Posts Tagged ‘Produção Orgânica’

Pequenos produtores recebem apoio e respondem com aumento da produção, melhoria na qualidade, gerando trabalho renda e riqueza no Piauí.  A comercialização entretanto continua em mãos de meia dúzia exigindo maior atenção das políticas públicas governamentais.

Veja a notícia publicada no portal Meio Norte

Do terceiro para o primeiro lugar em apenas um mês. Em junho, o Piauí passou a ser o maior exportador de mel do país, com 595 toneladas e US$ 1,9 milhão, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira (19) pelo Sebrae. Já São Paulo fechou o mês com 479 toneladas e US$ 1,5 milhão, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 237 t e US$ 736,9 mil, e Ceará, com 136 t e US$ 445 mil.

O diretor-geral da Central das Cooperativas Apícolas do Semi-Árido (Casa Apis), Antônio Leopoldo, atribui à ascensão do Piauí o momento de melhoria do estado e o crescimento dos pequenos produtores. “O mel produzido no estado ganhou reconhecimento lá fora não só pela qualidade, mas também devido à estabilidade da produção, o que abriu novas portas no mercado”, acredita Leopoldo.

Outro fator, segundo o diretor da Casa Apis, é o investimento em programas de capacitação. Os pequenos produtores de mel no Piauí participam de certificações e projetos desenvolvidos pela Central e pela Cooperativa Mista dos Apicultores da Microrregião de Simplício Mendes (Comapi).

O Sebrae apoia e capacita todos os produtores da Casa Apis com ações de tecnologia, mercado e certificação. Com o objetivo de aumentar a produção e a comercialização na apicultura, a instituição também realiza ações para o fortalecimento do cooperativismo, modernização da gestão, inovação tecnológica co ntínua do processo produtivo e ainda certificações em produção orgânica.

De janeiro a junho deste ano, as exportações brasileiras de mel alcançaram US$ 40 milhões, resultado quase 38% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado (US$ 29,1 milhões). Em volume, foram comercializadas 12,3 mil toneladas este ano, contra 10,1 mil t em 2011.

Apesar do bom resultado no semestre, as vendas para o exterior em junho recuaram 29,54% em peso e 28,20% em valor em relação a maio. Foram exportados US$ 5,8 milhões e 1,83 mil tonelada. Porém, o preço médio pago, de US$ 3,22/Kg, foi 1,9% maior comparado ao mês anterior e de 10,65% ao mesmo período do ano passado.

De acordo com a coordenadora de Apicultura do Sebrae, Fátima Lamar, duas hipóteses podem ter gerado essa queda nas exportações. “Supõe-se que os estoques de mel estejam baixos ou que o consumo interno tenha aumentado, pois, apesar da queda das exportações, o preço médio pago aumentou”, justifica Lamar.

Já o diretor-geral da Casa Apis acredita que os números são um reflexo do mercado internacional. Segundo ele, há uma grande oferta de mel indiano nos Estados Unidos, com preço mais baixo, porém, de pior qualidade. “Isso acaba interferindo no mercado, mas esse mel é de péssima qualidade, apenas para puxar o preço para baixo”, explica.

Antônio Leopoldo sugere ainda que a China possa estar por trás das exportações indianas para os Estados Unidos. “As características desse produto são iguais as características do mel produzido pela China, o que supõe que este país está tentando exportar mel para os Estados Unidos através da Índia”, conta Leopoldo.

Os Estados Unidos foram o principal destino do mel brasileiro em junho, com um total de US$ 3,5 milhões, respondendo por 60,6% da receita das exportações e pagando o preço de US$ 3,17/kg. A Alemanha ficou em segundo, com receita de US$ 1,6 milhão, o equivalente a 28,41%, pagando US$ 3,26/kg. O Reino Unido absorveu US$ 247,3 mil dessas vendas, oferecendo US$ 3,00/kg. E o quarto destino das exportações foi o Canadá (US$ 210 mil) pagando o melhor preço, US$ 3,54/Kg. Outros países importadores de mel do Brasil foram Espanha, Bélgica, China, México, Japão, Paraguai, Bolívia e Peru.

