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Intervenção em “Encontros Moviola”, 21/10/2010, reunião e debate na Livraria Moviola, RJ. / Filme e outras intervenções,  

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O fascismo, o fundamentalismo de tipo novo, não está, em minha opinião, por exemplo, num vídeo que me mandaram – e fiquei indignado que pessoas que eu conheço tenham-se atrevido a me mandar aquilo –, e que, no “Assunto”, trazia a expressão “Dilma Ladra”. O vídeo mostrava um discurso do [deputado] Bolsonaro (que foi eleito aqui no Rio, na coalizão governativa, pra vermos como as coisas são enroladas). O vídeo acusa a candidata Dilma, hoje candidata, de crimes dos quais a ditadura a acusou, há muitos anos. 

O que quero dizer é que o fascismo não está, em minha opinião, no fato de se usarem temas fascistas. Dizer que alguém estaria reintroduzindo no Brasil do século 21, por exemplo, o integralismo. Não. Acho que o fascismo está, isso sim, no uso instrumental de um debate, que acaba se transformando numa armadilha, que reduz completamente o espaço da democracia.

Nesse exemplo, não falo do fato de alguém usar instrumentalmente um vídeo pra fazer alguém perder votos. O fascismo está, sim, em dizer que o que vale na valoração moral da legalidade ou ilegalidade (“ladra” ou “não ladra”) é o que disse um tribunal de exceção, de uma ditadura militar.

É como se Togliatti, líder comunista italiano, voltando de Moscou, depois da 2ª Guerra, é como se a Democracia Cristã italiana usasse, para falar de Togliatti, no debate político, sentenças dos tribunais de Mussolini sobre Togliatti. Como se De Gaulle, voltando junto com os aliados para a França Vichyista libertada com os aliados, fosse apresentado nos termos do que os tribunais Vichyistas e  Petainistas diziam dele. É uma coisa muito preocupante.

Não se trata apenas de tentar usar o medo: de fato, se introduzem na discussão critérios inaceitáveis de valoração moral.

Mas não é fenômeno só brasileiro. Na Espanha, por exemplo, houve o juiz Garzón, juiz importante, que mandou prender Pinochet, que sempre teve desempenho muito correto na ordem liberal, e tornou ilegal um partido que reunia 20, 25% do eleitorado no país basco. Desmontou o Herri Batasuna, partido ligado ao ETA. Mas, quando começou a aplicar aos franquistas a mesma lei que aplicara aos ditadores chilenos e argentinos, o juiz Garzón passou a ser acusado de ter ligações com o ETA e foi destituído e está sendo acusado de abuso de poder. 

O que quero dizer é que há um retorno dos temas, mas o problema não está em que alguém tenha hoje, no Brasil, um projeto fascista, porque isso não há. Ninguém tem projeto fascista. O que há é diferente.

Não há projeto fascista no Brasil, mas há, sim, um fundamentalismo, sim, que funciona como um fascismo, ao meu ver. Qual é a marca desse fundamentalismo?

Começo com outro exemplo. Logo depois que publiquei um artigo de opinião na Folha de S.Paulo, a favor de Dilma [1] e discutindo aspectos do desenvolvimentismo (o que, aliás, discutimos aqui mesmo, na última reunião que tivemos aqui), telefonou-me um amigo, elogiou o artigo, e tal, e disse “[só não concordo com defender Dilma, porque] Dilma é hipócrita”. Perguntei: “Mas… por quê?” “Porque ela dizia que era a favor do aborto, e agora diz que é contra.”

E eu: “Ora essa! Você queria o quê? Que ela agora deveria dizer que defende, que deveria assumir tudo que lhe atribuem… sem discutir nada, sem avançar argumentos, se deixar pautar pelo que lhe atribuem? Ninguém discutiu nada! Não há espaço pra discutir nada!”

Como funciona esse debate? Exatamente como funciona no fascismo, no nazismo, que são formas de mobilização das massas que não se fazem como construção da democracia, mas como perda de democracia, pelo impedimento de todos os debates. Cria-se o obscurantismo. E perdem-se todos os espaços de debate.

