia mas vim com um mês para Lisboa. Então sou alfacinha. Estive em Sacavém, nas Avenidas Novas, perto lá da Igreja de Fátima…

Avenida de Berna.

Isso. Estive em vários lugares.

O seu pai era comerciante.

Era. E essa frase de que me lembro [dos refugiados] era quando estávamos num bairro popular, de maneira que não se notava tanto. Se enfiasse anarquistas em bairro de classe média tinha-se ferrado. O pessoal estava saindo, estavam perdendo a guerra, e Lisboa era um lugar de passagem de todo o pessoal que estava sendo perseguido, judeu, anarquista. E tinha sempre vários segmentos da população que ajudavam. Aí cresci no meio do debate. O meu tio era comunista e o meu pai anarquista. Então, você imagina, no caso da Catalunha, em que a briga entre anarquistas e comunistas foi feroz, como é que se discutia. Cresceu a ver esses refugiados em casa.

Quanto tinha sete, oito anos. Quando terminou a guerra, foram à vida deles. Depois teve a II Guerra Mundial. E aí é que eu cresci, no sentido em que aos 12 anos caiu Paris. Foi uma tristeza geral. Me lembro de nós todos em torno da BBC, ouvindo a notícia, chorando. Depois a fronteira russa, a queda de Leninegrado, que foi uma brutalidade. E finalmente no dia D, a gente começou a se animar. A guerra terminou quando eu tinha 15 anos. E venho para o Brasil em 1954. Vim casada, grávida da minha filha mais velha e matemática.

E veio porquê?

Ah, porque aquilo ali não dava.

Por razões políticas?

Ah, sim. Não havia emprego para gente como nós, por causa da ficha política.

Era comunista?

Não. Dado que tinha um pai anarquista, uma mãe da esquerda católica e um tio comunista, eu era progressista, digamos. Naquela altura até era mais de uma esquerda católica. Tinha amigos comunistas, anarquistas. Aqui, quando cheguei, também tinha trotskistas, mas isso não me lembro em Portugal. Aqui tinha muito intelectual ilustre que era trotskista. Tinha vários salões intelectuais: o dos comunistas, o dos trotskistas, e o da esquerda católica. E eu frequentava os três, para variar. Era muito estimulante.

Apesar de que, como morreu logo o Vargas, ficou um período meio brabo. Até me lembro de pensar: “Puxa, onde eu vim amarrar o meu cavalo. Fui em busca de democracia e pego um golpe pela cara.” Mas depois melhorou. E com JK [Juscelino Kubitschek] ficou aquela alegria. Aí, me naturalizei brasileira e fui fazer o curso de Economia. Já tinha 27 anos.

Depois atravessou toda a ditadura brasileira.

Menos um período de cinco anos, em que estive no Chile. Porque aqui estava muito difícil.

Não se cruzou com Serra [que esteve exilado no Chile]?

Claro que cruzei.

Então é lá que se encontram.

Claro. E foi lá que escrevemos o nosso artigo contra o “milagre económico” [brasileiro]. Depois eu voltei em 1973, fiz concurso para Campinas, e fiquei na ponte aérea Rio-Campinas. Dava parte das aulas lá e parte cá. Ajudei a formar o mestrado de Campinas, o doutoramento. Entrei pesado na vida académica. Foi bom ter feito matemática, porque o meu catedrático não tinha nenhuma noção de matemática. E foi assim que ele me indicou para auxiliar, depois fiz os concursos todos.

Houve um momento em que passou a sentir-se brasileira? Um clique?

Houve. O JK [Juscelino Kubitschek]. Trabalhei no Plano de Metas dele. Era uma tamanha alegria que você achava que o país estava indo para a frente. Paradoxalmente, eles não trataram da questão agrária, e também o salário mínimo não foi nenhuma maravilha, a partir de 1958 começou a cair, por causa da inflacção. A inflacção realmente é uma praga. Sou uma das poucas economistas de esquerda que é contra a inflacção. Os economistas de esquerda acham que a inflacção não faz diferença. Faz muita diferença. Para quem? Para os pobres. Para os ricos não faz diferença nenhuma.