Vinte e sete empresas exportaram mel no primeiro semestre de 2011. Somente três empresas responderam por 51% do valor das exportações de mel do Brasil, no primeiro semestre deste ano: duas de São Paulo e uma de Santa Catarina. Outras oito empresas responderam por 35% da receita de exportação, através dos seguintes estados: três do Piauí, duas do Rio Grande do Norte, uma do Ceará, uma do Paraná e uma do Rio Grande do Sul.

por Fernanda Jatobá* (22/07/11)

AGROTÓXICO MATA! Foi a partir desse alerta que realizamos o Seminário Nacional contra o uso dos Agrotóxicos, em setembro de 2010. Movimentos sociais,   ambientalistas, organizações ligadas à área da saúde, pastorais sociais, estudantes e pesquisadores das universidades aprofundaram o debate sobre os agrotóxicos.

Daí nasceu a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, que tem a tarefa de articular comitês nos estados, envolver o maior número de organizações, produzir material de agitação, fazer formação e trabalho de base.

Na jornada de lutas das mulheres, em março deste ano, a campanha contra os agrotóxicos foi pautada com centralidade. E o Dia Mundial da Saúde, em 7 de abril, foi o marco para o lançamento da campanha. Fizemos um grande lançamento nacional com uma marcha em Brasília.

A campanha já foi lançada em 12 estados, em todas as regiões do país, com diferentes atividades: audiências públicas no parlamento, feiras de produtos da Reforma Agrária, distribuição de alimentos produzidos sem agrotóxicos, seminários de estudos e atos públicos de denúncia.

Acertamos em pautar a questão dos agrotóxicos nesse momento. Primeiro porque o Brasil é desde 2008 o campeão mundial no consumo de venenos e os reflexos estão  vindo à tona. Até a mídia está pautando os reflexos dos agrotóxicos para a saúde  humana.

Segundo, porque essa questão é a maior contradição do agronegócio. A contaminação  por agrotóxicos é uma ameaça à saúde e a vida humana e desmascara o discurso do  agronegócio, que não tem como produzir sem utilizar veneno e cada vez tem menos argumentos em sua defesa. Em terceiro lugar, esse tema nos coloca em condições de dialogar com setores da sociedade com os quais não conseguimos por meio de outras  pautas.A campanha possibilita também desgastar cada vez mais a imagem do agronegócio com trabalhadores da cidade, que consomem os alimentos envenenados.

Nossas tarefas

Cabe aos movimentos sociais da Via Campesina fortalecer a campanha e organizar nossa militância, para que estejamos preparados para enfrentar o desafio de dialogar com a sociedade, assim como enfrentar a reação da burguesia.

Nesse sentido, um dos principais desafios é a organização dos comitês. É preciso  construir a campanha nos estados e nas regiões, pois é lá que a luta ganha vida. Onde ainda não ocorreu o lançamento, o momento é bastante propício. Podemos associar a
campanha ao lançamento do documentário “O veneno está na mesa”, que acaba de ser finalizado pelo cineasta Silvio Tendler.

Nos estados em que fizemos o lançamento, é preciso consolidar e ampliar os comitês com outras forças que ainda não se envolveram. É a partir dos comitês que acontecem as atividades de formação e preparação da militância, distribuição de material e informações, organização das lutas e atividades de agitação. Para isso, os movimentos da Via Campesina têm papel importante. Devemos assumir a tarefa, ter responsáveis e tomar a frente do processo.

Temos o desafio de colocar a campanha nas ruas. É preciso fazer a denúncia por
meio do enfrentamento com as empresas transnacionais. Somente dessa forma conseguiremos apontar com clareza quem são os inimigos do povo brasileiro e estabelecer a relação entre agrotóxicos e o modelo de produção agrícola.

Com esse objetivo, estamos construindo nossa jornada de lutas em agosto, na qual o combate aos agrotóxicos é uma pauta central. Temos a tarefa de levar essa bandeira para todas as capitais, carregá-la nas marchas e fincá-la nos acampamentos.

Será o momento de fazer agitação e propaganda, entrar em cada escola, igreja, associação, envolver os trabalhadores da cidade e conscientizar o povo sobre quem está lutando pela vida e quem age pelo lucro e produz a morte.

Abaixo, conheça a pauta da campanha dos agrotóxicos que será apresentada às autoridades em agosto.

