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210112_amadeu-euaOpera Mundi – [João Novaes] A grande ofensiva lançada nesta sexta-feira (20/01) pelo grupo de hackers Anonymous contra o governo dos Estados Unidos, que conseguiu derrubar sites como o do FBI, do Departamento de Justiça, além das gigantes Universal e Warner, pode ser só o começo de uma longa guerra que pode durar décadas.


A opinião não é só do grupo, como também de especialistas em cultura digital como o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira (foto), professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do ABC.

Para Amadeu, a ação do governo norte-americano contra o site de armazenamento de arquivos Megaupload é, em sua opinião, uma compensação para o recuo dos projetos de Lei SOPA (Lei de Combate à Pirataria online) e PIPA (Lei de Proteção ao IP), que saíram da pauta do Congresso nesta semana. O interesse do governo norte-americano seria, nesse caso, proteger sua indústria mais atrativa do momento, a do copyright. A intenção dos Estados Unidos com essas ações seria uma iniciativa semelhante à guerra às drogas, iniciada na segunda metade do século XX. Uma guerra que, como os próprios norte-americanos já estão admitindo, foi perdida. E Amadeu garante: perderão de novo, de maneira ainda mais retumbante.

Ex-presidente do ITI (Instituto Nacional de Tecnologia da Informação) e fervoroso defensor do software livre, Amadeu defendeu o compartilhamento digital como um direito, e nunca como um crime, como querem os EUA.

Como o sr. vê o fechamento do Megaupload e a prisão de seu fundador?

O governo norte-americano, a partir de seus segmentos mais retrógrados, fará do combate da pirataria nos próximos anos uma nova guerra contra as drogas. Eles irão buscar criminalizar a infraestrutura da rede e tentar, com isso, mover os interesses de sua maior indústria, que hoje é a indústria da propriedade intelectual, construída ainda no mundo industrial. Se somarmos o que os Estados Unidos ganham com copyright, patente ou marcas, supera-se o ganho da indústria do petróleo ou qualquer outra. Esse modelo de negócio em torno da propriedade intelectual está fracassando nas redes digitais. Porque elas são tecnologias que incentivam o compartilhamento.

O próprio computador é uma máquina de copiar algarismos. Ele trabalha com replicações constantes. Imagine uma máquina de copiar em alta velocidade em uma rede cada vez mais rápida. Esse é o cenário esquizofrênico que temos hoje. Quer-se ampliar as redes digitais e, ao mesmo tempo, impedir a cópia. Montam uma megaoperação de compartilhamento e depois dizem que compartilhar é crime.

Por que o Megaupload?

Na semana passada, usei o site para mandar um vídeo pesado, que fiz do meu celular, de 54 megabytes. Assim como há pessoas que usam o site para muitas coisas, tem gente que usa para reproduzir CDs de músicas, pegar vídeos e passar para amigos e colegas. O que acabou acontecendo? Logo depois do grande protesto contra as leis SOPA e PIPA, fizeram o que é típico da extrema-direita norte-americana. Foram atuar contra sites extremamente populares mostrando a força da ação deles em solo norte-americano. O recado é esse: “nós não precisamos de SOPA e PIPA para acabar com a ‘festa da ilegalidade'”. Ora, esse método truculento deles, que já havia sido aplicado no passado contra o Napster e o Kazaa, gerou o grande sucesso das redes peer to peer, das redes bit torrent. Não é viável a ação desses segmentos.

Mas essa não é a primeira vez que esse tipo de ação ocorre.

Não. É bom lembrar que Jack Valenti, o lendário presidente da MPAA (Motion Picture Association of America), uma das principais associações por trás desses dois projetos de lei, acionou as autoridades norte-americanas contra a Sony para impedir que a empresa japonesa lançasse o copiador de DVDs, dizendo que esse reprodutor de DVDs acabaria com a indústria cinematográfica norte-americana. Isso tanto não era verdade que a maior parte do lucro da indústria de Hollywood vem de games e depois de aparelhos reprodutores de DVDs. Se as autoridades seguissem a intenção obscura desses segmentos retrógrados, estaríamos privados de uma tecnologia, ou pelo menos atrasaríamos muito seu lançamento, para que ele fosse lançado em outro país, e não nos Estados Unidos.