Os brasileiros ficaram traumatizados com a inflacção, não é?

Foram décadas. É um país classicamente inflaccionário. Esta é a primeira vez que não. E isso começou, diga-se a verdade, no Fernando Henrique.

O que é que acha que o Brasil lhe deu?

 Inicialmente, susto [ri]. Uma pessoa chegar aqui, mata-se o presidente e fica tudo imerso… Susto. E como aqui o pessoal é meio inconsciente, a esquerda, mesmo quando era ilegal, vivia batendo papo nos botequins. E eu dizia [sussurra]:

“Escuta, aqui não tem PIDE?”

“PIDE?”

“Sim, polícia política.”

“Ah, não sei, deve ter, mas a gente está aqui num bar.”

“Ué, mas um bar é uma coisa aberta!”

[risos] Eu ficava espantadíssima. Não tinha aquela clima português em que você olhava para a esquerda e para a direita até para ler um jornal. Então, essa foi a primeira coisa: relaxei mais. Em segundo lugar, a coisa da alegria, de ver uma civilização brotar, o que é muito bacana. Ver música, teatro… Culturalmente era muito rico. Aqui, essa parte, era liberal. Só na ditadura propriamente dita é que censuraram as manifestações culturais.

Na ditadura, fiquei no Brasil de 1964 a 68, quando ainda tinha muita crítica. Em 68 é que eles endureceram. E por sorte eu fui [para o exílio] antes. Aí caiu gente para burro, intervieram nas universidades. Se eu tivesse aqui teria sido expulsa.

Eu tava lá [Chile] e também foi uma alegria.

Conheceu Salvador Allende?

Conheci. Conheci todo o mundo. Até pedi uma licença — porque estava a fazer um doutoramento em Paris — e fui trabalhar com o governo. Eu e o Serra.

Com o governo Allende?

[Acena] Fomos os dois colegas no ministério da Economia. Como tinha de voltar para tomar posse na universidade, voltei em Março de 1973. E o golpe [de Pinochet] foi no Outono. Eu tinha deixado a minha filha e o meu filho, porque pretendia fazer outra licença. Mas aí vi que não dava, porque já tinha havido o diabo, trouxe o menino, e ela que tinha casado com um chileno ficou lá. Aí foi uma coisa muito angustiante. Depois quando ia para um seminário no México, prenderam-me no aeroporto aqui no Brasil e fiquei lá num desses aparelhos de repressão 48 horas. Assustador. Não teve tortura. Ameaça, ficar nua, fotografada de todos os lado, não poder comer, não poder beber, não poder fumar, e aquelas celas isoladas.

Sempre fumou assim sem parar?

Sempre, desde os 14 anos. Fumo dois maços. Claro, em entrevista fico nervosa e fumo mais [ri].

Então o Brasil me deu maturidade e uma experiência de vida rica.

E Portugal para si é o quê?

É remoto. Hoje não tenho mais nenhuma ligação íntima. Tenho uns primos vagos na Anadia. A Maria de Lourdes Pintasilgo, que era minha colega, morreu.

Foi sua colega onde?

No liceu Filipa de Lencastre, e depois No Instituto Superior Técnico, onde entrei com 16 anos. Estive com ela várias vezes, quando ela vinha aqui eu sempre a via. Essa era uma mulher fantástica. A verdade é que nós, as mulheres portuguesas, somos fantásticas. A coisa das Marias portuguesas é um facto. São mais lutadoras que os homens. Eu acho. Desde a Padeira de Aljubarrota para cá.