Nossas exigências

1 – Exigir que o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Banco Central determinem no Manual de Crédito Rural e nos Planos Safra a proibição de utilização dos créditos oriundos do Pronaf para a aquisição de agrotóxicos, incentivando a aquisição/utilização de insumos orgânicos e a produção de alimentos saudáveis;

2 – Exigir da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a reavaliação periódica de todos os agrotóxicos autorizados no país, além de aprofundar o processo de avaliação e fiscalização da contaminação de água para consumo público e ampliar os alimentos;

3 – Que os governos estaduais e municipais, assembleias legislativas e câmaras de
vereadores proíbam a pulverização aérea (feita pela aviação agrícola) de agrotóxicos;

4 – Que o Ministério da Saúde organize um novo padrão de registro, notificação e monitoramento no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) dos casos de contaminações por agrotóxicos;

5 – Que haja fiscalização por parte do governo, IDEC e PROCON para que se cumpra o código do consumidor, garantindo que todos os produtos alimentícios apresentem no rótulo o agrotóxico utilizado na produção, dando opção ao consumidor de optar por produtos saudáveis;

6 – Aumentar a fiscalização do Ministério do Trabalho e demais órgãos responsáveis às
condições de trabalho dos trabalhadores expostos aos agrotóxicos, desde a fabricação na indústria química até a utilização na lavoura;

7 – Exigir que os Ministérios Públicos Estaduais e Federal, e organismos de fiscalização do meio ambiente fiscalizem com maior rigor o uso de agrotóxicos e as contaminações;

8 – Exigir dos governos a retirada de isenções fiscais e incentivos dados à produção, importação e comercialização de agrotóxicos no Brasil.

*Da Secretaria Operativa da Via Campesina
Do Jornal SemTerra

 jornalistamagalimoserConheça a CooperDotchi, a cooperativa agrícola do norte catarinense que tem a cooperação como resistência para as famílias ruraisNa entrada do assentamento, a placa dá as boas-vindas ao visitante: “O futuro está na produção orgânica”. Ao lado da frase, o símbolo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) identifica a área de 51 hectares, em Araquari, na região norte catarinense, a 20 quilômetros de Joinville. O local que abriga dez famílias é um dos 18 assentamentos produtores de alimentos para a Cooperdotchi, a cooperativa do MST que leva frutas e verduras sem agrotóxicos para a mesa de escolas públicas e entidades sociais da região. Criada em 2006, a entidade envolve 500 famílias e se consolida a cada ano a partir dos ideais de solidariedade e cooperação, contrariando a lógica capitalista. Não só garante a subsistência dos indivíduos, como possibilita investimentos para ampliar a própria cooperativa. As metas para este ano são audaciosas: aumentar a produção, que no ano passado chegou a 600 toneladas in natura, e partir aos poucos para a industrialização dos alimentos, a fim de evitar o desperdício. Ao todo, o MST conta com dez cooperativas em Santa Catarina.

Assentamento do MST em Araquari, no Norte de SC, é um dos produtores para Cooperativa Cooperdotchi

O principal movimento social de luta pela reforma agrária desde a década de 1980 tem nas cooperativas uma estratégia coletiva de organização da produção nos assentamentos. Um dos desafios da Cooperdotchi é a conquista do selo de certificação na linha agroecológica, partilhado do método de certificação participativa da Rede Ecovida. Em Araquari, uma das mudanças adotadas visando a certificação é a plantação de ervas medicinais entre a estrada de chão, que leva ao assentamento e às áreas de produção. A planta popularmente conhecida como Mão de Deus cria uma barreira entre a estrada e a plantação, impedindo que o pó contamine os alimentos cultivados. O assentamento de Irineópolis já obteve a certificação. A meta é assegurar o título para todos os assentamentos ligados à Cooperdotchi e, assim, facilitar a comercialização dos alimentos colhidos nas propriedades. Para isso, o trabalho já começou, com o uso de biofertilizantes e adubos orgânicos, fabricados principalmente com dejetos de animais, e fundamentalmente produzidos nas propriedades dos assentados, além das atividades coletivas de formação dos agricultores.