É uma situação muito perigosa a que vivemos hoje. Esses segmentos, principalmente as indústrias cinematográfica e fonográfica, para manter um controle sobre a criatividade e sua lucratividade obtida no mundo industrial, querem conter o avanço tecnológico e subordinar todos os outros direitos das pessoas, de privacidade, liberdade de expressão, navegação, ao direito deles de serem proprietários de um bem ou mercadoria cultural. É um momento delicado, mas não inesperado. Sabemos já há algum tempo que as principais batalhas econômicas do século XXI certamente serão em torno da propriedade intelectual, não tenha dúvida.

Argumenta-se que pessoas que usam sites de compartilhamento somente para baixar músicas ou livros ou filmes e acabam por prejudicar os autores dessas obras. O que fazer para garantir os direitos deles e os lucros sobre os seus produtos? O site Megaupload lucrava e muito com assinaturas, estava longe de ser uma atividade filantrópica.

É verdade, não era uma rede peer do peer. Mas sabemos claramente que, nestas redes, a maioria das pessoas compartilha vídeos, filmes, textos, sem ganhar praticamente nada. Compartilham porque essa ideia de trocar bens culturais é antiquíssima. Antes de existir rede, por isso é tão difícil impedir que isso continue.

É uma ideia que existe mesmo antes da escrita.

Claro. Não fazia qualquer sentido no século XVIII alguém ser dono de uma música. Historicamente, essa questão não se colocava. Porque a música não tinha uma tecnologia que permitia a sua apropriação privada. Então, é a tecnologia de gravação que vai viabilizar um tipo de apropriação privada daquilo que sempre foi uma criação baseada na cultura coletiva. Existe a gravação, o suporte e a venda desse suporte. E a indústria cultural se organiza fundamentalmente em cima disso. Mas a tecnologia mudou. O digital liberou o texto do papel; a música do vinil; a imagem da película. E colocou sons, textos e imagens em uma única metalinguagem, que é a metalinguagem musical.

Essa mudança tecnológica vem reforçar as ações de compartilhamento que sempre foram comuns. No Brasil mesmo, que não tem banda larga estável de qualidade, que ainda tem exclusão digital profunda. Nesse país aqui, 44% dos brasileiros, compartilham músicas. Não me venham dizer que temos mais de 40 milhões de criminosos! O que as pessoas fazem é usar o potencial da tecnologia de compartilhamento. Assim como na época em que se comprava vinil, vazavam duas ou três músicas para a minha fita cassete, e eu emprestava ela para minha prima ou um amigo, e todos emprestavam para todo mundo. Ninguém chamava isso de pirataria. Os EUA, motivados pela indústria do copyright está transformando o compartilhamento em crime, na nova droga do século XXI, que vai gerar uma nova guerra.

Qual será o resultado dessa guerra?

Eles vão perder. De uma maneira mais vergonhosa do que perderam a guerra das drogas. Claro, na guerra das drogas estão envolvidas questões religiosas, preconceitos, é mais complicado. Mas é claro que a política de criminalização delas fracassou também. Há muito tempo. Isso não é sou eu que estou dizendo isso. Milton Friedman nos anos 1960 já dizia economicamente que aquela postura era um equívoco.

No caso da comunicação em rede, há outro problema. A indústria de copyright está se transformando em traficante do copyright. Está agindo de maneira truculenta. O que eles querem impedir agora é a relação direta entre o artista e o seu fã diretamente na rede. Os grandes sucesso da música sertaneja no Brasil já não se incomodam com o que essa indústria chama de pirataria. Porque eles ficam mais famosos e ganham mais dinheiro quando se copiam suas músicas.

Como instrumento de divulgação.

Sim, como o caso típico do (grupo musical) Teatro Mágico no Brasil. Estão famosos, lotam shows no norte no Brasil. E demoraram pra voltar a tocar na rádio. Porque? O que leva a música deles é a cópia. E há livros que estão disponíveis na internet que vendem no papel. As pessoas ainda querem ter livros, querem ter vínculos com o papel. O que acontece é que estão divulgando cada vez mais esse livro. Paulo Coelho [escritor que vendeu mais de 100 milhões de livros] fez ele mesmo um site para copiarem seus livros na rede. Porque ele sabe que quanto mais baixam um livro dele, mais ele fica em evidência.

O que o sr. acha da proposta de Jean-Luc Mélenchon, candidato à Presidência da França pelo Frente de Esquerda, que defendeu a criação de um site público de compartilhamento, onde todos os autores pudessem colocar suas obras gratuitamente, sem exceção – sem serem pagos por isso, teriam seus trabalhos divulgados em condições iguais.