No tempo do Salazar era uma apagada e vil tristeza. Agora, como eu tinha sido presa aqui na véspera da revolução dos cravos e me disseram que me cortavam a nacionalidade se eu saísse, fiquei com medo e não saí do Brasil [nos dois anos a seguir ao 25 de Abril]. Depois fui, e talvez tenha ido numa das últimas marchas com os cravos, com os capitães e o velho comuna, que acho que já morreu…

Álvaro Cunhal.

O Álvaro já morreu, não já? O velho Cunhal. Descemos a Avenida da Liberdade com os cravos na mão. Foi simpático. Mas não é um país estimulante como o Brasil. O Brasil é um país imenso e muito diversificado. Lá é muito pequenininho.

*Matéria originalmente publicada no site do jornal Público

Cansei de ir ao supermercado e encontrá-lo cheio. O alimento está barato demais.

O salário dos pobres aumentou, e qualquer um agora se mete a comprar, carne, queijo, presunto, hambúrguer e iogurte.

Cansei dos bares e restaurantes lotados nos fins de semana. Se sobra algum, a gentalha toda vai para a noite. Cansei dessa demagogia.

Cansei de ir em Shopping e ver a pobreza comprando e desfilando com seus celulares.

O governo reduziu os impostos para os computadores. A Internet virou coisa de qualquer um. Pode? Até o filho da manicure, pedreiro, catador de papel, agora navega…

Cansei dos estacionamentos sem vaga. Com essa coisa de juro  baixo, todo mundo tem carro, até a minha empregada. “É uma vergonha!”, como dizia o Boris Casoy. Com o Serra os congestionamentos vão acabar, porque como em S. Paulo, vai instalar postos de pedágio nas estradas brasileiras a cada 35 km e cobrar caro.

Quero aumento da gasolina na calada da noite.

Cansei da moda banalizada. Agora, qualquer um pode botar uma confecção. Tem até crédito oferecido pelo governo. O que era exclusivo da Oscar Freire, agora, se vende até no camelô da 25 de Março e no Braz. Vergonha, vergonha, vergonha…

Cansei dessa coisa de biodiesel, de agricultura familiar. O caseiro do meu sítio agora virou “empreendedor” no Nordeste. Pode?

Cansei dessa coisa assistencialista de Bolsa Família. Esse dinheiro poderia ser utilizado para abater a dívida dos empresários de comunicação (Globo, SBT, Band, RedeTV, CNT, Folha SP, Estadão etc.). A coitada da “Veja” passando dificuldade e esse governo alimentando gabiru em Pernambuco. É o fim do mundo.

Cansei dessa história de PROUNI, que botou esses tipinhos, sem berço, na universidade. Até índio, agora, vira médico e advogado. É um desrespeito… Meus filhos, que foram bem criados, precisam conviver e competir com essa raça.

Cansei dessa história de aeroportos lotados. Hoje qualquer Zé Mané está viajando. Parece rodoviária. No tempo bom de viajar de avião só tinha pessoal bem arrumado e não existia fila pra nada. Estou até pensando em comprar um avião. O problema é que o imposto do governo Lula é muito alto para este tipo de operação.

Cansei dessa história de Luz para Todos. Os capiaus, agora, vão assistir TV até tarde. E, lógico, vão acordar ao meio-dia. Quem vai cuidar da lavoura do Brasil? Diga aí, seu Lula…

Cansei dessa história de facilitar a construção e a compra da casa própria (73% da população, hoje, tem casa própria, segundo pesquisas recentes do IBGE). E os coitados que vivem de cobrar aluguéis? O que será deles?

Cansei dessa palhaçada da desvalorização do dólar. Agora, qualquer um tem MP3, celular e câmera digital. Qualquer umazinha, aqui do prédio, vai passar férias no Exterior. É o fim…

Vou votar no Serra. Cansei, vou votar no Serra, porque quero de volta as emoções fortes do governo , quero investir no dólar em disparada . Investir em ações de Estatais quase de graça e vender com altos lucros.