Folhas verdes estão entre as verduras cultivadas pelos produtores em Araquari

A coordenação do setor de compra e venda e a tesouraria da cooperativa tem à frente João Guilherme Zeferino. Durante 12 anos ele morou debaixo de lona com a mulher Delize e os dois filhos à espera de um pedaço de terra. Aos 48 anos, não tem dúvida de que valeu a luta e está otimista com a cooperativa que ajudou a fundar.

_ É uma garantia de renda mensal. Muitos agricultores não sobrevivem tendo de pagar água e luz todo o mês, com uma safra a cada seis meses. O cooperativismo tem se mostrado a única saída para os pequenos produtores se manterem no campo. _ pondera.

Das dez cooperativas do MST em Santa Catarina, cinco delas, incluindo a Cooperdotchi, utilizam a marca registrada Terra Viva, possível de ser encontrada em grandes mercados. A Cooperdotchi comercializa em média uma variedade de 25 produtos, entre cenoura, beterraba, repolho, brócolis, alface, laranja, banana, maçã… O objetivo para os próximos anos é profissionalizar os agricultores em uma área de produção específica, para assegurar a diversificação dos produtos durante todo o ano.

A lei nacional de 2009 que torna obrigatória a aquisição de 30% da merenda escolar como proveniente de agricultura familiar fortalece o trabalho da cooperativa. Em algumas cidades do litoral catarinense, a escassez da atividade agrícola têm dificultado o cumprimento da lei. A Cooperdotchi já tem contrato com os municípios de Rio Negrinho, Piçarras e São Bento do Sul. Nesta última, com previsão de aumentar os alimentos de 30% para 40%. As negociações estão avançadas em Balneário Camboriú, Barra Velha, São João do Itaperiú, Joinville, Araquari e Garuva.

Além das escolas públicas, um outro cliente da cooperativa é o governo federal, através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) executado pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), que assegura a compra de alimentos para entidades cadastradas, geralmente assistenciais, como hospitais e Apaes. Chegar aos supermercados tradicionais, como pontos de venda, também é estratégia da cooperativa, mas com ressalvas. Na avaliação dos associados, o processo pode tornar os agricultores reféns dos sistemas de produção, o qual força a produzir em grandes escalas e vender a partir da “lei de oferta e procura” grandes quantidades de produções por pequenos preços, “escravizando-os”.

_ Não queremos produzir em escala industrial. Se não, o agricultor vai virar um trabalhador de fábrica, escravizado a horários pré-determinados. A intenção é mantê-los no campo com qualidade de vida _ argumenta Zeferino.

Na Central de Distribuição da Cooperativa, João Guilherme Zeferino atuando no processo de seleção dos alimentos

Localizada em região privilegiada, com a vantagem de um clima ameno, capaz de garantir a produção durante todo o ano, a Cooperdotchi, ao contrário das outras cooperativas do MST no Estado, beneficia-se da instalação próxima a grandes centros urbanos, com a facilidade de escoamento dos produtos.

A cooperativa leva no nome uma homenagem ao companheiro Dolcimar Luiz Bruneto, conhecido como Dotchi, que faleceu em um acidente durante a entrega de verduras da cooperativa. A estrutura é simples; escritório, unidade de separação de alimentos e dois caminhões e um automóvel pik-up, usados na distribuição dos alimentos. A Central de Distribuição da Cooperativa fica em São Bento do Sul. Num galpão onde funcionava uma fábrica de móveis, hoje adaptada para recebimento e manuseio dos alimentos. Os trabalhadores – todos assentados do MST – separam e organizam os alimentos para distribuição, nas escolas e entidades.

_ Com a cooperativa, melhorou bastante para nós. Há um tempo atrás, a gente produzia só para comer, agora tem a certeza da renda _ comemora Isaías Ribeiro, 25 anos, um dos sócios da cooperativa, há 11 anos em assentamento do MST.

Isaías Ribeiro é um dos sócios da cooperativa e atua no processo de separação dos alimentos, em São Bento do Sul

As famílias moradoras do assentamento em Araquari estavam acampadas em Garuva. Entre elas, a do agricultor Verildo Zucco, 52 anos. Natural do Rio Grande do Sul, ele mora com a esposa e dois filhos na propriedade.