Como se responde a alguém que diga o que eu ouvi do meu amigo? Que, para vencer a eleição, Dilma deveria assumir tudo o que lhe atribuem e atribuem para fazê-la perder a eleição… O debate ficou impossível.

Esse obscurantismo não é volta ao passado, os novos obscurantistas usam a internet, todas as ferramentas. Operam por dentro, para destruir toda e qualquer possibilidade de debate – e isso é que é importante [fim do primeiro filme]

Outro exemplo: o Daniel Cohn-Bendit andou pelo Brasil, circulou por aqui antes do no primeiro turno, e deu entrevistas [2]. Fez críticas violentas ao governo Lula, disse que o governo Lula tinha políticas de desenvolvimento do século passado (aliás, não faz nem dez anos! [risos]).

Eu tenho amigos franceses que trabalham com ele, no movimento ecologista, que se está unificando na Europa. Eu disse a eles: “[Cohn-Bendit] andou aqui, acho que não entendeu nada.” Ficou por isso mesmo. 

Agora, no segundo turno, voltei a fazer contato com eles e disse: “Bom, agora, há risco real de a direita vencer. A Marina e o PV, no mínimo não vão tomar partido; e muitos deles consideram assumir a direita. O que vocês vão fazer?”

E eles, lá, fizeram um documento, muito moderado, com críticas à Dilma, mas dizendo aos ‘verdes’ brasileiros que eles têm de assumir o rumo da esquerda. Me mandaram o documento.

Peguei o documento e liguei para a FSP, com quem tenho alguns contatos, às vezes publico lá, e ofereci o documento. “Estamos interessados”, me disse alguém. E nada. Voltei a ligar, e me disseram “Mas o pessoal que assina não é gente muito conhecida…”. Digo eu: “Desculpa, mas, quando passaram por aqui, antes, vocês acharam que sim, eram muito conhecidos. Agora, acham que não…”

Os signatários são dois ex-ministros do Meio Ambiente da França, três co-presidentes dos verdes europeus, que é a 3ª força na Europa, na França vai ser força decisiva nas próximas eleições, sempre aliados à esquerda, são todos senadores, há a senadora-prefeita de uma subprefeitura com 100 mil habitantes, da Grande Paris, que sempre foi governada pelo Partido Comunista, Montreuil, o José Bové, da Via Campesina, militante da agricultura familiar, ligado ao MST, super conhecido no Brasil… E nada.

Dias depois, me liga outro jornalista da FSP, de Brasília, e me diz: “Estou interessado no manifesto, mas queria saber se é normal que os verdes europeus tomem posição em eleições em outros países…” E eu: “Bom, quando eles andaram por aqui, no primeiro turno, vocês acharam que era perfeitamente normal…” [risos]

De qualquer modo, aproveitei pra dizer que “esse manifesto foi escrito porque, dado o peso político que estão ganhando, os verdes europeus são atravessados pelo debate sobre que lado estão, se devem ficar neutros no início, e depois se alinhar a um lado ou outro. Então, nesse caso, estão aproveitando em primeiro lugar, para apoiar a esquerda no Brasil. E aproveitam para dizer, também, que, caso a opção se apresente na Europa, a opção pelo candidato progressista, tem de ficar clara, desde o início da discussão.” E ele disse: “Então, a Dilma seria progressista…” Digo: “Eu acho que sim. Eles, também”. Só opiniões minhas, e a opinião do jornalista.

Dias depois publicaram matéria sobre Dilma e os projetos ambientais, em que o Greenpeace contestava os verdes brasileiros que apóiam Dilma [3]. O Greenpeace ganhou espaço, os verdes europeus, não. Ora, que eu saiba, o Greenpeace não é propriamente brasileiro, é global. Acho normal que opinem. O caso é que o Greenpeace tem espaço para opinar sobre o Brasil, e s verdes europeus, não. E o jornalista da Folha de S.Paulo me disse: “Eu escrevi e o editor cortou, porque achou que não era importante.”[4]

Para concluir, queria dizer, sobre os novos fundamentalismos, que acho que o fundamentalismo não é uma volta do fascismo como foi, mas é uma forma de falsificação sistemática, que usa todas as tecnologias, como faz o fundamentalismo islâmico do tipo Al-Qaeda, mas que usa as tecnologias de tal modo que reproduz hierarquias e falsifica o debate democrático.