Chega dessa baboseira politicamente correta, dessa hipocrisia de cooperação. O motor da vida é a disputa, o risco…

Quem pode, pode, quem não pode, se sacode. Tenho culpa eu, se meu pai era mais esperto que os outros para ganhar dinheiro comprando ações de Estatais quase de graça? Eles que vão trabalhar, vagabundos, porque no capitalismo vence quem tem mais competência. É o único jeito de organizar a sociedade, de mostrar quem é superior e quem é inferior.

Eu ia anular, mas cansei. Basta! Vou votar no Serra. Quero ver essa gentalha no lugar que lhe é devido.

Quero minha felicidade de volta. !!!

Cesar Marques

 

 
 

O fim da civilidade, decretado pela direita tucano-pefelista, neste último mês de campanha, está trazendo à luz pelo menos três aspectos da realidade brasileira.

Primeiro, a natureza reacionária e antidemocrática dos novos representantes políticos da burguesia financeira e da burguesia agrária. Segundo, a oposição de grandes parcelas das camadas populares e das classes médias a tal reacionarismo. E, terceiro, as clivagens da esquerda diante dessa polarização.

A nova direita política é, em grande parte, formada por parcelas oriundas da intelectualidade política democrática e de esquerda que se defrontou com a ditadura militar. No curso da emergência das lutas operárias e populares e da formação do PT, assim como da ofensiva ideológica e política do neoliberalismo, muitos de seus membros se transformaram no oposto do que representaram no passado.

Com isso, repetem uma experiência histórica peculiar da esquerda brasileira, que teve em Carlos Lacerda seu expoente mais significativo. Quem conheceu esse personagem da história brasileira certamente se lembrou dele ao assistir ao candidato Serra deblaterando sobre a suposta tolerância de Lula com “quem rouba”, e qualificando a candidata Dilma de “envelope fechado”. A grande desvantagem de Serra é que não tem a oratória de Lacerda, nem um ambiente de conspiração militar generalizada. Mas a natureza golpista e reacionária é a mesma.

Essa truculência tucano-pefelista também está colocando em evidência algo que uma parte da esquerda se nega a ver. Isto é, que grandes massas do povo brasileiro consideram as atuais eleições como um acerto de contas com a herança de FHC e depositam uma firme confiança em Lula e no PT. Ou seja, além de encararem as atuais eleições como polarizadas e plebiscitárias, grandes parcelas do povo estão convictas de que as mudanças implantadas pelo governo Lula, mesmo contendo erros e problemas, relacionados ou não com suas alianças políticas, apontam para um caminho seguro de transformação social e política.

Uma parte da chamada esquerda democrática se encontra perdida na enseada tucano-pefelista, sem se dar conta de que está dormindo com o inimigo. É doloroso ver candidatos dessa esquerda, com discursos de mudanças democráticas e populares, sendo apresentados por FHC, Serra, César Maia e outros personagens que quase quebraram o Brasil e levaram o povão ao desemprego e à miséria.

A parte da esquerda que se considera revolucionária está na oposição. Embora procure se distanciar da direita que também é oposição, seu inimigo principal e alvo de seus ataques tem sido o governo Lula e a esquerda que apóia Dilma. Na prática, o povão acaba confundindo-a com seus inimigos de direita.

A maior parte da esquerda, que apóia Dilma, também se debate diante da realidade complexa do país. Isto parece ser mais evidente dentro do PT, onde havia uma corrente que pregava abertamente a impossibilidade de uma eleição polarizada e trabalhava para construir pontes com o tucanato. A evolução da campanha eleitoral, apesar da ausência de ataques petistas ao tucanato, está demonstrando que aquela corrente estava totalmente enganada, pelo desconhecimento da natureza antidemocrática e reacionária do tucano-pefelismo.