_ Trabalhei durante muito tempo da minha vida como arrendatário, de forma individual. Só enxergava o dinheiro a cada seis meses. Com a cooperativa melhorou 100% _ avalia.

Agricultor Verildo Zucco é um dos que comemora os resultados da cooperativa

A Cooperdotchi surgiu para facilitar a distribuição e comercialização dos alimentos. Os primeiros dois anos foram de burocracia, para deixar a casa em ordem, com todas as exigências de procedimentos jurídicos necessários. Nos anos seguintes, o salto foi inevitável, hoje a cooperativa reúne 96 sócios. Entre as intenções da coordenação está a ampliação do número de associados. Mas o trabalho é feito em paralelo à capacitação e formação de consciência dos agricultores. Tudo isso para não perder a identidade coletiva que faz o MST ser conhecido mundialmente como principal movimento pela luta da terra e justiça social.

Texto e fotos: Jornalista Magali Moser

As cidades que integram a Cooperdotchi:

Araquari

Bela Vista do Toldo

Canoinhas

Garuva

Irineópolis

Itaiópolis

José Boiteux

Mafra

Monte Castelo

Papanduva

Rio Negrinho

Santa Terezinha

Taió

Vidal Ramos

Timbó Grande

Matos Costa

Santa Cecília

São Bento do Sul ( com pequenos agricultores).

As cooperativas do MST em Santa Catarina:

Cooperdotchi – Rio Negrinho

Cooperunião – Dionísio Cerqueira

Cooperoeste – São Miguel D’Oeste

Cooperal – Abelardo Luz

Coopercontestado – Fraiburgo

Coopertel – Ponte Alta

Cooptrasc – Chapecó

Coopermock – Água Doce

Cooproeste – Lebon Régis

Cooperativa Central de Reforma Agrária (CAA) – Chapecó

A Cooperdotchi:

A Cooperdotchi tem o apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em parceria com a Cooperativa dos Trabalhadores da Reforma Agrária de Santa Catarina (Cooptrasc), que disponibiliza no convênio de ATES, para assistência técnica na região, 7 técnicos em agropecuária, 1 técnico administrativo, 3 agrônomos, 1 Veterinário e 1 Administrador. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Ministério de Desenvolvimento Social (MDS) também apóiam a entidade.

Os netos de Seu Zucco, no assentamento do MST, em Araquari

Produtos colhidos nos assentamentos do MST em Santa Catarina

Rosa Africana, possível de ser encontrada no assentamento em Araquari

Depois de morar debaixo de lona por 12 anos, com o marido e os dois filhos à espera de um pedaço de terra, Dona Delize celebra cada conquista da cooperativa

A solidariedade econômica no Brasil

Experiências de cooperação econômica como a relatada na matéria da jornalista
Magali Moser vêm se disseminando pelo território nacional nas últimas duas décadas. A
economia solidária é um fenômeno recente cujas razões de seu surgimento e expansão
estão em análise. No caso brasileiro, penso que ela foi resultado histórico da forma como
a “questão social” se apresentou na década de 90. Isto é, da contradição entre a trajetória dos movimentos sociais, o reconhecimento de sua importância na constituição de uma sociedade civil ativa e na institucionalização de esferas e políticas públicas (construção democrática de base) e, por outro lado, a incapacidade de construção de uma ordem econômica capaz de assegurar de forma substantiva a cidadania ampliada requerida pelo processo de democratização. Assim, ao lado dos avanços democráticos foi emergindo uma profunda crise social que afetou dramaticamente o mundo do trabalho (os trabalhadores) e a situação social e econômica dos setores populares (exclusão social).
Neste contexto, a economia solidária surgiu como uma nova maneira de
enfrentar a crise por meio da articulação entre democracia radical e economia. As
exigências “econômicas” da economia solidária reforçaram os princípios políticos dos
movimentos e organizações da sociedade civil (autonomia e autogestão, por exemplo) e,
por sua vez, houve uma crescente “politização” da economia solidária na perspectiva de sua
incorporação na agenda do Estado (políticas públicas) e na sua visibilidade pública como uma nova questão para a esfera pública. Assim sendo, constatamos uma trajetória de crescente ampliação da atuação de governos no apoio a economia solidária.
No atual contexto de ampliação das relações de trabalho capitalistas (emprego) a
economia solidária avança na organização econômica dos camponeses, das comunidades
e povos tradicionais, dos artesãos, dos coletores de material reciclável e das pessoas em
desvantagem social.
A FURB está inserida neste contexto a mais de uma década. A Incubadora Tecnológica
de Cooperativas Populares (ITCP) e o Núcleo de Pesquisa sobre Economia Solidária, Trabalho e Desenvolvimento Regional têm sido os principais espaços acadêmicos de elaboração e atuação neste amplo campo de possibilidades emancipatórias.