Acho que temos hoje em ação dois fundamentalismos: um fundamentalismo que está completamente em crise, vertical, que é o fundamentalismo de mercado, que vive de dizer que tem de cortar, tem de cortar, coisa em que ninguém mais acredita. O Brasil somos nós. Cortar o “custo Brasil” significa nos cortar… e privatizar, idiotice pura, ninguém mais acredita nisso.

Vale o mesmo para a tal de sustentabilidade econômica, em que ninguém acredita mais. Sem esse fundamentalismo, todos se mudaram imediatamente para outro fundamentalismo.

Vê-se bem no caso dos EUA, Wall Street. Se se retirar da economia todo o dinheiro que o Federal Reserve pôs na Bolsa, nos bancos, nas seguradoras, a coisa desmorona. A discussão que se tem de fazer tem a ver com o valor político da moeda.

Então, por um lado temos o fundamentalismo de mercado, que usa sempre só o que esse pessoal tinha como conteúdo (“Serra é o melhor administrado”, o “mais competente” etc. etc.) em que ninguém acredita. Daí, então, foram para outro fundamentalismo. Isso é que é preocupante.

O fato de eles terem passado imediatamente, do que se podia ler na imprensa (Serra dizia que não era candidato, depois pôs Lula na propaganda dele). As primeiras declarações do Índio da Costa de fato, até por terem sido tão desencontradas, anunciavam que eles iam passar imediatamente para outro fundamentalismo.

Fato é que essas paixões tristes ficam.

Não podemos analisar com leveza, porque parecem que serão derrotados, e mesmo que sejam, tomara, porque essas paixões ficam.

Ficam no retrocesso do debate, do debate que se poderia, mas não se pode fazer, de defesa da candidatura progressista. E elas ficam, também, em termos da mobilização social. Temos, sim, de estar muito, muito, muito preocupados.

Vê-se que já está acontecendo também nos EUA. É a mesma coisa, no movimento Tea Party, uma mobilização muito mais radical em termos de novo fundamentalismo do que os Republicanos de antes, e que está impedindo que se concretize, até, o pequeno avanço anunciado pela eleição de Obama. E o que está acontecendo na Europa também tem elementos muito importantes de radicalização, em termos de novo fundamentalismo, por exemplo, no crescimento da xenofobia.

O que estamos assistindo hoje, nessa involução da campanha pró-Serra, não é a defesa do neoliberalismo e das privatizações, mas é exatamente o que será o pós-neoliberalismo do ponto de vista da direita. Parece que haverá uma volta do discurso estatal, de direita, autoritário, pesado, que nós, em geral, subestimamos, subavaliamos.

Temos, portanto, que avaliar essa campanha, e temos de estar preocupados, num horizonte que vai além dessa campanha.

A nova direita que vem aí é direita da pesada, e que tem de preencher o vazio do fundamentalismo do mercado, em que ninguém acredita mais, o tucanês, em que ninguém acredita mais.

O risco que enfrentamos hoje é que o “choque de gestão” pode muito rapidamente virar “choque de ordem” [fim do segundo filminho].

Notas de Rodapé

[1] COCCO, Giuseppe, 17/10/2010, “Dilma é garantia do processo democrático”, Folha de S.Paulo, Tendências & Debates, p.3,

[2]Eu sou um mito“, afirma Cohn-Bendit, Folha de S.Paulo, 25/8/2010, Ilustrada, p. 16,   

[3]Em evento tumultuado, Dilma mostra plano ambiental genérico”, 21/10/2010, Folha de S.Paulo, em  .

[4] Notícia sobre o manifesto dos verdes europeus foi afinal publicada em jornal de Mato Grosso, Folha do Estado, só dia 30/10/2010, matéria da redação), e inclui a íntegra do manifesto:

A íntegra do manifesto:

A candidatura de Marina Silva trouxe para o eleitorado de Dilma, a pupila de Lula, a grande surpresa do primeiro turno. É preciso saudar a novidade que representa a candidatura de Marina Silva que já lutava, desde o período de sete anos em que foi ministra do governo Lula, para fazer entrar verdadeiramente as questões ecológicas na pauta de preocupações do governo brasileiro de esquerda. Com sua presença no escrutínio, a diversidade de lutas sociais, de todas as minorias (sexuais, religiosas) encontrou uma voz.