Me parece uma iniciativa interessante que tem que levar em conta os modelos das redes. Pode dar certo, talvez não. Pode não ter um único modelo. Aliás, certamente não haverá um único modelo de produção, distribuição e remuneração da cultura. Mas acho válidas todas as tentativas, como essa, que não sejam obscuras. Agora, querer impor a todo mundo um único modelo não funcionará.

Os projetos de lei SOPA e PIPA sofreram mesmo um recuo – com o Senado adiando a votação e seus defensores no Congresso norte-americano pedindo para rever as posições? Ou elas podem ser modificadas alterando apenas detalhes da redação da lei e voltarem com mais força?

Os congressistas perceberam que não era o momento certo de votação e me parece que optaram por um acordo. Daí que veio a ideia das prisões, como a do fundador do Megaupload, e de fechar sites. Um acordo que envolveu o próprio governo de Barack Obama. Porque se essas leis passassem no Congresso, caberia a ele o poder de sancionar e vetar. E, nesse momento, ele não tem uma condição política tranquila para decidir. E, sim, é bem possível que elas (SOPA e PIPA) voltem modificadas, disfarçadamente mais brandas.

Publicado originalmente no Diário da Liberdade

por Ricardo Bánffy — última modificação Nov 19, 2008 07:29 PM
— registrado em: gpl, gnu, windows, modelos economicos, economia, linux, liberdade, software livre, código

Perguntas mal-intencionadas e suas respostas

Outro dia, em uma palestra na Assembléia Legislativa sobre o uso de software livre na administração pública, eu ouvi, pela ducentésima vez, alguém perguntar de onde, afinal, vem o dinheiro para custear o desenvolvimento de tantos programas. Não fiquei surpreso por ouvir a pergunta. Mas fiquei muito surpreso que as primeiras respostas não dessem conta de alguns fatos importantes. Me senti compelido a pedir o microfone à mesa e colocar, eu mesmo, por terra os temores do meu colega.

Esta é uma das perguntas clássicas que pessoas inocentes ou mal-intencionadas adoram fazer. Eu prefiro acreditar que este rapaz (devia ter mais ou menos a minha idade, logo, vou chamá-lo de rapaz) era do primeiro grupo, embora ele estivesse cercado de pessoas que faziam, evidentemente, parte do segundo.

Uma noção errada que muita gente ainda tem é de que software livre é feito nas horas vagas de profissionais que, depois de voltar pra casa do trabalho, fazer jantar, levar o cachorro passear e colocar os filhos para dormir, ainda encontra tempo para escrever software.

Bom… Não quero desmerecer estes heróis, mas eles não estão sozinhos.

Muita gente escreve software livre das 9 às 6. Alguns, inclusive, usam gravata.

Mas que coisa feia… Essas pessoas, sendo pagas por seus empregadores, ficam brincando de fazer software que depois vão dar pros outros?

Não é bem isso.

Para responder esta pergunta, eu vou citar alguns exemplos.

O Produto que Quase Servia

Algum tempo atrás, trabalhando na empresa de um amigo, havia um cliente que tinha a necessidade de autenticar os usuários da sua intranet contra um domínio em um servidor Windows NT. É uma necessidade comum. O cliente, um banco internacional, tinha optado por construir sua intranet com um servidor de aplicações chamado Zope (do qual eu gosto bastante, como evidencia o “powered by” que permeia meu site). Localizamos um componente para o Zope que permitiria fazer exatamente isto (e mais um monte de outros truques que não vêm ao caso agora). Mas havia um problema: No primeiro teste na rede do banco, o componente não funcionou. Examinando o código-fonte dele, descobrimos que ele não funcionaria por motivos relacionados à arquitetura da própria rede do banco (e que não seria, de forma alguma, modificada). Conversamos e decidimos que o caminho mais fácil seria arrumá-lo. Algumas horas depois, conversando com o “dono” do projeto via IRC (ele vive na Austrália), dois de nós se tornaram colaboradores “oficiais” (nossos nomes estão na página do produto). Poucos dias depois, não só o problema da autenticação estava resolvido, como o produto tinha tido melhoras muito expressivas em seu desempenho com a implementação de várias otimizações. E nós nem mesmo precisamos desvendar os becos escuros do Windows por onde é feita a autenticação.