Valmor Schiochet (Dr)
Professor do Mestrado em Desenvolvimento Regional e
Coordenador do Grupo de Pesquisa – Gepesol

 

9 de novembro de 2010


Por André Carlos Rocha
Do Setor de Saúde MST
Para a Página do MST

A questão ambiental vem sendo discutida no mundo todo, principalmente pela preocupação com o aquecimento global e o futuro do planeta. Neste sentido, os estudos sobre o meio ambiente vem ganhando importância em várias áreas do conhecimento.

Na área da saúde, não é diferente e somente nos últimos anos a temática tem sido tratada com mais relevância, colocando em foco a Saúde Ambiental.

O Ministério da Saúde adota o conceito definido na Instrução Normativa nº 01/2005, da Secretaria de Vigilância em Saúde: “saúde ambiental compreende a área da saúde pública afeta ao conhecimento científico e a formulação de políticas públicas relacionadas à interação entre a saúde humana e os fatores do meio ambiente natural e antropogênico que a determinam, condicionam e influenciam, com vistas a melhorar a qualidade de vida do ser humano, sob o ponto de vista da sustentabilidade”.

Para Freitas e Porto (2006, p. 57-58), “o processo de industrialização e o desenvolvimento da economia global baseiam-se em uma lógica na qual o crescimento a curto prazo se sobrepõe ao crescimento a longo prazo, degradando os ecossistemas e os serviços por eles oferecidos”, colocando em cheque dimensões básicas da definição de desenvolvimento sustentável.

O MST sempre se preocupou com o meio ambiente, porém colocando os homens e as mulheres na centralidade da discussão, como demonstra o documento “Nossos Compromissos com a Terra e com a Vida”, que afirma que “os seres humanos são preciosos, pois sua inteligência, trabalho e organização podem proteger e preservar as formas de vida” (MST, 2009). Com isso, o Movimento se compromete em combater qualquer prática que agrida o meio ambiente.

O objetivo deste texto é expor o que significa saúde ambiental para o MST, construído ao longo dos seus 25 anos e mais especificamente a partir das experiências vivenciadas, e reflexões realizadas, no “Curso de Especialização Técnica em Saúde Ambiental para a População do Campo”.

A partir do curso, o Movimento tem construído a práxis da saúde ambiental orientada em dois eixos:
1) produção saudável e
2) saneamento ecológico e habitação saudável.

Esses eixos são diretrizes da luta e do trabalho em saúde ambiental, que precisam ser feitas pelos movimento sociais e a partir disso garantir políticas públicas que respeitam a realidade dos sujeitos sociais do campo.

Produção saudável

O eixo da produção saudável tem por base a Agroecologia, incluindo a produção orgânica, sem agrotóxicos, sem adubação química e sem transgênicos, de modo que garanta segurança e soberania alimentar das famílias camponesas.

Para tanto, inclui-se na discussão a saúde do trabalhador e a geração de renda, sempre levando em consideração o armazenamento, distribuição e comercialização da produção.

O modelo capitalista de agricultura dominante, hoje conhecido como agronegócio, impõe aos camponeses e camponesas o uso de venenos, de hormônios e fertilização química do solo, além uso de sementes transgênicas.

Essas práticas prejudiciais a saúde e ao meio ambiente precisam ser superadas pela classe trabalhadora, sendo a Agroecologia um caminho para uma vida saudável.

A soberania alimentar vai além da segurança alimentar, que por si só não questiona o modelo atual de produção agrícola, pois bastaria que as pessoas tivessem alimentos em quantidade, frequência e nutrientes necessários, porém não questiona o modo como foi produzido ou mesmo os danos que deixou no meio ambiente. Neste conceito cabe inclusive alimentos transgênicos.