Também é dentro do PT que continuam se apresentando brechas relacionadas com a tibieza em adotar procedimentos ideológicos, políticos e organizativos condizentes com um partido de esquerda que quer transformar o Estado e a sociedade. Um partido desse tipo não pode ter aloprados, filiados facilmente cooptáveis por dinheiro fácil, nem agentes infiltrados que possam navegar tranqüilamente por suas fileiras. Se o PT não adotar procedimentos que o blindem contra os arrivistas e oportunistas que procuram fazer carreira em qualquer partido que seja governo, aquelas brechas podem se tornar voçorocas, deixando-o indefeso diante das armações que tendem a crescer nas disputas institucionais.

Nessas condições, a vitória do PT e Dilma não representará apenas um acerto de contas com a ideologia e as políticas neoliberais, condensadas na candidatura Serra. Nem apenas um impacto muito sério na esquerda que se aliou à direita, formal ou informalmente, nos ataques ao governo Lula e à candidatura Dilma. Ela deverá representar também uma reestruturação ideológica, política e organizativa do PT, se esse partido quiser enfrentar com sucesso os desafios para aprofundar as mudanças democráticas, econômicas e sociais que as camadas populares reclamam.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Jornal do Brasil responde a Luiz Garcia

 

JB Online

DA REDAÇÃO – Em artigo intitulado ‘JB’, publicado na edição de 3.9.2010 de O Globo, o jornalista Luiz Garcia incorpora a cômica figura formulada pelo Embaixador Roberto Campos para caracterizar integrantes da pseudo-intelectualidade brasileira – o “arrognante”, personagem que mistura arrogância com ignorância.

A soberba recém-adquirida e a confortável superficialidade de Luiz Garcia são financiadas pelas benesses do oligopólio midiático a que serve.

Nos últimos dias, grandes jornalistas, como Miriam Leitão, analisaram profundamente a trajetória do Jornal do Brasil na TV Globo e no Globo. Outros, em vez de examinar a dinâmica tecnológica que fez o JB tornar-se o primeiro 100% digital do País, optaram por rememorar com nostalgia o JB dos anos 1950, 60 e 70.

Garcia, no entanto, em vez de analisar a evolução de técnicas e costumes, arroga-se ministrar lições de moral. O acidental professor de ética ensina: “o negócio do jornalismo tem uma característica rara e vital: é negócio, mas também é serviço público”. Como se essa característica não estivesse também presente em empresas de alimentação, remédios, hospitais, transportes, águas urbanas ou mesmo a padaria da esquina.

Que deve achar Luiz Garcia do (des)serviço público prestado à reconstrução democrática no país pela empresa a que fisiologicamente se ligou?

Talvez Garcia considere a mão que o alimenta, e a que agora Garcia retribui avassalado, o exemplo mais perfeito de ética jornalística e concorrencial. Ora, alguém com honestidade intelectual e mínimo conhecimento da história recente do País pode achar que a Globo ou O Globo são esses campeões da moral?

Os brasileiros não esquecem episódios desastrosos protagonizados pela empresa que sustenta Luiz Garcia. Nos anos 60 e 70, publicações como o Jornal do Brasil resistiram com altivez aos senhores da noite. Já O Globo cumpriu ordens obedientemente, às vezes com animação. Tornou-se o jornal preferido do governo autoritário.

O jornal de Luiz Garcia estampava em editorial no fatídico 1o. de abril de 1964, primeiro dia da implantação da Ditadura: “Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos“. Não surpreende se um Editorial como esse tenha sido escrito por Luiz Garcia.

Pretenso professor de moral, Luiz Garcia defende em seu artigo: “O jornal exerce o comércio de vender espaço para anunciantes, mas tem de fazê-lo segundo normas éticas”.

A etiqueta de Garcia o faz olhar para o lado quando seu jornal pratica o dumping e pressões quase criminosas contra anunciantes. Todo o mercado publicitário brasileiro sofre com a prática do monopólio. Por ele, impõem-se veículos “globais” a agências de publicidade e clientes. O Globo, ao exercer política de “exclusividade”, pratica níveis de descontos comerciais em que, caso o cliente anuncie em outro veículo, é ameaçado de retaliação.