 

O placar de 19% do total de votos para uma candidata independente, sem apoio de partidos poderosos, representa a segunda grande surpresa. Ele prova que o Brasil se transforma muito mais profundamente do que apenas no plano do crescimento econômico. Para a democracia e a cultura, este já é um passo considerável.

 

Na América Latina, da Colômbia ao Chile, e agora também no Brasil, para além dos diferentes contextos, as questões ecológicas entram definitivamente na pauta das eleições presidenciais, o que não é mais o caso na Europa. O Brasil é a sétima potência mundial. Nenhum europeu em sã consciência pode se desinteressar pelo que está em jogo para os destinos ecológicos e sociais do planeta.

 

Esta é a razão pela qual desejamos, através deste manifesto, expressar nossa inquietação. A batalha do segundo turno se anuncia bastante cerrada e, algo impensável até ontem, uma vitória da direita não está mais excluída. Na configuração de hoje, o partido verde está longe de ter a dimensão popular de Marina Silva. Algumas personalidades como Gilberto Gil, ele mesmo afiliado a este partido, conclamam a que se vote em Dilma sem ambiguidade. E nós compartilhamos desta posição. Prestemos bastante atenção ao seguinte: José Serra não é um social democrata de centro. Por trás dele, a direita brasileira vem mobilizando tudo o que há de pior em nossas sociedades: preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses econômicos os mais escusos e míopes. A direita sai do porão.

 

Contra as mulheres, as facções mais reacionárias das igrejas cristãs – incluindo aquela da mulher do candidato da direita que declarou publicamente que Dilma quer assassinar criancinhas – acusam a candidata de ser favorável ao aborto, mesmo que esta questão não faça parte de seu programa de governo, tampouco do programa do Partido dos Trabalhadores.

 

Contra os homossexuais: o vice de Serra sustenta um discurso abertamente sexista e homofóbico.

 

Contra os pobres: acusados de votar na esquerda por ignorância.

 

A esta panóplia, bem conhecida em toda parte, vem se juntar uma criminalização particularmente ignóbil por parte da direita das lutas de resistência contra a ditadura. Dilma tem sido alvo de campanhas anônimas na internet que acusam de terrorismo e de bandidagem por ter participado na luta contra o regime militar, ela que foi por este motivo presa e barbaramente torturada.

 

A mobilização da direita está completamente ligada aos interesses do agro-negócio, um vínculo sobre o qual o governo Lula tem sido ambíguo em alguns momentos. No entanto, uma vitória da direita representaria o triunfo do complexo agro-industrial e dos céticos em matéria de aquecimento global. Seria uma guinada à direita em direção à revisão do estatuto da floresta que começou a limitar a devastação na Amazônia e no Mato Grosso, e no asseguramento dos direitos indígenas sobre suas reservas, que no ano passado obtiveram uma importante vitória (Raposa Serra do Sol) referendada pela Corte Suprema do país, que reconheceu esses direitos. Vinte e duas reservas indígenas podem seguir este caminho de enfrentamento com o agro negócio da soja e do arroz transgênico.

 

Não permitamos que o voto libertário em Marina Silva paradoxalmente se transforme em uma catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os direitos da natureza!

 

No plano internacional, os aspectos mais inovadores da política Sul-Sul de Lula (certamente pelo fato de seu apoio a Ahmadinejad), seriam condenados ao ostracismo com um realinhamento com os Estados Unidos. Além de representar uma alternativa à fixação estéril em uma política de confronto entre Estados Unidos e China, esta política Sul-Sul se opõe às estratégias dos países do Norte de multiplicar as medidas de defesa dos direitos da propriedade intelectual em detrimento do acesso aos saberes, à internet (especialmente no âmbito da ACTA).