Resumindo: Melhorar um produto de terceiros tornou possível entregar, rapidamente, uma solução que atendia as necessidades do cliente. Como um efeito colateral, outras empresas que criam soluções baseadas em Zope têm uma opção melhor para integrar suas aplicações às redes Windows dos seus clientes. Se ninguém tivesse precisado da funcionalidade, ela não teria sido implementada ou permaneceria minimamente funcional, exatamente como a encontramos. A necessidade, e não as forças do mercado, guiam a evolução do software livre.

Os outros exemplos não são em primeira mão, mas ilustram outras formas de se usar software livre.

Tenho Caixas pra Vender

Lá por 2000, a IBM tomou conhecimento de três coisas. Primeiro: ela não tinha uma solução UNIX muito boa em termos de preço/performance. Isso estava fazendo com que seus concorrentes, entre eles a Sun, levassem seus clientes embora. Segundo: Eles tinham servidores baratos, poderosos, baseados em hardware Intel, que poderiam reverter isso, se, ao menos, a IBM tivesse um sistema operacional UNIX-like para colocar neles. Terceiro: Eles dependiam da Microsoft para fornecer o único sistema operacional disponível para toda a linha de servidores Intel. Isto é, eles dependiam da mesma empresa que era parceira no desenvolvimento do OS/2 e que lançou um produto, o Windows 3, para concorrer justamente com o OS/2. Que Deus o tenha.

Nas palavras da IBM (eu uma vez conversei com um VIP responsável pelos esforços de Linux da IBM – ainda estou procurando o cartão dele), em 2000, o Linux não estava bom o bastante para aplicações críticas. Foi quando eles decidiram que, em vez de portar novamente o AIX para Intel (existiu uma versão dele que rodava nos PS/2 mais parrudos), eles investiriam recursos para tornar o Linux “enterprise-ready”. Trocando em miúdos, a IBM achou que o mercado de sistemas operacionais proprietários para PCs estava morto (a Microsoft consome todos os recursos desse “ecossistema”) e que não valeria a pena investir num AIX/x86 quando, por menos dinheiro, eles poderiam ajudar a deixar o Linux capaz de atender às demandas dos clientes.

Brigas judiciais à parte (a SCO, ex-Caldera, acha que a IBM roubou código e usou “métodos proprietários” dela para colocar no Linux), a IBM fez várias contribuições de código para o kernel e drivers do Linux em áreas importantes como escrita em discos e suporte a multi-processamento com acesso não-uniforme à memória (que tinha sido desenvolvido por uma empresa que a IBM comprou, a Sequent, especializada em computadores com dúzias de processadores). Também fez e bancou vários estudos sobre como o uso de servidores Intel rodando Linux é economicamente vantajoso em relação ao emprego de máquinas RISC rodando versões proprietárias de UNIX (inclusive os pSeries da própria IBM). Debaixo da mesma bandeira, favoreceu o desenvolvimento de versões do Linux para seus mainframes.

Resumindo: Ao investir (junto com outras empresas) no desenvolvimento do Linux, a IBM conseguiu várias vitórias importantes. Ela agora tem uma linha de servidores Linux de baixo custo competindo com enormes vantagens com soluções RISC dos seus concorrentes e mesmo com servidores baseados em Windows. A IBM é o único produtor de mainframes reportando crescimento das vendas no segmento, com empresas consolidando dezenas de servidores menores em um único equipamento. Como um efeito colateral disso, o kernel do Linux deu um salto impressionante de qualidade. Onde, anos atrás, eu teria que instalar um Windows, eu hoje posso usar um sistema operacional moderno e modular, que usa um kernel firme como uma rocha (minha máquina de desenvolvimento detém o meu recorde doméstico de 61 dias sem um boot – quebrado não por um crash, mas por uma falta de energia), com discos que não perdem dados quando a energia falha (graças ao journal), com excelente suporte a máquinas com mais de um processador (que, infelizmente, não é meu caso) e que não serve como meio de cultura para pragas digitais como o Blaster ou Slammer. E ela ainda encontra tempo para registrar pelo menos umas 30 tentativas de contágio por worms a cada dia.