As agências – e todos os outros veículos de comunicação no Brasil – são vitima dessa política, assim como dos incentivos dos veículos “globais”. São as bonificações de volume, os conhecidos “BVs”, com prêmios em dinheiro – recompensa por determinados patamares de faturamento que atinjam. Espécie de aliciamento a que, constrangidas, as agências se submetem.

E pensar que Garcia, ao menos no nível do discurso, se arvora homem de supostos princípios de esquerda a que cosmeticamente abraçou em anos não muito distantes.

É um erro achar que Luiz Garcia seja alheio à “ética” concorrencial do jornal que o paga. Garcia, bastante conhecido no meio jornalístico por seu adesismo, é remunerado por uma empresa campeã do capitalismo cartorial.

E aí Garcia tem razão: de fato, o leitor não é bobo.

O Verde é conservador?

Marina Silva se tornou uma política conservadora, que facilmente pode ser incorporada no discurso religioso de salvacionismo do planeta, com o qual ela está afinada. As suas idéias encontram uma pirâmide consistente de valores: Deus, Ambiente e Sociedade. Ela é a primeira do novo cristianismo brasileiro a parecer viver pela idéia que considera verdadeira. Com capacidade, inclusive, de conquistar os conservadores brasileiros – aqueles que não possuem um projeto de poder deliberado, mas que aceitam a vida tal como ela é. O projeto ambiental no Brasil é um projeto por acontecer. E não virá do PV, que deve ser implodido como casa de um pobre conservadorismo sem poder. O artigo é de Cesar Kiraly.

Cesar Kiraly (*) 

Artigo publicado originalmente no portal O Pensador Selvagem (OPS)

Um pouco que a história anda as oposições quase-fundamentais são jogadas para baixo do tapete em benefício da coerência de superfície. Mas uma coerência de superfície nada mais é do que uma tensão superficial e uma vez que a rompemos, aquela infinidade de bichinhos que conseguem reinar nesses cincos minutos é afogada como que de repente. Isso ocorre com a esquerda. Existe uma séria oposição entre a esquerda e a religiosidade e entre a esquerda e o ambientalismo. Por esquerda quero dizer movimentos populares que encontram vínculo histórico no século XVIII e que disputam o poder com os proprietários de terra, os industriais, os detentores dos meios de informação e os especuladores que emprestam dinheiro a juros altos.

Numa primeira chave a esquerda rivaliza com a religião, porque a idéia de que um princípio de ordem metafísico governa as coisas tal como elas são é profundamente inconciliável com a tentativa de criar um novo princípio de ordem quer pela violência, quer pelo movimento de trabalhadores, quer pela disputa parlamentar (em democracias majoritárias) ou numa intercalação história de todos esses elementos. Na outra, rivaliza com o monopólio dos meios produtivos. O conservadorismo verde rivaliza, como a esquerda, com os meios produtivos, mas não porque considere que eles devem ser ampliados, mas porque julga que existe um valor mais relevante que a população, o ambiente. Assim, o poder exercido pelas religiões é opositor do poder exercido pelos grupos sociais reativos. Nesse perspectiva, o conservadorismo do verde é mais próximo do conservadorismo religioso, enquanto que esquerda e capitalistas se aproximam da ideologia produtiva.