 

Marina Silva recusou-se a manifestar apoio ao voto em Dilma. Pode-se compreender que seja um pouco difícil para ela se alinhar imediatamente com Dilma, com quem ela entrou em conflito enquanto no governo, e neste momento ela luta para evitar o alinhamento do partido verde com a direita, apesar da campanha virulenta contra ela por parte do PT.

 

Com efeito, os ecologistas estão travando, não só na Europa, como em vários países do mundo, um sério debate com os socialistas sobre a questão nuclear, sobre a OMC e o produtivismo agrícola e industrial, bem como o problema do aquecimento climático. No Brasil, agrega-se a todas essas questões uma dimensão – amplificada por sua urgência crucial – da luta contra as desigualdades. Pode-se compreender, portanto, a reserva de alguns ambientalistas em se alinharem com a candidata da esquerda.

 

Mas nossa experiência como força política e de oposição e governo na Europa nos permite afirmar a nossos companheiros brasileiros que, nas atuais circunstâncias do Brasil, a ancoragem na esquerda é a única possibilidade real de fazer avançar a causa ecológica: já vimos no que se tornou a «Grenelle» – Ministério do Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Energia e Transportes – na França com a direita.

 

Quanto às mulheres, às minorias étnicas, religiosas, sexuais, elas sabem aonde têm que se bater. A xenofobia, o racismo, a mobilização reacionária da religião são os perigosos instrumentos que a direita populista utiliza alegremente na Europa.

 

É impossível acreditar que a esperança suscitada pelos dois mandatos presidenciais de Lula acabe terminando no segundo turno com a eleição do candidato da direita.

 

Assinam:

Dany Cohn Bendit (Alemanha) co-président du groupe parlementaire des députés Verts au Parlement Européen

Monica Frassoni  (Itália) co-présidente du Parti des Verts Européens

Philippe Lamberts (Bélgica) co-président du Parti des Verts Européens

Dominique Voynet (França)  Senadora, Prefeita da Cidade de Montreuil , ex-Ministra do Meio Ambiente (gov. Jospin)

Yves Cochet ( França) Deputado Nacional,  ex-MInistro do Meio Ambiente (Gov. Jospin)

Noël Mamère (França) – Deputado Nacional e Prefeito de Bègles (Bordeaux)

José Bové  (França) – Deputado europeu

Alain Lipietz  (França) – dirigente dos Verdes, ex-deputado europeu

Jérôme Gleizes (França) – Dirigente da comissão internacional dos Verdes

Yann Moulier Boutang (França) Co-diretor da Revista Multitudes (Paris)

 

Paris 18 de outubro de 2010

 

No segundo turno destas eleições, o PSTU recomendou voto nulo a seus militantes e eleitores, como já fizera em 2006. Já o PSoL não repetiu o intempestivo voto nulo decretado por Heloísa Helena logo no início do segundo turno, e acatado pelo partido. A decisão partidária, depois de discussão interna, foi de firmeza contra a candidatura Serra, e admissão da defesa da candidatura Dilma e da do voto nulo. A bancada parlamentar do PSoL passou a defender  voto em Dilma. Já o ex-candidato a presidente, Plínio de Arruda Sampaio, publicou um “Manifesto à Nação” defendendo o voto nulo no segundo turno, como a postura coerente com a campanha do PSOL no primeiro turno, que teria demonstrado que as diferenças entre os candidatos que foram para o segundo turno são “diferenças meramente adjetivas”.

 

Estas palavras não são confirmadas pelos argumentos do próprio Plínio. Comparando as candidaturas do segundo turno, ele comenta que, com Dilma, se mantida a orientação do governo Lula, “Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia continuarão a ter apoio do Brasil”, mas que, com Serra, “a política externa em relação aos governos progressistas de Chávez, Correa e Morales será um desastre completo”. Tal diferença seria “meramente adjetiva”?

 

Sobre a relação com os movimentos sociais, o candidato Serra representaria, para Plínio, a burguesia “mais truculenta na repressão aos movimentos sociais”, enquanto, com Dilma, “o tratamento aos movimentos populares será diferente: menos repressão e mais cooptação”. Tal diferença seria “meramente adjetiva”?