Uma Caixa Nova

Na mesma linha de raciocínio, Intel e HP perceberam que lançar o processador Itanium no mercado sem um suporte expressivo de software aplicativo seria suicídio. Em vez de pedir gentilmente à Microsoft (na verdade, eles gastaram bastante dinheiro mandando programadores deles para ficarem dentro da Microsoft ajudando no trabalho) que portasse o Windows para o Itanium (lição de história: a falta de aplicativos e de suporte do Windows foi o último prego no caixão dos processadores MIPS, PowerPC (em PC-likes) e Alpha) e rezar para que ele estivesse pronto ao mesmo tempo em que o processador fosse lançado, a HP decidiu apostar em mais 2 cavalos extras. Um deles, o port do HP/UX (o UNIX proprietário da HP) para o Itanium e, em outra, no port do Linux para o processador. Com um processador de 64 bits no mercado há algum tempo, a HP hoje pode vender suas soluções com uma escolha maior de sistemas operacionais em vários mercados que não estariam acessíveis não fosse essa decisão. Hoje a HP vende os equipamentos HP/UX sobre Itanium aos seus clientes HP/UX tradicionais, vende máquinas Itanium rodando Windows para seus clientes Windows e vende máquinas Itanium rodando Linux para os clientes que preferem Linux. E, claro, vendem máquinas Intel também.

Debaixo do Chão

Outro caso bem interessante é o do Metrô de São Paulo. O Metrô já tinha trocado um sistema de e-mail corporativo baseado em mainframe por um construído com software livre quando decidiu economizar dinheiro usando StarOffice (naquela época a Sun não cobrava por ele) em vez do Microsoft Office. Eles tinham dois problemas: O primeiro deles era que não existia documentação, material didático ou tutoriais em português para o produto. Para resolver isto, o Metrô contratou uma empresa para ajudar na preparação da documentação e dos treinamentos. O segundo problema era o do idioma: Existia uma versão do StarOffice/OpenOffice em português, mas era o português de Portugal. A solução, no entanto, não veio do Metrô. Um engenheiro químico de Rondonópolis, Cláudio Ferreira Filho, decidiu coordenar a tradução do OpenOffice, que acabou, inclusive, sendo concluida antes que a Sun conseguisse lançar o StarOffice 6 em português. No final das contas, mesmo investindo dinheiro para modificar e complementar uma oferta existente, a economia feita em licenças não compradas de MS Office mais do que cobriu os investimentos no produto livre. Pode não ser muito vantajoso se você tem um escritório com 5 pessoas, mas para eles, com mais de 1000 desktops por toda a companhia, a decisão foi acertadíssima.

E o resto, de onde vem tudo isso?

Você pode imaginar que, sem uma estrutura de investimentos pesada, nenhum produto de software tem condições de se desenvolver. Todos os exemplos que eu citei envolvem empresas enormes.

Nós vimos o passo de lesma com que o software tem evoluido nos últimos 30 anos. Janelas, mouse, display bit-mapped e letras pretas em fundo branco foram transformados na GUI moderna que ainda nos serve, no centro de pesquisas de Palo Alto, da Xerox, no meio da década de 70. Hoje eu tenho mais cores e mais botões no mouse. E não muito mais do que isso. Meu micro desktop continua travando de vez em quando. Em semanas eu devo reformatar a máquina e deixá-la limpa outra vez – com seis meses na minha mão, qualquer Windows precisa ser reinstalado do zero.

O que o software livre tem que o software proprietário não tem e que pode resolver isso?

Na verdade é o contrário. O software livre não tem uma coisa.

Duplicação de esforços

Quando uma empresa de software proprietário desenvolve, digamos, um editor de textos, ela guarda segredo sobre tudo o que descobriu no processo. Seja um algoritmo novo, seja uma forma de otimizar código, seja uma modificação feita no sistema operacional para que o programa se inicie mais rápido, ou uma que faça seus concorrentes rodarem mais devagar. Essas coisas são as jóias da coroa de uma empresa de software tradicional. São guardadas a sete chaves.

Quando uma segunda empresa quiser escrever, digamos, um editor de textos, vai ter que redescobrir algoritmos de hifenação, formatação, projetar estruturas de dados que comportem as informações necessárias e vai, com toda possibilidade, repetir vários erros pelos quais a primeira empresa já passou. Eventualmente chegará em uma forma totalmente diferente e secreta de armazenar os textos no disco. E talvez tenha que inventar um jeito de ler os textos que o primeiro programa salvou. Terão que investir tempo em conviver com o inimigo.

O mesmo para a terceira, a quarta e todas as outras. Nenhuma avisará as que a seguem de onde estão os buracos. Algumas nem sairão deles.