Mas por que não digo logo sociedade? Porque nem todos os componentes da sociabilidade possuem qualquer preocupação com o poder. Essa obsessão com o poder é característica dos que pensam em produção. O verde não tem um projeto produtivo de poder, mas deseja estacionar a produção em benefício de um outro tipo de vida. Uma vez que a história muda a relação entre as coisas – e o capital se mostra imprevisivelmente destrutivo (o que torna o acordo entre padres e capitalistas uma furada para os primeiros) – os padres aderem à esquerda. Não que eles tenham abdicado do monopólio do princípio de ordem do mundo, mas apenas porque perceberam que a demanda pelas almas não faz muito sentido na destruição completa das coisas, mas o enfrentamento histórico está colocado. Se os padres aderirem ao poder se tornarão oponentes da esquerda. Se a esquerda se tornar poder, mais uma vez os padres serão adversários. Mas ainda que os padres tenham feito uma pequena composição com a esquerda, por que não fazer uma composição mais efetiva? Por que não uma aliança verde? Nisso está o novo quadro político brasileiro. A disputa pelo poder democrático que recoloca a temática metafísica de aspecto sagrado da natureza. Trata-se de ganhar das classes produtivas, em benefício da vida.

Mas disse também que a esquerda não é ambientalista. O digo por algumas razões. Porque a idéia de ambiente está assaz ligada às concepções de nome e sangue. E por mais que essa relação não seja imediatamente invocada quando pensamos no desmatamento amazônico. Uma das razões mais límpidas que nos faz não querer vê-la abaixo é que ela pertence ao nome e ao sangue de alguém (digo das múltiplas diversidades de pessoas que lá vivem). Assim, ainda que não seja o caso de fazer com que a floresta amazônica supra a necessidade de poder dos movimentos sociais, não é estranho ao nosso modo de pensar que empurrar os mais pobres ao desvendamento amazônico, não seja uma das ações que podem ser feitas para lidar com os mais pobres.

A esquerda não é ambientalista. Porque distribuir renda e tomar o poder concerne, dentre muitas outras coisas, em produzir para muitos o que antes era produzido para poucos e tornar aquilo que era de poucos a propriedade de muitos, quando não, a propriedade abstrata de uma soberania político popular ativa. A esquerda não é ambientalista, porque igualdade (e liberdade como igualdade) significa produção e não há como produzir sem destruir. Mas com isso eu quero dizer que a direita é ambientalista, porque quando a propriedade é de poucos se conserva mais? Não é isso que quero dizer. Porque ainda que a propriedade seja de poucos ela será destruída da mesma forma, mas para o benefício de poucos. A idéia é que a esquerda pode destruir para o benefício de muitos. Contudo, não há que objetar que o ritmo da destruição ambiental dos movimentos de distribuição de renda é muito mais acelerada do que dos braços capitalistas ou conservadores.

O movimento verde, portanto, nasce do isolamento de um pequeno sentido conservador. E cabe dizer que o verde é tão avesso ao capitalismo como o são os padres e os movimentos de esquerda. Mas que sentido é esse? De que não vale a pena distribuir renda à custa do meio ambiente e que talvez modos de relação social conservadoras sejam melhores do que relações sociais populares. Para o verde o ambiente é um valor mais importante do que a luta pela supressão da dominação entre classes sociais (se as duas coisas puderem vir juntas, melhor). Para a esquerda, a luta contra a dominação de uma classe pela outra, num primeiro momento, e a gradativa supressão da relação entre classes (quando não a supressão revolucionária), é um valor mais importante do que o meio ambiente.

Os mais cínicos dirão: então o que a esquerda deseja, distribuir renda à custa da destruição da biosfera, onde vamos viver a nossa igualdade, se não há mais nenhum lugar para se viver? Por certo que a pergunta faz muito pouco sentido, porque os problemas não se colocam dessa forma.

Seria mais ou menos como pensar que alguém muito deverás estetizante possa desejar destruir populações para nisso ter a sua obra de arte. A questão aqui é de prevalência. Mas a prevalência não abstrai a relação entre os termos. Também os verdes se haverão com a pobreza, ou os capitalistas, tal como a esquerda precisa enfrentar o problema do meio ambiente. Mas para a esquerda a distribuição de renda é um valor mais importante do que o ambiente.