 

A retórica forçada não aparece só agora. Ainda no primeiro turno, num debate em que Plínio foi perguntado por Dilma sobre o ProUni e o ReUni, ele respondeu o esperado acerca do ProUni, criticando o financiamento das escolas privadas, mas também não deu o braço a torcer pelo ReUni, que virou “política do Banco Mundial”. Ora, o Reuni é uma expressiva ampliação das universidades federais, em que os novos professores e funcionários vem sendo contratados por meio de concursos públicos, tal como o movimento docente, discente e de funcionários sempre defendeu.  Por razões táticas, para marcar diferença e não valorizar a adversária, Plínio passou por cima de uma das bandeiras históricas mais importantes destes movimentos. Nestes pontos, portanto, a defesa do voto nulo é coerente com o erro.

 

Mas tais exageros retóricos não são a essência da questão. A defesa da abstenção tem uma base objetiva. De fato, nenhuma das principais candidaturas ostentou propostas de enfrentamento das relações capitalistas em geral, nem de redistribuição radical das rendas ou das propriedades. Pelo ângulo dos militantes do PSoL, a coerência que se busca é a coerência com uma política de explicitação de um projeto socialista.

 

Assim, há fundamentos objetivos e lógicos para a defesa da abstenção. E a que leva tal coerência lógica?

 

Temos neste segundo turno uma acirrada oposição entre dois campos, o que governou entre 1995 e 2002, e o que governou entre 2003 e 2010. O acirramento se vê, de forma mais sistemática, pela imprensa, instrumento central da política em situações democráticas. Por mais heterogênea que seja a composição de cada um dos dois campos em confronto, o núcleo da grande imprensa defende o retorno do primeiro campo ao poder. Esta polarização não é nova. Ocorreu nas eleições de 2006, de 2002, e mesmo na de 1989. E lembra muito as polarizações de um passado mais remoto, como a da crise de 1954, que levou ao suicídio de Vargas, e a da campanha pró-golpe de 1964.

 

É diante desta luta feroz que Plínio, assim como o PSTU, defende, em termos de coerência lógica, o voto nulo.  A soma dos votos obtidos por PSoL e PSTU no primeiro turno foi aproximadamente 1% do total dos votos válidos. Mas a coerência lógica com o discurso que lhes propiciou tal votação é a justificativa para lavar as mãos, soberbamente, diante da luta em que se engalfinharão os outros 99% da população.

 

Evidentemente, esta lógica é profundamente idealista, metafísica, por que parte do discurso, dos projetos idealizados para o futuro, e ignora a realidade material, a luta objetiva que se desenvolve no momento. Supostamente revolucionária, esta lógica nada tem a ver com o marxismo e o leninismo, que reiteradamente insistem na essencialidade da estratégia e da tática políticas se fundarem nas análises concretas das situações concretas.

 

O caráter idealista transparece logo no início da Mensagem à Nação de Plínio, que, ao partir do princípio de que o “objetivo prioritário dos socialistas não é a conquista de espaços na estrutura institucional do Estado”, fala em “conscientizar e organizar os trabalhadores, a fim de prepará-los para o embate decisivo contra o poder burguês”. Assim, os embates do presente não seriam decisivos; seriam, talvez, preliminares, provisórios, qualquer coisa de irrelevante para a Grande História. É evidente que tal absenteísmo é antagônico à política como práxis de enfrentamento das contradições reais da sociedade, tal como se manifestam efetivamente, e só se fundamenta em formulações teóricas abstratas como a do “embate decisivo contra o poder burguês”.

 

Entretanto, isto não significa que o absenteísmo não tenha conseqüências concretas. Tem, porque o absenteísmo não é neutro.  Não se vê nenhum militante de extrema direita pregar o voto nulo porque, por exemplo, em seu passado, Serra, tal como Dilma, pertenceu a grupo de resistência à ditadura militar. A propaganda absenteísta não tem a pretensão de convencer partidários de Serra a mudarem de idéia e anular seu voto. Seu alvo são eleitores possivelmente simpáticos a Dilma, mas que tenham divergências em relação ao projeto em andamento.