O desenvolvimento de software livre é eficiente exatamente por isso. Ele não precisa ser mais eficiente do que os processos internos das empresas de software proprietário, porque o mercado que elas geram, como um todo, é grotescamente ineficiente, um festival de rodas re-inventadas. Eu não repito seus erros. Os outros não precisam repetir os meus. Eu não preciso reinventar a roda – posso escolher uma de várias. Posso precisar pegar essa roda e acrescentar algo a ela. E todos nós teremos um novo tipo de roda. Se eu faço algo estúpido, você vem e me corrige. Eu aprendo. E depois posso ensinar alguém. Todos ganhamos.

Software livre é imune a outros vícios também.

Não há pressão por datas: eu não preciso liberar uma versão do meu capturador de tiras do Dilbert todo ano. A versão atual tem um ano desde sua última modificação e ainda funciona perfeitamente. Enquanto eu não precisar que ela faça nada de diferente, ela fica como está. Não vamos desperdiçar recursos com isso.

Há uma enorme pressão para se fazer as coisas direito: Como todo o código é aberto, se você escrever código porco, alguém vai chamá-lo de porco. Em público. Decisões estruturais costumam ser debatidas e validadas pela comunidade de desenvolvedores e usuários. Em último caso, se alguém acreditar mesmo que aquele não é o caminho certo, pode “fazer um fork”, isto é, pegar o código e tudo o que foi desenvolvido até aquele ponto e começar um novo projeto que seguirá, a partir dali, caminhos independentes do primeiro.

Não há a pressão por recursos desnecessários: Todos os sinos e apitos estão lá porque alguém precisava deles (ou, no mínimo, queria muito e conseguiu convencer bastante gente). Não porque alguém achava que eles iriam ajudar a vender este produto ou, muito pior, fazer com que você precisasse de outro produto.

Mas afinal, quem paga?

A resposta é simples e, para muitos, chocante:

Software livre não é de graça.

Vou repetir:

Software livre não é de graça.

Eu pago (em meu tempo, quando faço eu mesmo, em dinheiro, quando alguém faz por mim), quando corrijo um erro na documentação, quando extendo alguma funcionalidade ou quando porto alguma coisa para uma plataforma nova. Pago em divulgação, quando peço para um aluno usar o Eclipse em vez do Borland J-Builder que ele comprou no camelô da porta da faculdade, ou ainda quando escrevo estes artigos. Você paga do mesmo jeito. Ou paga escrevendo um manual, ou preenchendo um bug-report, ou arrumando uma página para que usuários do Konqueror ou Mozilla consigam vê-la. Montes de graduandos de Ciência da Computação pagam, expandindo e criando software livre. Meus clientes pagam quando me contratam para construir alguma coisa usando software livre. No final das contas, continuamos pagando pelo software.

Isso é imprtante: Quando você paga, você paga pelo software. Você vira dono dele. Em vez de pagar caro (ou não) apenas pelo direito de usar uma cópia de uma coisa que continua pertencendo a outra pessoa. E ai de você se esquecer que aquilo nunca foi seu.

Pela primeira vez na história, o software é seu, de verdade. Você pode levar pra casa tudo, mas tudo mesmo, o que comprou.

Este artigo também está disponível aqui.

Adendo Interessante

Tive a curiosidade de olhar o ChangeLog (um arquivo que “narra” as alterações aplicadas a um determinado produto) do kernel 2.6.10-rc3 (a próxima versão do kernel Linux 2.6) e achei uns números interessantes quando contei os e-mails de quem contribuiu com essa última versão (feito possível em um tempo razoável graças aos utilitários grep e wc desenvolvidos pela Free Software Foundation como parte do pacote GNU): Olhando a história que o changelog conta, vemos que a IBM tem pelo menos 10 pessoas que colaboram com o desenvolvimento, que a Suse/Novell e a HP (que não desistiu do Itanic) têm 9 pessoas cada uma, que a Silicon Graphics (que faz alguns dos computadores mais poderosos do mundo) tem 4 pessoas que fizeram algo nessa última versão e que a Toshiba, que faz uns notebooks que funcionam muito bem com Linux, tem pelo menos uma pessoa lá ralando pra isso. Junto destes, incontáveis voluntários e funcionários de outras empresas que eu não tive curiosidade de olhar. Isso mostra que, mesmo em uma pequena amostra da atividade (esse changelog apenas cobre um point-release de um único produto, o kernel Linux – que é apenas o miolo do sistema operacional) vemos a marca de empresas interessadas em fazer com que o Linux continue sendo uma excelente alternativa aos sistemas operacionais proprietários do mercado.

© Ricardo Bánffy