Já o conceito de soberania alimentar, defendido pela Vía Campesina, é “o direito dos povos de definir usa próprias política e estratégias sustentáveis de produção, distribuição e consumo de alimentos que garantam o direito a alimentação para toda a população com base na pequena e média produção, respeitando suas próprias culturas e a diversidade de modos camponeses, pesqueiros e indígenas de produção agropecuário, de comercialização e de gestão dos espaços rurais, nos quais a mulher desempenha um papel fundamental.” (Declaração final do Fórum Mundial de Soberania Alimentar, assinada pela Via Campesina, Havana, Cuba/2001, citada por Campos, 2006, p. 154/155).

Ou seja, é um conceito mais abrangente, que inclui o conceito de segurança alimentar, mas que se contrapõe ao agronegócio.

Transgênicos e Machismo

Pode não parecer, mas existe uma estreita relação entre os transgênicos e o machismo. Como a produção orgânica necessita de bastante trabalho, a família toda precisa participa do processo produtivo na roça. Se esta produção for agroecológica, esse trabalho coletivo é mais necessário ainda.

Quando se implementa uma matriz tecnológica, baseada em transgênicos, poucas pessoas dão conta das tarefas de cuidados na roça, estabelecendo-se, geralmente, uma divisão sexual do trabalho, na qual a mulher cuida do trabalho dentro da casa e o homem das atividades ditas “produtivas”, em que a mulher só participa nos momentos de maior exigência, como nas épocas de colheita. Muitas vezes esse trabalho não é pago pelas cooperativas, em que consideram somente o trabalho do homem.

Saneamento e habitação

O saneamento ecológico e habitação saudável é o segundo eixo, baseado na Permacultura, com objetivo de facilitar as atividades de vida e o trabalho diário sem prejudicar o meio ambiente. Com esse conhecimento construir habitações e espaços saudáveis, embelezar os assentamentos e acampamentos, cuidar da água (armazenando, tratando e reaproveitando), tratar e utilizar dos dejetos humanos (fezes e urina), tratar e utilizar dos dejetos animais, controlar os vetores, bem como reduzir, reutilizar e reciclar o lixo.

Os princípios básicos do saneamento ecológico são três: conservar água, proteger o meio ambiente da contaminação de resíduos que não tenham sido tratados e reconhecer a urina e as fezes como recursos, contribuindo para a produção de alimento e renda.

Estudos mostram o quão rico em nutrientes é a urina humana. Wolgast (1993) calculou que cada pessoa urina em média, anualmente, cerca de 4,5 kg de nitrogênio, mais de 0,5 kg de fósforo, e cerca de 1,2 kg de potássio, esses nutrientes são suficientes para adubar por um ano o cultivo dos grãos consumidos por uma pessoa.

Considerações finais

A luta do MST não termina quando se conquista a terra. Os desafios apenas mudam de natureza, pois o capitalismo tem muitas armas, muitos modos de se reproduzir. Neste sentido, o setor de saúde do MST tem alguns grandes desafios.

No campo da saúde ambiental os desafios são: lutar contra o envenenamento da terra pelos agrotóxicos, contra o envenenamento dos corpos dos seres humanos por causa de alimentação inadequada, insuficiente ou envenenada, lutar a favor vida e do meio ambiente, cuidando dos seres humanos e da natureza e embelezando os acampamentos e assentamentos.

Para isso, a Agroecologia e a Permacultura são ferramentas importantíssimas e, assim, garantir soberania e segurança alimentar para as/os camponesas/es e para o povo brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância Saúde (2005). Instrução Normativa Nº
01, de 07 de Março de 2005. Diário Oficial da União Nº 55 de 22 de março de 2005 – seção 1.

CAMPOS, C. S. S. Campesinato autônomo – uma nova tendência gestada pelos movimentos sociais do campo. Rev. Lutas & Resistências, n. 1, p. 146-162, UEL/Gepal, Londrina, setembro de 2006.

FREITAS, C. M.; PORTO, M. F. Saúde, ambiente e sustentabilidade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006. 124 p.

MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Nossos compromissos com a terra e com a vida. 2009.

Wolgast, M. Clean waters: thoughts about recirculation. Uppsala, Sweden: Creanom HB. 1993.