 

Mas, afinal, o que vale este pequeno detalhe prático para quem tanto valoriza a coerência do discurso na construção do socialismo ideal? Diante de ideais tão sublimes, que importam as conseqüências imediatas? Bem feito para Dilma, para Lula, para todos aqueles que decepcionaram os defensores do socialismo ideal! Bem feito para a população em geral, que ainda não percebeu a magnificência do ideário socialista, e continua a fiar-se no reformismo, aliás, “melhorismo”!

 

Este ponto de vista tem sua coerência. Pelo menos para quem não depende de bolsa-família, nem do aumento real e sustentado do salário mínimo. Para quem não valoriza a criação de empregos neste sujo mundo capitalista. Nem a diminuição das desigualdades regionais. Nem a política externa soberana e pacifista, incluindo os esforços de integração latino-americana. Nem a interrupção das privatizações a toque de caixa e a preço de esterco.  Nem o aumento dos investimentos em universidades e em pesquisa. Para quem, enfim, defende um socialismo tão lindo, tão distributivista, tão democrático, tão ecológico, tão ideal, que as humildes conquistas do presente são irrelevantes.  Abstraindo, evidentemente, um ou outro infiltrado, que defende o voto nulo de esquerda precisamente pelas conseqüências práticas em favor da direita.


José Ricardo Figueiredo

Chega hoje a Rio Preto
São José do Rio Preto, 7 de Julho, 2010 – 1:50
PT ignora apoio de Valdomiro a Dilma

Jocelito Paganelli //

 
 
 

O Partido dos Trabalhadores (PT) despreza o apoio do prefeito, de Rio Preto, Valdomiro Lopes (PSB) à candidatura de Dilma Rousseff (PT) à presidência da República. “O apoio do prefeito (Valdomiro) não acrescenta nada à campanha de Dilma”, disse o ex-vereador e candidato a deputado estadual João Paulo Rillo (PT), que coordena o encontro da ex-ministra da Casa Civil com cerca de 200 líderes regionais, hoje à noite, em Rio Preto.

O PSB, partido do prefeito, integra o grupo de partido que, em nível nacional, apoia a candidatura da petista. No entanto, Valdomiro sequer foi convidado para o encontro com Dilma. O prefeito de Rio Preto ainda não anunciou publicamente quem apoiará na disputa presidencial. Para Rillo, nem será preciso.

“Está claro que ele não vai apoiar a candidatura de Dilma. E só observar o secretariado da Prefeitura. Os principais nomes foram indicados pelo PSDB como, por exemplo, o procurador-geral (Luiz Tavolaro) e a secretária da Fazenda (Mary Brito)”, afirmou o ex-vereador e principal liderança política do PT na cidade.

Rillo enfrentou Valdomiro no segundo turno da disputa pela Prefeitura de Rio Preto, em 2008. O petista foi derrotado e agora acredita que o prefeito vai retribuir o apoio do então governador José Serra (PSDB), que na reta final da eleição municipal veio a Rio Preto participar de um comício de Valdomiro.

Procurado pela reportagem, o prefeito não quis comentar as declarações de Rillo. Por meio da assessoria de imprensa da Prefeitura, Valdomiro disse que não havia sido convidado para o encontro e, por isso, não incluiu o evento em sua agenda de compromissos para hoje.

PMDB

Além do prefeito Valdomiro, se depender do PT, o PMDB, partido que indicou Michel Temer como candidato a vice-presidente na chapa de Dilma, também não vai caminhar com os petistas em Rio Preto. Rillo afirmou que o comando do PMDB local é “quercista”, em alusão à influência que o ex-governador Orestes Quércia mantém sobre caciques peemedebistas da cidade. “Não vamos buscar aliança com o PMDB local, que está fechado com o PSDB”, disse Rillo.

O presidente do PMDB de Rio Preto, Marcelo Figueiredo, confirmou as declarações do ex-vereador. “Nós sempre seguimos o posicionamento do Quércia. E agora não vai ser diferente”, disse. Até o final da tarde de ontem, Figueiredo também não havia sido convidado para o encontro. No entanto, membros do diretório local do PMDB, simpatizantes à candidatura de Dilma, receberam o convite. Quércia é candidato ao Senado pelo PMDB e vai apoiar a candidatura de Serra à presidente da República.