Marina Silva (MS) é o personagem mais interessante dessa eleição. Porque é relativamente novo, enquanto posição dramatúrgica. A defesa da produção e da concentração de renda pelos tucanos (com paliativos de herança histórica contra a pobreza, mas sem inovação) é mais do que conhecida e a defesa da produção com distribuição de renda pelo Partido dos Trabalhadores, também. Mas MS é um personagem novo, que pode ser desmantelado, ou não, isso dependerá de uma série de outros fatores.

Como Cristóvão Buarque era uma personagem interessante que foi desmantelado, dentre outras razões, porque a sua defesa da primazia da educação é um truísmo. MS era uma ativista de esquerda com preocupações ambientais. Mas por questões de convicção se tornou uma ativista verde com preocupações de esquerda. Ela representa certa tendência do PV, que não é a única, tampouco é a dominante. No momento em que MS rompeu com o governo, julguei que seu projeto de uma democracia ambiental estava afinado com a distribuição de renda, nosso grande problema, acertei acerca do significado do rompimento, que julguei bastante salutar, mas errei sobre o fato da composição de um projeto ambiental de esquerda externo ao PT.

MS se tornou uma política conservadora, que facilmente pode ser incorporada no discurso religioso de salvacionismo do planeta, com o qual ela está afinada, não se trata de um projeto de emancipação, mas de pacificação com a própria servidão voluntária. Ela é o personagem mais interessante desse novo cristianismo de forte reorientação de vida, que teve em personagens pouco elogiáveis alguns de seus representantes, mas é em MS que parece que um personagem consistente aparecerá. Porque não penso que ela não tenha idéias, penso que as têm e com bastante convicção, e nessas idéias encontra uma pirâmide consistente de valores: Deus, Ambiente e Sociedade. Ela é a primeira do novo cristianismo brasileiro a parecer viver pela idéia que considera verdadeira. Com capacidade, inclusive, de conquistar os conservadores brasileiros – aqueles que não possuem um projeto de poder deliberado, mas que aceitam a vida tal como ela é – órfãos que estão de uma possibilidade política não empresarial.

Assim, devo dizer que creio que o projeto ambiental do Brasil não poderá vir de nenhum outro lugar que não do Partido dos Trabalhadores. Ou seja, consiste num projeto por acontecer, e por ser formulado, o PV deve ser implodido como casa de um pobre conservadorismo sem poder, que não é muito diferente do conservadorismo com poder do antigo PFL. MS é um personagem interessante, na proporção de seu perigo. Por isso digo: Essa é uma crença importante para nós brasileiros: Ninguém tem direito à miséria. Mesmo uma miséria verde.Dentre outros motivos, porque a miséria não é terrível apenas para o miserável, mas para toda a composição da vida pública.

A extinção da miséria no Brasil fará muito bem para a dinâmica partidária brasileira. Pode ser que inclusive enfraqueça os partidos que representam os trabalhadores. Mas é o que me dá mais confiança no Partido do Trabalhadores, existe a consciência da luta pelo que é certo, ainda que esse certo coletivo seja danoso para a estratégia história de poder do partido. Mas antes do enfraquecimento histórico do PT, espero ver uma verdadeira democracia ambiental dele emergir. Pois bem, sabemos que nessa eleição não teremos a vitória dos projetos de miséria verde, mas esse espectro, pelo que me parece, não desaparecerá, porque a derrota da miséria, iniciada pelo governo Lula, e que será aprofundada, pelos oito anos do governo Dilma, será constantemente ameaçada pela profunda vontade de recurralizar o eleitorado brasileiro. Seja pela vontade de domínio industrial interno, seja pela vontade de domínio do capital externo, seja pela brincadeira de palavras segundo a qual a miséria verde não é miséria. Assim, devemos lutar por um projeto ambiental brasileiro que seja coerente com a reconfiguração do quadro eleitoral causada pela batalha à miséria. Temos que conquistar uma vida pública ecologicamente sustentável.

(*) Cesar Kiraly é doutor em ciência política pelo IUPERJ, onde coordena o Laboratório de Estudos Hum(e)anos.