Edvaldo Santos
Figueiredo diz seguir posicionamento de Quércia

Serra critica omissão petista

O candidato a presidente da República pelo PSDB, José Serra, criticou ontem, em Curitiba, onde deu início à campanha eleitoral, a ausência da candidata do PT, Dilma Rousseff, em debates ou mesmo entrevistas para as quais teria sido convidada no período pré-campanha. “Parece que a candidata Dilma não sabe por que quer ser presidente”, afirmou. “Está chegando a um exagero em matéria de omissão e de não comparação.”

Serra citou como exemplo espaço dado no jornal “O Globo” para que cada candidato dissesse por que queria ser presidente. “Aí soube que ela (Dilma) se recusou”, disse. “Estava a minha, a da Marina (Silva, do PV), que é interessante, e o vazio dela.” De acordo com ele, “isso não é bom para o Brasil, para os eleitores”. O candidato tucano chegou a sugerir que poderiam até ser colocados dentro de uma gaiola de vidro para responder as mesmas perguntas. “Para estimular ela a comparecer”, salientou.

“É uma coisa de comparação, a gente ouvir o que o outro vai falar, eventualmente debater, qualquer coisa que permita as pessoas…a gente aprende comparando”, destacou Serra. “Se não tem debate pode falar qualquer bobagem separadamente e fica por aí.” Segundo ele, a campanha deve “esquentar” aos poucos, particularmente depois dos debates e programas eleitorais. “O que eu quero mesmo é poder debater civilizadamente, responder as mesmas perguntas”, enfatizou.

Multa

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aplicou uma multa de R$ 7,5 mil para o PSDB e outra de R$ 5 mil para o candidato tucano por campanha eleitoral antecipada. A decisão foi tomada pelo ministro Joelson Dias, do TSE, acatando uma representação do Ministério Público Eleitoral contra inserções da campanha presidencial no programa do PSDB na Bahia antes do prazo previsto.

‘Verde’ cria Casa de Marina
Em seu primeiro dia de campanha eleitoral, em São Paulo, a candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, deixou de lado caminhadas e comícios e optou por inaugurar uma “Casa de Marina”, iniciativa do “Movimento Marina Silva” com o objetivo de transformar casas de eleitores em comitês mobilizadores nos bairros.

A primeira casa é de Adriano Prado Costa Silva, promotor de vendas de 27 anos, que se surpreendeu com a notícia de que receberia Marina e seu vice, Guilherme Leal, em sua casa, em Campo Limpo, extremo sul da capital. Toda a família – sete pessoas moram na casa: ele, o avô, mãe, tio, primo, prima e sobrinho -, além de amigos e outros parentes, se reuniu para receber a candidata, que chegou às 15h30. A escolha da casa de Adriano foi uma indicação da advogada Marcela Moraes, 29 anos, integrante do “Movimento Marina Silva”. “Adriano é super engajado e empolgado. Ele tem muita vontade de participar”, disse.

Na casa, o avô, Manoel Gonçalves Prado, de 84 anos, cantou um trecho da música, “Marina” de Dorival Caymmi. Ele adaptou os versos “Marina, morena, Marina, você se pintou”, uma vez que a candidata, alérgica, não usa maquiagem. “Marina você não se pintou”, disse Manoel. Ao que Marina respondeu, descontraída: “Até porque estou feliz com a beleza que Deus me deu.” Manoel, que não tem mais a obrigação de votar, disse que fará questão de votar em Marina.

Ao lado das crianças da família e com Catarina, de um mês, no colo, Marina disse não haver metas para a inauguração de casas como essa. “Se nós colocarmos uma meta, vamos reduzir o processo e vai deixar de ser um movimento da sociedade. Queremos que a coisa seja autêntica”, disse ela. “Temos metas em relação ao PV, à quantidade de cidades que eu gostaria de visitar, mas a sociedade, espontaneamente, se Deus quiser, vai extrapolar qualquer meta que nós fôssemos capazes de colocar.”

http://www.diarioweb.com.br/novoportal/Noticias/Politica/14848,,PT+ignora+apoio+de+Valdomiro+a+Dilma.aspx